Categorias
85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Marcantonio

 

Arte: Julia Debasse

ATIVIDADE INTERNA

Há tanto dentro de ti
que não queres conhecer:
flores semi-enterradas
na tua aridez íntima
que não se dão
à carícia afásica dos teus dedos.

Há também um sol tresnoitando
que bronzeia a película das tuas veias,
e do qual não podes suspeitar
na tez pálida das tuas palavras.

Há um regato de vontades
onde peixes desmedidos nadam
– forçosamente anfíbios.

Há uma garça escura
em pé sobre teus intestinos
que bica o fundo dos teus olhos
tão logo comeces a ignorar a luz.

Há muito trabalho no teu interior,
polias, rolamentos e roldanas incansáveis.

Há sim uma oficina que quer abrir fendas
no sono eterno,
que faz hora-extra enquanto tu engendras
dicionários
sem saber que o que te obceca
é a palavra morte,
esse ramo da noite
que carregas durante o dia.

 

 

***

 

 

PLANAR E POUSAR

 

1 – Pluma

Os dedos trêmulos não conseguem pinçar a pluma,
Mordiscam o vazio, estrangulam a cápsula translúcida
Sem constância.

Nem os olhos conseguem acompanhar os espasmos fugidios
Da ciliada fração de asa, tão branca ocorrência de ignorância
Taxionômica.

Ó pluma randômica, em que esquina de voo poderias escapar
Da ideia de pássaro que te aprisiona?

 

2 – Osso

Em vão os dedos intentam escapes diagonais:
Não haverá força centrífuga
Que sagre as falanges distais
Em pterodátilas.
A qualquer quiromancia verruma a artrose
E o vento arrefece nas vias descencionais.

É para o chão que o osso ruma
A despeito da aérea gnose:
Calcifica-se a pluma.

 

3 – Pouso

O pensamento plumiforme
Não poderá tornar às asas
Do livrepássaro:
Perde impulso,
Pousa palavra,
Falta-lhe espaço.

 

 

***

 

 

MESQUINHEZ

 

Eu amesquinho as tuas asas
Enquanto ejeto os meus temores.
Assim, eu mesmo me torno mesquinho
E verto um vinho que não beberia,
Vinho acre de volume amazônico.

Nas vielas em que me vejo
Comigo mesmo não cruzaria
Se fora antes advertido:
É que estou vindo esse ser soturno
Com as mãos nos bolsos sempre.
Quem me garante que não trago
Neles escondida uma navalha
Para me desfigurar o rosto?

Ao menos sei que me avizinho,
E tenho um átimo de segundo
Para evitar a minha má companhia
Em sua descida aos subterrâneos.

 

 

 

***

 

 

ANGÚSTIA

 

Não há recorte no vazio
que espere pela palavra
como o desdentado espera
a prótese que o faça esquecer
dos dentes naturais;
ou como um sorriso sombrio
de bueiro aguarda uma tampa;
ou como uma tomada fêmea
aguarda os pinos;
ou como uma algema aguarda
os pulsos;
ou como uma sequência aguarda
um número;
ou como a casa do punho da camisa
aguarda o botão;
ou como um rolamento aguarda
uma bilha.

A palavra cai num largo vazio,
como uma pedra num cânion,
como na luz difusa do mundo
um parto.

Ou cai num meio fluido
(continente transparente, já ocupado)
qual um comprimido efervescente
no Atlântico:

não é dela a espuma  que vaza na orla
nem o som das ondas é o seu chiado.

 

 

(Marcantonio, natural do Rio de Janeiro, é artista plástico e poeta (ainda não editado em livro). Reside atualmente em João Pessoa. Escreve nos blogs Diário Extrovertido e O Azul Temporário. Seus trabalhos em artes plásticas podem ser vistos no blog-portfólio Cadernos de Arte)

 

 

Categorias
85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

João Filho

 

Arte: Julia Debasse

 

 

 

NITIDEZ SUBMERSA


Nos sapatos confortáveis
um pouco velhos e gastos
a fuligem das cidades
redesenha o seu mapa.

Não me venham com saudades,
sombras, vultos e fantasmas,
o peso e a profundidade
das coisas não nos sufocam.

Dos caminhos caminhados
— avenidas, becos, praças —
multidões tumultuosas
na fuligem dos sapatos.

Pó do mundo respirado
em seu tédio corrosivo,
não escapam os voos altos
das naves mais arrojadas.

Na verdade, nada escapa.
É preciso a cada istmo
contra essa névoa cegante
renovar o gesto limpo,

porém não lave os sapatos,
não porque registre tantos
itinerários, andanças,
mil labirintos urbanos, a

fuligem aí pousada,
cartografia amorosa,
indica veios, filões
dessa nitidez submersa.

Alargue as tuas pupilas:
paciência ao inspecionar
cada trecho dessas nódoas;
nos interstícios, estrias,

nas grafias do diáfano,
se entrevê pela fuligem
a clara sustentação
dos fios frágeis do mundo.

 

 

***

 

 

SALVADOR, 1996-2013

 

Dos acidentes que a modelam
em luz e sal, essas escarpas
são os desenhos que mais pesam,
a vida em queda dos sem mapa.

Ali do alto, que é abrupto,
a cidade é curva contínua,
sinuosidade negativa,
abre-se em praias e ravinas.

Disseram gorda em seu amplexo,
digo salitre, vento Atlântico:
salga e apodrece em paradoxo.
Aqui se canta um velho cântico:

lá no São Bento, anjos mulatos;
em toda cúpula e pilastra
pesam arcanos e Evangelhos,
da vida menos a mais vasta.

No Santo Antônio Além do Carmo
o casario nada ensina;
sim, a não ser o som amargo
do que ruindo contamina.

Tudo externado? Não o âmago,
por isso engana quem a vê
cidade-entrega, as cores gritam
em cada esquina o seu não ter.

A precisão só vem de cima —
luz em ladeiras, luz marinha,
a luz em flor, a que combina
a dor do nu, o mel da vinha.

 

 

***

 

 

Para José Luís Franco

 

Esteve aqui, durante a tarde e nunca mais…
E lenta, lentamente, sua ausência cresce.

Mais uma. Porém, perdas não são sempre iguais,
e o tempo, irmão, nem tudo amadurece.

Dói e assusta qualquer resquício de presença,
falta é peso e não vácuo e silêncio,

pois arrastamos nossa carga imensa
nesta margem extrema que nos vence, e o

que temos e tocamos é tal solidão,
e mesmo as coisas mais amadas são amargas:

os valores sem níquel perdidos ou não:
dedicatórias, fotos, versos, as recargas

da memória tão vária na mesmice.
A carne arde só e não há lágrima

para dessedentá-la. Luz franca sem lástima.
No travo dos adeuses fica o que eu não disse.

 

 

***

 

 

DIDÁTICA

 

O áspero poema? Não mais quero.
O inviável abismo? Já descri.
Foi com inabalável esmero
que duramente me persegui.

Se tudo é insuficiente, espero.
O instante vence o tédio, senti.
Se a valsa mudou-se em bolero,
o ritmo pouco importa, vivi.

Pelo tropeço suavizei o passo.
Seu corpo é o sentido que devasso
devagar, como quem respira.

Gota que se equilibra suspensa —
a vida. Mínima que é imensa,
quando pensa que é real, delira.

 

 

***

 

 

LUZ PRIMEIRA

 

É possível que tão inquieto quanto este,
menos o acúmulo de desacertos de sua rota,
mais o céu primevo
e o azul bruto.
É provável que já fosse isto,
porém tosco a palmilhar seu sentido
e se assombrasse de estar desperto na disposição geral de tudo;
melhor não, nem mais puro,
não isso,
talvez intactos alguns caminhos,
e a relva e as águas e os bichos
fossem realmente mais livres.
A luz primeira veio com o primeiro grito,
e o invisível foi o medo mais duro,
porque o visto era em sua metade crível;
ao perceber que negar não era resolver,
a morte
foi o mistério mais agudo.

 

 

(João Filho nasceu em 1975, em Bom Jesus da Lapa/BA. Participou de algumas antologias, dentre elas: Contos sobre tela, Editora Pinakotheke, 2005, Brasil; Terriblemente felices. Nueva narrativa brasileña, Emecé Editores, 2007, Argentina; Travessias singulares – Pais e filhos, Casarão do Verbo, 2008, Brasil; Geração Zero Zero, fricções em rede, Língua Geral, 2011, Brasil; Popcorn unterm Zuckerhut, Verlag Klaus Wagenbach, 2013, Alemanha. Publicou Encarniçado, contos, Editora Baleia, 2004; Três sibilas, poesia, Dulcinéia Catadora, 2008, e Ao longo da linha amarela, contos, P55, 2009)

 

 

 

Categorias
85ª Leva - 11/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Gustavo Petter

 

Arte: Julia Debasse

 

 

biografia autorizada de um bom garoto:

não fora menino monossilábico
não guardava cigarros no quarto
não fora à feira do livro
de porto alegre com dez
reais mais grana do metrô
e comprou henry miller
castañeda kafka
marquês de sade

não bebeu as lágrimas
da garota  de jeans
& camiseta dos ramones
não permanecia no vagão
para ouvir jazz
e o ritmo dos trilhos
não encenava suicídios
fora o melhor atleta da turma
não contemplava tempestades

imagens como: naufrágio aceso
rumor dos ossos, vestir
as vísceras do primeiro amor
não o excitavam

de fato
o olhar é doce
e estrangeiro nos retratos.

 

 

***

 

Acesa como girassol de van gogh, no princípio. Incidindo sobre mesa e livros. Pétalas em chamas e aroma luminoso. São tantas formas de atear cores quentes à sobriedade do quarto: cortar os pulsos, acender um cigarro, pintar os lábios, descascar uma laranja, adotar um gato amarelo de olhos cintilantes. A mais simples: reatar o ciclo e substituir as flores do vaso. Se cultivasse diários, lembraria o momento exato em que julguei cruel tal rotina. O passado recente ainda recende seu sangue.

 

 

***

 

 

meu delírio pulsa
onde despencam
cadáveres de borboleta

onde poesia
se celebra
com orgia ritual:
homens e palavras
se fecundam.

fera miraculosa
vomita o caminho
desde que enterrei
nos olhos
o mapa de pasárgada.

 

 

***

 

 

Mergulhas
em águas escuras.

Metade oculta
outra flutua
em meus olhos.
Corpo lunar.

Disse que o frio
são agulhas.
Permito ao delírio
raie sol.
Então,
réptil imóvel
te aqueces.

Não há musa
anadiômena.
Tudo é linguagem.
Há Botticelli e Rimbaud.
Há signos e rumor
nas palavras
& frag
me
nta
das
Visões.

 

 

***

 

 

Os dentes de eva
rompem com rumor
o rubro verniz.
Entoam o gozo
compasso ritual.

Sustente o ritmo
famélica eva
tua língua navalha
navega meus olhos
de um lado a outro.

Caninos agudos
transpassam o fruto.
Colha minha órbita
o ovo das Visões
encene os delírios.
Baile com Bataille
o último tango.

À porta do paraíso
uiva um cão andaluz.

 

 

(Sou Gustavo Petter, nasci em 1984. Moro em Araçatuba/SP. Para mim signos eróticos e obscenos, anti-religiosos, meta-poéticos e associações livres coabitam com a materialidade da palavra e uma contemplação oriental no corpo do poema. O poema não admite policiamentos morais, estéticos. A liberdade possível é a linguagem)

 

 

Categorias
85ª Leva - 11/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Mar Becker

 

Arte: Julia Debasse

 

PERSÉFONE – I

 

penso na mulher que é inacessível como uma estrela de  sal.   um
cálice, uma chaga em backing vocals  no cair das horas.  penso na
mulher que pensa na palavra, e a palavra então se faz  aos poucos
nas bocas das demais mulheres: e a palavra se faz, com a matéria
das flores sonâmbulas e do marfim.

 

 

PERSÉFONE – II

 

sonho ou assédio
lunar,

meninas que se desgarram de si mesmas,

meninas que flutuam como abajures mortuários em torno das bonecas. depois se abaixam para beijá-las na testa e imantar seus corpinhos de pano com relâmpagos.

*

meninas que não falam, magras,
inacessíveis,

tantas meninas, e são altas, e cheiram a algodão e lágrimas.

nos cabelos um nevoeiro de teias de aranha. na pele os sinais em sete eclipses: lua ilícita, lisérgica. a sombra no púbis, no ânus, nos covis das axilas. uma única e mesma noite atravessa os séculos pela boca das mães até a boca das meninas,

e das meninas às bonecas,

num processo difícil de perpetuação
da fome.

 

 

***

 

 

porque eu te amo

desenho teu rosto como abertura, milagre
qualquer dessas coisas que têm precisamente a ver
com o mar, a noite
o pássaro

porque de fato não caberia desenhar teu rosto como desenho
porque eu te amo

uma abertura
um parapeito de sons de sinos sutis
uma palavra com vista
para o mar, à noite

ou para isto que é precisamente o corpo de aléns
do pássaro

da travessia do sangue

teu rosto em teu rosto, apenas
meu amor

 

 

***

 

 

“para domenico a. coiro”

 

além da pele

a palavra

além da palavra

o poema

assim ela entra em tua respiração

em teus modos de ser prenúncio e desvio

para o fogo

o fim e o início: além

polifônica, viva

mulher-pássaro

pele-palavra-poema

o sangue em tuas noites incendiárias

assim: e sobe, enfim

indefinidamente

 

 

***

 

 

[HÁ PALAVRAS…]

 

há palavras para as quais
não há palavras

não se pode vê-las a olho nu, vivas
não se pode atravessar
turvar
o espelho

são
nenhuma
numa

e tantas

e se perdem de si mesmas

todas as palavras-luas virgens como pele: pálidas
à parte do que digo
do que dizes

refletidas
impelidas pelo desejo

da boca
na boca

 

 

***

 

 

[COMEÇARIA DIZENDO…]

 

começaria dizendo o que não posso

que teus suores formam hieróglifos de sal na pele
e que um rosário misterioso se enrola a teus pulsos quando me amas

começaria dizendo que tua respiração tem vista para o mar
e que à noite me debruço ali, silenciosamente

meus cabelos de água-viva
minha língua de virgem
madrepérola

e que à noite

e que me debruço e morro
em tua respiração

 

(Marceli Andresa Becker é formada em Filosofia pela UPF, cursa Especialização em Epistemologia e Metafísica na UFFS e trabalha como professora. Mantém o blog De Ter de Onde se Ir)

 

 

Categorias
84ª Leva - 10/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alexandre Bonafim

 

Foto: Jussara Almstadter

 

I

Estou na iminência do ser.
A existência de tudo calou-se em mim.
No além dos pensamentos,
fecundei-me na nudez dos sonhos.
Agora sou límpido como céu
despido de nuvens. Por isso inicio-me
onde germina o voo dos pássaros.

 

 

***

 

 

II

Calei, em mim, a fúria dos acasos.
Estou predestinado a amanhecer
pássaros em toda palavra.
Por isso há sempre uma quietude
de ninhos sobre o meu abandono.

 

 

***

 

 

III

Um unicórnio de levíssimos acordes
pousou sobre o meu derradeiro sonho.
Sua crina de harpa, suas asas de sopro
acordaram-me no coração de todo fascínio.
Por isso meus olhos percebem o mundo
como uma oração secretamente murmurada.

 

 

***

 

 

IV

A sombra dos pássaros
sabe de cor o gosto do meu nome.

Quando alguém me chama,
nascem, do meu silêncio,
frondosas árvores
e um perfume de inéditos mistérios.

O meu nome tem a calmaria
dos ninhos desabitados.

 

 

***

 

 

V

Com tanta intensidade
latejam, vertiginosos,
os meus pulsos,
que a existência do universo
dissolve-se, inteira, no meu sangue.

Todo o girar da terra,
o crepitar dos astros,
o canto dos pássaros
não vibram com mais
ardor e arroubo
que os meus pulsos abertos
em vivo êxtase e esplendor.

 

 

(Alexandre Bonafim é poeta, contista e ensaísta. Nasceu em Belo Horizonte, mas passou a maior parte da vida pelas terras do estado de São Paulo. É professor de literaturas de língua portuguesa da Universidade Estadual de Goiás. É eternamente mineiro em exílio, mineiro nas raízes da vida. Recentemente, lançou seu mais novo rebento: o livro de poemas “O secreto nome do sol” (Editora Patuá))

 

 

 

Categorias
84ª Leva - 10/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Nuno Rau

 

Foto: Jussara Almstadter

 

NOTA MARGINAL 37.

 

Instantes de maravilha que você captura, vertiginosas
lâminas de tempo em suas mãos, você não sabe o que fazer, seu dia
se perde no lixão que vaza dos calendários, cemitérios
de dejetos, ferros-velhos – mas a História
não acabou, nem a sua, se debatendo contra a pedra
(particular, intransferível) que obtura o peito
opresso sob a chuva fina e ácida do pensamento. Pensar,
pensar com os olhos
frios, enquanto na retina
se inaugura o caminho novo sob os mesmos

 

 

***

 

 

escrito sobre o corpo

 

leia se puder
o que segue escrito na carne dos dias
são signos sobre signos sobre signos
soterrando a possibilidade do sentido
mas leia
se puder arrancar o que lhe diz respeito
se puder arrancar a luz da floresta
de símbolos
se puder arrancar das linhas do fundo
escuro deste labirinto
desenhado nas dobras do corpo

não
você não
pode

 

 

***

 

 

NOTA MARGINAL 51.

 

Difícil acreditar na luz, ela
não é mais que outro lado
da treva: e mais que duvidar, você suborna
o coração com lances baratos, em surdina, até
que a iridescência perca sua autonomia,
em ciclos declinantes, sucessivos, como um prazer
ao contrário, bruto, até o chão. Deserto é tanto
o que sobrou quanto
o que estava antes, coalhado
de abismos escavados na planura. ‘Quem foi
que ergueu esta montanha aqui?’, ele disse quando galgou
ao cume, diante
da miragem do absoluto, o riso
apontando para onde o coração (‘deviam
inventar um nome melhor
pra estas deformações’, ela disse, ‘que se assemelham muito
a florações’) insiste
em construir cenários
imprevisíveis, andando rente,
tentando descobrir porque miragens nunca
reencarnam.

 

 

***

 

 

NOTA MARGINAL 54.

 

Curvar-se até o chão, diante
da inocência, ou mais além do pavimento
duro, se fosse tão gasosa assim
a matéria da alma que num ponto
nunca definido arranca um grito
ao ar quando atravessa os tais
dos campos vastos, triscando as balizas do tempo, lentamente
fingindo obedecer a relógios,
e neste empuxo
despenha-se junto a dias e promessas
só para aumentar os escombros e o monturo
a seus pés.

 

 

***

 

 

Daqui

 

a âncora é o corpo, o fundo
não se sabe Morto pela água
das décadas o Homem
-Aranha considera riscar
na areia fina com a ponta
em riste da última fratura
exposta o seu poema
mais abissal: vês? Ninguém

 

(Nuno Rau é poeta, letrista, carioca e leitor. Também é professor da Escola de Belas Artes da UFRJ. Bloga em As Musas Pós-Modernas.  Email: nuno.rau@gmail.com)

 

 

Categorias
84ª Leva - 10/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carolina Caetano

 

Foto: Jussara Almstadter

 

Sou um homem vário
embora nem me possa homem chamar
pelas veias tão finas sob a pele que correm
clara, de penugem alguma
e o ventre mole, de um buraco vasto
para a vida

Sou um homem dum bem
amiúde governado, sou um homem casto
de olhos grandes calados assentados
num ponto ameno, sem água, bicas
sou um homem adestrado, pasmado, sadio
de corpo, almas tardias, sede alguma desde a partida
da voz pela boca
que calou-se, cessou, tem preguiça

Sou um gênio bravo
embora assim não me possam dizer
pois mesmo uma parca rolinha, moribunda, arredia
pudesse-me estar ao lugar e chamar-se de homem
de gênio bravo, com as almas tardias
e os olhos salgados, atravessados
do labor prescrito pelo pão, pelo domingo
eterno que espera
o próximo dia

Sou um homem bruto, arrastado, guardado
como os sumos venenosos em perene trancados
sob o corpo da língua
sem hora para isto, sem o dia daquilo
ou ao menos a roupa secando a esperar-me
nos porvires,
nas avenidas, sou um homem cego, esfregando as antenas às paredes da ida
diária, cegamente sabida

Sou um homem salvo, longo, temperado
levado ao brando fogo da feitura abusiva e serena
pelos donos da vida, desta, daquela, dos nomes das ruas
adormecidas
sou um homem chamado de homem sem que assim possa um deus conceber
sem o sangue largo, desde os dias repetidos em que as palavras ainda infantes foram-me os
[homens levando
amiúde e sem anunciada justa piedosa partida
sou um homem  acertado
com as contas das horas, invisíveis e brancas, são os olhos talvez sou um homem
construído e estourado na noite
reavido e adestrado no dia
sou um homem arcado, cercado, dormente
embora não mos possam levar
os bicos vermelhos dos seios, rijos, eriçados
ao roçar qualquer da primeira brisa

 

 

***

 

 

somente vogais são palavras
aproxima-se um lento rebanho
mudos dentes, palato, tratasse
dist’então minh’então desventura,
mas nem tão se carregam sozinhas
quanto em só já pertençam-se suas

levantam-se pororocas
e delas, abluídas,
emergem vogais despidas
a soar como quem se acorda

eis a só sinonímia possível
quando trota o rebanho em plurais
trotem cais, trotem sais, restam ai
nasçam ai, cresçam ai, morram ai
comam ai, corram ai, riam ai
os mares salgados ai,
veleiros atracam ai

não engole – dizem – tua saliva
de vogal não passa tua palavra
aproxima o rebanho baboso
e à boca encharcada se engorda
trotem sais, trotem cais restam ai
os mares salgados ai
veleiros atracam ai.

 

 

***

 

 

coceira no canto da manhã

 

também não é preciso saber se estamos felizes
temos um navio em cada mão
já é um costume o que era prodígio
em tê-los
o fato é que o casco se colide há tanto tempo contra a água (a mesma, dizemos) que um dia a manhã se torna filha de nossas mãos
ou o mar
ou o caminho impossível da linguagem despiu isto, e é tão, meu deus, como é claro, faz-nos pensar
como papai é um brincalhão, e engraçado, olha o que ele fez!
mas papai sempre esteve morto, e o papai a quem chamávamos Docéu nunca teve exatamente um cheiro característico ou masculino sobre o qual jamais precisássemos esforçar para crer
já mamãe cheira demasiadamente onde está.
Daí o caminho impossível do idioma (ainda a voz) despe isto, tão compreensível quanto fora claro e, meu deus, nossos navios se fundem com as mãos e a manhã torna-se filha dum estranho invisível
que despe-se para nós
Então nós cobrimos os nossos olhos com a pele para dormir
precisamente onde oscilam navios, grandes navios ou leves, como é claro
tanto quanto fora compreensível
e talvez apenas o pecado dalgumas palavras tenha nos acometido
subscrito no caminho impossível das carnes e dos ossos
precisamente onde os navios nunca tiveram pronde ir
e ficam salvos.
Para dormir.

 

 

 (Carolina Suriani Caetano, nascida em oito de setembro de mil novecentos e oitenta e nove. Uberaba. Minas Gerais. Serrado)

 


 

Categorias
84ª Leva - 10/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Assis Freitas

 

Foto: Jussara Almstadter

 

Sob a fina caligrafia de um blues

 

quem não se sabe dor
é matéria rara
se achegam os espinhos
das rosas do caminho
acodem os açoites
do limo de tanta noite

quem não se sabe dor
é matéria rara
assim se percebem olhos
no avesso das lâminas
como mancha, nódoa
quem vive cego em anelos

 

 

***

 

 

Suíte burlesca para um diálogo com a ausência

 

foste tu nesta distância de muitos quilômetros
a ilha, a quimera, o oásis, pasárgada dos dias
a cotovia desavisada que insinuou a primavera
foste tu que me impuseste silêncio e ausência
nesta seara de corpo que se move em frêmitos
no olho arredio que já se despediu das estrelas
foste tu, este eterno assovio em minhas retinas
a mão que agitou o delicado trovão da espera

 

 

***

 

 

Nenhum silêncio vaza do relâmpago

 

Tudo se perde neste ermo
Neste tecido de linguagem
Nada se fixa nas retinas
Nem o ar soprado do lábio

Espaço sem memória
Flecha solta em extravio
Até teu nome se apagou
Na tez da lâmina, por um fio

Tudo se perde neste ermo
O caminho da nuvem em líquen
A consagração do fogo e do cravo
Este turbilhão que emana do raio

p.s. “Sei que estou vivo
entre dois parênteses”

 

 

***

 

 

Sobre a tessitura do sonho e outros desalinhos

 

havia que tecer a palavra
ainda que fosse a última
e nela contivesse o sumo
a essência que foi estrada

havia que tecer a palavra
mesmo que fosse desatino
e nela contivesse o âmago
frio caos: único e palpável

 

 

***

 

 

Ária para voo de asa breve

 

mergulha o silêncio
em meus olhos
e liberta a alma
do pássaro que
se interroga
em minha mão

 

 

***

 

 

Berceuse de náufrago para refúgio de temporal

 

dos olhos quero a dobradura do pranto
o mar desavisado a banhar-me o canto

do peito perquiro naus e refúgio de vela
o feitiço de cordas rugindo em rebuliço

do coração nada posso intuir em prece
há o desvão de sílabas em passo célere

 

 

***

 

 

Improviso para lâminas, pedras e oboés

 

afio nas pedras minhas retinas
fio por fio a coser melancolias

e o fino tecido a que me alinho
flui na imensidão devagarinho

colho nos olhos rios de algaravia
do aturdido caminho sem utopia

 

 

(José de Assis Freitas Filho é poeta, escritor, sociólogo e mestre em Letras (UFBA), nasceu e mora na cidade de Feira de Santana-Ba). Em 1998, publicou o livro de contos O Mapa da Cidade, pela Coleção Flor de Mandacaru do MAC de Feira de Santana. Em 2009, lançou o livro de contos O Ulisses no supermercado como prêmio do concurso CDL de Literatura de Feira de Santana. Em 2012, publicou O ano que Fidel foi excomungado pela Editora Penalux. Lançou, em janeiro de 2013, o livro Poemas de urgência para súbitos desalinhos pela Editora Multifoco. Edita os blogs: Mil e um poemas e Árvore da poesia)


 

 

 

Categorias
84ª Leva - 10/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ehre

 

Foto: Jussara Almstadter

 

verbal life

 

no avesso do dia,
lídice aponta o indicador
e desenha sobre a pele
como tatuagem,
um totem para seu libelo:
ama e ao mesmo tempo

disfarça
esquece
esconde-se
divaga
declina
e cala-se

seu archanjo guarda nos olhos
seis âncoras
e lança uma garrafa
com sete linhas ao centro:
disfarce é a neblina do sujeito
……que esquece
……esconde
……divaga
……declina
.e permanece calado

em seu presente imperfeito
amor é  predicado

 

 

***

 

 

flavors

 

I

entre as paredes de vidro da metrópole, ele tem sempre à mão:
um aparelho de telefone móvel regado a 3G,
um tablet empanado com tela fulll HD de 10 polegadas,
um notebook com o recheio de sete contas em redes sociais
e diria um olhar venusiano, desde a janela de uma estrela,
que ele é um sucesso de interação,
mas o ouvido de uma lagarta estacionado em seu quarto no domingo à tarde
concluiria que ele é sinônimo de solidão avançada

 

II

no subúrbio do mundo, no mural de uma caverna
escreveram um beijo com a ponta afiada de uma pedra

 

 

***

 

 

A A.

 

Os sentidos submersos no copo

O corpo
beijando a calçada como se fosse carne,
mas era líquido.

As talhas abarrotadas…

Agora o milagre
é transformar o vinho.

 

 

***

 

 

linha de voo

 

há uma luz que não é janeiro ou manhã
mas chega entre o fim de tarde e seu ocaso

há uma fé que desafia
………..o chão
………..o muro alto
………..o cansaço
………..gente tem por vocação horizonte

amor anda para trás só antes            do salto

 

 

***

 

 

gardênia

 

A flor violentou o muro
da divisa de pedras que a cercava
Já não temia a estrada vertical
Seus pés
brotando
e dizendo:
Crescer não é ter um número a mais
mas um temor a menos

 

 

(Ehre. Nasceu aos onze meses. Aos nove, ainda não sabia que viver era um mergulho para cima. No tempo que tardou para nascer, colecionou espantos. Muitos deles revelados nas janelas dos poemas. A cada dia aprende que escrever é um mergulho para o fundo)

 

 

 

Categorias
83ª Leva - 09/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Wilson Torres Nanini

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

 

 

boi

 

I

apenas a metafísica
de nossos mitos
explica-nos
– enquanto o boi ergue a cauda
e produz matéria

II

solene,
com mãos transfiguradas,
afago na
(dele) face minha hoje
escassa identidade

III

no meio-dia sem álibi
na meia-noite sem alento
o boi (peso, pelo e poesia
isenta) se indifere pois
intui que plenitude é
– rente ao prazer manufaturado –
deitar-se entre flores
na relva úmida
e lamber apenas
as próprias narinas

 

 

***

 

 

redemunho

                para líria porto

circum-arisco vento célere
– que fico o sigilo do chão de um rio –
em plena empoeirada rua

o sol me cega me sega o sol o sol me seca
o tato e sinto a sede tanta
de um mar interno

e para que meu cerne se reensolare
– poesia não duela afagos
(meço apaziguamentos
peso ausências) –
você me traz alumbrado mar

me relenta me
cataventa

me estende versos em lamparina
adivinhando enfim onde é
mais noite em mim

 

 

***

 

 

anestésico

 

canto andrógino de febre-em-mel
a sereia arisca arpeja
: seu arpão oculto
na vulva

“silêncio me
fronteiriça”
eu esfinge
esquecida da pergunta

beijos
filtrar
com acidentes
as epidemias
até deixá-las
potáveis

enquanto isso
você me
nina

você me
conta
de fadas

 

 

***

 

 

dócil

 

penso gérberas teus
cabelos – cerzir
pudim de leite em pétalas
fotografar o abandono
do olhar de cães caídos da mudança

seios cor e gosto
de arroz-doce
olhos cor de rosa filtram
escurezas – dão de cântaro
relento (ado
cicada febre)

ninar com reza o
precipício sempre prestes –
açude de
assombro e ferrugem

penso paz teu riso
varal com teu vestido
de cambraia ao vento
com um (po)
mar ao fundo

 

 

***

 

 

cor de rosa

 

te dou desdonzelice
o doer que apascenta
algo em ti a um só tempo
noiva e bicho

doer
(pupilas sequestram
o céu o
convertem
em escuridão filtrada)

busco agasalho ou homizio?
vestido querendo
transmutar-se em
pássaros para
adocicar bueiros e óbitos

: a vida de
volvida do
fóssil

 

 

(Wilson Torres Nanini, autor do livro Alcateia (Editora Patuá, 2013), nasceu em 1980, em Poços de Caldas/MG, e vive em Botelhos, Sul de Minas. Participou da Poemantologia da Revista Arraia PajeúBR. Edita o blog Quebrantos, Relances e Abismos ao Relento)