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89ª Leva - 03/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Luís Filipe Marinheiro

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Devorei pulsos em chamas.
Amplamente o rosto envolto por coágulos de sangue luzidio
a trespassarem as veias estanques como a enrolar
as cores existentes
por dentro.
Certo é percorrerem
todo esse ar
que engole o corpo celeste mergulhado
na textura do nosso corpo temporal.
Fico com as mãos
cheias de ossos trancados.
Levanto
a cauda de um espelho
e alongo as vísceras astronômicas,
com bastante força química,
a dilatar numa circulação sanguínea
até a leveza
da garganta se alagar
na sombra líquida
das artérias
contra o alto esquecimento das coisas profundas,
contra os tendões severos a racharem a boca desvairada.
Relembro quando adormecia
sobre todas as
coisas vivas ou mortas
por fora.
Submetia os lábios
a girarem a voz louca
ao lume pedestre
e ardia pelo estremecimento terrível
dos nervos cabeça adentro,
donde múltiplas
estrelas demoníacas
a baterem-se em mim longamente
param, a pouco e pouco, a potência que nunca me sorriu
e vago ou inocente deixo de caber
nos sítios superficiais
à minha volta.
Releio todas as cumplicidades translúcidas
a moverem toda a pele num feixe de pérolas
das salgadas mãos,
aos braços a escorrerem aquele alimento
metidos nas águas sentadas
no túmulo dessas estrelas tubulares.
A destreza deste poema extingue-se quando as unhas
tocarem na carne abaixo, rompendo,
com sinceridade,
a desvastação simbólica
da escrita furibunda
ou silêncio furibundo
a pesar com delicada melancolia.
Ouço o rasgão
do corpo a sangrar
com os tecidos dos versos
a palpitarem porque se nomeiam
e se escrevem dentro
da pulsação ininteligível.
Por cima,
devoro os pulsos em chamas.

 

 

 

***

 

 

 

fecho os olhos
abro-me nos teus como uma balada impune no seu sangue
oscilante

entretido percorro-te, estremeço-me nas veias singulares
depois com a ponta da língua
afável caligrafia reponho as cordas giratórias

e andas no meu imenso chão
um chão embalado p’los nossos sorrisos de cetim
só teu, só meu a transformar-se

porém nunca a concluir ou terminar salvo esse romance
nada súbito a apertarem violetas durante
jactos perfumados

decerto uma bondade eterna
eis donde chegam os meus afetos

e nas artérias de seda cristal
crias novas meigas cores novos ligeiros ares
novos amantes tons
novos endurecidos ruídos
novo auroreal amor para eu continuar a ver

a ver-te debruçada sobre mar transparente
com veludo de orvalho entre os poros
a ver-nos encalhados continuando a moldar
brancos banhos

como numa nossa gargalhada
a dormir no cume de videntes astros adentro
só dessa maneira
estaremos destinados a tais grandes coisas

 

 

 

***

 

 

 

Uma vez
atei lençóis ferrugentos
aos membros lisos
da claridade daquele céu tatuado,
como deslizava lasso ao longo
da corrente sanguínea
de um qualquer envenenamento.
Após sobrepostas vibrações
retalharem a sombra da minha fechadura.
São terríveis os afetos.

 

 

 

***

 

 

 

houve uma ensinada tarde
em que a luz se esticava dentro de mim

agitava-se cruelmente longamente
e eu expandia sem parar

quando subi demasiado humano
por entre avenidas de escadas povoadas
vizualizava esquecidos sábios
quem seriam? quem serão? existirão?
depois da meditação sentado na última abóbada do planeta
descobri a diferença entre a palavra origem e proveniência

essas asas d’ouros em tudo bizarras
acorreram-me uma a uma amando o vento
retina de minha oriunda consciência

outros arrastaram o espaço do meu concreto corpo
e a profundeza do mar a avistar as feridas palavras

eis que me amarram de ponta a ponta
uma infinita espuma movida por rostos

meu coração recluso do impróprio choro doce
contempla o tempo desafinado por raros
perfumes deslizantes
dessas hirtas pétalas ligeiramente oblíquas
e noctívago danço a sinfonia em que morro loucamente

 

Luís Filipe Marinheiro nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Portugal, Cidade de Aveiro. Poeta.

 

 

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89ª Leva - 03/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Vanessa Carvalho

 

Arte Leonardo Mathias

 


no inverso da pele,
o universo.

 

 

***

 

 

olhos de sertão:
nunca mais
choveram.

 

 

***

 

 

sobre telhados,
entre pipas e casas
os meninos
sem morada
querem
estar mais perto
de um céu.

 

 

***

 

 

partem
e nos
partem.

 

 

***

 

 

só,
desabotoa a pele
e fica
alma.

 

 

***

 

 

o verso
riscado no chão,
era pisado,
ninguém via.
até
que um cabisbaixo
o leu um dia.

 

 

***

 

 

havia saudade,
mesmo estando
na mesa,
sentados
frente a frente.

 

 

***

 

 

o jazz
que toca
o toca

sozinho
na mesa
não está
tão só:

saudade
no mesmo tom
do sax
que entra e
percorre
sem pressa
toda a
anatomia intergaláctica
do interior

e não sai

saudades
deveriam ir
na bagagem

 

Vanessa Carvalho mora em Recife e às vezes no Filosofia de quinta.

 

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Janela Poética I

Leandro Rafael Perez

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Gosto das coisas que às vezes não existem:

gelo e formigamento,
covinhas, a ficha
criminal de um amigo,
simetrias no escuro,

a necessidade de uma estrofe,
o prazer em ler Clarice.

 

 

***

 

 

POÉTICA I

 

A visão fura a maquiagem de olho aberto
sem rasgar as pálpebras fechadas de leve
Há cães e dedos nesta pequena enxergância
densa como o mundo quando vê.
Uma inocência a pôr óculos em pedras:
Seres maiores e estranhos.

 

 

***

 

 

O medo que sinto desta chuva baixa e traiçoeira
que a gravidade se casa com o vento para derrubar
das árvores molhadas até o chão encharcado
não me deixa ir ver o buraco que um vizinho fez
para do teto da varanda com um cabo de aço
pendurar um vaso de flor abaixo do chão do quintal.

 

 

***

 

 

POÉTICA II

 

O espelho me conta mais uma vez a lenda
deste duplo círculo de cílios vivos, –
mas eu reconheço a morte na ponta de um dedo
quando me deparo com tamanha falta de agulha
negra xenófoba temerária frígida primeiro-batalhão
contra a sedução tátil de qualquer imagem vista,
não este pequeno projeto de sombra platelminta
que faz do espelho uma sala de espelhos alcova.

 

 

***

 

 

alinhaves de misericórdia
encerram um animal colérico
contra aquela criança que sonha
um céu inteiriço de nuvem azul
durante tardes nem tão amenas assim
de uma vida um senfim de promessas:
Não chego a cumprir sequer percurso.

 

 

***

 

 

Pronto a abandonar o navio
pela primeira vez percebi
a ilha de barcos em chama
que era o sol a se pôr
na ânsia do mar, horizonte,
este ciúme incurável
que as ondas regressam contra
tudo que ondula sem sal, mágoa,
esta partilha perfeita que o mundo fez do espelho,
cacos inconsúteis, o marulho das árvores na espiral das
conchas,
a nuvem verde da criança que sonha o silêncio astronauta,
o mar nunca deixou de berrar
e eu só ouço agora no zunido dos meus braços abertos,
meus pés pedalam ainda na órbita do encouraçado estéril,
a vastidão me espera em vão gorada nas orlas
e de uma crueza triste junto ao cerne mofado.
Eu sempre soube que odiaria as gaivotas.

 

 

***

 

 

QUOTIDIANA

 

Depois do alento,
há uma vitória ingrata
aos que não sabem cantar,
todos nós, ao fim do mundo
já descalços tropeçamos em saltos
ainda, ruído ainda lamento
melancolia perdendo sons por dentro:
desalento descanso desdém dia
até sobrar uma única letra
a ser acrescida antes que tudo fim:
Algo algo antes que tudo some,
melodia.

 

 

Leandro Rafael Perez nasceu em 1987 e tem a altura da Carmen Miranda com chapéu-coco. Mora quase em Diadema, SP. É autor de Pálpebras Amareladas (pdf, 2008) e Lança além do real só (Patuá, 2011). Turnê a meio mastro será o próximo. Mantém o blogue fumante entre cavalos.

 

 

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Janela Poética II

Luiz Brener

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Das vantagens da ficção

 

Como de costume,
sem ter hora ou ocasião,
a verve me espreita
os sonhos mais sórdidos.
Ela se debruça sobre mim
e com seus lábios melífluos
me beija
ardentemente.
Somos o próprio caos.
Depois de algumas horas de
gozo trocado,
eu, ainda distante de mim,
me lembro de Dulce,
a bibliotecária que lambe
dicionários.
Recordo-me também de Agenor,
o velho que cultiva bonsais
em torradeiras.
Me vem a mente, por último, a persistência
de Hugo, o menino que empilha grãos de arroz
com um apuro sobrenatural.
O que
por acaso
nos aproxima
é justamente
o fato
de que sonhamos sozinhos.
O que
curiosamente
nos mantém ligados
é  aquilo que
nos denuncia.
A consciência de que meu eu
só existe em lírica
não é um incômodo.
Muito pelo contrário,
é o que
dá ao meu aglomerado de células imprecisas
alguma verossimilhança.
O mundo seria ainda mais infindável
se todo espírito pudesse desfrutar do
prazer
de
inexistir.

 

 

***

 

 

Como fazer

Aos companheiros ourives Renato Silva e William Delarte

 

Mantenha
em território livre.
O recomendável é que se
refugie na parte da cabeça onde
a verve
nunca anoiteça.
Regue de três em três instantes,
com choro, suor, sangue ou qualquer
outra fagulha humana.
Se possível,
acenda um incenso.
Não são poucos os que apregoam
que o gesto confere ao objeto
um certo ar de efeméride.
Não se preocupe
em lapidar.
Não se deixe assombrar
por devaneios quanto
a forma.
O único desejo que deve prevalecer
é o de que
a joia floresça.
A coisa estará perto de se concretizar
quando estiver menos matéria sólida e
se tornar algo fino.
Mas ainda assim tão tátil
quanto o próprio vento.
E, por fim,
para assegurar
a garantia
de todo o processo,
sem remorso ou indecisão
você deve
atirar a pedra
no meio
do
caminho.
Observação pertinente: você deve atirar
a pedra
no meio do
SEU
caminho.

 

 

***

 

 

A aranha

 

A aranha,
sempre humilde tecelã,
constrói a própria cama.
Eu atiro-me a minha
sem contestar sua
origem.
A aranha, essa decorosa mãe,
faz da cama
berçário para
acomodar sua
numerosa prole.
Eu abrigo na minha
pesar e ossos cansados.
A aranha, sábia raposa,
sabe que sua cama também
é engenhosa
armadilha.
Eu deito na minha, certo
de que é um santuário
de sonhos concernentes.
A aranha, sempre inventiva,
também faz da cama
um modesto refeitório.
Eu me vigio pra não manchar
os lençóis da minha.
A aranha, indubitavelmente,
sabe se virar.
Eu só durmo de bruços.

 

 

***

 

 

Sob nova direção

 

Herdei do velho dono
uma coleção de LPs
e um cão de olhos gastos.
O quadrúpede choraminga
toda vez que a vitrola evoca
a voz de Joplin
ou a juventude inesgotável
dos Besouros.
O cheiro de incenso perdura.
Há dezenas de pinturas mal-acabadas.
Tentativas frustradas
de autorretratos.
Nada é igual.
Nada é unânime.
Tudo se condensa de forma que
cada um dos arredores percorra
uma ala do coração do
antigo inquilino.
Cada um dos móveis,
cada peça que compõe a mobília,
tudo reverbera a falta.
A saudade é um hino estridente
que ressoa de forma violenta e é
cantado por cada um dos tijolos que
integralizam a ossada de
minha nova residência .
As inúmeras infiltrações soam
como veias puídas
que pulsam lembranças
em tom de sépia.
Eu, tão ausente, quanto
o avoengo proprietário
destoo desta alvacenta cenografia.
Sou elemento sobressalente de
uma plástica já sacramentada.
Um fio de azeite temeroso
em meio a um oceano de decomponível
quilometragem.
Não tenho feito nada a não ser
esperar.
Sonhar com o dia em que, finalmente,
hei de me habituar
à maneira indecorosa
com que esta casa
respira.

 

 

***

 

 

Visita

 

Servira-me uma dose
generosa
de uísque na xícara.
Corria pelos seus aposentos
ilustrando seu vigor com
gestos efusivos.
Entoava de novo seu
cancioneiro de
auspiciosos
anexins.
A. estava feliz.
Na poltrona,
o acordeão.
Ao que consta,
ele fora recobrado.
Partituras se acumulavam
pelo chão a exemplo de post-its
de toda a sorte de cores
nas paredes.
Minha querida A. dispunha
de um vestido amarelo.
Imitação original da luz do dia
e tão radiante
quanto ela própria.
Valsávamos incautos ao som de um
de seus blues.
Quando, por alguns breves minutos,
ela se ausentou
me aproximei de um
dos coloridos memorandos
que vestiam sua alvenaria.
Em todos eles
estava escrita, com a mesma delicada
caligrafia,
uma audaciosa máxima: o câncer
não sobreviverá
a mim.

 

 

Luiz Brener nasceu em Caraguatatuba/SP em 1994. Segundo a cultura de prognósticos, o mês e a hora exata de seu nascimento indicam que ele é capricorniano e o seu signo ascendente é o de peixes. Em outras palavras: Luiz é um obstinado sonhador. Publicou nas antologias literárias O Segredo da Crisálida e Entrelinhas-Vol.2, ambas da Andross Editora. Fotogramas é seu livro de estreia e integra a Coleção Patuscada, premiada pelo ProAC- 2012 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.

 

 

 

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89ª Leva - 03/2014 90ª Leva - 04/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Marcelo Ariel

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcelo Ariel nasceu em Santos, em 1968, e vive em Cubatão. É poeta e pensador. Autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados’ (LetraSelvagem), ‘Conversas com Emily Dickinson e outros poemas’ (Multifoco), ‘Cosmogramas’ (Rubra Cartoneira), ‘A Segunda Morte de Herberto Helder’ (21 Gramas), entre outros. Lança em breve seu décimo livro de poesia, ‘Retornaremos das Cinzas para sonhar com o silêncio’, pela Editora Patuá. É colunista dos sites Cinezen e Musa Rara, e um dos editores da Revista Mallarmargens.

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética II

Caco Pontes

 

Foto: Ozias Filho

 

Clarividência virtual

 

lê-se tarot pelo skype
baixa entidade via download
..cura vírus na força do pensamento
trazacurtidapostadaemsetesegundos
faz amarração no perfil da celebridade
….(de qualquer lugar do mundo)

 

 

***

 

 

se é sina
elucubrar
a sintaxe
é o máximo
que´se possa´
alcançar

(desafiando a gramática
uma vez necessário)

 

 

***

 

 

De repente
notou
a pintura
que seria
o céu
não fossem
tantos
pensamentos

 

 

***

 

 

ascender às alturas
e vez por outra
visitar os grotões

 

 

***

 

 

Para que tanta polícia, meu Deus, pergunta minha alma.
Porém meu juízo
não pergunta nada.

 

 

***

 

 

amor
não dá
assim
sem
com
paixão

 

 

***

 

 

romance pós-moderno
(ou amandhum vitae)

pra se envolver
nos tempos atuaes
é tudo uma questão
de gênero

antes trans
do que poli
saturados

 

 

***

 

 

oceanos de distância
pelas diferenças
– trocando torpedos
no mesmo ambiente –
teleguiados carregados
em mensagens
de texto

 

 

***

 

 

Não precisa fiador

poesia
é o aluguel da vida

e quando tiver cansado
da especulação imobiliária

basta se tornar proprietário
de uma obra
literária

 

 

***

 

 

o maior inimigo
mora do lado
(de dentro)

 

Caco Pontes é poeta e multiartista. Integrante do Coletivo Poesia Maloqueirista, autor de diversos livretos artesanais e dos livros “O incrível acordo entre o silêncio & o alter ego” e “Sensacionalíssimo”, além de ter textos traduzidos para espanhol e catalão. Recentemente fez curadoria e mediação do evento de abertura da Mostra Tuiteratura, no Sesc Santo Amaro, e do ciclo Epivanias. Pesquisa a palavra nas performances oral, corporal, visual, sonora e musical. 

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ana Peluso

 

Foto: Ozias Filho

 

Narrar os pequenos acontecimentos do dia
uma lâmpada que queimou
um conceito lógico sobre a fofoca
cheiros e temperos
a salvação da humanidade
se um novo mar abriu
-se em óleo
os erros mais comuns da ortografia
se os pássaros aprenderão a fugir
se a ciência chega a tempo
se virão tropas de choque
e colidirão imagens sobre todas as cabeças
o ouro das imagens sobre as cabeças

em um dia comum de pequenos acontecimentos
homens negociam
ideias de enriquecimento

homens como novelos
de uma lã tão tosca

 

 

***

 

 

Muros gelados
como aqueles que separam almas
muros gelados
na polônia gelada
na pelada gelônia
no meio de auxivitiz
no meio de nothingtrix
no meio do nazix
morto – ?
ora, não nos condene por perceber

 

 

***

 

 

Não fiz as unhas esta semana
gastei-as
percorrendo teclas eternas
formulando perguntas
serrei-as
clicando em cores
formatando
a métrica
da ideia
da busca
de soluções

montei estruturas sem luxo
anéis de saturno
circulares
paralelos
em eterno movimento
olhei-as buscando a palavra
o sentido exato
risquei a pele
na ânsia por respostas

apoiei-as na língua
entre os dentes
e meu olhar se congelou num ponto
o limite

indignada, cortei uma delas
com uma mordida

 

 

***

 

 

Refém do primeiro verso
a palavra não encontra mais caminho
verbo
não concretiza mais destino
ponto
não aborda reticências
vírgula
não carrega interjeições

não há sujeito
nem provas que houve
o artigo não define mais nada
ou indefine

metáforas
métricas
rimas
elipses
são só dores fantasma

estrofe perdeu a língua
ninguém cogita resgate

 

 

***

 

 

A incapacidade de compreender o furacão
quando falta o ar
e a devastação é a respiração da terra

 

 

***

 

 

Fizeram do poeta uma estátua
parada na orla de uma cidade
que não é Itabira

fizeram do poeta uma pedra
parada numa rua
que não é um caminho
fizeram do poeta um ser calado
como sempre fora
e sozinho

agora repouso metamórfico
metálico
de partículas filosóficas do ar
que o rodeia

ele não ri nem de soslaio
antes odeia

 

 

***

 

 

Intergentes falais
por códigos análogos
semiólogos espiais
pela espinha e sob o dorso
do dragão
a curvatura de um código-fonte
subdesenvolvido para ser manipulado
num grande laboratório de códigos-fonte

epistemólogos e matemáticos decifrais
se o movimento
qualquer movimento
é concebido a priori
se for
e de fato parece ser,
juristas compadecei-vos
das inúmeras rédeas sem dono
que constam nos autos

e
poetas
afundais
porque já é ávida
e movediça
a lavra da palavra
cuja grafia começou
ontem

 

Autora do livro 70 poemas, Ana Peluso, 1966, abandonou Letras e Psicologia pelo Desenho Publicitário. Não deu certo. Aos treze anos sonhava ser Alquimista. Aos cinco, Bailarina, Pianista, Pintora. Aos sete, Professora. Costumava reescrever Novelas mentalmente. Livros, jamais. Catalogava Folhas colhidas na Rua. Esculpia Bonecos em borracha, Papel e batata. Imaginava um mundo feito de Palitos de Fósforo. Escrevia Diários. Hoje faz Sites em html1, retrô-total. Sempre foi Pisciana, só Parece que não. O livro 70 poemas integra a Coleção Patuscada, premiada com o ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Vagner Muniz

 

Foto: Ozias Filho

 

SERENIDADE

 

Algo de água no ar
uma suspeita Na pele

das coisas a busca de marcas
em contraluz, de sombras
(a face escura da ínfima gota)
a mão pela janela: o que não se vê

Respira-se água o vento
(vivência primeva de peixe)

Chuva-não
vem.

 

 

***

 

 

MERGULHO

 

Bicho pequeno lambendo
água na margem
Um gole e o gesto rápido (a fuga)
um gole um gesto mudo (tanto medo)
E um e outro se muito Apenas
a leões dá-se o direito
de enfiar a língua.

 

 

***

 

 

A CAUSA DO TEMPO

 

O tempo para
fazer-se presente
veste e reveste
as paredes da casa

O tempo para
ocupar um espaço
investe-se
nas paredes da casa

O tempo para
fazer-se vivente
(e não ser para sempre)
ergue paredes em si
para morrer pela causa.

 

 

***

 

 

ÚLTIMO SOPRO

 

Então ao tom da flauta a flor se abriu:
era de o som escoar pela pele de pétala
– Gélida pele da pétala
(repete em trote um eco)

Mínima breve
pétala ao pulso de lâmina –
grave (é um corte)
Do alto da pauta
o hálito alisava cílios, pálpebras
Cerrados
Vê de perto ao rés da pele os sinos.

 

 

***

 

 

DESAGUAR

 

para Miguel

Plantado por ele
fosse a terra
antes uma água

água em ondas
braço de mar, do pai
um mar, o maior de todos

Defluente
a vida à sua margem
não nadei de peito

(monstros marinhos
à espreita sob espumas
dos meus olhos)

E hoje manso meu mar
mais lento o pulso
anoitece

as águas
mais deitadas
quase um rio

(ainda vejo a linha
onde a onda nasce:
no espelho d’água, um mar acima)

Rebento enfim mergulho
além da linha, mais ao fundo
antes tarde.

 

Vagner Muniz (São Paulo – SP) é poeta, designer e professor universitário. Tem poemas publicados na Germina – Revista de Literatura e Arte, no Portal Cronópios – Literatura Contemporânea Brasileira e na Mallarmargens – Revista de Poesia e Arte Contemporânea.

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Tadeu Renato

 

Foto: Ozias Filho

 

Alêntodo

 

o poema não
esconde
………..nem responde
se depois da vida
põem-se as dúvidas

não clama no claro da noite
o aro ralo da lua
……..relendo as ruas da cidade
cala os verbos diante
das cortantes realidades da
………………fala

o poema entre
tanto
atormenta de espanto
……….todo momento de trevas
e faz de sua glória
um atrevimento

 

 

***

 

 

Salivaginádegas

 

um pássaro-poema passa
da minha
para
sua língua, com alívio
de saliva

voa entre dentes
seios dedos
bate asas na vagina

com instinto cor de vinho
resplandece a flor
que faz
num instante
este seu cultor
esquecer o fim de tudo

 

 

***

 

 

Das obras

 

No canteiro de obras,
as flores que brotam são flores de pedras.
Nem tanto, nem flores:
espelhos e torres que riscam e impedem
e perdem-se as linhas
e as vilas e as ilhas que são as pessoas.

Levanta a montanha
na manhã das pontes
– no horizonte, o sol vem à tona.
Migalhas de sim e de não,
minha mãe, seus irmãos,
desconhecida gente
descendo à cidade:
de todas as partes
vem trabalhadores
e pombas e graças
e atores de praça e a fome tropeça
pé de maravilha

A força do espanto
(mareja suor
da máquina-mundo)
pergunta e segreda:
será um bom dia?

 

 

***

 

 

Corte Certo

 

senhor impostor: sei que tem
andado por aí
dormido com minha mulher
usando o nome que tive
tomando benção de vó
corrido com os cães:
canalha

aproveite a morada
no corpo que não te presente

não demora nada
outro ocupa seu lugar
despedaça seus membros
sem tempo de se despir
aluga os amigos
imposta a voz navegante:

navalha

 

 

***

 

 

Legenda

 

ainda é insuficiente
dizer
palavras nos colecionam
sustentam toda estrutura
no caos das horas

revela pouco mais que nada
o trabalho transformando
pedra em casa
casa em lar
lar em vida
vida em morte

o tempo que passamos ocupando
mais cala
quanto mais
………fala

quase o quê
é essência ou criação
no que somos?

desde os primatas
até a hora passada
carregada de lendas e teses

nada serve de legenda
para esta tarde em que fervem
esta chama sem nome
estes sons pela casa
nossos corpos na cama
sob a luz deste sábado

 

Tadeu Renato (1981) é formado em Filosofia. Professor, compositor e contista. Tem palavras escritas, cantadas e faladas por aí. Dramaturgo do Coletivo Quizumba, entre outros grupos. Seu primeiro livro,  Alêntodo (letras para melodias corporais),  será publicado em 2014.

 

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Danilo Gusmão

 

Ilustração: Vera Lluch

 

sol

 

– não sei vocês,
porque cada um tem seu destino,
mas eu que sou pobre e sou fraco
não consegui viver em são-paulo
Antônio Estrela
(contador de vida e morador de Ribeirão de Areia)

 

num dia quente
desse inverno

sobrevivendo
sem descanso
na cidade
à revelia

dou graças
(coagido)
à sombra
que os prédios
………..simulam
impunes

…………….e dela
…………………..me desvio
(de olhos semiabertos)

 

 

***

 

 

cavalo solto

 

a passear o peito de quem ama
Carlos Drummond de Andrade

 

meus poemas, os dos outros,
especialmente os de
amor que lhe dedico
nunca servirão de nada
não provocarão um suspiro
só que seja

e você nem vai lembrar
do que eles dizem

porque
por mais
….que eu creia
assim,
………deste modo tão secreto,
….que um poema
……………possa
………..carregar amor

o amor, esse asceta
……………………….,
..não se locomove
 …………….por essas
…………e nem
 ……………..pelas
………………………..mais frias
…………e férreas
 …………………..maquinarias humanas

 

 

***

 

 

mandíbula

 

vou me sentar aqui
nesses cacos de vidro
nesse tapete de lanças

e esperar que a
pele endureça
que a carne
envelheça

a tal ponto que
nada penetre
que a língua
amorteça

e sua tinta
– a de minha
única caneta –
jorre
na atmosfera

esquivando-se
dos significados
dos nomes
dos quais padeça

e comunique

até que cometa
o crime negro
de adentrar
esses pulmões à volta
veia a veia

gerando insuficiência
(respiratória, cardíaca, horária)
………………………….temporária
e necessidade
de se sentar
aqui ao lado
para descansar
em silêncio

até que não haja desejo
que os verbetes
…………se esfacelem
que as verdades
…….se confessem
que as ideias
………….. se enraízem

e todas as coisas,
…………..sem saída,
….tenham que renascer

 

 

Autor do livro Contíguo, Danilo Gusmão nasceu em Limeira-SP, em 1990. Vive em São Paulo desde 2009 e cursa Letras na USP. Seus textos estão no blog Poemismo, o qual mantém ativo como principal via de publicação autoral até os dias atuais. É um dos integrantes e idealizadores do coletivo A Mandíbula, com o qual disponibiliza seus textos e os de outros autores em revista, blog e intervenções urbanas.