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91ª Leva - 05/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Juliana Krapp

 

Arte: Marcantonio

casa

no teto um alçapão
madeirame entrecortado de conduítes
onde o escuro nasce
e os ratos passeiam

a noite exibe as evidências
não há fantasias não haverá mais
reviravoltas possíveis
sobre nossas cabeças sob a cumeeira
….em casa
…….vibra
a clausura dos ratos

não estão em nós
….– vivem além
de nossos crânios
à revelia
dos emaranhados de beleza ou pavor que se enroscam ao sono

entretanto nossas coisas são suas coisas
e delas fazem ninhos
onde se embaralham
e proliferam

sobre nossas cabeças
sem asas sem remédio
respiram conosco
……….guincham
e permanecem

não estão como nós
…..baratinados
porém sua verdade
é nossa verdade – mesmo eles
……..têm um corpo quente
……..a carne magra o esqueleto oblíquo que guarda um único coração
……..exausto ao cair da manhã

mesmo eles
morrem e então fedem
sobre nossas cabeças

quando isso acontece
em alguns domingos
abre-se a portinhola
e a pá retira do escuro um volume flácido
..– a infância estranha
a falta de sangue

à noite voltamos a mergulhar
juntos
na viscosidade cada um em seu avesso
da casa apartados
pela irmandade impossível

um pai uma mãe tentam ordenar
que torne surdos os ouvidos
que estanque a todo custo
a corrosão da pureza

querem dizer
que há simultaneamente
o alheio que é o do outro
e o alheio que nos é
indiferente
– ante a opressão das paredes
…..sobre nossas cabeças
…..a alteridade se excita

os ratos passeiam
e vem a época de nos caírem os dentes
estranhos inexplicáveis núcleos sem dor
que precisam ser jogados para o alto
para o teto da casa
como indica
a etiqueta doméstica
e o folclore desta parte do mundo

ainda estão úmidos
mas não parecem
saídos de uma boca
– talvez de uma fenda ou concha de alguma
…..cavidade morta

serão lançados
à zona secreta onde agora prevalece
o silêncio
após o êxtase desconhecido
……– e para sempre irá nos assombrar a extravagância
……..dessa inútil oferenda

 

 

***

 

 

tipografia

 

às vezes
em geral domingo
eu o vejo: coágulo
escuro massa estanque que se instaura
pedra singrando
ao redor da qual o dia vai crescendo
e apodrece

porque no centro da verdade há um viço
e eu olho simplesmente olho impossível não reparar camada
após camada a casca reluz seu calcário arregalado e já não somos mais
eu e você mas sim espessuras
singulares silhuetas de arvoredo passando em velocidade difícil
distinguir as formas por trás do vidro quando somos apenas
duas melodias ou melhor duas
ênfases de melodia como se disséssemos sempre
um píer não é uma margem um píer é o ponto
de ver o estuário de esperar o espalhafato
com que a água ameaça a membrana que é este domingo um posto
de observação onde a ideia de arbítrio extingue os procedimentos
familiares a esta cama e você se torna fantasmagórico com sua espessura tão
diferente da minha já que estou só
com esse coágulo na mão uma substância órfã que aninho enquanto
temo o viço da verdade a mentira que não se insinua apenas passa
em sua marcha secreta um novo ponto agora talvez mais claro
não o coágulo em si só outra fruta
inútil apodrecendo na correnteza

 

 

***

 

 

Roteiro

 

O vaivém das galés contracenando com os diques
A emboscada da neve ao redor das vidraças
As nervuras da pedra
que enregelam o olho da atriz
– Essencial mesmo é o cenário
onde tudo acontece
foi o que ele nos disse
antes de partir

Arranje um lugar
para que o salto das feras
fuja aos radares
Para que as escarpas acobertem
a possibilidade do crime
– A cidade, muito ao longe
apenas reluz

Para contar uma história
uma savana
deve parecer um insulto:
arvoredos esparsos
sob o risco constante de incêndio
O incômodo do barro contrastando
com a arruaça da topografia

Uma nevasca
é sempre um bom começo
Por detrás da janela há uma garota
mordiscando o próprio coração
Um bicho dorme, uma tevê
silencia. A paisagem inibe os loops

Ou um lugar conveniente pode ser apenas
massa de negrume condensado
Um buraco no meio da testa
Uma angra escura
onde a sujeira
se enrodilha à superfície
e o herói morre
num tenebroso acidente

 

Juliana Krapp é jornalista e vive no Rio de Janeiro. Publicou poemas em revistas como Inimigo Rumor e Modo de Usar&co. Teve poemas incluídos na antologia espanhola Otra línea de fuego. Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas, com organização de Heloísa Buarque de Hollanda.

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Dheyne de Souza

 

Arte: Marcantonio

 

Quando eu digo saudade e sinto outra coisa

 

vezes caminha em mim uma saudade que é um pouco arredia, um pouco insolente.
Ela vem com esses passos de noite como quem acorda um escuro.
Ela toma a mão dos meus sonhos e começa a cerzir metragens curtas.
Como se minha vida fosse uma fita me fita, essa memória meio insalubre, com os seus olhos de carpir montanhas. Com esses olhos de um tema curvo. Com essa displicência do momentâneo. Paisagem que dorme sem leito.
Mas não é sempre que me toca a pele esse vestido leve de sentir o peso.
Muitas vezes querendo que me perca me bato me espanco me ergo me enleio sentindo saudade desse modo específico de sentir falta.
É que ela me espinha o passado.
É que ela me aborta o presente.
É que me faz esquecer de ser para lembrar o que podia se fosse.
É que ela me ensina a ser forte, a ser grosso, a ser firme com seu meio ríspido de me tirar daqui. Com o seu gesto insípido de me lembrar que o instante é tudo o que tenho e deixo. Com o seu freio de desapego. Com o seu jeito, enfim, me devolve praticamente ileso.
Assim. Tem dias, confesso, que me pega bem preparado e eu lhe chamo de nomes bem feios – da forma que eu consigo dizer, que nunca fui muito afeito a maltratos. Mas digo mil coisas vis. Minto que esqueci de todo o berço. Grito que tenho costas limpas. Urro que no meu olho há cílios secos. Corro tanto a lembrar o quanto sou que tropeço e quando me aqueço azulejo já nem ri.
O que eu dizia mesmo?
Que às vezes ela não pisa nos meus medos.
E eu fico assim em vigília.
Eu fico assim dia a dia.
Sabe?
Eu vou ao supermercado e compro uma bala azeda.
Eu corto o cabelo em outra.
Eu rio uma piada negra.
Mudo de endereço. Danço. Corro.
Vou à academia louco a levantar esses pesos.
Bebo.
Mas ela me assiste em uma poltrona macia. Porque sabe que quando sento, quando meu olho esbarra na janela, que pena.
É uma ressaca pelada, sabe?
Assim meio desencapada.
É quando falo com meu cigarro.
Quando me abro com um café, me banho um blues.
Quando tenho alma feito desmaio.
Olhando buracos.
Catando sílaba.
Medindo o vácuo.
Sentindo uma saudade oca de senti-la.

 

 

Dheyne de Souza está em Curitiba, escreve poesia, prosema, caos e guaritas.

 

 

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Janela Poética III

Zeh Gustavo

 

Arte: Marcantonio

ENCALHES

 

A caravana persistente desvenda
um catálogo de explorados a cada visita.

A coleta sela um compromisso
entre extirpados; só há silêncios
neste varal de desistências.

O calejo revela um contingente
de adormecidos em órbitas de suor.

Nenhuma voz, por enquanto, foi capaz de ceifar
aquilo que sustém novelo tão infame que produz
o costume de costurar-se a si próprio
(bocas olhos ouvidos tripas),
que se impôs e impera, lento no sufocar,
com seu sopro de ar letal a comprimir
todos os ossos. De ecos e fósseis são feitos
os que restam.

Empreendido mais um turno das pedradas;
emparedadas, embora sem termo, as alternativas
de trajeto distinto, ao final só se veem
estilhaços e espatifados, em manutenção de sua
corredeira de negações.

 

 

***

 

 

ANULADO

Ando dizendo
palavras em branco

Meu caminho não permite
pontuação

Minha sintaxe desmanchou-se
nela mesma

Estou desvalido de
ideias formas causas

Só me restam algumas
frases                                       falas

Fragmentos me faturam
(cada pedaço é cada pedaço)

Me encontro meio sem
e sem meios para

Me desalimento
com zeros                                                de dores

Desprovimentos me exageram
me impertinam

A invalidez me doutrina
Conclusões me observam

E eu me escasseio
pelo ralo
da rotina

 

 

***

 

 

A SOCIEDADE DO ESCAPE

 

a Guy Debord

 

Toda a vida atual consiste
em um seminário de distâncias;
a distância é uma semana invisível
num calendário perdurante,
uma estância perdida onde não se há
o que se é, e o que seria também sucumbe;
um instante posta-se noutro
e o próximo desafago é apenas uma porta aberta
para um longe de afetos frustrados;
o dia encosta na noite, de relógio-alarme
em punho, cerrado de rotinas;
a voz imposta-se no grito de uma árvore
presa em tela seca na garganta;
e por fim uma chama fica cega,
quando a cor de tudo em torno é fuga, sem exílio.

 

 

***

 

 

BÊBADO

 

a Fernando Palhaço

 

I

Meu bêbado segue sob forte massacre.
Ele me chega em casa todo dia exausto.
Não dorme, deita rosnando. Fica a acordar
ao longo da madrugada e, quando finalmente
é posto ao despertar, mostra-se ainda mais destruído.
Bebe café, pinga colírio e vai consumar o dia;
sob o forte massacre.

Meu bêbado é fraco. Não sabia que era
tão fraco este bêbado franco que ranqueia dores
no corpo-dó,
qual equilibra seus cabelos raros
pela penumbra velha das horas vagas.

Meu tempo engole meu bêbado.
Tenho dúvida da existência de ambos,
mas confio mais na existência do meu
bêbado fraco franco frágil que na do meu
tempo flácido frenético frígido.

Meu bêbado ogro drena o sangue silencioso
que esse meu tempo oco finge não derramar.
O tempo expira. O bêbado vai tragando.
Seus bens de bêbado são beijos depenados
de um amor sem lugar no tempo. Seu lugar,
biroscas depredadas onde o vento que trabalha
para o tempo não adentra, só cobra à saída as
horas pendidas. Bêbado, envidraçado; posta-se,
debaixo da lua, curtindo trapos e tangos
e troças e tremoços,
ainda preparando transas com o que lhe resta de tempo.

 

II

Vidrado segue o meu bêbado forte sob massacre.
Não sabia que era tão forte, fraco. Não sabia
que se sofria tanto, dentro e fora de si. É de manhã
e ele me sinaliza algo sobre o sol da feira por que
passeamos e eu lhe pago um caldo de cana, o pastel
ele não quer – já não tem gosto, massaroca vaziúda.
Muita gente assim que passa, também.

Doravante é cumprir tabela, com tantas mortes
pesando nas costas rasgadas de lembranças.

Um dia o meu bêbado vai, de vez. Ficará o seu
último chapéu, guardador das suas sentilezas – o seu,
o meu último abrigo, sob forte massacre.

 

 

***

 

 

10 SOLUÇÕES SUBJETIVANDO
O DESCAMINHO DOS SERES

 

1. Buscar uma melhor visualização do chão.
2. Dependendo do público-alvo, obter namoros de uma mulher do tipo nuvem ou de um homem do tipo pássaro.
3. Criar nichos no ralo do banheiro social.
4. Empregar aranhas oriundas do mercado informal de insetos.
5. Gestar pessoas dentro do olho esquerdo, se destro, ou do olho direito, se canhoto.
6. Cheirar os sentimentos para eles adquirirem uma cor mais agradável.
7. Desvirgular as razões no meio de sua sintaxe.
8. Seguir sem preestabelecimentos direcionais.
9. Traçar paralelas de modo a aproveitá-las de referência para encontros amorosos.
10. Dançar deitado na ponta dos pés.

 

 

Zeh Gustavo é escriba de ofícios variados – poeta, ficcionista, compositor, cronista, revisor de textos. Como autor, publicou, entre outros livros, “Pedagogia do Suprimido” (Verve, 2013), “A Perspectiva do Quase” (Arte Paubrasil, 2008) e “Idade do Zero” (Escrituras, 2005), além do conto “Comuna da Harmonia”, presente na antologia “Porto do Rio do Início ao Fim” (Rovelle, 2012). Participou da organização e da curadoria das edições 2012 e 2014 do FIM – Fim de Semana do Livro no Porto.

 

 

 

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Janela Poética IV

Márcia Abath

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

movimentos ou a chuva

 

cansou-se
das homeopáticas
gentilezas

(não nascera para avarezas)

silenciosa
arrumou-lhe a casa
recolheu suas penas

pé ante pé
sem adeus
partiu sem problemas

(sua única avareza: as despedidas)

no peito lhe inflavam todos os poemas

 

 

***

 

 

bifurcação


não tinha
água
não tinha
irmão

não tinha
rama
não tinha
quinhão

não tinha
ardor
gatilho
no ouvido
ele apertou

cheia
de ardor
flor
no caminho
ela inventou

 

 

***

 

 

goela

 

ah, esse anil que me cega!
não quero falar-te de flores
ou exercer odes poéticas

sequer tecer novenas

basta!

acordei faca de serra

quero cantar-te
circe medusa medeia

*- Ei! procura teu chiqueiro e vá espojar-se com teus amigos.
(Odisseia de Homero )

 

 

***

 

 

na quarta pingo fogo

incendeio versos
encharco esboços

excomungo
jogo graça

que o diabo
neles se quebre

tosco arrefeço

 

 

***

 

 

estima

 

não me amasse
não me demita

dobro palavras
assinalo esquinas

no que deito rolo
não cravo estigma

 

 

***

 

 

pilatos

 

não me impute
o que é teu

eu só escrevo

o traduzir-me
é teu
a(s)cendo !

 

 

***

 

 

delação

 
não a amasse
seria coragem

não a vestisse
seria ultraje

toda palavra (a)trai

 

 

Márcia Abath (Niterói/RJ). Poeta, formada em Relações Públicas pela FACHA/RJ. Publicou “Arqueio – ensaio poético contemporâneo” (poesia, Ed. All Print, 2013). Em março de 2014, lançou “Molho de letras” (poesia, Ed. Literacidade), 2° lugar Prêmio Literacidade, poesia, livro completo.

 

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Janela Poética V

Ozias Filho

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

nenhuma pedra

(lugar comum
……do poeta)

sufoca a tampa
detém a cavilha
sustenta a pressão

tudo vem à tona

quando os dedos
vão à garganta

 

 

***

 

 

verdade submersa

 

trabalhar incessantemente a mentira da palavra
o discurso viola a abstracção
da boca que o pronuncia
a língua (precoce) permanece hipnotizada no seu túmulo
pelo encantador de serpentes
enquanto a verdade é só saliva no fundo do cesto

 

 

***

 

 

Génesis

 

e no princípio
era o silêncio

e Deus
criou o verbo

e aprisionou para sempre
o silêncio dentro do homem

 

 

***

 

 

as estradas sulcadas na fronte
canais que interrogam
o curso do rio de sal
que não mais turvará o que é cru

enxergar ao longe
remoça a vista
e abre fístulas no peito

 

 

***

 

 

a árvore

 

cai por terra a promessa
de mantermo-nos rijos e inalterados
defronte ao assalto da saudade

cai com a lentidão do frio
quando a roupa é parca para impedir
que a pele queime e estale como as velhas madeiras
na memória das gavetas
casas com prazo de validade

que promessa poder-se-ia manter fiel
diante do perfume suspenso
e que não avisa a hora em que descerá
à memória olfactiva?

que compromisso matemático
podemos assumir com a rectidão dos dias
quando basta uma pedra fora do lugar
uma nota dissonante num trilho de comboio
o ranger dos dentes de alguém a dormir
ou o gosto agreste de um beijo que escrevemos
num argumento
para que se desça do pedestal que nos impusemos?

cai por terra a soberba
a árvore que não tem hipótese
face ao predador

 

 

***

 

 

Liturgia

 

mesmo que seja eu,
no auto-retrato,
à frente do espelho

é no olhar do outro
que determino
a passagem das horas

 

 

***

 

 

o calcanhar na língua

 

a Adriana Calcanhoto

 

eu vou arranhar
o calcanhar direito
de Adriana
tirar o verso da perna

amanhar o verbo da pedra
conjugar o calcanhar
no presente do futuro

eu vou mastigar a palavra
no lado esquerdo da alma:

a cal que desce
o sal que escorre
das palavras
caídas

o calcanhar que fala o silêncio de
Adriana

ela brinca ela brinda
introduz
o verbo que sabe a chão

 

Ozias Filho nasceu no Rio de Janeiro e atualmente reside em Portugal. Sua produção poética contempla obras como “Poemas do Dilúvio” (Ed. Alma Azul), “Páginas Despidas” (Ed. Pasárgada) e “O relógio avariado de Deus” (Ed. Pasárgada), dentre outras. Atua também como editor e fotógrafo.

 

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Janela Poética VI

Susana Szwarc

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

Uno de otro

 

He visto a la naturaleza complicarse
entre mis piernas,
a la lluvia entrar por mis agujeros e irse
ajena
hacia mares que visitarán los sueños.
De esa agua espesa como lágrima de totem
desparramé algo en mi boca
para que su palabra
“esplendor”
hiciera luz sobre otra.

Hija de mí
había sido la otra y entonces, por más nueva,
más hermosa que retoños florecientes —para mí—
tan amada como el Libro
se fue.
¿Un resguardo para él esa insistencia del don:
su propia letra en la espesura?

He visto a la naturaleza complicarse
entre las ruinas y la propia rabia de perra
entró en mi sueño.

En la fiesta del exilio
—mucho después de la ciudad bombardeada—,
se amparan el lirio, el ojo,
la trama.

 

 

***

 

 

Bárbara

 

Ese cuerpo excesivo
aún después del strip-tease
es tan leve como el mejor
afiche ante mis ojos.
La estética del poster
me hace sonreír
y mecerme en la silla de mi casa
(al compás del ritmo ajeno).
¡Ah! es exactamente igual
que ofrezca Bárbara su carne
-de verdad, de mentira-
para mí.
Su nombre acerca a mi memoria
el poema de Prevert
aunque ella insista: “mirá, también me llamo Sonia
y no hay en mis manos ni crimen ni castigo”.

Pero ninguno de estos recuerdos
sirve esta noche,
ella está allí, quitándose siempre
su ropa dorada, justamente para llevarnos al olvido
y su cuerpo es un mapa perfecto,
un territorio para abrazar,
arrojar monedas,
atrasar relojes.

De pronto ya no sé qué sucede.
No hay ruido de pulseras en la habitación de al lado
y la música que sale de la radio,
la música que despierta a los vecinos,
me afecta el sentido del gusto, la clarividencia.

Un hombre, otro hombre,
abraza a Bárbara.
Bárbara tristeza la del hombre
que la abraza y no apaga así
sus lágrimas de carne.
Pero el llanto es de los dos
y valen nuestras monedas.

 

 

***

 

 

Desvelos

 

Debería estirar la mano y retirar el ojo.
Hablar del cansancio.
Dejar la estación de trenes.
Alzar el velo y llorar.

No reír en el centro del llanto
si tirada en el mar se dejara
en cualquier orilla.

Pintarse la cara con tiza.
Abrir la sombrilla de terciopelo.
Desteñir el vestido.
Desplumar las almohadas: no mirarlas
caer infatigables
desde el vidrio.

 

 

***

 

 

Mas lejos

 

¿Nos bastarán los ojos? ¿Sí?,
¿para decir: hacia dónde (dónde)
va la historia?
Una ventana, sí, un ojo, sí,
para mi pura protesta o tu demanda:
querer más
y el espacio ampliado del libro
la fruta en las bocas.

¿Recordás?, diremos: juntas
hemos visto -y eso es seguro-,
moverse las piernas
de las paralíticas
del malecón.
Milagro de una revolución, dije.
País donde hasta el mudo ( )
mientras me acusan: chiste
histórico, dije.
Y hablaba de otra grandeza.

(Sin embargo, el agua está quieta
y mis muertos miran tu pregunta preferida)

Hacia la piedad mis ojos,
allí donde injusticias
ya no abundaran,
ellos, pobrecitos, daltónicos,
no dejan de avisar.

 

 

***

 

 

Entonces

 

Soltamos las hebillas (del cabello),
de a una
nos soltamos y llega,
ultraleve, desde distintos lugares,
una música que cada vez que se despliega,
abarca el punto de partida.

(El miedo cambiado por otra obsesión.)

-Pájaros en la cabeza- habremos de oír,
habremos de reír, aún después de los Campos,
aún después del Matadero.
En la casa de citas.

(¿Cuántos años hacen falta
para hacer romántico un crimen?)

Un vestido rojo vuela por el aire.

Bárbaras somos
en este anonimato del murmullo.

Porque nos reconocemos, bailamos.
Entonces se olvida el frío.

 

 

Susana Szwarc nasceu em Quitilipi (provincia del Chaco), Argentina. Dedica-se tanto à poesia quanto à prosa e, dentre outros livros, publicou: “El artista del sueño y otros cuentos”; “En lo separado”; “Trenzas”;  “Bailen las estepas”; “Bárbara dice”; “El azar cruje”; “Una felicidad liviana”. Poemas e contos seus têm sido traduzidos em idiomas como o francês, inglês, alemão, catalão, romeno e mandarim.

 

 

 

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Janela Poética I

Rosane Carneiro

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

VATE

 

vocábulo plástico reunido
à seta inflamada pelo alvo

……..visão

vaticínio para a era do homem
………………………vivo
……….livre

verso para ecoar o indizível
costura o tempo ao que foi dito e será vivido

progressão
………metafísica
………………………previsão lírica:

o olho são na palavra aglutina

catapulta ejeção algaravia

inscrição no universo
poética anômala
………………..ritualística

 

 

***

 

 

VITAL

 

Preenchem o ar as jóias de que trato
Dados diáfanos, órficos e ainda assim
perfectíveis
ao meu interesse exato
…..: outras realidades
do ser para o ser sem
amarras

……………..toda criatura eclode para si como
………….um sol, um botão, um parto

no instante da dor ou da palavra
revelação –
quando os ornamentos entornam dos ares
para vivificar o homem com
o uno
………do todo e da parte

 

 

***

 

 

gozo
princípio de cada dia
repartir
para comer os tempos
feitos de fartura e saciedade

na ceia sem nomes

escolhidos são os que
não escolhem

alimentados são
os que gozam

…….e repartem

 

 

***

 

 

A leitura dos tempos
extrapola pelos ares
montaria visão da mente
escandida pelos ventos
avanço por entre começos
sinais do amanhã
na bainha de cada momento
Cheiros dos ontens instantes
desdobrados na atmosfera terçã
do que vivemos

Engendrar a leitura dos tempos

Do centro de cada sentido
….partir

 

 

***

 

 

Dama de espadas na fronte
Não é plausível olhar – examinar apenas
Técnica e tecnologicamente
o amor é para ases
………………velozes

a dama de espadas vive congelada
sobre os saltos altos da racionalidade
naipe de valetes a seu dispor
maquinariamente sexy
….e só

emociona-se no entanto quando
…………………….chamada rainha

─ sua meta é o rei
…………….do xadrez

 

 

***

 

 

Olhar para o nada é
segura opção.
Desviar do chão, acometer castelos
contar nuvens e morrer de amor
pelo que não veio.

derivar, naufragar do concreto

Adentrar a normalidade
própria – tipo de eleição.
Estar no não lugar
ser o não o vazio o incerto.

esquecer

 

 

Rosane Carneiro, carioca, é autora de Excesso (edição da autora, 1999), Prova (Ibis Libris, 2004), Corpo estranho (Editora da Palavra, 2009) e Vate (Selo Orpheu). Editora e redatora com formação pela Uerj, mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ, atualmente doutoranda e pesquisadora do King’s College London, pela Capes. Participante de antologias e publicações impressas e virtuais diversas.

 

 

 

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Janela Poética II

Seh M. Pereira

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

APROPRIAÇÃO

 

De coração em coração..

Canela fina.
Joelho vesgo.

E os pés inquilinos desapropriados dos sapatos..
Não por ordem de despejo.
Sinal de respeito..

Peço licença e
adentro em corações..

 

 

***

 

 

PASÁRGADA

 

Asa quebrada na minha frente,
passo

por cima..!
sem medo

de bico..
voo

sem pedir esmola..!

Ame
ou apedreje-me..
Sou passarinho

que come pedra..!

Voar

pra não chegar..?
Esquece..!

Só quero minha rota de fuga livre..

 

 

***

 

 

DISPARATE

 

Minhas borboletas no estômago..

Simplesmente,
resolveram se rebelar..!
E sem exigências;

como negociar com esse nosso amor doido..?

 

 

***

 

 

(DES)CAMINHO

 

Perdi minha
certidão
de idade

agora conto
os anos

na gastura dos sapatos!

 

 

***

 

 

RATOEIRA

 

Nosso
Amor

é do tamanho
de um elefante..!

Nosso

amor é
parelho – no sentido
figurado..
Marca

atalhos
inesperados..

Tem medo de ratificação..!

Nosso
amor

é uma pata de elefante,

que
por onde passa
fode tudo..

Mas
todas as formas
de amor

me interessam;
todas..

O amor
é uma ratoeira que tem medo..

 

 

Seh M. Pereira, poeta nascido no ano de 1981, em São Paulo, Capital, publica cotidianamente sua poesia na internet. Participou da Antologia Sarau O que dizem os umbigos?!!  e divulga seu trabalho nos diversos movimentos de saraus da cidade de São Paulo. E-mail: sehmartins.shm@gmail.com.

 

 

 

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Janela Poética III

Fernanda Fatureto

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

 

Ouro do Tempo

 

Reconhecer o ouro do tempo
Que não há mais saída para a mesmice do agora
Que as fábricas acordam de manhã
Do sonho torpe
Do dinheiro hábil
Que o homem não tem vez na roda da história
Que a natureza passa ao largo dos passos
Apressados
Cambiantes
Reticentes
Que o trabalho não alcança nunca um fim
Em si mesmo;
Apenas passa –  o tempo
E não se vê os olhos do poeta
………………………………..Na contramão de tudo o que for luz.

 

 

***

 

 

Escrivão

 

Minha demanda de amor
percorre a Guanabara inteira
à procura de um colo
uma prece
um sorrio meio largo
ao imaginar a surpresa
em me ver aqui – inteira –
a admirar seu raro talento

– usurpador de ofício.

 

 

***

 

 

Parto

 

 I

 

Estou em minha hora mais fértil

Já que não posso te amar,
faço em mim outros filhos
crias do meu sangue
assim como o teu.

Tens parte nessa teia.

No espólio final, ficará
com o bocado mais
hábil.

Eu permanecerei
com as palavras.

 

II

 

Sem mais,
retorno.
Ele tem cheiro de alvorada.

 

 

***

 

 

Brasília

 

50 anos em cinco.
Tempo do envelhecimento de uma alma.
Um corpo pesa.
A gota cai.
O sol nasce.

Enquanto você fica parado vendo a noite se aproximar
Estático
O silêncio da noite morna com grilos
Entregue a qualquer coisa que seja vida.

Esse fio fino do instante;

Impenetrável.

 

 

***

 

 

Escuta

 

Autoconsciência denominativa.
Fluxo verbal.
Paráfrase.
Ironia.

Verbete onomástico.
Réplicas de puro afeto.

 

 

Fernanda Fatureto é autora de Intimidade Inconfessável (Editora Patua, 2014). Os poemas aqui selecionados fazem parte do livro de estreia da autora, que também é Bacharel em Jornalismo pela Faculdade Casper Libero (SP).  Mineira, vive entre  trânsitos pela linguagem. 

 

 

 

Categorias
89ª Leva - 03/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Adri Aleixo

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Dois

 

Por favor,

desta palavra
só o sumo
o gozo
e  o ritmo.

 

 

***

 

 

Lady Godiva

 

Gostava de seguir tendências
leu certa vez em uma vitrine
: menos é mais!
despiu-se do cavalo.

 

 

***

 

 

Rotas

 

Eu seguia rio lento
de certo, meio assoreado
mas manso profundo calmo
conhecidas encostas.
De repente você vem
me irrompe em fúria
me alaga em púrpuras.

 

 

***

 

 

Fonemas

 

Ele inaugura linguagens
no percurso do meu corpo
língua
morfemas
cartografias
e eu sou toda epifanias.

 

 

***

 

 

Leitura

Eu nunca soube de bússolas ou distâncias
nem sei contar luas
apenas aprendi que elas
vociferam
e sinalizam
o corpo:
seio
calafrio
cio.

 

 

***

 

 

Etéreo

O poeta sabe
que todo
verso
tem
fome
de gente
e epifanias.

 

 

***

 

 

Corpo

 

É sempre inverno em mim
e tudo são sinos, tambores
sina
querência de toque
Coisas que
arfam chispam
olhos que leem
regaço
remanso.

 

Adri Aleixo é poeta mineira nascida em Conselheiro Lafaiete, mas hoje vive em Belo Horizonte onde presta consultoria em Linguagens. É graduada em Letras pela UEMG. Possui textos publicados em outros sites e revistas literárias. Escreve também contos e literatura infantil. Publicou em 2014, Des.caminhos, pela editora Patuá.