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93ª Leva - 07/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Lucas Perito

 

Pintura: Neuza Ladeira

 

Objeto

 

A par entre o pensar e o estar,
Edificado no espaço e feito pelo ser,
Esse objeto sem forma combina com aqui
O marrom da cerejeira
O vermelho e azul da renda
A luminosidade amarela.
Suas setas marcam a língua – sem a qual
Vagaria sem traços que a delimitassem.
Mesmo não mais funcionando é um bonito objeto,
Um enfeite.

 

 

***

 

 

O Inteiro

 

…..Não, eu digo não ao inteiro, eu digo não.

…..Ao captar o seu inverso, algo me escapa; Tanto no tempo das horas de sal ou das horas de mármore. Esticar-me, é apenas tatear o peso de um corpo.

…..Sim, eu digo sim a carne.

…..Entrar nada mais é do que tocar – ou sentir como o gosto de mim escapa e donde minha polpa chega sem nunca saber se doce é.

…..Não, o inteiro não é para nós. Para mim, só – à parte que me toca.

 

 

***

 

    
O Despertar

…..Num entrever de águas pesadas, o nado se torna denso, lerdo,
[perto

…..Nada é torpor, um pulmão que abre e fecha frente o vento que chega

…..Uma montanha de curvas sobre o salgueiro que freme a luz que entra nesse íntimo espaço

…..É um membro que cresce na vista que mais branca se torna

…..O algodão ao lado, o ato em cima,

…..A constatação do terrível despertar dos sentidos.

 

 

 

***

Do Escrever Sobre uma Raposa

É uma presa que marca
Em traços rubros      em meio a folhas virgens
Agudo passar          entre árvores anêmicas
Todo belo                  se encontra nesse andar
Incerto traço          que rasga a mata
Que freme          e fere
Uma marca na presa.

 

 

 

***

 

Entre todas as dores
Que me tocam
A que mais machuca
É a sua.

Sem sangue ou carne

Como uma cor
Que lateja
No compasso
De um coração
Purpúreo
E seu.

 

 

***

 

 

Quatro Formas de Eros
(Fragmentos)

 

À Diana

I
Perder a si mesmo como
Um encontro ansiado

II
Quando nua doura a negra noite
Que guardas em teu olhar

III
A comunhão nasce da morte de nossos filhos
Que tu usas como alimento.
Aos que não nascem
Tu dás repouso no meu desejo;
Engole-os como bebo seus felinos olhos.

IV
Não temos fronteiras.

 

Lucas Perito nasceu em São Paulo em 1985, é graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na Editora Empresa das Artes. Atualmente trabalha para o Estúdio Anacã, onde produz e publica textos ligados a dança. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái (Volume 1 – Nº3 – Março 2014).

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Marília Garcia

 

 

Do outro lado da tela

 

I.
acontece de estar
num deserto de estar num
lugar inclassificável ao vê-lo
cruzar a praça arrastando
uma rede árida de memória no
momento em que o apito marca
os passos e você levanta a mão
para falar
……..como se precisasse
de um impulso ou se dissesse
que hacen falta los subtítulos
al hablar. nesse instante
busca se fixar em todas
as cores antes de dizer
……………………mas vê apenas
uma mancha ocre – então
não reage, olha a cabeça erguida
e a dele em semi-círculo fazendo o
contorno
…………….(parece estar em denfert
de noite: chove o suficiente e o guarda-chuva
grená é pequeno, não cabem apertados ali embaixo –
embora recolha os dedos para caber –
corre para comprar um despertador
e ouvir as histórias da distância
para chegar a polônia
……………………..num dia branco.)

 

II.
a menina da livraria subterrânea
pergunta a que horas sai seu voo
e você não responde – recolhe as miradas
persecutórias e sai mudo, mutismo
é isso sim nem pode imaginar de que lado
estão ou de onde escrevem todas as
vezes. também não há como saber de
onde saem tantas luzinhas porque é
o máximo que já esteve
do outro lado
……………….do oceano: o máximo
de distância através da tela, a imagem
embolotada que tenta chegar
mas é lento e cortado, um filme
antigo sem voz

 

 

***

 

Escorpiões e a esquiva

 

pela quarta ou quinta vez
tenta dar uma cronologia: me
deitei e parecia um deserto aquela
areia salgada.
………………– mas estamos em méxico city, diz,
estamos no ponto mais próximo
da esquiva.

eles vêm de noite, no campo,
quando uma nuvem se forma
e tudo está perdido. rente ao chão.
me deitei e tratei de ouvir os ruídos
dos escorpiões

mas não havia ruídos,
só o vento e os clarões.

tratei de ouvir
o barulho da fábrica
mas não ouvia nada
(conhecer pode
ser destruir)
só um eco ou
algo que
se esquiva.

 

 

***

 

 

Codecs

 

I.
estar em contato durante
um trânsito mútuo é diferente, não conta
porque ainda não tem
uma resposta.
………………apenas se fixa na estrada
e segue conduzindo as esteiras. não
sabe se ela gosta de olhar para
aquelas fotografias do deserto
em p/b. se gosta de escutar
o som dos escorpiões que só
existem em sonhos e se
vai no próximo verão a nigéria
dizendo apenas: saibro.
………………se faz parte de uma salina
o que parece imaginar. não diz onde
está agora, apenas
aguarda
………que voltem dos bosques gelados
que sigam juntos até terça
que se digam adeus –  a voz
na chamada não esclarece
e depois de achadas as pistas não
tem volta:
……………..eletricidade constante
em tudo o que via. deve pensar
em coisas objetivas: pequena
placa esmaltada na entrada com
o nome da rua

 

II.
pode ser um peixe russo em
extinção, até que chega. mas isso
não explica. é agustina ligando
do continente, dizendo as coisas
pela metade. mas não há como saber: “aperte
o botão da direita e pegue um pacote de codecs
eles ajudam a ver imagens, definir
o campo de visão”. sem ele não
vê nada, acorda virada para o fundo
gelatinoso do rio e passa as horas
aguardando como um problema
sem resposta: é uma ilha tão pequena
que quando não espera
despenca no mar.

 

 

***

 

Classificação da secura

 

I.
agora já é quase amanhã mas queria
dizer apenas que é muito
tarde: acrescentar quatro horas ao relógio
indica que já é depois. lá é sempre
depois. parecia um nome
italiano com aquele som ecoando e a
resposta em outra língua mostrava
a cor das linhas no mapa,“é lilás”, para
não dizer algo preciso
para não terminar: com ela
saio cedo todos os dias. fico de
vez em quando escondido
no porto. tomarei
o transmediterrâneo e comerei
calçots,
……….até chegar o instante antes
do instante, momento em que vê o relógio
e diz: não. já conhece todos os erros
do sistema e a retina derretendo
sempre que levanta
………………………para sair dali.
(precisão é o retângulo do degrau
inferior.)

 

II.
alguém que não consegue se mover
e uma semana de vozes cortadas, deve
se acostumar aos movimentos em câmera
lenta, à descida pela escada em
espiral:
……….recorta os sons de cada
quarto e apaga as perguntas que
mais detesta responder. como aquela
noite no ônibus, ruídos do rádio e
pedaços de frases atiradas,
sempre girando as horas.
……………………..ver a paisagem
sem ela e precisar o tamanho da ausência
com poucos dados – sabe que as baleares ficam
do outro lado do mar, que custa chegar
anos depois e dizer. ergue os olhos para
fixar o que tem ali e não perder
de vista a secura.

 

Marília Garcia nasceu no Rio de Janeiro (1979). É autora dos livros 20 poemas para o seu walkman (Cosac Naify, 2007), engano geográfico (7letras, 2012) e um teste de resistores (7letras, 2014, no prelo). Atualmente, mora em São Paulo e trabalha com tradução.

 

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92ª Leva - 06/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Carla Diacov

 

Foto: Luiz Navarro

 

desarranjos

 

para Marcelo Novaes e para Ana Ehre.

 

1.
embeba-te dum canto do quarto
em lá
louco de tua sombra
listas
objetos para a tua despedida
um limão partido
para que não lhe seque a boca
uma chinela só
para que um dos teus pés fique à procura
um rumo de poeira traseira
para que possas subir
seguir à esquerda
então à direita
para que possas passar a orbitar outras horas que não esta
só agora que agora é então
portanto
só então
feche os olhos e a boca
respire mais uns segundo
e mais um e mais um
inspire como que vomitando tudo o que te enfiaram goela abaixo como definição de coisa
que
agora
agora que é então
tu sabes bem
não são
ah, Marcelo! as coisas que finalmente não são.

 

2.
corte
ou fure
um pedacinho do teu dedo
ó
o teu dedo
a pequeníssima dor
em ondas
em pequeníssimas ondas
ó
corte ou fure ou
destampe a ponta do teu dedo
com ele
o dedo sangrento
toque o contorno do teu rosto refletido no puxador da gaveta
sabes bem que nesta gaveta
estão
as cartas que não mandaste
ó
as cartas
dentro destas
os cheiros de tudo o que …
é de lembrar?
é de saber desses cheiros, não?
não!
não tome as cartas nas mãos
sequer abra a gaveta
poderíamos com a crueldade neste segundo?
há uma luz no rabo dum inseto que se diz musical
há um verso repetindo a tua cabeça
há um nó desarranjado dos outros nós na embarcação:
enterra-te neste.
onde o sangue fez garças no teu rosto
deverá nascer um espaço para as memórias do novo chão.

 

3.
beatifico um broche que tenho
um par de botas ao estilo cowboy
há dia de não me saber
caso eu não use o broche
se já estou longe de casa
sinto que estou muito mais
longe

desembestada
grito COMO PUDE?
……..COMO LARGAR MEU ORÁCULO SEM MIM?
agora sabes que também o tenho como oráculo
e ainda logo
e dizer
AINDA LONGE
ainda
AINDA LONGE E SEM MEU ORÁCULO DA SORTE
sorte
benção
proteção
escudo
dado
agora tenho de entrar num elevador
entro de costas
como manda o bom e velho costume que acabo de inventar
no caso da ausência do broche
a entrança em elevadores
somente pelas costas

ando desejando viajar
até onde não possa mais a  excursão do toque
daí que penso em não levar o broche comigo.

 

4.
parei de contar estrelas
no dia em que parei de contar aos outros
que contava estrelas
que já havia um catálogo iniciando-se
que em minha metodologia
gostava de fazer uso de medalhas como
irmandade
loucura
xarope, quilograma e medalha
parei de contar as estrelas
não paro de contar mentiras
(ossos das imagens que ainda)
sou imprudente demais, Ana.
e atravesso a nado o mar da miopia.

 

5.
já podes fazer tuas próprias meias!

o homem sentado diante do abajur azulado
sente tanto o frio lhe agarrando pelos pés
e nada faz
além de sentir
olha a fiação do telefone
o caminho no rodapé
força a memória
a cor antiga
o tempo em que a tia Sandra ensinou
CEBOLA? OU CÊ PICA MIUDINHO
OU NEM PICA!
que frio
o restolho da quentura escapando pelos pés
e nada faz
olha pela janela central
a vizinha a desenrolar um imenso cartaz

já podes fazer tuas próprias meias!

e nada faz
além de sentir:

 

6.
há o alcance
há uma coisa ou um vagão onde se chegar
há a tua e a minha vontade

nalgum lugarejo que não este e nem aquele
a aproximação

se eu fosse de cascas
iria pelada
para sentir no sumo
no suco do que sou
a agonia

se eu fosse de cera
eu não iria

se eu fosse você
eu pediria
COMA-ME E LEVA-ME CONTIGO
PELO TEU LADO DE DENTRO
EM LÁ
VOMITA-ME

se você fosse eu
você perguntaria
LÁ ONDE?

daí que há também a transpiração
e a transpiração dos objetos.

e então?
should we?
há essa chance ainda. agora.
agora que é então.

 

7.
uma corda
uma pequena corda
e levantar-se pela manhã
pela noite
deitar-se
e uma corda
de ter junto
a dizer
poder dizer
com a corda em punho
dizer de monstros
desorganismos
alergias
e de cadeiras que não se encaixam ao mundo

há um desenho
(iria pelada se eu fosse de cascas)
há um desenho
no fundo do fundo
daquela mesma gaveta que não
nele
no desenho
uma corda puxa uma baleia morta e a amarra na pontinha da tua barba puta.
então tua necessária cadeira
desencaixada do mundo inteiro.
e eu te amo.
e nem te amo tanto, mas amo.
e tua barba é puta.

 

8.
pois é.
há o alcance.
há uma coisa ou um vagão onde se fazer.
está nos novíssimos catálogos de ser
coisa e deus.
coisa de ninguém.
coisas devolvidas pelo mar.
gaguejante.
crente.
engolidas e depois arrancadas de suas apropriações.
irremediavelmente.
arruinadas de suas cores.
pois é
é jamais.
regurgitar.
uma oração
um par de luvas de orar.
deus!
coisa!
que jamais seja também a violência inevitável e de afetuoso traço
nas coisas que.
caneta
caneca
caçarola e corrente.
cada pedido de cada coisa.
porque coisa pede, ora.

 

 

sou Carla Diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci em São Bernardo do Campo e moro em Itanhaém e brinquei na praça-dos-meninos em S.B.C.. morei em Londrina e ela em mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de fôrma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. babando. agora dei de bulir com as plásticas também. e elas comigo. sei que vou. sei que volto. sei de mim, parada, medindo os dedos, os meus e os dos outros.

 

 

 

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92ª Leva - 06/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Inês Monguilhot

 

Foto: Luiz Navarro

 

Argos

 

A superfície das coisas pode refletir
de volta, concêntrico e ciclópico, o olhar.
Ou, desavisados, os olhos podem,
se não se mantiverem bem presos ao umbigo,
– sem tremular sequer um risco –
romper as superfícies como fossem água ou ar.
E, navalha ou navio,
perderem-se feito pedra
num oceano,
arrastados.

 

 

***

 

 

Antífona

(ao Señor de los temblores)

A tudo agradeço:
raízes,
espinhos,
escuridão,
a pálpebra cerrando o olho cego,
branco de caridade.

Cravos
escorrem largos das mãos;
a misericórdia serpentelínea,
de saia alvíssima.

Em mim os tambores,
terrores,
a carne fria,
uma auréola de suores.
O beijo rente a costela floresce
em descuidada ferida.

Perante a lei
.as  flores são santas e proclamam a inadiável ruína.

 

 

***

 

 

Compaixão

 

No claro de uma selva,
incerto tempo de monções,
um céu verde abre-se apaziguado
das findas luzes amarelas.
Mostra, alta, dissipados os vapores,
uma tigela branca, de arroz.

Ao pé de uma árvore
ele  terá avistado em outros tempos,
assim, solta na seda verde,
uma lua cheia, próxima, feito essa.
Num inspirar ou noutro, quem sabe,
tocou-lhe a falta
da samsara
e das dores humanas.

 

 

***

 

 

Diz a Lagarta a Alice

 

Escuta o germinar
das unhas aos céus, a lenta escalada.
Não, agitam-se as árvores
as setas verdes murmurando:
não se pode crer!
…..Corre nelas um alarido
…..contra o vento abusado,
…..contra tudo.

 …..E se pergunta a dama de copas:
 …..quanto é preciso marchar para permanecer?

Nesta hora,
se vier dar a teus pés alguma lisonja,
um trapo colorido, caco deste mundo sitiado,
deixa que sangre seu perfume, se tiver.
Não te curves, não o apanhes,
já não é.

 

 

***

 

 

…que tanto me doem rosas quanto espinhos…

 

Reis

 

Trancemos uma coroa,
das rosas que já se largam das mãos.
Trançaremos outras mais, mais adiante,
ao calor de outros verões.

Deixemo-nos  a ver-nos nas rosas,
ser carne de rosas.
Desejando, breves, os seus dias
e dar-nos por inteiro aos verões.

Coroas menos belas,
por mais que durem, todas  vão.

 

Inês Monguilhott nasceu em Recife, Pernambuco. Passou grande parte da vida na Paraíba e há mais de vinte anos reside em São Paulo. Publicou “natural” e “de mim”, ambos editados pela Ofício das Palavras.

 

 

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Janela Poética V

Carlos Barbarito

 

Foto: Luiz Navarro

 

Esto, y no otra cosa, debe ser la vida…

 

A Albert Camus

 

Esto, y no otra cosa, debe ser la vida.
Un vino agrio para saciar la sed,
un escaso alevino para poblar ríos y estanques.
Nada más. Por qué, entonces,
su obstinación en hablarnos
de las nupcias del viento con el mar y los ajenjos,
del árbol pequeño y aislado
como la más tierna y frágil de las imágenes,
del desacuerdo que sin embargo ilumina,
del canto de las cigarras
a mitad de camino entre el amor y la miseria.
En qué punto, entonces,
ahora se lo pregunto, la pánica divinidad,
el sólido corazón que se abre a la música,
la noche pura que se bebe,
la pasión que se encamina hacia las lágrimas,
los olores de la tierra y la sal,
el verano adormecido, el sereno o voraz decurso
hacia el pavor, el éxtasis, la ira, las uvas.

 

 

***

 

 

A la pregunta no responden…

 

A la pregunta no responden
aquellos que debieran responder
desde el fino apetito,
la conciencia calibrada
a un palmo por encima de la tierra.
Cómo decir blanco
sin quedar desnudo ante desconocidos,
cómo decir negro
sin lastimar lo que apenas admite roce.
En qué lengua hablar.
En qué medida esa lengua
alcanzará oquedades, jorobas, ardores.
Cómo entablar diálogo,
cómo inquirir acerca de pulsaciones
y destellos, la manera
en que el mundo se dispone
para que brote una flor
y en la flor se hagan el color y el perfume.
Hay todavía más. Y más.
Tal vez no alcance para contenerlo
cuanto hay a mano, lo ancho
y profundo, lo advertido
y lo ignorado, cuanto
vibra, fluye, se tensa, sube o se precipita.
A la pregunta, el aire fijo,
la llave de paso bloqueada.
Hacia la luz una polilla,
choca una y otra vez contra la lámpara;
a cada golpe el tiempo
hunde un poco más su aguja,
avanza a través de la carne
hacia el nervio central, la médula.

 

 

***

 

 

Intraducible, incluso para un demonio…

 

A Susana Wald y Ludwig Zeller

 

Intraducible, incluso para un demonio
y más allá del lento agotamiento
de las lámparas, único, permanece.
¿A qué flujo o reflujo,
entonces, encomendarlo
y hacia qué polo sonoro
o con sordina dirigir el magnetismo?
No saber, jamás, si razona
o desvaría, si expresa
una vía de lava, un encuentro de amor,
si anda bajo soles errantes,
bajo la tierra, sonámbulo,
si alcanza la orilla,
si se configura como nube o vértebra,
si habla de yescas,
rayos, traiciones, esquinas,
amparos, intemperies, escudos.

 

 

***

 

 

Tal vez toda la luz del mundo…

 

Tal vez toda la luz del mundo
sea sólo el reflejo de un sol entre nubes
contra el cristal oscuro de un cuarto vacío;
quizás el que, en busca de agua,
cava tras la orden del rabdomante
no guarda dentro de sí
más esperanza que aquella que se quita,
pliega su vestido sobre una silla,
y espera cada día la llegada del desconocido
en una casa plantada en el desierto.
¿Y la constante mudanza
de la piel y las plantas,
la hora en que a tientas la beso y la penetro,
el tosco florero vacío
ante la colmada vastedad de la muerte,
el vuelo de la polilla de cuarto en cuarto?
Ahora que la hija del sueño se consume
y un único pájaro canta
desde el borde de una larga rama inclinada,
quema la lágrima y el río
no se convierte en mar ni lo que hablo
en idioma exacto y puro.

 

 

***

 

 

Bebe agua ajetreada, descompuesta…

 

Bebe agua ajetreada, descompuesta
y el gusto es como una sensación
de un mal futuro, extenso y enceguecido.
Escucha: un sonido sin húmero
ni sustancia. Acaece un descolorido meteoro
donde debiera haber caos de muslos,
cavidades húmedas a un paso
de la gracia y del abismo.
Sosténganme – pide. Piel
de ofidio, frío
contra el que la vigilia se disemina
en actos repetidos, sin significado;
¿y el sueño? ¿Escena
que aguarda su idioma amplio,
su desnudo? En el centro
de cuanto ocupa la mirada,
un animal huele un poco
y luego, antes de que pueda gritar,
se convierte en aire.

 

 

***

 

 

Trakl

 

Antes que yo, en cólera y sangría.
Como yo, un ojo hacia los próximos ramajes
y el otro hacia las remotas estrellas.
Antes que yo, en dolor sin anestésico,
a la luz de lámparas agónicas,
cerca de los caballos, sus cuartillas y antebrazos.
Como yo, ante el entierro del sol,
el negro vuelo de los pájaros,
la hermana en otoño, el purpúreo sueño.
Después que yo, en cuanto pulse,
respire, pernocte, se despliegue como un mapa
o se contraiga como una santa,
en la flor de artificio, en la flor verdadera,
en el abrazo de los amantes,
en los insectos sobre la carroña.

 

 

O escritor Carlos Barbarito nasceu em Pergamino, Buenos Aires, Argentina. Dentre outros livros, publicou: Poesía quebrada (Mano de Obra, Buenos Aires, 1984), Caballos y otros poemas (Hojas de Sudestada, La Plata, 1990), El peso de los días (Ediciones Electrónicas Altamira, Buenos Aires, 1995), Puntos de fuga (Colectivo ZonAlta, Toluca, 2002), Cenizas del mediodía (Praxis, México D.F., 2010) e Paracelso (Excodra Editorial, 2013).

 

 

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Janela Poética I

Regina Azevedo

 

Foto: Luiz Navarro

 

Mãe Terra

 

seu corpo finda em raízes
sempre.

a gente olha e procura
os pássaros, as margaridas
e tudo acaba em raiz, nó, recomeço.

não tem problema
só correria na floresta
os índios montados em seus cavalos
com suas lanças, caras pintadas
e todos os animais
correndo sempre no mesmo círculo
como se o mundo estivesse
des
c
e
n
d
o
pelo ralo.

ainda bem que nós
estamos grudados
nalguma coisa
e morremos, morremos
lenta e infinitamente
juntos.

 

 

***

 

 

o rio tigre
castiga feroz a minha cintura
numa tarde corajosa
de respiração firme e
precisa
mergulho
sem visão do mundo
apenas imagino os peixes e
plantas na água que
é quente e ao mesmo
tempo fria
água morna que às vezes congela
a espinha dos homens
e dos peixes
me afogo
porque mais pro fundo
o oceano é ainda mais bonito
e azul

 

 

***

 

 

você quebra o aquário
de peixes pretos que me atormentam
em pesadelos eu te
agradeço e você me diz que
o amor é um experimento químico
eu me viro rio e digo
baby eu curto toda essa explosão
outro riso quebra os outros
aquários e eu salvo a vida
dos peixes salvo
a vida das baleias que encalham
na areia da beira do
forte e a gente chora, se
molha, mergulha gostoso

o amor também é aquático
de carne e osso

 

 

***

 

 

nove entre os dez
batimentos cardíacos
são vestígios
do seu corpo inteiro

 

 

***

 

 

de que tens medo?

o tempo corre e a gente perde
uma parte de si que fica
refugiada num canto
INALCANÇÁVEL
chega o dia
e nem a chuva fina açoitando
o corpo
causa qualquer
sensação.
você se sente
humano
cem por cento cada poro
do teu corpo precisa
de outro
vê vivo
e pulsante
sabe
que é animal & monstro
ao mesmo tempo
chega o dia
em que escrever poesia é
sangria na esperança
de continuar mesmo que a vida
tatue uma ferida na alma
do seu
corpo
a mesma alma
que se perde e fica num canto
inalcançável

 

 

***

 

 

muita gente não sabe.
mas o amor é simples,
victor.
o amor é só um limite
rompido no ventre.
o amor é aquilo que você
não me diz
nunca.
o amor é tudo que ainda não
descobrimos.
o amor é o calor que escapa
do corpo e explode
a terra
o amor é o coração
que fica na boca
o amor é o coração
que foca na cama
o amor não é só coração
amor é
a porta aberta
que você chega
e a fechada
que nós chegamos.

 

 

Regina Azevedo nasceu em Natal. Publicou Candura (conto, online), Das vezes que morri em você (poesias, ed. jovens escribas) e Carne viva o amor estanca (poesias, ed. tribo). Além do blog, escreve prosa jornalística para O Chaplin. Mora em Natal, ainda não está no ensino médio e já quer o mundo.

 

 

 

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Janela Poética II

Paulo Sérgio Lima

 

Foto: Luiz Navarro

O costureiro e a toalha de retalhos

 

São profundos
os cortes nas noites,
e não se diferem
dos cortes nas tardes
nem cortes nas longas
madrugadas.

Volta e meia
surgem novos cortes
mínimos; disfarces
envolvidos, sedas,
afins. Pormenores,
mas profundos.

 

 

***

 

 

Mapa em alto-relevo

 

Eu não sei, das mãos,
qual leva, enraizada,
pena ou espada.

Soubesse: tatuaria o então.

 

 

***

 

 

De cifras e ações

 

A José Inácio Vieira de Melo

Guardas nos instantes
de harpa e dicionário,
castelos e pedras,
cactos e cavalos.

Escombros de árvores
revelam as mãos
que bate e que escreve
cinzas do ser tão.

Pássaros da mente,
pardo missionário,
são as soluções
do teu boticário.

Pianos e aboios
ao verso, sons dão,
e inscrevem no vento
a continuação.

Duradouro arder
de ausente ocaso,
são tuas solidões
as que, em mim, disfarço?

 

 

***

 

 

Para depois de dezembro

 

Um bilhete pontiagudo –
agulha no corte da carne,
explodira o desejo proibido
de pérola do seio da primavera.

Amor – olho que tudo desenxerga,
reivindicara, à lucidez do papel,
uma fresta, uma linha, mais nada.
As palavras atravessadas
calaram-se atravessadas.

Um caminho de boninas,
canas, rosas – deusas raras;
as duas cabeças de girassóis
encantando a praça;
os peixes cantando borbulhas,
mesmo na fumaça do balé;
ou, então, o aconchego
das folhas verdes sobre a terra úmida:
o verde que tingira de um belo
o cinza,
como papagaios e periquitos
em dias de criança.

O bilhete – porta para o que há de ser,
em sua frase única, fora claro:
pela palavra,
tudo há de nascer.

 

 

***

 

 

Pontas

 

E fez-se um labirinto
cheio de assombro e luz.

Do nada, nada pôde ser gerado:
até a sombra nascia de um estalo.

Em busca da ponta da ponta,
empenharam caminhadas,
declamaram evangelhos
que, no fim, inventavam caminhadas.

Do outro lado do labirinto,
alimentados de milho e feijão
– alunos do colégio solar –
dedilhavam no instrumento do chão
as escrituras mais que encantadas.

De cá ou de lá,
ninguém notara um certo velho.
Não… Ninguém notara…
Porque se entendessem o rubi
sem fim ou começo que era o amor
nos olhos daquele cego,

abririam pico no mundo;
acertariam os provérbios.
Finda caminhada.

 

Paulo Sérgio Lima, antes de ser baiano, é jequieense e brasileiro – a Bahia está no meio. Nasceu em 1989. Só em 1998 conheceu uma sala de aula e seu universo de letras. A universidade chegou em 2010 – Licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB/JQ. Acredita que a paixão pela leitura, pela poesia, tenha surgido do ato de folhear livros didáticos de Língua Portuguesa na adolescência. Tem poemas publicados na revista virtual Verbo21 e no blog Clandestinos.

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Madjer de Souza Pontes

 

Arte: Marcantonio

[estrema]

 

no poema não cabe a vida
é mais um talho preciso
que se grava em cada face
no crispar de cada ricto

uma coisa que essencial:
é de uma fratura a quota –
do laminar-se da faca
da alma ferida nas costas –

renúncia – por algum tempo –
da vida cotidiana:
é a reserva do silêncio
quando a voz tudo abocanha –

hiato eterno de relógio
com a medida que cresça
no pulso de cada homem
a liberdade que o expressa

 

 

***

 

 

[alheio]

 

o estranho se reconhece
no que de estranho em nosso olho
como quando um turvo espelho
cruza num outro o seu rosto:

face a face dois espelhos
gera-se mais um abismo
e sejam turvos ou limpos
não se calcula preciso:

é que num semblante alheio
pretendemos qualquer fim:
um reflexo que no espelho
soe semelhante há dois sins –

são dois mares desiguais
dimensão sob dimensão:
se água límpida ou toldada
mergulha fundo a visão

 

 

***

 

 

[outra parte]

 

dentro em pouco serei cinza
que volve ao leito primeiro
como se dentro de casa
duma vez puxado – inteiro –

ou o arcabouço de uma imagem:
restos de fotografia
para quem ali os visse:
é esse que há pouco vivia –

talvez só me reste o nome
quiçá dito em certa prece
que o precário que se deixa
tem o silêncio que merece –

ou nem o nome sequer
só uma coisa transparente:
como uns resmungos à noite
feito um eco inconsequente

 

 

***

 

 

[o poeta sonâmbulo]

 

cedo vieram bater à minha porta
perturbaram-me o já baldado sono
prenunciaram-me sem chances de fuga
tudo que pelo dia vário serei

na rua interrompe-me a cada degrau:
homens sedentos vasculham os bolsos
à procura de um ímpeto de vida
e sempre cedo – minha dor é cedo –

passeiam na confusão de meus braços
minhas mãos gravam seus sonhos em mim
e quando ausentes chaves recupero
é uma nota que incha na garganta –

a janela me abre à rua-do-dia-curvo
e o mundo afora me pesa no lápis –
mas quando me virem beijando a noite
permitam-me o delírio das essências

 

 

***

 

 

[truque]

 

logro: medida precisa
que no ouvido do traído
concretiza-se na língua
do paladar corrompido:

a fala dá um passo a frente
mas um passo cauteloso
que o ouvido do outro se feche
ao que o verbo leva no bojo –

e a palavra realizada
assenta pedras precisas
e quando o outro se depara
não credita ao passo ferida –

é dizer não como sim
ou sim embutindo o não
na balança o dito posto
a alma se põe noutra mão

 

Madjer de Souza Pontes nasceu na cidade de Pedra Branca, Sertão Central do Ceará. Editor da Revista Pechisbeque e da Editora Substânsia. “o núcleo selvagem do dia” é o seu primeiro livro de poemas.

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Winston Morales Chavarro

 

Arte: Marcantonio

 

ABEL

 

Caín
Hermano de vientos, nubes, diluvios y ríos
Un mar de luces opalinas gravita en los guáimaros de la ciénaga
Y se aglutina en mi espejo
Como un prisma que nos dice:
La muerte es una puerta
Y el tiempo una ventana
Por donde nuestros pasos presurosos
Perciben otras cosas, otros mundos.
Bello Caín
La quijada de burro con la cual me mataste
Tenía el olor de las encinas y los pinos,
De tus labios venían hasta mi norte
Unos chopos amarillos
Que enhilaban mis pétalos melancólicos
En el hilo de la muerte.
Hermano profanado por los cielos
El dolor de tu hacha cavernoso
Penetraba mi topografía más remota
Mi geografía y mi valle más sagrado.
Ante el golpe subceleste
Que yo he encontrado sutil y generoso
Y que tú asestaste con una sabiduría infinita
Yazgo en la orilla de tu río, pensativo.
Oh, amado Caín
Tus huellas de madreselva
Van decorando mis entrañas,
Van vistiendo de semillas, de hiedras y resinas olorosas
Mi cuerpo fatigado por los viajes.
Mi sudor se impregnaba de tus frutas;
Tus piñas, toronjas y zapotes
Decoraban mi cabeza
Con coronas tejidas por cientos de cuchillos.
Nada soy sin tu golpe
Herrero milenario;
Tus manos son el yunque
Que moldean, a la sombra de estas islas misteriosas,
La herradura, los cristales y los cuarzos
De otras Islas en el hado de la muerte.
Caín
Hermano de mis antepasados
Hay en ti un pretexto para silenciar la historia
Como si la memoria de las dagas
No aceptaran la muerte de Goliat
Como una templanza de David,
Mi muerte es una templanza tuya.
Amado Caín
Por tu golpe y tu palabra
He conocido el paraíso.

 

 

***

 

 

A EVA EN EL DESTIERRO

 

Qué hermosa es Eva
Qué hermosa la serpiente que le rodea
El árbol que crece en su talle
El fruto carnoso que despliegan sus labios
Al posar sobre la ocarina
Su música en las orillas del bosque.
Qué hermoso su cabello
-Grajillas oscuras que caen sobre sus hombros perfumados-
su nariz que respira otros mundos
y crea para tantos laberintos
el azahar y las guirnaldas que los sustituya.
Qué hermosa es Eva
Qué hermosos sus tobillos
Las huellas que dibuja sobre la arena
Para marcar el camino hacia la luz y hacia las sombras.
Qué hermosos los hijos que le ha arrojado al mundo
El río que desciende por las colinas de su vientre
El volcán de sus ojos de fuego.
Qué hermosa esta costilla pensante
Este polvo sagrado
Esta caña aromática
Que guarda en sus pechos fragantes
Otra manzana para las épocas de lluvia.

 

 

***

 

 

CARTA  DE UN ESCRIBA A MAGDALENA

 

Yo no sé de dobleces de campanas
De sanear o purificar sepulcros
Pero un torbellino de hojas secas me conduce hacia tu vientre
Y alguna parte de esa música secreta
Que tú reinventas y traduces.
Yo no sé de multiplicación de pájaros y peces
Ni siquiera escanciar las ánforas de vino
Pero busco tu cuerpo Magdalena
Como si fuera ese santuario
Donde redimir mis carnes y mis velas
Agobiadas por los golpes de las sombras.
Yo no sé de resurrecciones
-Acaso mi carne no soporte tantas instancias-
No se perdonar las querellas con el polvo
Pronosticar las épocas de lluvia
Pero estoy seguro Magdalena
Que mi amor te reivindica de las culpas
Y talla en tu ofertorio
Una parvada de pájaros azules
Donde sopesar tus deudas y tus vinos.
Yo no sé de estrellas y ovellones
De esferas cuyo fin esté más allá del cosmos,
Pero mi conocimiento en tu cabello
Quiebra los mapas
Y mis manos no poseen otro lenguaje
Que el mismo que tú diagramas
En el río de la muerte.
Desde las selvas sirias
Hasta el mar occidental,
Desde el monte Nebo
Hasta el río Rogitama
Irá mi ancho y dulce amor, bella Magdalena,
Revestido de luz para tus hombros
Y un collar de caracolas
Hará tejido con peces de distintas geografías
Para adornar tu pubis
Y tus cabellos crispados por los astros.
Yo no sé de oratorias y viejas enseñanzas
Mi lenguaje no supera los silencios de la tierra
Pero acaso me domina la palabra
Y un Te Amo
No sea otra respuesta
Que el peso enamorado de esta cruz.

 

 

***

 

 

LÁZARO

A Jader Rivera Monje.

 

Ahora que soy tantas cosas al tiempo
Ahora que asumo mis vidas pretéritas
Y las lanzo a la carne o al barro
para que se vuelvan poemas
o pequeñas hojas que se enfrenten
al aire rizado del Zaire
me llaman Lázaro.
Soy Lázaro
El hijo de Betania
El hermano de Martha y de María
He conocido la muerte
Su río de rosas, gladiolos, violetas, mirtos y lirios
Que he transitado, navegado y respirado
En los cuatro días que duró
Esa odisea por el mundo fascinante de las sombras.
Soy Lázaro
Tengo setenta nombres
Música, viento, pájaro, buey, lluvia
Son algunos de ellos
Creo en la resurrección
En la pervivencia
En el soplo cálido que trasciende
Más allá de estas tribus.
Me he levantado del barro nueve veces
Y ahora
Soy el polvo que no vuelve al polvo.
Mis manos y pies
Todavía están atados con envolturas de entierro
Pero también es cierto
Que bajo mi cuerpo crece la hierba
Circundan el gusano, el ciempiés, las calambrinas olorosas,
La gaviota que remonta su vuelo
En busca de otras corrientes de aire.
Soy Lázaro
Habitante de Betania
Amigo de las sinagogas
De Canaám, de Cafarnaum, de Nazaret, de Galilea
Y de otras tierras lejanas
Cuyos nombres no entenderían
Tengo el rostro cubierto con un paño
Pero cada vez que me levanto a la vida
Cada vez que una mariposa
Me recuerda que he nacido de nuevo
El paño va cediendo paso
A otras estrellas, a otras luces, a nuevas especies de animales,
A otros caminos.
Soy Lázaro
Y en este viaje al final de la vida
Me sentaré sobre otra roca
A hilar el cordón sagrado
El pedazo de río
Que me devuelva a otra corriente
En donde todas las voces clamen,
Todos los músicos canten,
Todas las lluvias digan:
“Lázaro, levántate!”

 

Winston Morales Chavarro nasceu na Colômbia, em Neiva. É jornalista e professor universitário. Seu trabalho poético logrou vários prêmios dentro e fora de seu país. Dentre outras obras, publicou: Aniquirona (Trilce Editores, 1998), De regreso a Schuaima (Ediciones Dauro, Granada-España, 2001), Memorias de Alexander de Brucco (Editorial Universidad de Antioquia, 2002), Camino a Rogitama (Trilce Editores, 2010) e La Douce Aniquirone et D’autres Poemes, Somme Poétique (Editorial Gente Nueva, 2014).

 

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

 

Pedro Du Bois

 

Arte: Marcantonio

Paredes

 

Ficamos juntos
….na indivisibilidade dos opostos:

………..anéis de casamento
………..filhos da mesma casa.

O corpo banhado sobre a cama
e a janela entreaberta: a justeza
da imaginação prisioneira
entre quatro paredes frágeis.

 

 

***

 

 

Textos

 

Sonâmbulo
…..perambulo textos

…………….navego pessoas
…………….e me oriento
.……………em ícaros
…………….de asas cortadas

tudo feito
na minha passagem.

 

 

***

 

 

Igualdade

 

A igualdade sonhada
.não se revela
.no que mostra.

…..A conquista
…..é passo inicial
…..na desigualdade.

…………O caminho
…………percorrido em entregas
…………e o desmoronar
…………do corpo no ferimento
………………………….aberto.

 

 

***

 

 

Grandeza

 

Fui começo
…….sou metade
….fui princípio
……sou continuação

o final se oferece
em lendas
e o mito
perde sua grandeza
na igualdade do mistério.

 

 

***

 

 

Janela

 

Nada me vale a janela
se não posso
ver as construções
de igualados prédios
em vistas circunscritas
aos arredores: a janela
…………………..do novo prédio
…………………..me contempla.

 

Pedro Du Bois é natural de Passo Fundo e reside em Itapema, SC. Escreve poemas e contos. É editor-autor, com livros feitos em casa, em tiragens mínimas, não comercializáveis. Foi vencedor do 4º Concurso Literário Livraria Asabeça, categoria poesia, com “Os Objetos e as Coisas”. Em 2009, “A Criação Estética” foi publicado pela Editora Corpos, Portugal. Em 2013, seu livro de poemas “O Senhor das estátuas” foi publicado pela Editora Penalux (SP) e “Iguais” pelo projeto Passo Fundo.