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101ª Leva - 04/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Catarina Santiago

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Catedral

O meu tórax é a catacumba
onde se empilham os esqueletos
de todos os males e monstros.
Quando praguejam em tosse seca
a tua mão,
catedral universal da pequenância,
absolve-os com pancadinhas côncavas
transforma-os em passarinhos e voam.
Ofereço-te o espelho que me resta
– bebe-o.

 

 

***

 

Escultura fantasma

A pele ventilada adquire malhas
as mucosas arenecem
de tão estrábica
a consciência deixará de questionar
quando perderás a paciência
e começarás a gritar-me rente ao tímpano
aspergindo-me o perfil esfíngico
………………….. …..o sorriso bovino

dormirás com um cadáver
porque terei um sono de olhos vítreos
serei incontinente e esfregar-me-ás fezes na cara.

Por isso mudo-me já para
uma morada isolada
numa encosta escarpada
numa ínsua porque-não-atlântica
rodeada de galinhas e carpas
azedas e acelgas
atabúas e maçãs bravas
salinas e beterrabas
enquanto sou um freddy krueger
mínimo e híbrido que aprecia
fermentações e aves canoras.

 

 

***

 

 

Arca

Pedes licença
trancas-te no lavabo
tocas-te e é o dilúvio nas instalações sanitárias
– ossos do ofício inegociáveis –
sais com girinos e moreias numa enxurrada
chamas a tua meia-cara
“escancara-te, temos de ir de viagem”.

O que tens para oferecer são
intuições penduradas da pestana da alma
onde conseguirás reservar florestas várias
culturas esquecidas da grande ásia
novas estirpes do vírus da malária
enxertos para preservar vinhas roxas hereditárias.
Esgotadas, fechar-se-á a pálpebra.

 

 

***

 

 

Plutão

A oriente
lambia o sol
da manhã aliviava
o rubor da queimadura
com um gole de água fria
e um fio de azeite na língua.
Perseguia-o o resto do dia
até tombar na distracção
do mar
sem vertigem
sem veneração.
Sonambulismo
e nada mais.

***

 

 

Baço

O sofrimento afunila-te.
E depois mergulhas na lagoa ou
……………………..;…as mãos em cabelos amantes.
E depois escalas a montanha.
E depois rumas ao Oriente.
E depois tens uma criança.
Curas o corpo como quem
atravessa uma ponte.

O absoluto de ontem agora perspectiva.
Tu descansas.

 

Catarina Santiago Costa nasceu em Lisboa, em 1975. Frequentou o curso de Comunicação Social na Universidade da Beira Interior (Covilhã) e licenciou-se em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa (Lisboa). Desde 2005  publica os seus poemas num blogue pessoal. O site português Enfermaria 6 (e sua respectiva revista Caderno) divulgou alguns dos seus poemas.O seu primeiro livro será publicado este ano, pela editora portuguesa Douda Correria. Dele farão parte os dois últimos poemas desta seleção.

 

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101ª Leva - 04/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Vicente Franz Cecim

 

POEMAS CIRCULARES

 

Vicente Franz Cecim
Imagem: Vicente Franz Cecim

 

Noite de nutrições profundas

 

Para nutrir o Lodo,
tu não escreves      Tu

és o Livro

que se lança em todas as direções nas Regiões Escuras: Agora
oO Círculo
cintilante

que te envolve
E nos limites      da Esfera,
se te voltas para te ver Fonte
que se jorra,
vê:

o Outro,

Água que no Centro da Esfera ainda Lá és tu de novo, murmurando:
Tu
és o Livro,

que se lança: Chama

 

 

***

 

 

Celebração das fontes fatigadas

 
há Desesperos circulares, Tu sabes desesperos
como o do animal no Escuro escuro
Girando
contido no Centro que seu giro gera
E a cada giro, Pura
emissão de intensidade busca as margens para Além das margens

E a cada giro, o Não
Escrita de grades: a palavra Dor não é a palavra Sim
Mais um giro, e eis: a Queda
Luz fenecendo
o Centro que des
morona, des
falece em centro Oo
E se esmorece
o Desespero, e se
se apaga: Se sob a pele Negra olhos se ocultam,
na harpa de grades a pausa é breve e não há Música

pois foi escrito no Bosque Sem Ternuras, em nossa Face: Que os olhos que uma vez se
fechem outra vez se abram,

e eles se abrem,
Cílio sem paz se

acende o Desespero
e Testemunha: as Grades permanecem Lá

E se adormece para os Sonos dos Alívios? Sem
remédio Sem
remédio,

porque sonha Grades

ah, tudo oculta em sonhos a Catedral de cinzas
as Margens

o Círculo
e a chave perdida

Animal escuro,
te tornaste o próprio Centro escuro
Tece teus cílios de Hera sagrada
Cintila
nas noites Sonha
com a Alvura

Não sabes que Outro centroO
te Ilumina,

mais Escuro?
há Desesperos circulares, Tu sabes

 

 

***

 

 

Asa dos olhos

 
Quando um Lago
for lançado num Círculo

fora do tempo

por mãos vazias antes do gesto

Quem

estará na Margem
para receber, sem mãos,

as Doações do Centro adormecido

que Se amplia

despertado

em gratidões gratidões gratidões

em Cinzas Cinzas Cinzas

 

Vicente Franz Cecim é autor de Viagem a Andara oO livro invisível – Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista da Críticos de Arte/Apca, 1988. Edita seus livros no Brasil e em Portugal. Nasceu e vive na Amazônia, Brasil, Belém do Pará.

 

 

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100ª Leva - 03/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Demetrios Galvão

 

Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

palavra-mágica

 

quando os pés adoecem
e esquecem os caminhos
o corpo precisa inventar voos.

os peixes nadam na profundidade da costela direita
na obscuridade do entre-ossos
migrando para o aconchego do litoral carnudo.

……..(a língua quando bem plantada
……..atinge veios profundos
……..manancial voluptuoso de fabulações)

busco então, a sobrenatural beleza:
as ancas africanas, a envergadura monárquica,
a anatomia incendiária.

me visto de asas e de lâmpadas
e vou ao teu encontro
com uma palavra-mágica adornando os olhos.

 

 

 

***

 

 

 

pescaria noturna

 

olho tua pele como uma estamparia do infinito.
Floriano Martins

 

 

embarca tua forma épica
……..– delgadas linhas-curvas de alumbramento.

……..era de gozo que teu olho escorria
……..o perfume do primeiro encontro aniversariando
……..eram as terras novas: anônimas: sendo conquistadas.

……..nossa pescaria na madrugada
……..e o alimento festivo armazenado por anos na memória.
……..o tecido-de-peixes nos fez cardume na fileira dos meses,
……..nos fez náufragos de carnes unidas.

infante, tu me aprisionou no baralho como carta-salva-vidas.
tuas armas são atalhos úmidos
teu vocabulário: indomável:
…………………..revolta de mar solto.

o que se escreve do teu corpo não tem nome:
…………………………..esôfago de veludo
…………………………..onde me dissipo por tuas cavernas-entranhas.

……..se usasse brincos eles seriam satélites
……..rodopiando em volta de tua existência celeste.

teu peito-abajur vibra uma luz rara:
……………………cor de céu medular.
teu riso é vitral bizantino flamejante
……………………na arquitetura dos gestos translúcidos.

………………– ainda te guardo nos dedos daquele dia –

 

 

 

***

 

 

 

o silêncio, o barulho

ao som de philip long

 

para assis, lara e hilda

 

o silêncio do sono é trabalho de imagens profundas.
o barulho das ruas são palavras praticando o alfabeto.

o silêncio da menina lara é uma ideia danada sendo gestada.
a cor do sol faz um barulho que arde na pele.

quando o violão toca, estremece o silêncio que vive dentro do peito.
o barulho é bom quando feito com amor.

o silêncio das fotografias traz um passado que, às vezes, amansa a alma.
o ronronado da hilda é um barulhinho que traz felicidades.

o silêncio de um olhar perdido ecoa na orelha do espectador.
o barulho é gostoso quando estala no rosto.

o silêncio do escuro é um segredo em absoluto.
o barulho do alfaiate é roupa nova no armário.

o barulho do menino assis é
o silêncio que vazou da barriga da mãe.

 

 

***

 

 

 

esticar o mundo

 

para marcelino freire

 

ainda é possível esticar o mundo com a palavra poética

se aliando ao balé das arraias
aos porteiros que abrem os caminhos do mundo
às armas de misericórdia dos infames
aos livreiros da diáspora
às mercearias que sediam confrarias fugazes
aos tuaregues mensageiros dos ventos-suburbanos
aos engenhos e cachaças mágicas
aos taxistas sobrenaturais que detêm a arte dos atalhos
ao cinema do oriente abandonado
às musas que habitam os labirintos da memória
aos andaimes dos cemitérios da carne
aos carteiros que espalham pontes silenciosas
às chuvas que inventam estradas aquáticas
aos jardineiros que curam e fazem partos nos canteiros
aos gatos que amaciam os recantos da cidade
aos pintores alados que enfeitam os muros
aos bem-te-vis arquitetos do assovio
às crianças que dominam gramáticas horizontais

é possível esticar o mundo.

 

 

***

 

 

 

para uma criatura encantada vol. 5

 

hoje o carteiro entregou infâncias na casa do poeta.

 

era cedinho quando inaugurou existência cremosa
fez apostas e arremessou expectativas
gastou verbo edificando mansidão
……..– seu perfume é como o som perdido que enche a casa.

é de uma timidez imperial
carrega um mapa de 2 pintores – encontro difícil de avaliar
sabe um pouco sobre receitas, vive pela cozinha entre temperos
……..– seu mundo é vocabulário em aprendizagem.

não manipula números, mas inventa sorrisos particulares
desde muito cedo aprendeu a domesticar cactos
provinciano é seu esconderijo infantil: o casulo mimético
……..– seu rosto é lua-cheia-de-poesia.

não tem tias ou avós, pertence a uma família incomum
do pai, herdou os sons graves e, da mãe, o gosto pelo efêmero:
são gestos refinados e aconchegantes
……..– sua herança é um limiar tênue na percepção.

é sempre mais afável pela manhã
momento em que enterra segredos em cofres vigiados por bromélias
e ensaia uma virgindade aristocrática sem tradução
……..– sua beleza é violência estalando pelas praças luminosas.
em seu canto arrebata o sentimento das palavras e lança:
………………………………….a felicidade é uma invenção macia.

 

 

 

***

 

 

para uma criatura encantada vol. 7

 

não viveu na companhia de uma única pessoa
tinha uma movimentação instável.
seus meridianos quase sempre desalinhados
não favoreciam um mapa astral seguro, solar.

de personalidade selvagem, demonstrava uma simpatia sussurrada
frequentou uma escola nômade-heterodoxa
colecionava sermões do sub-mundo e liturgias marginais
quase nunca tinha bagagem e nem falava de sua família.

só teve lares de fantasia e uma casa que existia em sonho,
que lhe visitava com frequência, aquecendo sua esperança.
exibia um olhar ansioso e uma tristeza erosiva
se gabava das cicatrizes eloquentes.

em conversas, pronunciava sons graves, dissonantes.
nem sempre tinha razão
sabia quase nada de poesia, era displicente com as palavras
não se interessava pelas intimidades desbotadas dos outros
vivia a ambiguidade de um passado caótico e de um presente incerto.

foi a festas que tocavam david bowie, lou reed e se embriagou
sua gentileza insólita era uma marca latente
carregava um fogo indolente como amuleto protetor
nunca foi a um médico. tratava suas dores com solidão-analgésico.
antes de desaparecer, comentou que a saudade é
………………………………….privilégio dos que amam.

 

Demetrios Galvão é habitante da província de Teresina (PI), historiador e poeta. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011) e Bifurcações (2014). Participou do coletivo poético Academia Onírica e foi um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011-2012). Tem poemas publicados em diversos portais e revistas. Atualmente é um dos editores da revista Acrobata.

 

 

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100ª Leva - 03/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

F. S. Hill

 

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

 

Às vezes,
quando os cotovelos apontam em direcções
opostas,
impelidos pela força de um espreguiçar,
gostava que as minhas costelas se abrissem
e a carne se rasgasse
e eu, feito petroleiro,
a derramar-me pelo ar.

 

 

 

***

 

 

 
poema em forma simples como um quadrado
poema em forma simples como um triângulo
poema em forma simples como
a dor que trago no sapato
que é novo
não de hoje
tem semanas
mas andou pouco
andar é simples
quando não se tem um pé quadrado
ou um sapato em forma de triângulo.

 

 

 

***

 

 

 

todos os silêncios caminham para
o abismo sentimental e eu que sou
morte permaneço apenas
pesado pelas ideias que constroem
de mim
em mim
a carne torna-se pedra
o tempo perda
crescem-me vazios nos olhos
e sombra no estômago
e eu que sou morte
duas vezes
não distingo as coisas das outras coisas
e as coisas do que não são
fico
quieto
seguro
da infinitude

 

 

 

***

 

 

 

Os dedos pousados sobre o dorso da loucura.
Memória do elefantário plantada à janela.
Mil vezes matei a criança que me urticava.
Cresci velho.
Segui o lado de dentro do caminho.
Desenhei cavernas em redor
e esfreguei o sexo para manter o fogo.
Ficcionei-me.
Deus abandonou-me.
Eu agradecido, fiz-me maior.

 

 

 

***

 

 

 
Hoje sonhei com a tua boca.
Sonhei que ela era uma casa,
onde víviamos nus e mudos.
As paredes cobertas de palavras
escritas por nós, com as unhas.
Todas as palavras de que precisaríamos
até ao fim da tarde.
Era uma casa húmida
como todas as casas onde a vida acontece.
Havia uma simplicidade branca no sentir.
Tu beijavas-me as mãos pousadas
no teu olhar.
Eu desenhava silêncios na tua pele.
E estremecíamos a cada brisa irregular.
Não pares, não agora.

 

FS Hill (Portugal) – Com formação superior em Teatro, decidiu, em 2011, dedicar-se à escrita poética, para tal abriu um laboratório poético online, através da rede social Facebook, onde a escrita e respectiva publicação do seu trabalho, numa perspectiva de experimentação, permitiram um diálogo direto com o público. No início de 2014, viu o seu primeiro e único livro – “Livro das Coisas Breves” – ser publicado pela editora MEDULA, de Coimbra. Tem publicado nas revistas Flanzine e Nicotina Zine e participa, em 2015, de dois livros coletivos: 70 poemas para Adorno e Mitoblina. Em 2014, foi um dos autores do POEMANIFESTO da editora Flan de Tal.

 

 

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100ª Leva - 03/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

José Carlos Sant Anna

 

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

 

Descabido no orvalho, penso diferente
do que sonho porque o inefável me acena
palavras que me fazem tão leve, por acaso
mais leve do que claro, sem que firam o ser
ou o corpo que contraio. Logo, não me aferro
ao sonho, ao amor da existência que me
fere a pele, que aguça a minha sede, aflige
o meu sono e me abandona às margens
dessa vida em que me diluo sem saber
se o que estava em mim me subjugava
ao nada ou é o excesso que se move como
um rio ou é uma febre que só a si mesma
se compara, movendo-se dentro de mim,
distendida, como se fosse um par de asas.

 

 

 

***

 

 

 

Qualquer dia que me cale fundo,
…….paciente,
seguirei o teu chamado

Será um mergulho por esplanadas
e um livre entender
…..das ondas de dentro
……..no curso de um rio que se pressente…

 

 

 
***

 

 

 
tudo o que ela queria
era um flash,
um instantâneo
nada, nada mais que isto,
ou talvez, quem sabe,
tudo isto.

epígrafes nas páginas ímpares,
escritas ao léu,
filmes
gibis
baralhos
tarôs
bricolagens
ou imagens bruscas do Aleph de Borges
ou um bouquet de Simone de Beauvoir
no café da manhã

e o coração bumerangue
não estaria nem aí
para a histeria de Freud com pane
no seu imaginário

ou para as linhas tortas do império romano
sem as agruras de César
e, mesmo assim, para um Balzac caricato
o que ela faria do seu diploma
de anjos radioativos,

se o levassem a um cruzeiro
em mar constelado
cheio de metáforas de incertezas?

o que seria da maquete
de frutas silvestres adornando o salão de arte?

o desvario do seu idioleto é
a estupefação da sua poesia

Ah! e como ela oscila nos lapsos
da reinvenção da palavra.

 

 

 
***

 

 

 
Meus olhos compassivos andam postos,
Em minucioso silêncio e vínculo perfeito,
Sobre um horizonte de estrelas tatuadas
Que alumbram o signo traçado do mundo
E soletram palavras para a mão da noite
Que repousa sobre o dorso de uma lua
Prata, pasmada em céu aberto, a revelar
Uma alegria imensa a correr por suas veias,
Como a urgência de um rio, venturoso,
Liberto do jugo incerto, sem temer
As ribanceiras. É nessa serenidade ante
Os ritos de passagem que a mão do Pai,
Substantiva chama oculta, ensina a este
Peregrino as razões do ser para essa busca.

 

 

 

***

 

 

 

Afastar-me é o remédio para livrar-me do convívio
com esse vírus ignominioso, de palavras ásperas,
insensatas, dizer não à caverna, ao deserto aberto
fechando a porta ao vento de areias premeditadas;
apagar os frágeis sinais da ponte, dos cipós, da lua
feroz erguida dentro de vós porque a tua doença
faz desmoronar tudo num instante, sem que a arte
aceite esse veneno em sua raiz; deixar que outro sol
cante em minhas entranhas como a sombra da tarde
pois, uma vez decepada a minha haste, o sangue
espesso jorra ao ouvir a sirene de uma engrenagem
muda. Morte e movimento se esbatem nessa margem;
minhas braçadas não aguentam o tamanho desse rio.
Quase morto, visto-me a rigor para a noite de luto.

 

José Carlos Sant Anna é professor aposentado da Universidade Federal da Bahia. Atualmente é o editor da  Quarteto. E já andou publicando os seus alfarrábios pela vida afora.

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100ª Leva - 03/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Adriano Scandolara

 

Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

Hesitação

 

O ralo do chuveiro entupiu

farto de engolir restos de nós
o que como tumor
sem ver se consumiu,
e menos que os restos o todo restou.

Uma teia no canto
formada reformada por uma aranha,
órgãos tecem e anseiam, enquanto
longe o macho ainda
inútil respira,

enquanto bêbada
………………….entre os
prédios uma
…………equilibrista
na corda bamba hesita.

 

 

 

***

 

 

 

Ode ao edifício Ricardo

 

para Roger Alberto Meluso, in memoriam

 

 

Eu, sozinho, no prédio todo
não ouvi os estertores:
ia ao banco, quando
………………………quase
tropeço no
cadáver.

Correndo desesperado o pobre diabo desceu os degraus
delirante perdendo
a calça a perna falsa toda
dignidade

o caco que restou na calçada deitou, a Deus
clamou que não morresse
e como chama em cachimbo de crack nos becos da noite

apagou.

E eu
quase tropeço no cadáver.

 

 

 

***

 

 

 

Camus nos infernos

Há muito que as mãos
são mordidas pelas bocas que alimentam.
Entre as sombras não há nome
nem rosto:
se cansadas, revezam-se
como tratadoras de Cérbero.
E fumam nos intervalos,
apagando bitucas nos asfódelos,
foi para o treino desses momentos
que afinal viveram.
Feridos, os dedos levam
o cigarro aos lábios
num fumacento suspiro,
sonho invejoso, ser Sísifo.

 

 

 

***

 

 

 

Ode à serpente

Baixo demais para a virtude,
………………………..rastejar
sobre vidro, palavras
de ordem
…………de ódio,
…………………rastejar
tragando borras do amor
como rato
……….serpente
que devora o rato,
rastejar
……….sem pranto
que uma a uma essas gotas salgadas fracassaram
em redimir as gotas amargas
o gosto
………de ferro na boca,
rastejar
…………..a espinha sustentando a verdade
quebrando no meio
o pescoço
………quebrando no meio
o rosto preso virado pra baixo
………………………………….rastejar
seria talvez canção
este resto de voz
………………….alhures,
sem suas plumas de corvo
………………………..estes versos
pobres e feios.

 

 

 

***

 

 

 

Um dia qualquer

 

A tormenta sobre o
centro cemitério
de guarda-chuvas
retorcidos nas sarjetas e lixeiras
e as poças
sempre mais que o previsto
profundas.

Uma sombrinha intacta
descartada
a desistência
essa coisa tão humana
inunda os bueiros.

 

Adriano Scandolara é poeta e tradutor, nascido em Curitiba em 1988. É graduado em Letras e mestre em Estudos Literários pela UFPR, onde atualmente desenvolve um doutorado sobre poesia e filosofia da linguagem. É um dos editores do blogue e Revista Escamandro. Seu livro de estreia, “Lira de Lixo”, foi publicado em 2013 (São Paulo: Editora Patuá). Seu segundo livro, PARSONA, de poesia conceitual, e sua tradução de Prometeu Desacorrentado, do romântico inglês Percy Bysshe Shelley (1792 – 1822), estão no prelo e deverão ser publicados este ano, respectivamente, pelas editoras Kotter e Autêntica.

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Janela Poética II

Wesley Peres

 

Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

o que as sereias O disseram. O disseram voz, O disseram peixavesávidas palavras líquidas estruturas, lâmina dáguaçólida, O disseram inscrições no corpo dele, palimpsestensionaram sua carne de açores e penínsulas, O disseram ruídos sutis habitantes da carne do cérebro e O disseram cérberos com plumas e outras figuras de linguagem infernais convexaconcavidades de formações violíneas de mulheres anjas bestiais d´avilas santas desejando travessia da própria carne por setas e cítaras dolorosas alegrias escorrendo pelas coxas adentro aforando as vísceras até dar de beber aos pássaros e a qualquer homem de nome ninguém

 

 

***

 

 

OS SONS ASSUSTADORES QUE OS PÁSSAROS CONSTRÓEM

 

Qualquer constelação que lhe ocorre num lapso, lembra-lhe as modulações do corpo, as pequenas rangeduras, nem escutadas, que inscrevem, na memória gelada do mundo, a mortificação tão viva dessa mulher, para quem olho, sabendo-a bela e jovem e que mesmo uma bela jovem é velha o suficiente para morrer. Ela olha para o mundo e sabe bem que só da coisa inerte a morte se ausenta, então, ela sorri e agradece a alguma divindade ausente (pleonasmo), o fato de a decomposição onipresente ser o mecanismo principal de todo e qualquer palimpsesto orgânico. Hoje pela manhã, quando ela me ligou, conversamos sobre futebol e origamis e obviedades do sr. Assange, sobre o vinho que não tomamos ontem e os olhos inexistentes do monstro do lago Ness e sobre os sons assustadores que os pássaros constróem cotidianamente no espaço entre a minha casa e a dela, o que, naturalmente, nos levou ao assunto “decomposição de todas as coisas vivas”. A ela, é bom que saibam, nunca lhe ocorre Deus, o que lhe diz respeito são as artérias das pedras, as rugas dos lagartos, a torção do tornozelo de Maria Sharapova (mulherzinha antipática, ela diz) e alguma chuva leve na tarde de Amsterdã ou de Araxá. Seus lapsos, nos quais lhe ocorrem constelações de todas as estirpes, sempre produzem, em mim, articulações sintáticas e sinápticas que desabam, líquidas, sobre o meu corpo, produzindo uma espécie de chuva que dissolve, parcial e momentaneamente, este nódulo duro — ser a coisa-homem.

 

 

***

 

 

Queira chamar esta taça de vinho de presença de Deus ou de o-nada, beba-a assim mesmo, acenda depois um cigarro ou um pássaro, caminhe por uma rua vazia ou pela constelação de letras que compõem o limiar de para-onde a mulher, na mesa ao lado, olha. Mais do que isso, se puder, deixe de lado essas coisas de Deus ou de o-nada, deixe que as palavras pensem, deixe-as em sua liberdade e seu aprisionamento que as unem e as abismam, as palavras. Fazendo isso, é possível que desista dessa história de salvação e, então, poderá beber esta taça de vinho, livrando o vinho (e a taça) de sua necrose-simbolismo-cristão, bebendo esse líquido de igual cor que os mares de Homero, sabendo, assim, que apenas ele lhe dará o gradativo sono, que imita a gradativa morte que experimentamos diariamente sem nos darmos conta disso.

 

Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance Casa Entre Vértebras, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: Palimpsestos (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, Rio Revoando (poemas) USP/COM-ARTE 2003; Água Anônima (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL. Em 2014, publicou As pequenas mortes (romance) pela Rocco. No prelo: O corpo de uma voz despedaçada (poesia, a sair pela Martelo Casa Editorial)

 

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99ª Leva - 02/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

sentimentos gravados

 
meu coração é de pedra
porque o que nele se escreve
não se apaga
………………ou, para tanto,
precisa de muita água
…………….muita água da rara
da fonte dos olhos
que mine, escorra e lave,
………lave,
…………….lave
até que gaste
………………..o escrito
e reste menos uma camada
………………….volte a ser liso
…………..como em meu primeiro dia
e possa ser reescrito
………………………..em pedra
com esperança de ser definitivo
pois a cada vez que é polido
meu coração fica menor
…………………..e
……….inscreve
….diminutas
..palavras

 

 
***

 

 
o mesmo

 
eu quis renascer.
deitei em posição de feto,
mas não adiantou.

já não caibo mais
no ventre

já não tenho mais
a permissão
da inocência

não consigo
sequer
prolongar o sono

estou cheio de dentes
e de fantasmas

 

 
***

 

 

chronos e kairós

 
a segunda estrofe
lê-se como se vive:
em um segundo

breque
capô
……para-brisa
………asfalto

a quarta estrofe
vive-se como se crê:
o tempo de Deus

Nenhum dos seres
está esquecido
diante de Deus.
E até os cabelos
das nossas cabeças
Estão todos contados.

 

 

***

 

 

matéria e antimatéria

 
eu sou assim
porque o mundo ingrato me cuspiu assim
seco, direto,
………….irônico quando preciso
sarcástico ou perscrutador

se foi a conjuntura cósmica
………..eu não sei
o fio de prata, o espírito,
a fumaça lânguida baforada

mas tenho a impressão
de ter trazido comigo
esses sentimentos extremados
essa angústia inafastável
e algumas coisas mais
………..que não compreendo

 

 
***

 

 

primeira impressão

 
as ditaduras se nutrem
da hegemonia

entre as mais cruéis
……..a da cultura

ervas daninhas
………………….trepadeiras
enramam
…………..sobre nossas cabeças

tirania maior:
…….a sombra
…….do conhecimento

aplicam:
quem pouco lê,
ao ler o primeiro livro que o impressiona,
toma-o como dogma

 

Geraldo Lavigne de Lemos é natural de Itabuna-Ba e radicado em Ilhéus-Ba, bacharel em Direito e escritor, membro da Academia de Letras de Ilhéus. Em 2011, publicou o livro “À Espera do Verão” (Mondrongo), inserido na série Diálogos. Os poemas aqui selecionados fazem parte dos seus novos livros, “Alguma Sinceridade” e “Amenidades”, ambos lançados pela Editora Mondrongo em 2014.

 

 

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99ª Leva - 02/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Márcia Barbieri

 

Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

O desencaixe do Sol

 

Há milênios a pedra descansava embaixo do seu nariz
sem desgaste, sem musgo, sem vinco,
uma memória esquecediça
Mas Estela estava ocupada demais
desacoplando seus membros
Desencaixava pacientemente peça por peça
Levantava e abaixava as pernas
Escutava atenta os ruídos da rótula
Escondia os olhos das luzes da tarde

Eu a observava da janela verde e seu corpo não passava
de uma carcaça adormecida pelo tempo
Ela repetia esse ritual todo domingo
O crânio era deixado em cima do ventre vazio
As bifurcações do cérebro eram confundidas
com os pensamentos
Ela continuava lindamente viva

Tentei alcançar sua mão, no entanto, eu era só um velho
Pelancas despencavam das minhas extremidades
E a carne de Estela não possuía nem riscos
nem linhas nem ranhuras
Sobre a cabeça de Estela repousavam nuvens,
Sobre a minha, pássaros moribundos de origami

Há milênios a pedra descansava embaixo do seu nariz,
Sem desgaste, sem musgo, sem vinco,
uma memória esquecediça
Estela sussurrava para seu crânio
Haverá um tempo em que a pedra será irmã do homem
E toda substância disputará um sol sobre a mesma pele

E eu gaguejo para Ninguém:
Não creio na onipotência da pedra
não creio em neutrinos
não creio em quarks
não creio no bóson de Higgs
não creio na nanomemória das coisas
E ainda assim a existência enferruja
igual a um parafuso espanado.

 

 

 

***

 

 

 

Não sou homem
sou uma matilha
dividindo-destroçando o mesmo fêmur

Não sou nem esse lobo
que crava os dentes no osso
nem esse osso perfurado
estou entre um e outro
sou essa membrana, essa baba branca, esse órgão acoplado,
essa partitura de mandíbulas desencaixadas
– caótica e ruidosa.

 

 

 

***

 

 

 

Escamas

Ressoa a pele verde e incrustada de mágoas – clave de sol –
um verme se espreme entre as circunvoluções do meu cérebro
Respiro aliviada porque meus pelos têm a cor dos cachorros magros
Respiro aliviada porque minha alma tem a candura das tardes longas de solstício
Respiro aliviada porque minha boca perdeu o fel de antigamente.

A língua salivante de lagarto passeia abstrata nas minhas gretas
Geme meu quadril curva desalinhada
Quero desentristecer
mas olho de soslaio as venezianas
e vejo-me encarando seu sorriso entre muralhas.

 

***

 

Manhãs em migalhas

Só por hoje
Rasgarei meu peito
E arrancarei flores de vidro,
pássaros de origami e velhas mágoas

Picaretas dançam entre minhas vértebras
E eu toco calma a flauta de MAIAKÓVSKI
Nunca acreditei que gangrenas devorariam meu corpo
Pedaços de sorrisos caem desconexos da minha boca
E eu que imaginei morrer um dia de cada vez – Morte Súbita.Sair

Caminho sobre os muros e observo pipas
Losangos e ilusões em perfeita sintonia
O sol explode amarelo em minha mente
E eu penso: deixa-me tocar os lírios – Só por hoje…

 

Márcia Barbieri é paulista, mestranda em Filosofia (Unifesp) e formada em Letras (Unesp). Publicou os livros de contos Anéis de Saturno, As mãos mirradas de Deus, e os romances Mosaico de rancores (no Brasil pela editora Terracota, e na Alemanha pela editora Clandestino Publikationen) e A Puta. Participou de várias antologias e tem textos publicados nas principais revistas literárias.

 

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99ª Leva - 02/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Marcelo Benini

 

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

 

Fazenda de cacos (o tempo)

Andemos perdidos por esses campos de flores
Onde a pele roça as pétalas no caminho estreito
O semeador de cacos fez um bom trabalho aqui
Nós, os desfigurados, corremos livres pelas plantações
Pisamos as pontas lavradas pela chuva
A mulher velha se abaixa para colher um souvenir
Em cada casa há um jarro com uma flor da fazenda
Belo mesmo é quando as gotas represam nas arestas
Onde o sol faz seu trabalho de secagem
E a plantação extensa ofusca os olhos
Miríades de pontas verdes, vermelhas, amarelas e azuis
Mar de coisas que já foram obra e adorno
Mas que na próspera fazenda agora semeadas
Aguardam a colheita diária dos cacos.

 

 

***

 

Fazenda de cacos (o trabalho)

Nas primeiras horas da manhã
Chegam para trabalhar os colhedores de cacos

Vão aos poucos silenciando

Enquanto trabalham
Permanecem com os olhos no chão

As rudes mãos escarafuncham a terra
Colhendo flores hialinas azuis, verdes e róseas

Sob o sol a pino se vê um mar de cacos
E alguns homens curvados com os olhos no chão.

 

 

 

***

 

Funcionária pública

Ninguém entendeu quando a moça da seção
Começou o concerto para piano número 3, de Prokofiev
No meio da tarde só ela ouvia clarinetes e violinos
Batia os dedos violentamente no teclado
Tremulando a melodia nos lábios
E jogando os cabelos no ar
As cortinas esvoaçavam na janela
Não houve pausa para o café
No dia seguinte os processos publicados no D.O.U.
Estavam todos em russo
E a moça digitava feliz uma carta de amor.

 

***

 

A caminho da luz

Arrancaram tua roupa de carne
E já não tinhas mais corpo

Eras apenas um olor de jasmim
Perambulando sem pressa

Foste visto no bar de sempre
Mas para espanto de todos
Pediste apenas que te deixassem em paz.

 

***

 

A vida dos obscuros

Os obscuros entram em casa pela fresta da porta
Instalam-se perto dos livros
E só saem às três da manhã
Os obscuros estão sempre atrás das portas entreabertas

Ao moverem-se pela casa
Sabemos que o fazem, pois ouvimos o ruído dos tacos
E muitas vezes sentimo-lhes a respiração
Sobre nossas costas

O tempo todo parecem observar-nos do escuro
Diverte-os que pensemos em coisas como
Vidas passadas

Os obscuros têm a respiração lenta e profunda
Adquirida em incontáveis noites nas bibliotecas públicas

Os obscuros podem ser vistos apenas durante o dia
Sentam-se normalmente na parte de trás dos ônibus.

 

***

 

Quadros em exposição

É sempre noite neste quarto
Onde se cometem crimes de adultério
Mas se da mesma insegura certeza somos feitos
Quem de nós fechará primeiro os punhos?
Se já sabíamos das paredes de caliça
E dos pesados retratos em exibição
Pranteemos não as ruínas
Pois como as tintas derramadas sobre o cômodo secreto
Os laivos também perdem força
Lamentemos apenas a exaustão.

 

Marcelo Benini nasceu em 1970 na cidade de Cataguases, Minas Gerais, e hoje vive em Brasília. Lançou seu primeiro livro em 2010: O Capim Sobre o Coleiro (poesia / edição do autor). Em 2012 lançou O Homem Interdito (crônica / editora Intermeios – SP). Foi publicado na Alemanha pela fundação Lettrétage, na antologia Wir sind bereit. Tem poemas e crônicas publicados em diversos sites de literatura do Brasil, América Latina, Portugal e Espanha. Em 2014 lançou Fazenda de Cacos (poesia / editora Intermeios–SP).