A noite desabou no cais,
engoliu as estrelas
e nuvens cintilavam fogo
contra as ondas.
Tento me ancorar,
viver a finitude dos dias,
erguer faróis incandescentes
e guiar embarcações.
A vida marinha recua
formando verbos
no céu da minha boca
e sigo navegando
sobre o mar
de lágrimas
negras
***
Cais
Na noite acidentada, traço rotas
na tumultuosa viagem
para cantar à cega paixão ………………………………….[ dos dias
entre naufrágios.
Diante do leme, verso notas
perdido no mar …………………….[ sem mapas
na busca pela face
do Orfeu Negro.
***
Naufrágios
Erguido no silêncio absoluto,
navegando a tempestade
da minha existência,
tenho medo.
Expatriado dos instantes,
contando os minutos,
sem destino
Abandono meu lastro,
e o tempo passa
sobre o escuro
do porto.
***
Dia de chuva
A chuva saliva
tua severidade azul
em paixões úmidas.
Enquanto os peixes
mergulham a face secreta
das palavras
para velejar
seu riso ameno.
***
Gaivotas
Para Jeferson Tenório
As gaivotas desviam
caravelas ao mar
e meu corpo arcado
esqueceu-se a voar
O céu padece
em rochedos pontiagudos
e formações salinas
vão te saudar
no silêncio
Vejo-te bruto a morrer,
enquanto os abutres
rasgaram fendas
na tua carne
revelando amor
ao avesso
da pele.
***
Autorretrato I
O espelho deforma tua imagem
ramificando os horizontes pretos
que contornam sua nudez
tornando-o livre de fronteiras.
Tua face estilhaçou
em mil pedaços
as extremidades
do corpo.
Tom Santos é natural da região metropolitana de Salvador, Bahia. Escritor, ator e graduando em Letras Vernáculas, pela Universidade do Estado da Bahia. É colaborador do coletivo Espaya, e suas apresentações abrangem performances, recitais, monólogos e experimentações artísticas.
mesa sem poeira
pia seca
privada higienizada
roupa limpa e dobrada
cama feita
papel em cima de papel
dentro da gaveta
livro empilhado na estante
algumas canetas guardadas
outras, soltas
sempre sobra uma
alguma coisa
um objeto
de uma casa habitada
circula
como se vivo fosse
é carregado
pego
jogado no chão pelo gato
quebrado
colado com cola quente
guardado
até que esteja de novo
no lugar errado
***
TRANSILVÂNIA
as pessoas costumam comentar que eu viajo muito. não entendem que meu trajeto quase sempre é o de casa para casa. quem mora em duas cidades não mora em lugar nenhum. a estrada é um limbo. a outra cidade, em que você não está, age como uma sanguessuga. te cobra, te cansa, exige e barganha, te dá e te tira. precisa de você. não aceita que você se afaste por muito tempo. rosna para seus desgarrados.
a outra cidade é uma casa que você já não conhece bem, mas ainda assim sempre volta
***
CAIXA DE FERRAMENTAS
a mão cheirando a alho
cebola e refogados
também tem o odor
da tinta da caneta
ela mexe no detergente
liga computadores
digita 40 palavras por minuto
faz bolo
despedaça o pão
recorta cola rasga
e se toca
sem nunca esquecer de fazer exercício para evitar ler
o acidente de trabalho da modernidade
e da escritora
***
ESQUEMA DE PIRÂMIDE
vou ter que dizer
o tempo é outra parada
um verdadeiro massacre
às três horas da manhã
o auge da neurose
a metade da besta
a matemática pura
a assimilação do fim
de um pedaço de bolo
guardado tempo demais
na geladeira
***
BACKLASH
desaprendeu a engolir sapos
rãs e salamandras
a perereca agora possui caninos
e ataca
sem pudor
quem avança
***
de cor
escrevi esse poema de memória
porque eu ainda estava dormindo quando ele surgiu
anotei cada palavra no reino dos sonhos
como cecilia pavón me ensinou
tomei cuidado para mantê-lo curto
o acordar é abrupto
e sempre há risco de esquecer
a poesia é sonolenta e tem bafo matinal
Thaís Campolina nasceu em Divinópolis – MG em 1989 e, após 8 anos morando na capital mineira, recentemente retornou para sua cidade natal. Bacharel em Direito, pós-graduada em Escrita e Criação, medeia, organiza e faz curadoria do Leia Mulheres Divinópolis e é a criadora e faz-tudo do clube de leitura online Cidade Solitária. Após ganhar o 2° lugar no concurso Poesia InCrível de 2021, estreou na poesia com o livro “eu investigo qualquer coisa sem registro” pela Crivo Editorial. Também publicou o conto “Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija” em formato e-book na Amazon.
acaso vença, por mera conve/
niência, da teoria oposta ao mi/
to, este conflito – da sã ignorân/
cia das crianças sob o severo jugo
das réguas de estudo -, do utili/
tarismo sucessivo, puro e simples
sobre a Cultura vista como circo
(supérflua/ nula), sem conciliar
à velha luta a mesma desavença,
desde sempre, entre a fantasia e
a crença na verdade da essência,
……………………será Ciência ?
se uma parte de nós é retrô
e outra parte é avant-garde,
ao recapturar toda estranheza
na fronteira mesma em que
beira a familiaridade – como
um experimento de linguagem –
no exato ápice dessa passagem
para legá-la à posteridade,
……………………será Arte ?
ante a violência do combate
das Ciências sobre as Artes
e vice-versa, destarte, espe/
remos sem alarde (e antes que
seja tarde) pelo com/provável
……………………EMPATE !
***
novena do filamento [fragmento]
neste aparato sacro,
– um arcaico astro –
cada rastro o rapto
de seu arco voltaico;
cada curva rejeite
o velho ponto médio
por engenhoso e novo
desenho periférico;
e toda a pira fugidia
que no dínamo irradia
surja e fulja, na al/
tura, rútila fagulha;
em cores, do ouro ao
ocre, flua luminoso or/
be à vultosa dose de
um fiat lux no cobre:
bendito é o fúlmen no
filamento da lâmpada;
o lume mantenha-o bem,
“liga/ desliga/ religa”
……………! AMÉM !
***
o templo da técnica
na glândula de eurekas
onde nervos se acercam
o miradouro do inédito/
halo por sobre a névoa
há alvéolos & células
nos favos do encéfalo
à revelia do secreto –
o alvo da descoberta!
úvula além da medula/
o novelo que elucubra;
pulsa descarga elétrica
no interior desta cela;
……> ( * ) <
numa arca de faiança/
ou gaiola de estanho
onde encaixa o fórceps
ante a ameaça do dano
nesta caixa ou antro
que chamamos “crânio”
: voz atrás dos olhos
– cosmo neurológico –
a noz/ o cofre de inox
para o lógos de Nikola;
e veja aqui, sob a testa,
este mistério inconteste!
***
o castelo da estética
a massa cinzenta: sêmola
de toda sentença,
nódulo neuronal das lendas
que relembra
ao abrigar em cada uma
de suas células
da aspereza das pedras
à leveza da pétala;
primeiro e último sítio
de qualquer mito e espírito;
sede do novo e do velho,
do crente e do cético
cujo pejo é o desejo
pelo tal “juízo estético”;
eis o cérebro de Tesla
em seu par de hemisférios!
um abismo aberto
entre a euforia e o tédio,
ao aludir do lúdico
utilitarismo (no mistério)
ao surgimento súbito
dos surtos psicodélicos;
seu lar de cálcio e ferro
lacra a mandala
no Cáucaso ático
dos cálculos matemáticos;
o miolo tônico
sob o osso poroso/ o mar
do sonho sob o
solo do corpo; no crânio
está assentado
o seu castelo hermético,
da larga borda de Abraxas
a ágora da Via Láctea!
***
os despojos de Ajax
o que será do Sr. Tesla,
vagará no éter sem casa,
órfão da ciência exata?
enfrentará algum perigo,
sob o limbo, a destruí-lo
(do atma sem sua causa ao
último salto, ao abstrato)?
ou terá finalmente conjugado
as complicadas escalas aná/
logas [esquadros], as tábuas
sagradas da sua matemática
do caos, ao mapa da sua alma?
Alexandre Guarnieri, carioca da Zona Norte, nasceu em 1974. É historiador da arte (UERJ), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e servidor público federal (INPI). Integra, desde 2012, o corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens. Ganhou em 2015 (com seu segundo livro, “Corpo de Festim”), o 57o Prêmio Jabuti na categoria Poesia. Estreou com “Casa das Máquinas” (Editora da Palavra, 2011), seguido por “Corpo de Festim” (Confraria do Vento, 2014), “Gravidade Zero” (Penalux, 2016) e “O Sal do Leviatã” (Penalux, 2018).Em 2016, foi coorganizador da antologia “Escriptonita – pop/oesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi” (Patuá). Em 2019, a antologia “Arsênico & Querosene” (Kotter) apresentou, além de poemas inéditos, seletas de seus 4 primeiros livros.
Vive nas matas, selvagem, forma
preferível das florestas, que tem
por objeto o assobio das serpentes;
voz em que há sim, hiato – de ato de ferir.
Alia povos de plantas cujas cascas, amargas,
tem por tipo o silvestre, também
cipó; dois vivos em que há
aderência da pálpebra com a nota
musical, de uma época remota, lá, alhures,
sem verbo, que começa; ou poética
do fim, iniciada por eles,
pelo som das palavras –
funda natural nome de coisa por oficina
e encerra a outra inconsciente
divisa: certas combinações
que têm triz. Sim
em que há coisas santas ou,
como sejam, sagradas.
Sim: aquele que cometeu Sim,
a primeira folha,
Sim.
***
Poema II
De pequeno tamanho, foi um
dos fatores de expansão
do mundo, porque era nome
amorfo, pedra ou granada,
a cabeça encarnada,
fundamental
abertura superior do coração
absoluto.
Carrega-se
no dorso de animal:
mecha de fogo,
chuva muito forte,
por que motivo desconhecido.
***
Tormenta
Ela vem torta, de óculos escuros,
cabelos despenteados, vestido em desalinho;
sobre a tormenta, ela vem de botas altas,
com marcas no rosto, uma, resultado do tempo,
outra, de um acidente de carro;
sobre a tormenta, ela vem quando a calmaria
era já a sua companheira de quarto, quando
já até morava ao lado de uma praça
e se nutria bem, para evitar a tormenta;
sobre a tormenta, ela vem tonta, trazendo sua angústia
no peito, no peito de quem não quer
mais ir embora, tragando-a para dentro dele;
sobre a tormenta, ela vem e parece te querer, mas veja, olhe,
escute, antes de atravessar a linha do trem;
sobre a tormenta, um dia ela vai embora e
você, como a criança diante do circo que baixa sua lona,
desejou imensamente ser levado em seu vórtice.
***
Noite branca
Olho as janelas que ainda estão acesas,
como fazia em outro país: a insônia
aproxima anônimos em sua distância,
como se de longe partilhássemos
o mesmo cigarro, a mesma ausência.
Há, agora, uma jovem que trabalha.
Um homem sem camisa que vê tv.
Um que vagueia, sentado sobre o próprio desespero.
Um cão que, no meio do silêncio, abana o rabo para ninguém.
Uma mulher que absolutamente não sabe o que fazer.
***
Brutal
onde a luz nasce palavra
obscura,
discreta a morte: a vida retina.
delicadeza ao morrer é
tortura.
***
des corps
embrulha, compacta
palavra – revela-
se
cruel, crua
entre a fuga e a cura, cheia
de cor a sua escrita pura,
a sua escrita cria
luz
– candeia.
Maraíza Labanca é poeta, ensaísta e doutora em Estudos Literários pela UFMG; oferece oficinas de escrita no Espaço a’mais; é uma das editoras da Cas’a edições. De sua autoria, publicou os livros “Refratário” (2012), “Rés” – livro das contaminações (2014, com Erick Costa), “Partitura” (2018), “Exceto na região da noite” (2019) e “A terra O corpo” (2021).
que seja assim um abrigo
onde pés e mãos se cruzam
mar e sol se miram em
miragens faísca e nuvens
seja assim a sinfonia
que se quebra em tornozelos
que se torna o zelo por
joelhos cheios de terra
um amigo que no peito
abriga um abraço enquanto
a noite escurece no
leito escuro de um afago
***
por se romper o chão nos nervos das
manhãs por se querer um horizonte
ruindo nos cabelos encrespados
da melancolia e se desejar
o gosto pesado e duro de deus
resgatam-se as vozes guardadas na
arquitetura do silêncio por
se destruírem os baques em minhas
costelas rumo à forma das raízes
por se alimentar o céu mais que o ventre
por se beijar o rosto das avenças
em disputa aponto o dedo para o
cansaço das flores nas falhas do
teto por se ruminar o vestígio
dos lábios por se levar o destino
dos fatos em procissão sinto o vento
lamber o barro onde moldei os meus
castelos de ossos por se calarem
as pedras encontradas no refluxo
das topadas por se andarem os galhos
na voraz verticalidade do
assalto devolvo os ombros ao luto
no incansável espanto por se inventar
a fuga das mãos sobre aquilo que
não posso agarrar cravando meus dentes
***
de repente
é quando a
gente acha
que já foi
e é quase
de quando em vez
a causa fosse
a minha dúvida
que sempre é tanta
mas sobre o dia
nenhum espanto
***
assim como se desfizesse
por inteiro esse dia ingrato,
essa hora vã. como se
se apartasse o calor de mim,
em mim aportasse o pavor
nascido além do próprio corpo
o fogo, o afeto, a foz dos meus
desertos. quero tudo, até
os restos do que odeio. como
decerto, o acerto. como se
para o sim, um não; o equilíbrio
como fuga do incerto erro
***
lua
aqui estamos. sob o peso do mundo,
que é acima e entre nós, abaixo e
na medida das imperfeições. não
sei dizer se criação tem a ver
com um sujeito pleno de potência
ou se talvez mais perto esteja do
ínfimo do qual somos comunhão.
não sei dizer a exatidão do que
é enquanto sou. não sei o sabor
preciso do que experimento ou do
que deixo quando parto do lugar-
comum de onde penso. mas aqui estamos.
como um satélite, que gravita em
torno de outro corpo, e brilha
***
anomalia
combinamos assim: você vem pela
via das ruínas e eu permaneço
fluido na anomalia dos relógios.
ficamos cientes de que hora
alguma precede o delírio, ou
ainda que a pontualidade dos
martírios esteja firmada no
que sobrou das mãos. no peito, contamos
com outras penitências para então
ficarmos dubiamente consagrados
***
adverso
gosto do barulho do vento nas
árvores. do modo como ele diz
fica parado, escuta. gosto de
como ele vem sem permissão e leva
a pele morta do corpo, os cabelos.
o jeito como ele tenta tirar
minhas roupas (mas elas continuam
agarradas, como se houvesse um mastro
de ossos elevado ao longo do tempo)
Fábio Pessanha é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios sobre sua pesquisa a respeito do sentido poético das palavras, partindo principalmente das obras de Manoel de Barros, Paulo Leminski e Virgílio de Lemos. Articula oficinas de poesia e atualmente tem estudado a obra de Orides Fontela em função da pesquisa que desenvolve em seu pós-doutorado no PPG em Estudos de Literatura, na UFF. É autor de “na escuta o gatilho” (Rizoma, 2023), “A forma fugaz das mãos” (Patuá, 2021), “A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos” (Tempo Brasileiro, 2013) e coorganizador do livro “Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento” (Tempo Brasileiro, 2011). Assina também a coluna “palavra : alucinógeno”, na Revista Vício Velho, e tem poemas publicados em diversas revistas eletrônicas.
entendo pouco de anatomia
sei da distância dos meus dedos
da densidade dos meus pelos
de quando em quando vêm os meus respiros
em todos os meus apelos
observo meus músculos
ora robustos, ora murchos
o músculo rubro
que bombeia até todas as minhas veias
cada uma das minhas linhas
absolutamente todas
as minhas histórias
não entendo de biologia
mas sei o gosto das minhas lágrimas
a espessura da minha saliva
(ainda mais quando misturada noutra)
sei da minha matéria
sei conversar o amor
por culpa dessa artéria
que me inunda
que me transborda
não me interessam as outras partes
(preciso delas, mas não me são essenciais)
o que me importa é uma saudável aorta
robusta, potente, pulsante
esse túnel que leva a tudo
essa latejante porta
que me deixa sobreviver
que me previne de escrever
morta
***
O Pêndulo
se eu vier balançando
me fazendo de pluma
ou de pêndulo
por cima da crosta
deslizando
um tiro no escuro
gemendo
te peço que não me segure
que não abafe em mim
qualquer sentimento
não cerre meus punhos
nem imobilize meus membros
preciso de espaço
para ouvir a vida dizendo
deitar num abraço
(ainda que eu gostasse)
não funciona para quem vive
tremendo
***
Só Sei Saber De Mim
não sou uma especialista
em coisa alguma
que não seja
relacionada aos meus próprios sentimentos
não sei construir prédios
as plantas da minha casa sempre morrem
coleciono desamores ao redor do mundo
os amigos que sobraram cabem nos dedos
não sou uma sommelier
de qualquer gosto
que seja assim
tão refinado
me finco nas certezas do meu ofício
de conhecedora das travessas de mim mesma
sei de cor a cor de todos os abismos
que moram dentro do meu peito
não tenho ambições além dos muros
pra fora da minha mente desvairada
jamais quis saber de outros edifícios
menos ainda de qualquer outra fachada
há muitos que usam a vida
pra juntar conhecimento
e saber de um tudo o que há
além das fronteiras do sujeito
eu que não sou mestre em nada
sento na frente do espelho
e num plano de vida traçada
vou decifrando a minha esfinge
do meu jeito
***
Amor E Literatura
Derrama em mim teus medos
Conta pra mim teus segredos
Ensopa-me com tuas lembranças
Penetra-me as tuas esperanças
Aloja em meu ventre teus sonhos
Permite-me gerar teus inconhos
Afaga aos meus problemas
Me deixa te escrever em poemas
***
Desastrosa Queda
se estamos nos matando
acontece a quatro mãos
em velocidade cronometrada
com capacidade mútua
de execução
sua boca presa à minha
não há registros de ar algum entrando
veias não bombeiam
nem oxigênio
nem sangue
se estamos no buraco
caímos aqui de empurrão duplo
tua mão na minha nuca
o meu pé na tua bunda
um tombo assim cinematográfico
***
Absorta, Semimorta
olho
para baixo
vejo meus pés
ensanguentados
já não sei
de quem é esse sangue
se vem de dentro de mim
ou se saiu de vasos seus
o azulejo branco parece pulsar
estamos à deriva
vivendo nesse mar de amar
desço minha mão com delicadeza
coloco o dedo no coágulo
e, antes mesmo de pensar,
levo meu dedo à boca
sugo
chupo
devoro
esse sangue que não sei se é meu
esse sangue que eu sei que é nosso
Nascida em São Paulo e naturalizada australiana, Rani Ghazzaoui é escritora, comunicadora, atriz e poeta. Começou a escrever muito jovem — “desde que conseguiu segurar corretamente a caneta” — como ela mesma diz. “Aorta” (Lyra das Artes), seu livro de estreia publicado em março de 2022, é uma antologia de poemas escritos num espaço de quatorze anos, entre 2007 e 2021.”Aorta” está à venda nas maiores livrarias do Brasil, em todos os e-commerces de livros e no formato Kindle através deste link.
este poema é sobre uma mala. na verdade, este poema é sobre uma mala que cansei de carregar. talvez este poema seja sobre o peso da mala talvez este poema seja sobre a falta de espaço pra guardar esta mala talvez este poema seja sobre o dono da mala talvez este poema seja sobre as coisas de dentro da mala talvez este poema seja sobre as lembranças que tenho ao ver os objetos de dentro da mala talvez este poema seja sobre as rodinhas da mala que não funcionam talvez este poema seja sobre a minha vontade de não ter mais esta mala. te entrego a mala agora. acabou o poema.
***
como é que eu não vi o espelho quebrado eu não vi o sofá rasgado eu não vi não vi o queixo que se deslocava sem controle eu não vi a euforia não vi as compras exageradas eu não vi não vi a pupila dilatada eu não vi a água do chuveiro que não parava de cair mais um banho eu não vi não vi a nota de dez enrolada eu não vi como é que eu não vi quando esvaziei um papelete cheio na privada eu não vi as ligações fora de hora a voz molhada eu não vi o dinheiro que sumiu alguém me roubou eu não vi a insônia eu não vi como é que eu não vi eu não vi eu não vi eu não vi não sei eu não vi.
***
como Klein
cada poema
é um salto no vazio,
mãe.
cada ano
mais alguns
“o que acharia disso”,
mãe.
há 5 anos
a cada enjambement
celebro o silêncio
como Klein
no seu salto no vazio,
mãe.
continuo sendo aquele
bicho híbrido
meio pato meio pássaro,
mãe.
é isso
por enquanto
é isso,
mãe.
***
a imagem é
de um touro
imenso
nem seu peso
seu porte
ou força
são maiores
que a agilidade
da alcateia
queria ser um
dos lobos
hoje tô mais
pra um touro
sozinho
imenso e frágil.
***
apesar de gostar
de saber o peso
dos alimentos
aqui já não se
compra nada a granel
não vale a pena
também não se
pede porções grandes
nem nada que
dure muito tempo
não levo promoção
2 a preço de 1
aqui é só
pra 1 mesmo.
***
corto um tomate
ao meio fazendo
uma incisão perpendicular
abro a fruta
e vejo que parece
um pulmão
e o que me diferencia
dos tomates
entre outras coisas
é que respiro.
Julia Bac (1982) nasceu em São Paulo. É formada em História (PUC/SP, 2004), em Artes Visuais (Centro Universitário Belas Artes/SP, 2009), e mestre em Arte e Patrimônio (Maastricht University, Holanda, 2011). Na área literária, se formou no núcleo de ficção do Curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz (SP/2018) e no CLIPE/Poesia da Casa das Rosas (SP/2017). Publicou o livro “duas mortes” pela editora 7letras (2021).
Despeje no beiral do mundo suas crises
Não ouça do espelho nada, pois nada diz
Sobre seu coração e seus olhos ou sua alma
Então, se os quer preencher
Se dê ao luxo de viagens inesperadas
Tome sua nave e explore o que há atrás
Das montanhas que se tornaram sua dor
Para que veja
Que viver é pleno, só requer um tanto de vontade
A SUA vontade
Então, nem a chuva e nem os deuses lhe privarão
De chegar até onde
Os sonhos residem.
***
Doce e triste sonata
Passo os dedos levemente
Sobre as sérias cicatrizes em meu peito,
É como se um acorde fosse feito
Em músicas pessoais
Ouvidas dentro da caixa torácica
Em ritmo e compasso
Com o coração.
Na canção há seu nome,
Nela, a cada verso,
Eu a chamo e choro
Sem que termine ainda
A nossa estória.
***
Na esquina do meu coração
Na esquina no meu coração
E nas bordas do meu cérebro
Nasce uma flor sem perfume
Lúgubre e espinhosa
Suas pétalas somem em teu perigo.
Meu coração enraizado na flor
Trancado entre cerca-viva farpada
Machucando toda vez que bate
Sangrando manchando a Rosa
Em um vermelho tão brilhante
Que se ascende ao céu nublado.
Guiando as estrelas para que vejam
Minha tragédia mais bela em vida
Que é nascer quando se nasce o sol
E me recolher quando acaba o dia.
Eu estava vencido como um preso
Que se entregou sem crime ainda
E na esquina do meu coração e nas bordas do meu cérebro
Um milagre sem nome acontece
Eu não o vejo, mas o sinto
Então
Ainda na dor
Ainda na tragédia
Vivendo de risos ainda
Eu quero o ritmo e me vou
Cantando na rua
Em meu Carnaval particular
Uma triste marcha
Que se converte em um hino,
Um hino para a alegria!
***
Carta para a minha morte
Seja breve e audaz!
Feroz, sem frivolidades;
Selvagem, poética e autêntica
Impassível
Irreversível
Constante
E mordaz:
Traga mais e dê menos:
Saudades. Choro. Piedade.
Sentido.
Para
A carta
A poesia
Minha vida
E mais nada.
***
Liese
Grave meu nome no vitral
E ..Na ….Pedra
Para que o tempo …Jamais …..Me leve ……De teu umbral.
E em fonte entregue minha nascente
Em praça pública
Teu coração
Para banhar o jovem, rir o infante;
Ser fluente para tua gente.
Me forme belo
Tua Palavra
Quente e áspera trova
Para transpor minhas vivências
Como cotidianas coisas novas.
No mais
Peço calma pra alma
Flerte aos olhos
Paixão ao tocar
Pois em ti,
Pequena Liese,
O belo em jardim
Florescerá
E de virtude erguerá
Morada
Para que Paraíso
Eu a chame.
Para teu nome ……………Descobrir …Para teu nome ………Navegar.
Me chamo Paulo Silva, 26 anos, nascido e criado em São Paulo-SP. Apaixonado por poesia, crônicas e peças teatrais busco, através de estudos, um maior entendimento sobre essa arte tão bela que é a escrita.
mas vai tão longe o corpo que sai
e cruza o mar
e costura as cicatrizes de séculos
e faz-se cor em meio ao ardor de ser tanto quanto diferente da norma
culta
da língua
que dança no céu da boca
renascer no rio que levou à invasão
da terra da origem do atlântico
da expansão do corte, a água que passa
que liga margens de descobertas outras
estico passos, morro e nasço ocupando espaços
com meu um metro e meio de gente
que ama
se me faço rio
se faleço e recrio foz
na voz de mar carrego corpo-barco
barco-coragem
coragem-amor
e não ancoro corações:
alma à deriva
flutua
é preciso leveza pra luta
***
já sangrei meus mil quilômetros
de mar poeira e poesia
já rodei pelas artérias veias e trilhos
correndo dentro afora
noite o dormente de ferro e pedra
sem luz na cidade
guiada a longo espírito
do mistério da estrada
agora trajeto nenhum me fecha
porteira alguma interrompe
coração aos saltos
voa menina
nos seus sem vírgulas
sem parada e relógio
sem ponteiro ou seta
já escorri minhas mil milhas
suando os olhos
já ardi a pele no sol a pino
já parei excessos à sombra
já perdi demais o ar
já doí demais o timo as pernas a cabeça
e porque há muito a viver
ainda mal cheguei
na metade do caminho
***
tá pra nascer um poema
que me tire a casca
que me mostre a casa
que me arranque a crosta
e nascer o grito da raiz das coisas
carne viva sangrando a seiva
sustento fincado na terra
(até quando ainda?)
tá pra nascer um poema
que cante e dance o entalo na garganta
que floreie a segunda (ainda que chova)
que permute o ar (mesmo que quente)
que me descanse a voz (depois de rouca)
folha verde seca caída
compostagem pra alimentar o que resiste
tá pra nascer um poema
curto denso espesso
e livre
tá pra nascer um poema
de mãos dadas
de olho em frente
de leveza
que me tire daqui
feito galho desprendido
feito carta enviada
feito cordão cortado
feito dente de leão assoprado
feito eu
longe
com minha semente
dentro
bomba explodida
no íntimo de tudo.
***
minha poética cíclica
de umbigo chão e ar
desmorona mas recria
o coração que pula
a rede que balança
e não caio mais – só tropeço
nesses pedaços
partes de súbitas margens e cantos de folha ……..e opa
era mais palavra vindo que arquivei na pasta “não-abra-agora”
extensão “risco-de-explodir-ponto-rar”
porque a gente nem sempre sabe
o que se cria
o que se nasce
o que se brota
o que se penteia das letras todas
e o que se pesca
em rio de sumidouro
mar bravo
açude fundo
essa coisa toda cheia de água, dor e vácuo
mergulho mas nunca sei
(sempre me devolvo em vinte-e-sete-algumas-coisas
que num dá tempo de separar antes do próximo deslize)
pereço de verdade e findo (de mentirinha)
mas dentro da cabeça e do peito continua rodando
sabe-se-lá-onde é o eixo
escondo as beiradas
nem reparo as rebarbas
tem um monte disso aqui – inda agora –
mas deixo lá
um dia acesso
e me perco
e num volto mais
labiríntica fuga
entre osso seiva músculo veia da palavra
corto recorto colo sangro estanco
sem anestesia
***
o que fica dos rasgos
ao invés de perseguir-se em círculos
caminhar os ciclos
desaprender as horas do dia
ensinar-se os reinícios
***
a força dos dias ergue-se dentro
sob qualquer causa contrária
amplia-se a extensão dos alcances
o que é bravio
abre-se na potência primitiva das coisas
travessia interna exposta
desde a raiz
mira profundo em vista bordada de infinito
rompe muros
extrapola janelas
vem de semente que brota em terra batida
eu moro aqui
e não saio mais de mim
***
eu não caibo
não caibo
se eu coubesse, seria maior
se eu coubesse, faltaria espaço
se eu coubesse, sobraria eu
mas não cabe
o dia
o lugar
o entre
mas não coube
no sofá da sala
na cadeira do escritório
na sala de estar
nesse negócio de ser
só
uma
nesse caber
que não é de tamanho
nesse caber
que não é de ficar
nesse espaço
de ir
não cabe.
não coube.
não acabo.
Marília Rossi nasceu na primavera de 1988 em Poços de Caldas-MG, Brasil. Aprendeu a ler cedo e desde pequena escreve, desenha, recorta, cola, enfeita e brinca com as palavras. É autora de uma coleção de postais poéticos autorais (2015); das zines “partida” (2016); “o que você leva na sua mala” (2017); “corte e sutura” (2018); “quase30” (2019); “tecendo vazios” (2020/2021) e do e-book “galeio” (2022). Finalista do VII Festival de Poesia de Lisboa (2022), teve seu poema publicado na antologia “Corpos de amor e luta” (Helvetia Edições). Atualmente vive em Lisboa, Portugal.
Por baixo da face lisa e superficial das coisas, há outra que aguarda para rasgar o mundo em dois
(Madeline Miller)
por trás de um rei ou governante
há sempre seus conspiradores
dentro de um cavalo………. já coube
[disseram]
a queda de uma cidade
………………………….no focinho subterrâneo de um panteão
rela,,,,,outro ………………..adormecido ………………………………….mas não vencido …………………….e por trás de um olimpiano
há…-quem sabe-…uma titânide….com planos insondáveis
….dentro de uma horda de porcos
pode habitar uma comitiva de tripulantes …em lenta metamorfose anacrônica
…a história se repete …..veja bem
se repete…..se repete…..se repete ….. ….. ….. ..só não se repete mais
do que os homens…..e os deuses ….. ….. ….. repetem a si mesmos
***
devagar
com o pensamento em Ana C.
troco o hímen
por um homem
como quem troca
um fonema ………..por outro
………..a pele ………..por outra
flor
escrita nas imediações …………….das catástrofes naturais
***
prece para acelerar o fim do mundo
senhor, fazei com que eu evite a caixa. eu quero abri-la.
quero abrir, mas não posso.
penso que há qualquer coisa de luxuriante em caixas
e não sei o que fazer com as minhas mãos
senhor, que eu mantenha distância segura.
que eu mantenha as minhas mãos longe dela. da caixa.
de dentro vaza um zumbido,
como se vespas estivessem esperando
apenas uma breve oportunidade para escapar.
a caixa é quadrada e hermética,
como um experimento de Haldane.
peço que eu mantenha as minhas mãos pousadas sobre o colo.
mas, senhor,
os meus dedos passeiam pela caixa,
pela rugosidade de sua tampa, por seus sulcos e reentrâncias.
sinto que são sinais, símbolos que não compreendo.
não sei decifrar.
ela queima ao toque, a caixa.
no seu verso há uma inscrição onde lê-se:
“propriedade de pandora.
abra por sua própria conta e risco”.
senhor, fazei com que eu não abra a caixa.
sim, sei que vou abrir.
***
duas árvores
a árvore relembra …..o tropismo
primordial……do broto pela luz
como a madeira antecipa também…na lenha
a brasa …….. e o metal deseja no fogo….a forja
***
primavera autocrata politeísta apocalíptica
deixem a primavera para bandini
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas ………e não melancólicas
porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos ……………..anacrônicos
apenas os sanguinários
homicidas.
aqui nos movemos ………..na sombra
e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente …~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]
então desliguem
os holofotes
e apreciem
aquilo que cresce e goteja
úmido entre as frestas.
***
jantar com panteras
estar com você e seus comparsas
era como jantar com panteras
a consciência
do risco
sempre presente
nos dentes faiscantes
um gesto em falso
[ um movimento abrupto ]
e o cardápio muda de direção
estar com você
como quem observa
a barba de um homem
crescer
o milagre de uma barba
a barba deste homem
despontar
ao longo do dia
e das semanas
no aprendizado de um tempo outro
[ um tempo medido na grandeza
de capilares quebrados e brotos
recém rompidos
de sementes
e afluentes
um tempo medido
na velocidade de gotas
forjando um novo estuário ]
estar com você, criatura dupla
habitante de dois mundos
o estuário….o mangue….a encruzilhada
metade homem metade cavalo
no galope compassado dos alagadiços
entre juncos cobertos de sal e mel
você me interrompe
e diz ‘ela não gosta de leite vaporizado’
é preciso que seja líquido
‘também não sou fã de expresso’
amor é quando eu o observo
do outro lado
diretamente do mundo dos mortos
a reler todos os meus livros
mesmo os digitais
memorizando
cada passagem sublinhada
criando um novo texto
no qual reconta
a história da minha morte
Rita Isadora Pessoa é uma escritora nascida no Rio de Janeiro. É Mestre em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e doutora em Literatura Comparada (UFF). Publicou em 2016 seu primeiro livro de poemas, “A vida nos vulcões”. Foi vencedora do Prêmio Cepe Nacional de Literatura 2017, com o livro “Mulher sob a influência de um Algoritmo” e seu terceiro livro, “Madame Leviatã”, foi lançado em 2020 pelas Edições Macondo. Participou da antologia organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, “As 29 poetas hoje” (Companhia das Letras, 2021).