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97ª Leva - 11/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Ana Estaregui

 

Arte: Cristina Arruda

 

fim

 

jogamos tudo pro alto
tudo o que equilibrávamos
com o dedos
todos os nossos dias
todas as nossas coisas
nosso pinguim de geladeira
o despertador dourado
as nossas músicas do caetano
nossos livros trocados
arremessados ao alto
tudo
até que atingissem a velocidade de zero
quilômetro por hora
e começassem a cair
um a um
página a página
pelo chão.

 

 

***

 

 

não posso escrever como uma pessoa de 52 anos

 

não posso escrever como uma pessoa de 52 anos
não quebrei pratos o suficiente
não fui ao cinema depois de matar alguém
não regurgitei metáforas depois de muito mascá-las
não aprendi a dizer amor em suaíli
não fiz amor na tanzânia
não enxerguei as dálias que ressurgem depois da morte
não superei o transa, o borges, a pedra, o matisse
não me dei por satisfeita com as redlights
não mistifiquei palavras tão cretinas como bliss
não marchei querendo dançar
não amanheci feito pão, mais murcha
não posso escrever como escreve uma pessoa de 52 anos.

 

 

***

 

 

quarta de cinzas

 

queria escrever um poema pra falar sobre o amor que senti ao varrer a casa, hoje. no meio da poeira e dos confetes e restos de serpentina encontrei os seus pelos pretos. muitos pelos pretos pelo meu branco lençol e pelo taco de madeira e no felpudo da toalha de banho branca e incrustados no sabonete cor-de-rosa pálido. varri tudo, como que juntando você aos poucos, como se pudesse te reconstituir por pedaços e te fazer aparecer de novo no meio da madrugada.

 

 

***  

 

 

assim

 

isso de lavar lençóis
com amaciante
lilás
preparar a brancura
sabão pedra
pra te receber em casa
em cama passada
a limpo
ainda vai me quarar
os olhos.

 

 

***

 

 

ismália II

 

te ver dormir assim
tão consistente
e sólido
me faz querer
escrever,
por exemplo,
sobre despenhadeiros
sobre acácias
sobre aviões de caça
sobre quedas d’água
sobre crostas de corais do mediterrâneo
sobre as pupilas pretas que dormem
debaixo de pálpebras.

 

 

***

 

 

ossos

 

não triturei
ainda
estão em blocos
minerais
os versos
que acabo de morder.

 

 

***

 

 

café

 

estou pondo em risco
o meu estômago
a alvura
dos meus dentes
a pressão das artérias
o meu próprio
metabolismo
por estes versos.

meu café é meu cigarro
bebo pra escrever
estes versos
depois de trabalhar o dia
todo na firma
dentro de uma baia
de uma planilha
simétrica
um espelho de ponto.

coo o café
de noite
analogicamente
enquanto
a mortadela frita
ruidosa, eu
meto no pão francês
pondo em risco
a minha própria
vida
pra escrever
estes versos.

 

Ana Estaregui (1987) nasceu em Sorocaba, mas vive em São Paulo desde 2005. Formou-se em artes visuais pela FAAP e pós graduou-se em design editorial. Publicou alguns livros independentes de poesia e fotografia com baixas tiragens, e outros como “Eu me livro” e “Porta Poema” (antologia) pela Publicações Iara. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Mallarmagens e Ellenismos. Seu livro mais recente, Chá de Jasmim, foi contemplado pelo ProAC Poesia de 2013 e publicado pela Editora Patuá.

 

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Alberto Bresciani

 

Arte: Cristina Arruda

 

CHOICE

 

Um corpo arrastado
pelo rio
Ainda vivo
esbarrando nas pedras
atravessando a trama
de raízes das margens
Ainda vivo
como se tivesse
guelras

Toca o fundo
Corta os pés o sexo
os joelhos os lábios
Aceita quase o fim
Ouve o chamado
pra voltar
– “entra
tá na hora
já vêm te buscar” –
Vê outra vez
os livros no chão
descrença
brinquedos quebrados
o preto e o branco
Cruz
em cada perda

Então sobe
engole ar arranca ar
Aceita exércitos
invisíveis
palavras de gente distante
curativos nas datas
velhas
Sobe sai da água
tem asas tem forma
tem chave uma porta

E pode
abrir

 

 

***

 

 

FANTASMA

 

Dobrar o lençol
acalma
mas não mata
o fantasma

O abstrato
de seu corpo
é composto
de lembranças

Como líquido
infiltrado nas trincas
paredes

Descendo
pelas torneiras
É rio
É mar

: não se apaga
a memória
da água

 

 

***

 

 

PAZ

 

Atados
à aridez
de fendas rochosas
cactos respiram
sem receio
seus espinhos
sua flor

 

 

***

 

 

AVENTURA

 

Esta é a história
Sim o traçado é sempre
irregular
sobe e cai sem aviso
tudo entre lacunas emboscadas
ou a sorte de um desvio bom

As vozes muitas vezes
são de anjos
(não estranhe desalinho
cabelos revoltos)
Já as unhas outras tantas
de demônios
(atenção a relógios de marca
um certo ingênuo rubor)
Estão todos juntos
sem crachás
na mesma calçada

Assim
muito cuidado
ao escolher o botão
do elevador
O inferno não está mais
só no primeiro
andar

 

 

***

 

 

DEUS DISFARÇADO

 

I

Não seremos
os nomes na árvore
Nem as palavras a lápis
na página do livro

O gosto que sobra
é o silêncio
rasgando a garganta

 

II

É preciso contar
da fuga imensa
pra dentro do corpo

 

III

Esperamos

Quem nos dê um poema
crença alguma alegria

Como um filho
que nasce

 

Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro e vive em Brasília. Poeta e ficcionista, tem trabalhos publicados em jornais e revistas impressas ou virtuais, em portais e blogues da internet. Publicou “Incompleto movimento”, poesia (José Olympio Editora, 2011). Integra a antologia “Hiperconexões – realidade expandida”, poesia (Editora Patuá, 2014). Escreve em Nóstres e em Zonadapalavra.

 

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96ª Leva - 10/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Marilia Kubota

 

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

não consigo ficar livre
do gosto dos outros
o meu e o teu rosto,
superpostos são um ? sol impostor
ou vestígio de algum sentido
pedaços indefinidos
do todo invisível

 

 

***

 

 

metamorfose

 

sob a casca
a lagarta da seda
arredonda a redoma
e sonha asas.

a sombra do luto
anuncia:
breve aqui
mais um fruto

a metamorfose

 

 

***

 

 

imensidão

 

escalar montanhas
que só o silêncio influencia
reencontrar nas primeiras cavernas
vestígios de eternidades antigas
descobrir novos sentido e limite
além de sombras conhecidas
buscar sonhos que foram
mais que vento um dia:
alimento que a boca queria

 

 

***

 

 

acordar, susto único
súbito sol subindo o peito
no púlpito de agosto
sob estandartes de luto.

eliminar a dor
do pensamento, um minuto,
o isopor do silêncio,
branco absoluto.

a alma, mesmo fora
desse sol, estala
a um toque de luz. e agora,
acesa por dentro, exala.

 

 

***

 

 

folha a folha
destruir o vestígio
do gafanhoto
na rosa verdejante
que sóis salvam
e a palavra mata.

 

Marilia Kubota é escritora e jornalista, é mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, em 2012. É autora dos livros de poesia Esperando as bárbaras (2012) e Selva de Sentidos (2008) e organizadora da antologia Retratos Japoneses no Brasil (2010). É editora do MEMAI – Revista de Artes Japonesas e colaboradora do site Interrogação.  

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96ª Leva - 10/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Stefanni Marion

 

Foto: Tomás Casares

 

o enforcado

 

me ame ou me enforque
sou o seu bluegrass boy
e esse disco você já tocou
quando cantarolou aquela
triste canção com seu banjo.

com você eu sinto o ritmo
do tilintar do drink no copo,
ouço rifles, vejo a sangria
escorrendo no centro
de minha testa ferida.

me ame ou me enforque
sou seu fracasso favorito
um escombro, um tropeço.

oh baby, não seja tolo
amarre as pernas
de sua calça jeans
em meu pescoço
e tente tente tente.

querido rei, querido réu
os anos fatalmente passarão
feito mariposas no verão
e eu não estarei mais aqui
para amar você tão denso.

querido rei, querido réu
fique no canto da sala vazia
e pela última vez eu peço
cante suas tristes versões
do peter, paul and mary.

sou um cubo de gelo
em seu copo de whisky
vou derreter
e você sabe que será fatídico.

voltarei para casa,
mas não vou contar para deus
que você é meu assassino.

me ame ou me enforque.
me enforque e me ame
frio.

 

 

***

 

 

lana, ele não virá para jantar

 

um dia você cantou
e éramos nós três
em uma king size.

ele foi embora tempos depois,
você tranquei no armário
e eu fiquei só, vagabundeando
com os filmes do john waters.

dia desses li que seu sonho
era ser poeta, seguir a estrada.
uma transmutação lúcida
que tanto me sobrecarrega
da escuridão dos dias.

hoje fiz o jantar em silêncio
tem vodka de cannabis
talvez você goste.
fiz uns quibes,
talvez você os rejeite.

quando libertá-la
talvez eu não suporte a dor
e a jogue pela janela suja
para calar sua voz impudica
nesse intenso verão abatido.

quando libertá-la
verá que eu fiz um ritual
mas a dor ainda rasga
e a casa está triste triste triste.

sua vagina tem gosto de pepsi cola
desande a cantar sufocando
me faça esquecer
vamos soltar
os prisioneiros
às vezes vale a pena
deixar morrer para não voltar.

lana, agora somos só nós dois
ele não virá para jantar.

 

 

***

 

 

beautiful fucker man

 

o amante foi embora
o chuveiro pinga solidão
seus cigarros apagados
ainda ocupam a falta de palavras.
ele deixou mentiras pirotécnicas
espalhadas junto ao jardim
e não quero mais adubá-las.

a chaleira apita três vezes
meu nariz é rabdomante
fareja desafetos um a um
meu desejo é peregrino
onze andares acima
onde meus abismos
não são tão atrativos.

o amante foi embora
e me deixou lamentando
no canto da fétida sala suja
e ele sabe que isso terá seu preço.
meu belo homem filho da puta,
um fodedor, em breve irei enterrá-lo.

meu coração é um arquivo
de cenas perigosas.

 

 

***

 

 

luver, drunk, lover

 

pigalle 303, pernoite
num torpor envelhecido
do motel o desconhecido se foi,
mas dentro de mim mora um outro.
paguei a conta, devolveram meu rg
voltei para casa, tudo de volta
fora do lugar, valkiria 42.

e nesse jogo, quem eu acho que sou
andando por aí ganhando cicatrizes?

coloquei gelo num copo
despejei vodca negra

e escrevi uma linda canção rock ‘n’ roll
respirei fundo, outra vez, outra vez.

se nem deus ou o amor
salvaram e lavaram
minha alma impura,
então não tenho nada a perder.

 

 

***

 

 

dor

 

ingredientes:

01 escroto cozido
01 coração partido
01 escroto cru
01 pitada de ira
02 colheres de solidão
220 gramas de agonia
¼ de silêncio
½ xícara de saudade

modo de preparo: nunca saberemos como temperar a dor. então leve ao forno e deixe queimar queimar queimar…

 

Stefanni Marion é autor dos livros “Temporário”(Patuá, 2012) e “Inventário” (Patuá, 2014). Participou de antologias, teve poema em italiano musicado e poemas em catalão publicados na Espanha. No projeto “Arte na Balada”, expôs seus escritos com batom vermelho nos vidros do banheiro de uma casa noturna paulistana. É um dos organizadores e editores da antologia “É que os hussardos chegam hoje” (Patuá, 2014), entre diversos outros pormenores planetários do universo literário.

 

 

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Janela Poética V

Nuno Rau

 

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

matiz

 

não dá pra chamar de plúmbeo este céu, tampouco
argênteo, que um
afunda a sua dor num espectro
engalanado e o outro
aspira a um brilho que
não tem e assim
disfarça o céu que é por tudo cinza,
apenas cinza em sua solidez e lixa
em nossos olhos o que a  superfície opaca e rarefeita
aflora  de áspero: resíduo, pó, rescaldo
de um incêndio, também chamado, às vezes,
vida.

 

 

***

 

 

o que é a poesia?

 

depois que os pais morreram
voltou à sua cidade
para vender a casa antiga
onde passou parte da infância

cambiou a quantia obtida na venda
por euros
e transferiu o montante para sua conta
em Bruxelas
onde vivia num pequeno estúdio
alugado, 3 peças dando para os fundos
o que tornava muito silencioso
estar ali, exceto
nos dias de chuva quando as gotas
tamborilavam nas folhas
de zinco sobre a varanda

no ano passado foi encontrado
morto, um assassinato sem pistas que
deixou a polícia aturdida
mas a chuva
nas tardes em que chove
ainda reverbera no telhado
de zinco, a sua música
apenas abafada pelos
relâmpagos, quando isso
acontece.

 

 

***

 

 

loopingsufi

 

o ponto onde você dança é um ponto cego, na roda
do seu rodopio você lança um sorriso
para o mundo e ele devolve
um esgar, o mundo
tem a carne impressa com grafismos
ardentes que incineram
todos os planos quando os tocam, no ponto
onde você dança sua coreografia é a mesma
acupunturamasô em que você
dissimula imóvel as espirais
de seus pés cada vez
mais fundo na lama-glitter
do mundo.

 

 

***

 

 

prosa completa

 

se, como quem não quer
nada, sobre os lençóis (neste momento
os dedos se perderiam na maranha
reluzente e tão negra como o artifício
de um céu noturno um átimo
depois da explosão
dos fogos) fossem mencionadas ruínas
sob o azul, tão brancas
em sua opacidade
aflitiva sem dar
conta do sol
que as ilumina, e explodir (quando os mesmos
dedos se perceberem
úmidos e quentes) a lembrança
do púrpura e do carmim
que as revestia, o que está no centro é a vertigem
do corpo, e isso quer dizer
labirinto, ou a cara do anjo que agora
fecha os olhos, e se uma palavra
comoamorvier à tona
foi por apuro ou mera
distração – não se fala mais
nisso, e agora isto quer dizer clímax,
anticlímax, refluxo das horas,
espera, segredo,
surdina.

 

 

***

 

 

aquelas flores que sangram, se abrindo por dentro da sua carne

 

para helena n.

 

foi numa primavera hostil que deixei de entender você
e semeando ausências nos seus calendários
não vi as flores mortas nos jardins
onde depositei os simulacros de outros dramas
em que anjos distraídos se dissimulavam em pedra
ou no cedro dourado pelos crepúsculos dos adros
em naves escuras e vazias

já não me importa mais que as células sãs enlouqueçam
ou teçam abismos pelo corpo
sangrando névoa e nuvem
e descompassem a música das esferas
nem que o silêncio venha carregado
das palavras
esquecidas num tempo tão antigo
que ainda amanhecia:
foi no mesmo lugar que deixei o mapa
que ia nos levar de volta a um presente que não mais termina

agora
com todas as pontes arruinadas
vi pelo espelho dos metais que forjei um rosto
que representa a ilha
num mar transbordando cinza bruma e gelo

nesta outra primavera
nos acalenta o fio
que abre feridas sem resposta
aquelas em que (lançando imprecisões
nas cartas do destino)
definitivamente não
sei mais

 

Nuno Rau é poeta, letrista, carioca e leitor. Também é professor da Escola de Belas Artes da UFRJ.

 

 

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Janela Poética I

Luciana Marinho

 

Foto: Tomás Casares

 

à margem do caminho

 

vieram de onde o tempo é aragem funda nos olhos.
trouxeram o despenhadeiro ao fim dos pés.
a luz os percorreu e pôs, em suas bocas,
rios afundados em vozes, amuletos.

a terra sangrou os confins de seus corpos,
suas mãos peregrinas dos sargaços de um vento.

 

 

***

 

 

linha do tiro

 

ela caminha na linha do tiro.
sete anos de pesadelos escoados pelo corpo.
ata o ar, com arame, aos fossos de seu vestido.

martelo de pele e cartilagem,
o tempo a trai quando não a envelhece.

ao largo do sorvedouro,
ela resta antiga.

 

 

***

 

 

matéria bruta

 

no fundo das mãos há o ponto cego
em que ninguém pode tocar.
por onde passa a corda usada pelos presos
para a fuga.

posso começar pelo fosso.
pela sombra em que éramos a vertigem do pai.
a luz golpeada nos pés ao nascer.
ao nascer
e não estar na vida.

a água toma o fôlego restante dos dias.

 

 

***

 

 

uma só terra

 

desce-me como uma sede
a réstia do que sou, amortecida, fundida em pedra.
dálias ladeiam os vergões do corpo,
as frestas da casa na abertura dos olhos.
há uma voz que não pronuncia o dia seguinte.
água de minhas mãos
despenhadeiro rodeando
meu pescoço.

 

 

***

 

 

houvera

 

o tempo não se lembra de nós
nem os girassóis nos conhecem mais.
a nossa mão é uma lenda para o fogo
a água
o ar
a terra que não mais nos habita.

desde que as asas morreram no pulmão dos homens,
a esperança migrou para a placenta dos rios
onde seres se curvam às suas fontes
de calcário, erva, peixe, nuvem.

 

Luciana Marinho nasceu em Recife, onde atua como professora universitária e psicóloga clínica. Participou da antologia “Desvio para o vermelho: treze poetas brasileiros contemporâneos” (2012), organizada por Marceli Andresa Becker, em uma produção do Centro Cultural São Paulo.

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Janela Poética II

Guilherme Gontijo Flores

 

Foto: Tomás Casares

 

 REVER

 

é o cheiro da seca
………..no solo solto de chuva

– despétala a vi
………….olência flo
..rindo sem nome –
……entre cercas
.do asfalto violáceo

 

 

***

 

 

CADA SINAL cada passeio
por onde o carro
inadvertidamente
…………………passa
cada ferida na forma
fractabilizável
de um sorriso
………………..passa
ainda que no beijo
– rasgo de carne corpo
………..entrementes –
alienado a preços módicos
nos dedos sem assunto
duma datilógrafa
desempregada
nos pés aquáticos
da tua presença fabulada
ou nos sesquipedais contornos
deste último desejo
……….passa

 

 

***

 

 

NOITE DE NEVE (mentira)
…………….no fundo
do olho
……….(nada se encontra
……….nada resta
pra além de uma palavra feito
…………………undo
noutra língua
……….noutrora que não esta)

noite de neve paira sobre o mundo
(mentira cadavérica
………………….não presta
não desfaz a miséria deste mundo
nas brancuras do gelo
………………….(mera esta-

fa
…..– feitio de metáfora – mera
imagem do silêncio mera estátua
calcinada
………..nos olhos do futuro)

mentira gorda mentira
…………………fátua
mero cabresto sobre besta-fera)
noite de neve (noite de monturo)

 

 

***

 

 

SE CANTAR FOSSE O CANTO
da cotovia do
bem-
te-vi do rouxinol
se os ruídos da codorna
do jacu………..das águas
que murmuram de tédio
por entre as árvores
se o próprio som sentido
das árvores……do ninho
que nas árvores
se aninha

se o canto que ali se encontra
fosse caso concreto
…………………de imitação
de tudo quanto cerca
um canto além do canto
engloba o através
da mata que deixou
aquela moto     o ronco comburente
do caminhão de transportes
………..& por fim
o canto elétrico
que anulou seu ninho
o próprio canto-serra
sem conto sem pranto
da inaudita
…………………motosserra
que encontrasse ninho
na voz deste pássaro-lira

 

Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Latina na UFPR. Lançou traduções de “As janelas”, seguidas de poemas em prosa franceses, de Rainer Maria Rilke (2009, Ed. Crisálida, em parceria com Bruno D’Abruzzo),” A anatomia da melancolia”, de Robert Burton (2011-2013, 4 vols, Ed. UFPR, ganhador do prêmio APCA e finalista do prêmio Jabuti), entre outros. Publicou os poemas de “brasa enganosa” (2013, Ed. Patuá, finalista do prêmio Portugal Telecom) e do poema-site Tróiades. É editor do blog coletivo e revista impressa escamandro.

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95ª Leva - 09/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Lourença Bella

 

Ilustração: Rebeca Prado

 

emanações do ser

 

não presto
nunca prestei para ser em série

tentaram me colocar numa forma
o máximo que conseguiram
foi me ver flertando com a morte

assustaram
e me reacordaram de um sono de gilete
e me aumentaram o tamanho dos dias

não presto
não sei se algum dia vou prestar

tentei óculos escuros nas minhas perdas
queria ter coração mesmo que rude
só consegui lacrimejar meus sapatos

tenho fomes
e só presto para o uso geral e irrestrito
do anormal dos anos que ainda me gritam

 

 

***

 

 

o frágil correr dos dias

 

ainda que saibamos
que os heróis não cunham suas moedas
nem as esfinges devoram seus enigmas
falta-nos entender
esta lâmina que vem com a ausência
e que nos corta onde nunca há costura

mas há o tempo
este que se apresenta em fatias
que é capaz de nos mostrar à nossa cólera
e nos leva a reconhecer-nos sobreviventes
dos nossos circos e das nossas próprias guerras

é quando descobrimos:
imperioso é reconhecer-nos em nossos afetos
e seguir carregando as nossas marcas
indelevelmente

 

 

***

 

 

rios da fala

 

gosto de frases tontas
doentes do gosto
que se soltem
na garganta

frases que despertem
sonos e rumos
em caminhos
que já perdi

gosto de frases bêbadas
que sejam o prumo
do coletivo
em mim

e que rolem as necessárias pedras
nos rios da minha fala

 

 

***

 

 

em dias mortos

 

não encare
sem dor
a tela vazia

nem se acostume
à arritmia
da falta de versos

não se cale
não se sele
não se apague

nas esquinas
dos desfavores
é no poema que se acende
o sexto sentido

 

 

***

 

 

à maneira dos sonhos lúcidos

 

triste como quem carrega pedras
alimentava silêncios
caminhava devagar

e me queria

eu não sabia
em que compartimento de mim
ele cabia

eu sorria
só sorria

um dia
ele sorveu meu riso
deixou-o enrodilhando-se
na língua
como se nunca tivesse provado
o gosto da alegria

tornou-se parte de mim
mesmo não tendo sido meu

 

 

***

 

 

em redefinição

 

para Ser
preciso aceitar
impotências e calmarias
tempestades e girassóis
promessas e muralhas

para Ser
preciso enxergar
ratos e miragens
entranhas e oitavas
camélias e adagas

para Ser
preciso antes
me perder
e em novos
espelhos
me reconhecer

 

Lourença Bella é mineira das terras vermelhas de Drummond, passou pela academia de onde saiu professora. Foi só o inicio. Pisciana que é, descobriu-se muito mais aprendiz. Abandonou a sala de aula, passando a trocar conhecimentos fora dela. Depois de anos trabalhando com Educação, virou a mesa. Foi aprender as regras do mundo empresarial onde se equilibra até hoje. Da academia guarda ainda a fome de conhecimento. Especialmente de si mesma. Por isso escreve.

 

 

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Janela Poética IV

Jorge Augusto da Maya

 

Ilustração Rebeca Prado

 

 

Postal

 

O
sol eletriza
o corpo
da negra-cidade

recarregando
baterias solares

que a gente daqui
porta:
orgânica e uterina

(africarnada
na alma da cidade)

qual
pilhas de energia
intestina

assim: se
a engrenagem do
dia arde
sua fisionomia

o sol
acende o
cio da cidade

– Em simetria: solamaresia

 

 

***

 

 

Em casa

 

cada dia se dizia menos
o silêncio foi comendo toda palavra
até que não sobrou mais nada
mesa vazia, afeto desfeito
sem tato, sob o mesmo teto
alegria desbotando no porta retratos
estante escorada na parede
tv dizendo o que ninguém mais escutava
aquela ferida aberta no meio da casa
como um buraco negro
uma vala q aberta no meio da sala
cabia qualquer palavra
– boa noite pai.
não havia mais nada

 

 

***

 

 

Open

 

Exit. Êxito. Exílio.
quanto mais digo
me afasto
do que persigo.

palavra por palavra
armo
poemas que hesito

por todas as portas
de entrada saiu
do lugar q não existo.

melhor calar agora,
que ficar
falando em círculos.

o que busco é algo
algum alguém
pra além deste q digo
depois do exit

 

 

***

 

 

Os verões do corpo

 

A madrugada côa,
em seus escuros, ecos de luzes
restos do dia.
…………….. dejetos do dia.

no breu minguante da madrugada,
vagalumiava clarões no pensamento:

A imagem dela se acendendo

Faz a febre,
de um sol aceso dentro do corpo,
com seus todos fogos

a noite escoando seu escuro
surrealiza tuas  pernas abertas na
neblina do sono

a noite, toda consumida
em seus infernos,

me enterra nas cinzas do sono.

 

Jorge Augusto da Maya publicou poemas no livro “Antilogia” e na antologia “Poesia quebrada de quebradas”. Tem poemas e textos publicados em jornais e revistas, entre eles, Germina Literatura, Revista Cronópios, Revista Diversos Afins, Jornal Bahia Notícias. Atualmente, é docente na Universidade Estadual da Bahia e editor na Organismo editora.

 

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95ª Leva - 09/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Cleberton Santos

 

Ilustração: Rebeca Prado

 

Insolubilidade

para Mário Quintana

Da insolubilidade das coisas
nasce uma canção petrificada.

Enquanto a violeta da tarde
agoniza sob meus olhos
fincados no horizonte chumbo.

 

 

***

 

 

Escombros

 

Em cada passo destas horas
a imbecilidade do amor
aguda dor sobre meus ombros.

Em cada escombro desta noite
a terneza do esquecimento
silêncio marítimo que me devora.

 

 

***

 

 

Minotauro

 

Na casa de Asterion
mitos e belas donzelas tramam
contra o Amor.

Esfaqueado, Teseu perambula entre
as muralhas,
inutilmente lúcido.

 

 

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Poema Sexagenário

a Antonio Brasileiro, com chapéu

Um poeta caminha sob teu chapéu. É ríspido.
Em passos largos de ternura e demência
caminha sem mapas sem deuses.

Em teu peito ardem solidões esquecidas.
Um poeta é mais que horizontes. É poesia.

Teu canto fere a surdez dos loucos
e embriaga a lucidez dos pássaros.

A poesia renasce na aba do teu chapéu.

 

 

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Concerto para ninar calangos

 

Silêncio tecido de dor e violinos
crava em meu peito
concerto estapafúrdio
para ninar calangos opalinos.

 

Cleberton Santos é poeta, crítico literário e professor do IFBA campus Santo Amaro. Foi vencedor do Prêmio Escritor Universitário Alceu Amoroso Lima, da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, em 2002. São de sua autoria os livros de poesia Ópera Urbana (2000), Lucidez Silenciosa (2005), Cantares de Roda (2011) e Aromas de Fêmea (2013). Em 2007, recebeu o Prêmio WALY SALOMÃO da Academia de Letras de Jequié/BA. Tem poemas e artigos publicados em antologias, jornais e revistas literárias. Publicou ainda o livro Estante Viva: crítica literária (2013).