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83ª Leva - 09/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Natacha Santiago

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

 

Contraste entre sábanas

 

A un Escorpión

El dulce dolor de tu mordida
– cepo en mi nuca –
compele a la reflexión de los  motivos
Estocadas recibí en el combate
que me enlazan a tu designio
y hacen brotar manantiales de mi sexo
Repliego posiciones
asumo riesgos  necesarios
accedo al parlamento de tu boca   aún sin palabras
cruce de labios o lenguas
Intercambio de fluidos
reclama      sin condiciones
esta víctima feliz
de tus excesos.

 

 

***

 

 

Oda a tus manos

 

Tus manos son braza de contraste heráldico
que preludian el lúbrico camino
arrebato sensorial sin límite en la puesta
traspasando barreras de tiempo y circunstancia.
En fruta jugosa convierten  la alusión
…..con su virtual  beso   al tacto simultáneo
…..en el feroz centro requerido
Tus manos acarician el crepúsculo
sus huellas perduran al albear
y están aquí en las mías       en la fertilidad del ocio
que las suplantan en segundos  de  ardor
………………………………..cuando  tu  figuración
…………………………………mantenida al borde
………………………………………irradia
…………………………..y   colapsa  el  Universo.

 

 

***

 

 

Una tarde     una vida

 

No asombres ni dudes    si ingenua  confieso
vivencias  fabulosas
espíritu y materia del hombre necesario
persistentes      repercuten
…………..sin él saberlo
como eco en lo insondable.

 

 

***

 

 

Natural demente esplendidez

Por la  Magia  marina

Por no enfermar  enfermo
sufro la locura de la no consumación
como si no existieran la hostia y el cádiz
aquí me aculpo         auto-flagelo
me  fustigo
..(Fetichista acaricio el  papel que tuviste entre tus manos)
¿Con que herramientas desentrañar los absurdos del oráculo?
Resulta  incomprensible tu signo de soledad
pende sobre mi cabeza y la colma bajo formas literales
de lo que debiera ser acción
……………………..(te estoy sintiendo dentro)
Por tu influencia magnética
percibí la necesidad de protección
ante  el sello del contagio espiritual
después       fui cediendo sin decirlo
…………………….(te estoy sintiendo dentro)
la inercia conduce hacia tu magia
te debo múltiples caricias
múltiples atrevimientos y hermetismos
la gravitación universal me lleva a ti
inevitable me derramo
por la sobrenatural convergencia que adivino

 

 

(Nascida em Havana (Cuba), Natacha Santiago é poeta, escritora e professora universitária. Atua também como roteirista de tv e rádio, e produtora cultural. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais com sua poesia, além de integrar publicações em países como Argentina, México, Áustria, Espanha, Peru, entre outros. Vários livros seus ainda permanecem inéditos)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

L. Rafael Nolli

 

 

O elefante

 

o tratador com a cabeça
a b e r t a
não pode explicar
a possível dinâmica da………………FUGA

nada sai de sua boca
senão ……………………………………………………./m i a s m   a/
moscas & frag
……………..men
……………………..tos
……………………..dos dentes……………../marfimanchados/

(sangue sobre o chão pisoteado
[a arena no triunfo do touro
……………ou do toureiro])

um milico emerge na cena
pequeno & inútil
o .38 na mão:

o primeiro disparo
põe fim a ladainha dos cães
e ascende das crianças o berreiro

 

 

 

***

 

 

 

Quebra-cabeça

 

1
Com Super Bonder ®
por de pé o esqueleto da ave:
ofício repleto de ócio –
horas sobre ossos ocos
roídos por secreta mágoa

(o ar e o uso)

Silêncio do bico desgastado pelo canto
O formol roubou o brilho das penas
Largo gesto de asas, premeditado
O olho olha a parede e não vê

Mente quem diz: parece vivo

 

2
Palavra por palavra
para por de pé o poema:
bateia roendo o leito do rio

(o anel & o piercing
– de amores extintos –
resgatados para brilharem
again and again
sobre uma luz cada vez mais fraca)

Palavra por palavra
Para por de pé o poema:
broca em busca da cárie

 

3
Nada de novo no front
as palavras de sempre
sobre nova maquiagem

como mulher de revista pornô
: punheta para photoshop

Nada de novo no front
o poeta se gabando por
descobrir terra já cartografada –

habitada por centenas
milhares de babacas

 

 

 

***

 

 

 

Poema # 2

 

Para Rafael Borges Martins

: impossível sem quebrar uns ossos
talvez alguns golpes de navalha na face
……….(como um imprudente zagueiro
……….ou um barbeiro louco)

: improvável sem queimar algumas casas
talvez algumas pessoas em praça pública
……….(como se fazia em nome de Deus
……….ou de homens alçados a)

: fora de cogitação sem pessoas
talvez algumas que não existam
………(como aquelas dos romances antigos
………ou dos sonhos razoáveis)

: impensável sem amor pela vida
talvez por uma mulher ou por um cão
………(como se vê nos bares à noite
………ou na rua aos sábados)

 

(L. Rafael Nolli nasceu em Araxá, MG, no ano de 1980. Publicou “Memórias à Beira de um Estopim” (JAR Editora, 2005) e “Elefante” (Coletivo Anfisbena, 2012)

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Diego Callazans

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

Orfeu, não chore mais;
não vê que é inútil?
às moiras nada compadece.

os cantos ao silêncio marcham.
as palavras morrem.
os deuses esquecem.

nas flores o sublime é breve.
a criança encurva.
desafina a lira.
o amor é pó.

a voz mais bela dura só um sopro.

às moiras nada compadece,
Orfeu; não chore.

ainda sopram versos.
a arte é viva para além dos ossos.
os deuses recordam.

há palavras que claudicam,
mas distante é a noite
e o sol, se lhe calhar, não vem depois.

cantemos.
às moiras nada compadece.
não há por que ter pressa de silêncio.

 

 

 

***

 

 

 

jamais te iludas:
a paz é breve.

tolera o verme
somente o quanto
adia a luta.

todo tratado
é uma cilada.

ausculta à lupa
atrás dos sinos.
não dês desculpa
para explodir-nos.

se for preciso,
a mão lhe estende.
force um sorriso.

com vela rente,
indaga o vento.

mantém a adaga,
oculta o intento.
nossa voz curta
assim prescreve.

jamais te iludas:
a paz é breve.

 

 

 

***

 

 

 

não sou senhor sequer
do corpo que me veste

nem minha sombra
me reconhece

o nome a que me ataram
– largo – pesa

meu passo – leve
– nem rastro deixa

meus versos queime
– não há quem tome

ideias… dei-as
– me atrasavam

possuo nem mesmo a ave
que em meu inverno lateja

 

 

 

***

 

 

 

de tênis, botões e jeans devo estar
doravante por questão trabalhista.
as sandálias ficam para as andanças
entre a padaria, a feira e a banca.
todo o resto é área do professor,
montado como uma drag sem glamour.
o professor que faço me comeu
todo o sentido. sou hoje seu hotel.
leitura era prazer, é hora-extra.
a poesia agora é o que me resta.

 

 

(Diego Callazans vive em Aracaju desde a infância. Graduado em Jornalismo, está em vias de concluir doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe. Em sua trajetória, atuou em teatro, dirigiu vídeos e desenhou quadrinhos. “A poesia agora é o que me resta”, lançado recentemente pela Editora Patuá, é seu livro de estreia)

 

 

 

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Janela Poética II

Mariana Ianelli

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

ANDALUZ

 

Vaga pela terra, filho trágico,
Com as tuas duas mãos livres.
Furta o colo das putas,
Escuta o ventre delas exausto.
O retorno sempre admirável de Sarah
Te conduziria àquela velha madrugada de amplidão.
Mas afasta esta necessidade, filho.
Quem uma vez mudou seus sinais correspondentes
Não voltará de pronto.
Nenhuma reparação, não há nada.
No mundo, cotidianamente, andarás sem teu coração.
Por cinco anos andarás, cismando com tuas faltas.
É preciso que seja assim.

 

 

 

***

 

 

 

REMINISCÊNCIA

 

Esquecemos o tema.
Ele fende a madeira, bordando delicado as arestas,
Eu trato a colheita debaixo do cordão da aragem.
Nada nos pertence – últimos mandamentos,
O dever e o tédio dos dias,
Famílias lendárias, ironia.
Estamos de volta à beira dos mundos
E sob o pano se aquieta a razão
Da nossa continuidade secreta.
A geada bate na terra, desatina as séries da fome
E nós não desanimamos.
Todo o tempo pela coragem da maior renúncia,
Todo o tempo de hoje arrancado de falsas glórias.
Ele talha a madeira, aparando com bom jeito as margens,
Eu escolho as raízes, separo a polpa da casca.
Alguma diferença em nós
Surpreende a imprudência da fuga,
Um mistério não comentado,
Uma ambição impedida de voltar ao passado
Que tínhamos matado no tempo por um golpe de sorte.
Não perguntamos pela mãe deixada na ponta da história.
Assim foi resolvido.
Mortos, quebrados ao meio.
Revemos os exércitos calmos,
A conformação de milhares, o vírus temerário.
E nenhum reconhecimento é nosso:
A cela terrível dos anos, o verbo régio da tradição.
Na tarde isolada do terceiro dia,
Nós renascemos do ácido.

 

 

 

***

 

 

 

Ignoro se tu és capaz de voltar.
Quero a novidade de tua ausência
Com uma paixão sem calor que mais aumenta
Quando tento vencer a realidade.
Sou a paz em que acredito inutilmente
E ainda sou a vertigem desta paz.
O desejo de que tu compareças
Não dura em mim do mesmo modo que tua imagem,
Que tua forma irresponsável de mover-se
E se despir e descansar no meu passado.
Tu permaneces aqui sem teu corpo
E, pensando no oculto, eu abandono a existência
Para me deitar no lago das carpas.
Teria sido o final de um verão
E não o tempo em que te foste
Se em vez de amando eu estivesse louco.
Tu vives no propósito de minhas ficções:
Uma terra deserta, estável e mansa.
Nesta hora em que desapareces do meu sonho,
Também eu, predador de tua alma, vou com os mortos.

 

 

 

***

 

 

 

VÉSPERA

 

Há sinais
Que os teus olhos não veem,
Mas neles já se espelha um rio
Desde a outra margem.

Uma náusea das manhãs
De outras manhãs
Começa a distanciar-se
E o que te parecia imenso
Se acantona
Num espaço mal sonhado
Da memória.

Voragem,
O teu nome se descobre
Feito de estranhas vogais
– Um nome
Que jamais conteve
Toda a tua história –
E o que era eterno se ausenta,
Em tudo à espera
De uma nova eternidade.

Esse tremor
Que o teu bom senso não evita
(Não pode evitar a tempo)
Quando roça o teu braço,
Asa de corvo, um certo hábito
Absolutamente livre,
Morto de significado.

 

 

 

***

 

 

 

MIRADA

 

Uma tarde amarela
E dentro a parede rasgada
Já sem as altas janelas
De onde se via lá embaixo
A conversa das estátuas
Com seus olhos de pedra
Infinitamente ausentes
De se haverem voltado ao passado.

Não ficou uma só alma atrás da porta
Nem as portas ficaram.
Os gradis, as lanternas, os pilares,
Foram-se as barricadas.
A vida agora acontece em outra parte –
Era a mensagem, e parecia leve,
Translúcida na tarde amarela
Feito uma casca de cigarra.

 

 (Mariana Ianelli nasceu em São Paulo em 1979. É poeta e mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP). Publicou os livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007), Treva alvorada (2010), O amor e depois (2012), todos pela editora Iluminuras. Breves anotações sobre um tigre (Ed. Ardotempo, 2013) é sua mais recente obra. Tem poemas publicados em Portugal, Espanha, Cuba e Argentina. Em 2008, recebeu o Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude. Em 2011, obteve menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas (Cuba) pelo livro Treva alvorada)

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Maria Quintans

 

Foto: Milena Palladino

 

 

É neste inferno que se mascara o poema. Um homem nu, duro de barba e porte e o silêncio esta humilhação só suportável pelo medo.

Irei guardar as nossas conversas num balde de luz. Saberemos sempre que a viagem é longa mas que a chamamos a nós. E a passagem ampliará a hora. Todas as horas desesperadas na quebra da negação.

Todos os silêncios são um só. E o leite há-de chegar a escorrer pelo copo cheio onde todos beberemos, indiferentes se gostamos, não gostamos, ou queremos.

E neste inferno a satisfação supõe um instante, um só instante ampliado pela vida encontrada sempre que o sofrimento cai de quatro em genuflexão obrigatória.

Do medo faremos o silêncio e nada responderemos às perguntas feitas à noite, em horas insensatas para os poemas que dormem.

O silêncio será sempre a longa transformação da palavra.

***

há uma sombra enorme na minha cabeça. uma coisa que depois de tudo não é nada mas que quando acontece é hoje. escava doido um alfinete dentro do peito a picar os teus mamilos  que se escondem no armário porque eu sou a minha mão no fundo do teu sofrimento.

há um desenho enorme na minha cabeça que vibra na renúncia da vontade e fala de sereias e de invernos estreitos num corpo a fugir à pressa selvagem, estrangulado numa alegria estúpida, cada vez mais isolada, agarrada à luz que tudo abre se pensarmos que o martírio dos olhos são os próprios olhos, distraídos pelas sombras que andam de um lado para o outro às cegas,

incertas e separadas de placentas-mãos, e pausas na respiração dos homens suaves.

há um caminho deserto na minha cabeça que roda sobre si e nunca compreende a voz que lhe amacia as grades da janela de onde nunca se vê o condenado, por ser ela própria a teia, a máscara – a mão entre a fúria e o amor a comer de pé as bocas enroladas na luxúria dos deuses analfabetos.

lá fora é apenas noite na sombra da minha cabeça.

 

***

os habitantes das árvores transformam-se em peixes
rebolam nas palavras com as antenas de fora e
seguem os gatos.
as flores amar-se-ão sempre
num voluptuoso lago crescido de flamingos-frangos

as formigas nunca poderão descer das árvores com o aquário por baixo.

os flamingos-frangos descansam numa pata e os outros bichos olham-se numa teimosia danada.
é um problema sem solução.

 

 

***

Poema como se fosse tudo

esta é a metafísica saturada do sonho:

não dizer nada

dormir com o cão enrolado à pele

rasgar no desejo o fôlego do poema

 

afundar de ironia a almofada do silêncio.

 

 

(Maria Quintans é escritora em Lisboa, Portugal. Publicou em 2008 o livro de poemas “Apoplexia da Ideia”; em 2010 “Chama-me Constança” e em 2013 “O Silêncio” (Editora Hariemuj).Em 2009 faz parte da criação da Revista Inútil, onde é diretora editorial. Em 2011 cria a Editora Hariemuj, que se dedica especialmente à poesia. Organiza, em 2012, a antologia poética “Meditações sobre o Fim – Os últimos poemas” (Hariemuj Editora))

 

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Rosana Banharoli

 

Foto: Milena Palladino

 

 

jamais pluma
diante do abismo
lágrimas represadas
comportas erguidas
a concreto e culpas
destino mesmo
depois de chão
:pedra
pedra sem perdão
e ascensão
:pedras atiradas
num jogo de dados

 

 

***

 

 

comungo
companhia
em lua opaca
[a minha]
desbotada
de tentativas
[tamanhas]
esgotada
de partidas e pedras
[grito pra dentro]
explode o poema
em ventre seco
[esse e todos os outros]

 

 

***

 

 

no fundo da noite
o uivo multiplicado
corta a conversa
de sonhos
e dá voz
ao holocausto
:silêncio do medo

 

 

***

 

 

para Julieta Bacchin

 

olhos felinos
de arranhar
salivas e sêmens
& comê-los
em instantes
: cristal de corte
sangue vivo
desejos
vértice de máscaras
& fantasias
longe
talvez cinzas
ou flores místicas
de prazer, talvez
,navegação

 

 

***

 

 

Aqui jaz

Do arrebol,
Andejo por um só caminho

A noite baixa densa                    desdentada

À espreita,
Solitário raio de sol
Vem se deitar comigo
E, misturado a terra orvalhada
Desiluminar a sombra
De meu futuro                             outrora

 

 

 

(Rosana Banharoli é autora de Ventos de Chuva, poesia, Scortecci, 2011[Fundo de Cultura de Santo André]. Participa com dois contos no  livro de Maitê Proença, É duro ser cabra na Etiópia, Ediouro, 2013. Alguns  poemas são do livro inédito, Cartografia em Construção, realizado após breve estada na Casa do Sol-,IHH em novembro de 2012. Publicada em mais de 20 Antologias através de premiações em Concursos Literários e em diversos sites, blogs e revistas literárias)

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Pedro Du Bois

 

Foto: Milena Palladino

 

 

O senhor ressentido em paixões
repete temas: recupera estátuas
em enigmas indecifráveis. Reluta
convicções
e dispõe sobre as bases
……………elementos concretos: ama
……………o paradoxo da frieza da pedra
……………e no metal deixa a sua marca
……………amarfanhada em papéis
……………decorridos de madeiras
……………inacabadas em regiões
…………………………………..estéreis.

 

 

***

 

 

Tece o pouco em necessidades
e as traduz em fugas.

Vida diversificada
em objetos herdados.

Destruído em condensado
no senhor do absurdo recriado.

Vive na significância da não
aceitação dos termos: extermina
a vontade de se fazer maior.

A desnecessidade da prisão ao ser
irreconhecível em paixões formatadas
no inacreditável de ser pedra
e só.

 

 

***

 

 

Imensos os aspectos
atraídos pelas mãos que criam
a ilusão da vida. O metal têm olhos
e ouvidos: não escuta
…………….e não enxerga.

A mão sustenta a luva.
os pés contraem a terra.

Diz que respira
e oxida. Mãos recriam
o fantasmagórico: escuta
……………………….e enxerga.

 

 

***

 

 

Não tem medo da origem:

………….ignora
………….a matéria prima.

Resta no desenlace
longe do recolhimento.

…………..a mão cinzela
……………………escarpa
……………………desespera.

A matéria é retrato
inacabado: reconstrói
a moda desfeita em tradições
inabaláveis das certezas.

O dono assoreado em documentos
repousa ante o fantasmagórico.

 

 

***

 

 

Idealiza. Conhece a essência
da transformação. Carrega o medo.
Escorrega a mão sobre o nada
no sentir a consistência do inexistente.

………..Traduz.
…………..Escolhe.
……………..Pensa.

Dispõe a necessidade em espaços
demarcados no projeto para atender
ao anseio da realidade.

………………….Produz.
……………….Contrata.
……………..Entrega ao senhor
……………a procedência do artefato.

 

 

(Pedro Du Bois é natural de Passo Fundo e reside em Balneário Camboriú, SC. Escreve poemas e contos. É editor-autor, com livros feitos em casa, em tiragens mínimas, não comercializáveis. Foi vencedor do 4º Concurso Literário Livraria Asabeça, categoria poesia, com “Os Objetos e as Coisas”. Em 2009, “A Criação Estética” foi publicado pela Editora Corpos, Portugal. Em 2013, seu livro de poemas “O Senhor das estátuas” foi publicado pela Editora Penalux (SP))

 

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Leonardo Chioda


Foto: Milena Palladino

 

 

O AUGÚRIO ÁUREO

 

do Tríptico a Sergei Parajanov

 

I

 

apostas sobre
o seio coral

o poeta é lenda
ícone
confessa que é
tua assombração

a suspender
o cobre, os jarros
sobre a tapeçaria | de arranjos

o fogo e os cristais
legendam
o véu – ler o véu, rente
aos olhos alados. Atentamente.

a divindade
emaranhada no fio
das tuas vestes
o cálice
dos livros a terra
o elmo

a papoula do umbráculo
o criptogâmico
a prudência serpentina do espório
feito um gato
próximo às velas

o seio coral
pavão sobre os globos
tua longa barba
suspende o palácio
o reinado é febre. gorjeio

ópera | fluido

sepulta as romãs
nas cinzas

o poema
é um manto

coração
de gládios atravessando
o gárrulo.

 

 

***

 

 

TÚMULO DO POETA

 

há de se ler as pedras.
os dedos na relva, sentindo o mármore — as capas
dos livros. sentir o assombro aberto em tempo.
a circunferência da memória – a árvore está, pois,
sempre na semente. ainda o ninho cujo segredo, minha dívida,
é escutar a flor.

há de se ler as imagens
às pontas. nariz rente ao epitáfio,
quase chuva
escrita a lápide
na contingência das rosas
arredor adubo.

.
não se tem esperança
não se tem medo de nada
é livre
.

a erva do sonho
nos romances repletos de cálices. os cantos.
as magias.

há uma alça de rumor
clamando arranjo às medalhas – sete palmos
alfabetizando as raias do olhar. a voz
se ocupa de artemísias, nos dentes.
as terras. a condição das peles. égide sem expectativas
na superfície o sol. ofício cretense
de mudas.

 

 

***

 

 

POÉTICA DO DESTINO

 

o destino não tem rosto
só um cristal negro de sete pontas perpétuas

sob um casaco tom de sangue
coagulado. rosas antigas nas patas

o destino tem a boca de florilégio  — um mosaico.
La Alhambra em technicolor. e não fala. sibila
feito oráculo. advento de
vagar suspenso na retina.

[o destino
é uma menina

ou

um monstro
ao dobrar a esquina]

destino caminha feito tigre
couraça de cerâmica. carne cobalto.

seduz os velhos e aflitos com suas pernas de agilidade
penas de transitório. é certo. como o percurso da pele,

o destino deveria ter cheiro, mas é poesia.
fragrância de ventre em polpa.

nenhum de nós,
o destino. veste-se no plasma da ardósia

segue senhor dos rastros de futuro.
o todo em jogo: camufla-se em colagens

……………queima de perfume
……………as peças florais.

 

 

***

 

 

O SEXO DE HERBERTO HELDER

 

Dar de beber às rosas. Café perto do sol.
O livro incandesce. A presença de espírito nos felicita.
Há o vento vário quando silêncio é rei.

Perscruta as sementes com o olhar. Os santos sorguem a paisagem na crista. São as imaginações.

Mas o mundo são as patentes. Há de quebrar as patentes
E meter ao fundo dos castelos, entre as vontades.
E ainda assim
Dar de beber às rosas. Fac-símile, a condição de foda e perda a nos continuar. Lavam as soleiras e continua-se.

Na sombra me dispo. E na sombra o que me venta
É o que me define. Taras entre tantas folhagens.

As horas são nossas.
As horas são nossas.
As horas são nossas.

As heras nos transpassam.

 

 

(Leonardo Chioda nasceu em Jaboticabal. É autor do livro ‘Tempestardes’, premiado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura e integrante da Coleção Patuscada (São Paulo: Editora Patuá, 2013). Escritor e leitor de imagens, é graduado em Letras pela UNESP. Mantém o blog de poemas Víscera da Musa e Café Tarot, de ensaios iconográficos)

 

 

 

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Janela Poética II

Carina Carvalho

 

Foto: Milena Palladino

 

maritacas

 

desisti dos pêssegos
por medo aos ferimentos.
pesam muito à natureza as dores que os homens carregam em sacolas abafadas.

às outras frutas fiz buracos na casca,
e me movi branca pela polpa.
pela manhã descobri que cantava com coragem:
há no sumo quando desce a goela um quê de amor pelos que viajam.

este dia quis sumir-se sonoro-suculento nas montanhas antes que lhe viesse o podre pelos maus-tratos.
ou que maltratasse a si: o bico descendo forte no tórax, arrancando as penas desde o cálamo.

 

 

***

 

 

eu lírico

 

concluí, olhos apertados:
dói é nos canais suspensos

o cão da casa (por exemplo)
junta as patas na cabeça
e geme
os quatorze anos que lhe entram pelo ouvido

um pacto dormente meu arquejar
porque, durante o sono,
o corpo não tem certezas. pudera:
horas de bruços e do peito, lembrei,
fiz corredeira

tais as olheiras

diabo de choro, sim, rosto disforme até
a reconhecer-se de minuto
só no que é profundo

no mais, depois dos olhos abertos
tanto quanto podiam num dégradé
de poros escurecidos,
lamenta-se

.o preço dos tomates-cereja
.a pintura da casa (uma cor tão feia! cor de gaitista sonolento em garoa
fria. calcule quão antiquada é essa imagem)
.as plantas que secam
.a carne tão fraca, os restos do pouco

e a minha falta de etiqueta:
oh, desculpe o não comparecimento!
nestes copos há menos que um dedo de coragem
e a má postura faz que me doam as costas
por dias inteiros

cotovelos na mesa, mirei o sol com lupa;
meus olhos sumiram
numa ardência de verbo lenta
e assim articulamos ambos:

de.ti um poema do dia
de mim
a ti

 

 

***

 

 

que permeia um casulo

 

a casa é que estala
tardes longas de azul pálido
na mudez do corpo

estendidas – as tardes –
num varal que zumbe, por exemplo,
o som vago da carne,
desse pouco

que é o corpo.
que é o corpo?

.

outro dia uma movimentação tão fluida escorria
(não estalava nem estendia),
escorria uma movimentação tão fluida outro dia,
que, meu amor, o sentido de tanta moradia não escapou
por pouco

 

 

***

 

 

o poro a pele

 

antigo afeto que lhe ofereça
toques moles,
comedimento nas conversas,
um afago cru

.

mas não,
jamais quis morar em peito tão vago e sem janelas abertas

fazer barulho raspando o fundo
levar do doce o que lhe é mais íntimo;
degustá-lo nu

(Carina Carvalho é paulistana. Estudou Letras e trabalha na área editorial. Seus textos estão em algumas revistas digitais de literatura e na 3ª edição impressa da Revista Celuzlose. Tem se arriscado em balé e fotografia, mas com pouca convicção; já a literatura a atrai tanto quanto a luz das cozinhas pela manhã. Acaba de publicar seu primeiro rebento, Marambaia, pela Editora Patuá)

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Alberto Lins Caldas

 

Ilustração: Mario Baratta

 

assim a dor o sofrimento

 

assim a dor o sofrimento
sob a língua é só deserto
entre os dentes o q sobra

se perguntasse – o vazio
se negasse – só o vazio
se dissesse – não sabia

todos esses tão perfeitos
não sentem fome – a fome
essa satisfeita com osso

todos esses são felizes
?os q sofrem são de carne
então por q não se devoram

todos na mesma sombra
todos na mesma crença
uns na brasa outros rindo

só vivemos nessa dança
só bebemos esse cálice
sal q tempera a morte

 

 

***

 

 

é preciso

 

é preciso
muito mais superfície
pra dizer o essencial

mais ondas
e em todas essas ondas
o mar

não o ruído
mas todos os ruídos
enfim o tecido e o rato

jamais o silêncio
mas todos os silêncios
só assim o não

é preciso esquecer
tão completamente
q  nem sei

depois estarrecido
tocar a máscara nua
assim o corpo sabe

não apenas o entre nós
o jorrar dentro e além
mas a ferida e a hora

agora é sempre
por isso não se afaste
não há tempo a perder

 

 

***

 

 

não sabemos eu e o imperador

 

não sabemos eu e o imperador
como tudo isso começou
como brasas pegam fogo

como nossa paz nosso bem
nossos servos se transtornaram
e tudo quer nos destruir e apagar

não sabemos qual a hora o lugar
o momento preciso em q a onda
a onda se tornou esse mar

não sabemos eu e o imperador
se haverá futuro ou bem querer
pros nossos os nossos bem amados

temos medo dos metais afiados
enquanto escondemos os pesados
bem longe desse mundo q aderna

não dormimos há tanto tempo
q o sono nos domina e prende
enquanto eles devoram tudo

 

 

***

 

 

correr pela treva

 

correr pela treva
chamando o q passou
é fogo morto é fogo fátuo

chamar os vivos os homens
por um desejo q não é deles
é fogo morto é fogo fátuo

querer a clara chama
quando tudo é escuridão
é fogo morto é fogo fátuo

admirar essas coisas
o q se dispõe como gente
é fogo morto é fogo fátuo

gritar assim tão infeliz
quando ninguém pode ouvir
é fogo morto é fogo fátuo

o q não jorra da violência
essa bruta potência entre nós
é fogo morto é fogo fátuo

 

(Alberto Lins Caldas publicou os livros de contos “Babel” (Revan, Rio de Janeiro, 2001) e “Gorgonas” (Cepe, Recife, 2008); o romance “Senhor Krauze” (Revan, Rio de Janeiro, 2009), o livro de poemas “Minos” (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2011) e colabora em várias revistas literárias e blogs de literatura e arte)