Teu Tutor Torna Todas Tuas Temperanças Trovões. Ou. Titubeio.
Para Thainá Cardoso.
I.
Estou em débito de dores contigo.
Não pelo livro do Paes Loureiro,
Ou pelo filme do Peschkowsky.
Há algo de insípido nos teus olhos.
Desengraçado mesmo.
Desinteressante
E fácil.
II.
Uma escada é posta na tua frente.
Ela fica em pé sem apoio.
E tu não mostras ao mundo nada disso.
A escada lá fica.
Não a usas
Nunca.
E justamente por causa da hialóide não demonstras nada.
Não tens humor nem no humor vítreo dos teus olhos.
E teu desespero é mais gasto quando tens os olhos abertos.
Sabendo que humor é um fluido líquido contido em corpos organizados
Não temos humor, nós dois.
Do humor negro, sobra-nos apenas o negro.
E é quando eu me sinto abraçado.
III.
Eu não gosto de covardia.
IV.
Esse teu jeito pretensiosamente chistoso irrita.
– Tu me chamas de pedante –
Eu não vou mais te adivinhar
Entediei-me.
Eu não vou mais entender.
V.
Agora eu sou teus olhos.
O nulo deles.
Sou teus olhos me afrontando.
N’uma nebulosa.
E em câmera lenta
A destruição
De uma vida
Ínfima
Nos faz
Parecer
Livres.
E o conjunto dos pássaros
Poetas
Ou estrelas
Não
Nos
Fará
Mais soltos
Por
Mais
De
Cinco
Minutos.
Chateie-se.
VI.
Eu faço isso, pois começo a achar que me serves mais morta.
Me serves mais seca.
Por que teus olhos já não me dizem nada.
Além de colo.
E eu tenho os joelhos doídos demais para ceder às pernas.
Tuas.
VII.
Deverias usar mais lilás.
E passar menos maquiagem.
Maquiagem não combina com lua.
– Não te justifica.
Só justifica quem muito pensa. Lua não pensa.
A Lua só é pensa quando…
Quando…
VIII.
Morre, Lua.
Morre, Pássaro.
Morre, Poeta.
Nada mais faz senso.
Nada mais faz questão.
Os teus olhos não me dizem nada.
Nada.
Absolutamente nada.
IX.
Para de molhar.
Para de molhar.
Para de molhar.
Não adianta
Nem adia
Continuar
Olhando.
Para de olhar
Que eu paro de escrever.
X.
Para de ler que eu paro de escrever.
Eu nunca vou parar de escrever.
Teus olhos não me dizem nada.
(João Urubu é músico, poeta e compositor da cidade de Belém – PA, graduando de Licenciatura Plena em Letras com Habilitação na Língua Francesa pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Dos três anos como poeta e compositor, passou um ano especificamente trabalhando como compositor de trilhas e diretor musical de teatro)
O amor cãibra sobre o assoalho
dá voltas em torno da sua inadequação
e rala os joelhos.
Não transita. Não se ergue.
Não se transforma em a asa ou em barco.
Da porta mesmo volta
e macera.
Ele é aprisionado no corpo, o amor
e quase nunca conhece
a maneira dos pássaros.
***
Subtraído
teu coração de exíguo
e indefinido amor
descansa entre um domingo e outro
põe a água para ferver
e esfria.
não espera o equinócio, o saldo
o próximo aniversário
o cabelo crescer pelas costas
enquanto vaga nas proporções
e quedas previstas pela exaustão.
meu coração
sobrancelha sobressaltada
no teu vulto
“cogito, ergo sum” sem a prova dos nove
meu batom terra glaise 74.
***
Acordo
não lhe faria mal algum pela manhã.
deixaria o saldo ………………. ….o ocaso
o escaldo da colheita ………………….tardia e enunciada
e a centena de mal-traçados
escritos em breves
e em permanentes polissílabos.
me devolveria o livro …………………………….o centauro
a minha concuspicência.
sem olharmo-nos.
com o distanciamento
recomendável
aos que se amam em demasia
e se arremessam.
***
Anímico
anuncia o princípio anímico
e todas as coisas se enchem
de alma.
vela o Verbo
espia a pena
ratifica as Escrituras, o Talmude, ………………………………………………o Tao.
Deus imana e eu amo as hortaliças
de verde enluarado.
e o centeio e o peixe e o orvalho
e a pedra e a trovoada e a magnólia.
tudo exala. nada transcende.
o vácuo é composto de falenas.
***
Vigília
Havia ternura:
a cor da fruta
sombreava as palavras
o cavalo-marinho
ia de amarelo
e sem ver
todos os nossos braços
suspensos em tempo irregular
de afago e festa.
Então, reiventarei
por necessidade
novas guardas.
Trazes o crisântemo
e a ófris esquecida
e a alma
desalinha-se no leito:
minhas horas são feitas
de inseguro tear.
Antecipas o agosto
em tempo hábil
e o talha em jaspe:
a melifluidade
do amor raro
resvala na pedra.
Tuas mãos cheiram
a silício e abandono.
Nenhum louva-deus.
Nenhuma flor imprevista
salta das letras.
De madrugada
assim tão tarde
nem as tangerinas maduram
e nem o céu responde.
Tua metafísica monitora
o fólio, a promissória
e a minha poética insiste, azul
como anil dissolvido na água.
***
Amarelo Por Dentro
A tua letra é amarela
como a nêspera, a gema
o fruto em véspera e ocre
saltando da árvore, da página
da costura no dobrado do paletó.
Devolveu-me a vida enquanto escrevias
e sublinhavas o termo, a epígrafe
a semântica clara de cuidados.
Trouxeste o castiçal, o sol
a lâmpada
a última literatura.
O teu amarelo a escorrer-me, por dentro.
(lolanda Costa (Itabuna-BA) é graduada em Filosofia e especialista em História Regional. Editou, artesanalmente, folhetos de poesia Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas (1990), A Óleo e Brasa (1991) e Antese (1993). Tem poemas publicados em jornais, antologias e blogs. É autora de Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense (2000), Poemas Sem Nenhum Cuidado (2004), Amarelo Por Dentro (2009) e Filosofia Líquida (2012))
Ouvi, porém, as tribulações dos mortais; ouvi como,
de parvos que eram, os tornei racionais e dotados de inteligência.
(…) Inventei para eles o número, a suprema ciência,
bem como a escrita que tudo recorda, arte mãe de toda cultura.
(Fala de Prometeu, em Prometeu Acorrentado, de Ésquilo)
I
Sou triste
desde o fogo impresso na argila:
odeio todos os deuses.
Minha tristeza vem desde o nome
a revelar-me a sede
a fome
a farsa que me corrói a face
nua.
Não quero essa alma que me queima:
de barro estava bem.
Arde em meus olhos o desejo dos deuses
(como o dos homens).
Não quero a palavra
acesa
que à minha revelia me incendeia:
de repente
é impossível restar calada.
Desde o fogo
a tristeza nos consome.
II
Só há um fogo
– um fogo único –
capaz de arder no poço
mais fundo
em mil chamas:
é a alma
que se derrama
do corpo.
Tudo vem do fogo
e a palidez da face
contra a água escura
acende a chama
em que arde
essa alma.
Curvada sob a luz
e a mágoa de ter alma
persigo símbolos
na água
que se transmuta.
III
A alma do homem é tudo que
– não sendo –
é chama ardendo
sobre o verde
insondável
do oceano.
A alma do homem tem seu encanto
mas é nada
e sobre esse nada
não flutua a esperança.
A alma do homem veio tarde
quando o corpo já aprendera a ser sem ela
e já não era possível desaprender.
IV
Condenam-me ao silêncio mais cruel:
o silêncio da alma
enquanto a pegada do corpo
fica impressa no chão.
Não falar é a pior tortura.
Falo dessa fala
própria da alma
que os deuses temem
pois jamais se cala
e continua
queimando o corpo
lentamente com sua chama.
A toda palavra que sai de minha boca
longe longe
responde o vento
com a mesma fria palavra
que me devolve
a sombra apenas
do que penso.
V
A alma é tão-somente um fogo
vívido e chamejante
crestando a pele do corpo
– veste
de que ela própria se reveste.
Mas esse fogo é tudo
pois sem ele
o corpo se estiola:
folha vermelha que torna
inevitável o outono.
VI
Há algo de mais belo sobre o fogo
e primitivo
como presságios dardos e correntes.
Não há cadeias
em torno de meus pulsos e dos pés
– belos mortais –
se arrastais vossos vultos sobre a areia.
VII
O quê receiam os deuses
de quê têm medo?
O poder é negro …………………………………….…negro
águia cruel
que mergulhando em meu corpo
sangra o rochedo.
O quê receiam os deuses
o quê receiam?
Do pico dessa montanha
me arremesso:
sou o espaço
sou o pássaro
sou o rochedo.
VIII
É turva ou cristalina
a água que não bebo?
Meu corpo é o rochedo ……………………………………..é o rochedo ………………………………………………….é o rochedo.
Trinta séculos de tortura não são
trinta manhãs com suas tardes:
outras águias nascerão de toda água
mais escura.
O quê receiam os deuses?
IX
Só o mar me desvia desse monte
em que não durmo
se ao menos o dia amanhecesse
por sobre meu corpo escuro.
Mas sei que de manhã
o sol se espraiará todo em meu corpo
– pássaro a me devorar inteiro –
e eu desejarei a noite.
X
É de sol
o pássaro dos deuses
e suas asas me cobrem
asas de sol.
O pássaro dos deuses
chega com a manhã
e me faz jorrar o sangue
das entranhas.
O pássaro dos deuses é puro fogo
e renasce a cada manhã
das cinzas da véspera:
de meu próprio corpo.
XI
Há, sim, quem se lance ao fogo
pra morrer de todo
e nascer de novo.
XII
Sou o sol
sol de fogo
todo dia
sempre novo
sou o fogo
todo sol
novo dia
sempre sou
sou o dia
sol de novo
todo sou
sempre fogo
XIII
Há mais dor nos olhos dessa águia
que em meu corpo
estilhaçado:
os deuses não cessam de vingar-se
– todo poder recente é implacável.
Há mais fogo nas asas dessa águia
que em meu corpo
incendiado:
ígneas criaturas
vossa tolice é suprema.
Quem romperá de vez essas cadeias?
XIV
O tempo que passa me alucina
– às vezes penso –
sombra que escurece a minha face
esse veneno
é a própria água em que debruço
a minha sina.
Só existo enquanto acendo o sonho:
o sonho infindo
que o bico de uma águia estilhaça
toda manhã
em vão. Recomeço pois não receio
ira ou destino.
Que se vinguem os deuses (ó deuses)
nesse meu corpo
que não morre pois conhece o fogo
e sua chama:
sou pássaro a renascer das cinzas
ou salamandra?
XV
Ó misterioso ato de criar:
como fluem as palavras
as palavras que tudo recordam?
Não me podeis matar
eis a verdade
a grande verdade
que cinde essas correntes todos os dias.
Minha ousadia
é bem maior que meu suplício.
(Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987) e O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris. Já ensinou nas universidades federais de Pernambuco e Bahia. Atualmente, é professora de Literatura Brasileira na UnB – Universidade de Brasília)
Bertha Pappenheim não se contorce à toa, perdeu-a / a língua // Freud diria que Bertha Pappenheim ainda não sabia, mas quando seu pai não prestou atenção no casal que formou com suas bonecas, perdeu / -se-(a)tempo // A Grande Mãe levou o pai de Bertha Pappenheim, perdeu / -à morte // Bertha Pappenheim fez um filho imaginário com Josef Breuer e, perdeu-lhe / a imagem // O clima em Viena nunca foi dos melhores para Bertha Pappenheim, perderam / -lhe a senha // Bertha Pappenheim acredita na pureza que seu pai e Josef Breuer desconheciam mas perderam / e sabem // Ninguém está a par de como Bertha Pappenheim curou-se / Sabe-se que ela sorria quando emulava palavras de segunda mão com o nunca encontrado / Paul Berthold
***
a esperança respira Zyclon B
eu vivo dentro de um presídio chamado Nothingtrix
todos os dias judeus-coreanos azuis-royais me acordam
com toda a conta do mundo débito
préstima a pagar
creditam em mim as falácias do comando
em cinza neon sobre a pele
e eu saio por aí cor análoga
de brilho fosco
coração pequeno
que ainda abate
por cima os sonhos
porque é obediente ao comando
é rocha em vez d’água
quando água era sereno
sempiterno-romântico
só reconhecia o cinza na vitória vã
agora é tic-tac sem ruído
cor de sangue vencido
e nem um agosto é próximo
***
É produtivo fabricar tijolos. Um tijolo sozinho é obra de arte, com mais alguns é parede, é quarto, sala, é banheiro. Raro dizer poesia a céu aberto. E só bate sol quando se atravessa tijolos e é você do outro lado. Não me lembro de já ter visto tantos tijolos. Nem de nada como quando você perguntou o nome de uma estrela olhando diretamente pra ela.
***
Sentado o poeta torce pela chuva que não cai/ em sua manga guarda a relíquia dos dias/ em forma de pergaminho bruto/ couro de pele/ de um árcade nômade/ feito de horas mornas e cansadas/ que o poeta lê em livros de ciências e encíclicas/ Em sua casa ouro de Jeslade/ o poeta bebe siderado/ o sonho de amanhã/ era mesmo amarelo laranjal/ Suas entranhas não carregam mais os dias/ seus olhos não lembram do presente/ abotoados em um sonho soturno/ encontram as mesmas natividades festejadas/ Sentado o poeta suspira/ saudade inaudita/ logo esquecida/ O que seria mesmo a relíquia em qual manga?/ O poeta sonha
***
Cada um tem seu limite
De fundar uma âncora
Uma terra no fundo do mar
Pernas pra cima sentindo o mundo
Pernas sentindo o mundo
De água
O peso do mundo nos ombros
De ossos carne sistema nervoso
Boca aterrada
Ouvidos mucos
De areia
Cada um tem em seu limite aterrar a cabeça na areia
Seu limite de não voar
Daí advém o surto
Etimologicamente falando
(Ana Peluso, paulistana, experimentadora da palavra, participou de algumas antologias, não possui livro solo)
¡Ay, qué larga es esta vida! ¡Qué duros estos destierros, esta cárcel, estos hierros en que el alma está metida! Sólo esperar la salida me causa dolor tan fiero, que muero porque no muero.
“Vivo sin vivir en mí”. Santa Tereza D’Ávila.
É o planger desse som e o breviário,
odor de incenso percorrendo o ar:
joelhos macerados no calvário
e a visão dos mistérios no olhar.
Que segredo se esconde entre essas linhas?
Falo? Quem ouve? Para quem falar?
Ó Deus, se escutais, por que tão longe?
Por que estais ocluso nesse altar?
Procuro Vossa face na cidade,
Vossa voz nesse canto (ouço cantores),
mas outros, que não eu, têm santidade,
isentos de pecados – e eu, Senhor?
E nós? De que matéria somos feitos,
nosso corpo é errado, esse errador?
O que fazer do corpo, então, Senhor,
tão dúbio na vertigem e desespero?
Mas os santos, tão puros, que segredos?
Pureza é que convive com Amor –
então, Senhor, um corpo para quê,
casa de tanto erro e tanta dor?
O amor, rito de vestes e metais,
entrevisto ao sopé desses altares,
na bela e poderosa liturgia,
nos proíbe do Santo e nos exila!
Nosso espírito se abre à voz dos monges,
e nós, neste desterro, neste adro.
O canto que sabemos vem do corpo,
mas, esta alma de carne e dor e sangue?
E tangem os sinos e sinos só tangem,
e ver, então, que nada nos desdoura,
pois tudo é Cristo em corpo, amen, amen,
é o Corpo de Jesus em nosso corpo.
…que estamos a naufragar,
que soçobra nossa nave
nas profundezas do mar!
Todos silentes, todos tão ordeiros,
dentro das igrejas, e esta capela
e esta roupagem então? É esta, a que tenho,
joelhos tenros postados no lenho,
expiar. Mas o quê? Que mal fizemos?
Nascemos já marcados para o nada:
nada sabemos, nada consentimos –
ébrios de Deus, mas prestes a pecar.
Sangue de Cristo, vinde e revertei-nos
a Vós. Sem Vossa mão, não há salvar-se
do pecado insensato – não saber
das dores da Paixão de Vosso amar.
Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth. Pleni sunt caeli et terra gloria tua. Hosanna in excelsis. Benedictus qui venit in nomine Domini. Hosanna in excelsis.
***
2. REMEMORARI
¡O lámparas de fuego, en cuyos resplandores las profundas cabernas del sentido que estava obscuro y ciego calor y luz dan junto a su querido!
San Juan de la Cruz.
Da rua vinham vozes e segredos,
as aulas matutinas, mas o medo –
as grades e essas ruas, deslumbrando,
a visão de vitrines – quê comprar?
Passam freiras no pátio dos canteiros
(os da infância, tão bons nos seus sossegos,
mas, estes, de formosos e esmerados,
confrangem a alma, tão desacordada).
As mãos cheias de terra, já me lembro
daquele cheiro denso e do vapor
das horas tênues no fragor do tempo,
ah, se me lembro, e quanto é o pensamento
da terra, terra, terra – tu es pó,
e ao pó reverterás em dia a vir,
tão próximo, a pulsar nesta carótida –
e estes ventos lunares, ventanias,
as mortes antevistas nas gravuras
nas paredes da casa, nas fissuras
do tempo consumido, ah, ainda ontem
olhávamos os rostos das pessoas!
Sem despedidas partiam a mirar-nos
perenes, altas, mãos de tochas frias,
e das ruas revinham vozes fartas:
manhã a pino, ouviam-se cantigas.
A morte assim não se assemelha à outra,
na Paixão vislumbrada, luz de fogo,
porque o Filho do Homem abriu a porta,
a porta estreita e a dor por nos salvar.
Soluçam e gemem no verão de tons
flavos no amanhecer de resplendores
e o tempo trota tonto em seu tropel
de sibilos e sustos, seus ginetes.
Visitando os filósofos, tão cedo,
ingressando nos templos, a buscar
os nexos em suas rimas, rumas, remas
de sons provocativos, solfejar.
Os ouvidos se apuram, e o verbo ausente,
dos dicionários. Uns mínimos verbetes
permitiriam o humano soletrar
e sempre mais e mais, sempre cantar
aos ouvidos cerrados dos incrédulos,
a tudo o que se ouvisse e se quisesse
em folha de papel, essa hora branca
(soluça essa memória, agora estanca).
Ouviu-se um som fulgente, e ledos versos
que se escreviam e iam, sem parar,
beleza movediça – levantando
dilatados espaços – nas procelas.
Desejo de partir, entrar na esfera
de um mapa-múndi ileso. Os oceanos
plenos de água mortal, gelo e punhal
atravessando o ser que freme e geme.
Em momentos assim, por que poesia?
Rumor aceso, sempre, recorrente –
esta lâmpada, em fogo, alumiando
as profundas cavernas do sentido.
Anima mea, e esta voz em surtos
desde a primeira ação – tirar do caos
um outro mundo, e deste, mais e mais,
descortinando vidas, tão ocultas,
com o poder que me destes de plasmar
com estes barros e lamas esquecidos,
escondidos, mas fartos no pulsar
de uma artéria recôndita. Ó vida,
que estás a nos chamar, doces esquinas
de onde se vê o coração sangrando
de um ser imaculado, a nos pedir
para darmos à luz coros de anjos.
A limpeza dos dias, os mais puros,
qualquer que seja a força desses luas,
que podem nos lançar em noite obscura,
pedra e limo na boca de recursos
muito cedo entrevistos, mas atados
a esta escassez humana. Ah, que voos
privados de umas asas, em alar-se
para abrigo ou canção, um nosso porto,
que estava obscuro e cego o meu farol.
E os estranhos primores descerraram-se,
no calor e na luz dos meus amores
a face rutilante como sol.
Mas existem as âncoras suicidas
e mergulho pesado para o orco,
ralentando o fadário de uma vida
sem tempo e espaço – é hibernal tesouro.
Ó barca, vida desmemoriada,
ilhas do Amor, além do navegar!
***
3. AS VOZES
Amago de la humana arquitectura, ejemplo de la vana gentileza, en cuyo ser unió naturaleza la cuna alegre y triste sepultura.
Sor Juana Inés de la Cruz
Cidade, teu recorte sem postais,
repele os estrangeiros da baía
de fulgores azuis – e nossos ais,
e a serpente nos pés, Santa Maria!
A emoção no rosto, a criatura mira:
ali contempla os céus, o seu segredo,
brancas mãos de aleluias invadidas,
e palavras na boca, redizendo.
Que já doem os caninos, a tez sangra
neste ranger tenaz, a ouvir as vozes,
e o ditado abismado nunca estanca
nos ouvidos antigos dos consortes
na dor, na dor da luz, e é só silêncio,
e solidão, silêncio, quem me ouve?
Os sóis se esparramam nesta ausência.
nesta falta de haveres, só os sons
são destino e guarida, desertores,
se se os deixa sem boca, sem contorno.
Ah, que quero outros mares, mais azuis,
que a traição se faz além da Cruz –
na qual o vulto imenso se abateu
em Gólgota. Te vejo, e ali estou
ao teu lado direito, aonde vou
após vasto mergulho – mar Egeu,
além destas iradas geografias,
num tempo de titãs, aonde Atlântida
há muito foi tragada. Geofagia
de terracota ingente no meu cântaro,
todavia partido. E há viagens
no tempo amarroadas e sem espaço,
de onde já descortino essas imagens
de mártires e heróis, daqueles santos.
Oh, miragem suprema, estar ali,
despedida do corpo penitente,
tão castigado e só e tão doente,
fitando largos céus vistos daqui,
dessa pequena greta de angustura.
***
4. AS AULAS
Ultima hominis felicitas est in contemplatione veritatis. Summa Contra Gentiles, III, 37.
Santo Tomás de Aquino
– Por que me procuráveis, pai e mãe?
O meu destino, então, não pressentistes?
Não pertenço a família, terra ou raça,
concerne ao Pai a estrada do meu fado.
– Mas nos afadigamos e choramos,
ó Filho que sois nosso aqui na terra,
não será crueldade nos deixares
pranteando e buscando nessa esfera
em que nos foi legado o dom de ter-Vos
no calor de um abrigo, nosso lar,
seu pai, na sua oficina, a abastecer-nos,
trocando dia e noite em Vosso amar?
Mas que amor é esse amor, que só retira
o fruto de meu ventre, a mim entregado
pelo Deus de Moisés e de Davi,
nossa casa em palácio transformada,
com o filho de Javé? Assim soubemos,
e assim os nossos passos Vos seguiram..
O Arcanjo me exortou fosse serena
em laborar na fé dos já ungidos
por palavra de nosso Pai eterno.
Ó filho meu, tamanho que sejais,
sede pequeno. Aonde, a humildade
que nos disseste ser das propriedades
gratas a Vós, a Vós, Filho de Deus?
– Reflete, amada mãe, pois não sabeis
das coisas de que devo me ocupar?
Por que me procuravas? Vai-se o dia,
e há uma Cruz já talhada para mim.
Naquele alto aonde irei morrer
padecerei na dor em morte humana,
sê forte, Mãe, meu espaço é o infinito.
***
É a pregação da Lei, da lei do Amor,
proclamada no espaço em que vivemos.
Três dias se passaram e os doutores,
ali refletem, atônitos, e só ouvem
o ensinamento sábio do Menino.
Eis o modelo grato, esse tesouro,
e o Senhor, ressurreto, neste altar –
feito carne o seu verbo, e este verso.
Contemplar a verdade é ser feliz,
mesmo se a vida é acre no conforto
num mundo sagitário e que não diz
dos olhos que se voltam para o outro.
Antevê-se, na fé, a recompensa
das horas amargadas em exíguo tempo.
A visão do antevisto banha os dias
em dissabor do sal dessa alegria.
(Maria da Conceição Paranhos Pedreira Brandão nasceu em Salvador, Bahia. Poeta com vários livros publicados. Exercita outros gêneros, nos quais também tem livros publicados (ficção, crítica de literatura e outras linguagens, teatro, vídeo, tradução, outros). Doutorada em Literatura Comparada pela Universidade da Califórnia, Berkeley. Professora aposentada da Universidade Federal da Bahia. Seu mais recente livro publicado de poesia é “Delírio do Ver” (Rio; Salvador: Imago Editora, 2002). A maioria de sua obra é inédita (nove livros prontos e três em elaboração). Promotora cultural, fundou a Divisão de Produção Literária da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Os poemas aqui publicados fazem parte do, ainda inédito, “Poemas Místicos”)
Mostro-me para sair do exílio
onde me colocaram
e tiraram minha voz:
eu feria os princípios do recato,
assim foi o relato dos escribas
que me condenaram
a ser poeira no livro oficial.
Fui tida feiticeira
de energia visceral
que consumia a paz do meu companheiro.
Queixoso, dizia-se prisioneiro
dos meus afagos.
É certo que o envolvia, não nego!
mas o que ele não admitia
era estar sob o meu comando
ou ter-me como par.
Rebelei-me, afinal fui feita livre
e queria iguais direitos.
Vingou-se e cobriu-me de defeitos
diante do Pai.
Excluída
fui mandada para a treva do mar profundo.
De lá,
gerei desejos
e os enviei para queimar
o corpo de Adão.
Sua carne reclamava e desesperado gritava
por clemência.
O Criador cientista
rápido como a urgência de um raio
trabalhou à luz de vela,
da criatura tirou uma costela
e fez o primeiro teste de clonagem.
***
PASSAGEIRO (NAS CATEDRAIS)
Tenho viajado de catedral em catedral
vezes silencioso
outras barulhando sinos
para dizer da minha presença;
vezes pagando dívidas
outras contraindo-as
mas sempre honrando palavras
para dever menos.
Tenho viajado de catedral em catedral
e quando estou no centro de suas naves
vejo como funcionam engrenagens humanas
que mesmo solitárias não funcionam sós: ……..peças por peças movem-se dependentes ……..e independentes das minhas próprias.
Quando iluminadas as catedrais ……..uno fios ……..reparo molas
e tiro seus rangeres com óleos das lamparinas
que mesmo quando sem chamas
é o bálsamo que encontro – somente nas catedrais –
para os consertos precisos.
Os talentos para o sustento de cada hora
são extraídos das catedrais invisíveis
mas vistas apenas em presenças sentidas no interior: …………………tão poucos talentos!… …………………tão tantos haveres!…
Sou viajeiro
passageiro nas catedrais
que permanecerão nas lembranças ……..nas ruínas ……..nas reformas
dos tempos que me levam para a próxima catedral
até quando for mudado
o meu estado de matéria
……..não sei quando ……..porque velho ……..porque manco ……..porque falho ……..quase cego ……..canso fácil…
Mas sei que a distância entre as catedrais e meu destino
se encurta e me alonga por igual…
afinal é para isso que tenho viajado
de catedral em catedral.
***
TEREZA D’ÁVILA
No quadradinho de tua cela
vi teu êxtase tanto pedido
também a seta partida
do peito do anjo divino.
Da minha própria cela, Tereza,
volto os olhos para ti
e digo com toda certeza:
também fui alvo, Tereza,
também fui alvo, Tereza!…
pois que tenho a seta inda presa
preenchendo meus dentros vazios.
De tu
– não sei bem o que querias –
mas meu coração, Tereza,
não pode ser só de Jesus
e nem quero por alegria
as dores da Santa Cruz.
Sei que me sabes, Tereza,
pois que me vistes mergulhar
em olhos de mar nascidos
nos claros da luz solar.
De um outro anjo lanceiro
– qual teu poeta João –
recebi o que poucos entendem:
o prazer de ficar na prisão.
Tu que estiveste comigo, Tereza,
quando a espada do destino
pendeu para a minha cabeça
a tua estendida palma
desviou-a suavemente
para o centro da minha alma.
O teu destino, Tereza,
no teu dia foi consumado,
mas o meu ainda não sei…
só sei que me foi ofertada
num copo do anjo a bebida
aquela água, Tereza,
que mata todas as sedes
e dá vida a quem quer vida.
Tim-tim!
(Nascino século passado com fome de palavras e até hoje vivo desse alimento que ainda me sobra para adornar o espírito de quem tem o peito aberto. O teto que me foi dado para viver é dividido com 7 bilhões de pessoas de todas as cores, de todas as falas, de todas as caras, de todos os credos; com todos os que vivem na carne e os que vivem em forma de fluido cósmico universal. Sou feita à imagem e semelhança da humanidade porque dentro de mim cabe a mais doce ou a mais vil das criaturas. Troquei, doei e recebi saberes com estudantes de vida assim com eu. De certa forma ainda vivo assim porque trocar e doar são atributos da generosidade, menos que da justiça. Dentro desse esquema (trocas, doações, recebimentos) escrevo porque na medida em que faço isso me somo e me divido neste mundo que é nosso)
Disseste ou escreveste milhões ou muitos milhares de palavras. E deve haver nessa nebulosa uma estrela que seja a tua. Não a saberás nunca.
Vergilio Ferreira
Vai e diz
do quanto sopro morno dito em vão
[e de acordo com a ciência houve
por breve sopro no peito astro!],
da parte, da cor
dos quantos quatro cantos do dia
que não te inventam já
não combinam,
como à dor do dente sem raiz
como à ilha que te represa
ao sol posto sobre a mesa, envenenado
sem país, sem sul norte, vai
antes que seja interminável a manhã,
vai, parte
parte a parte que te condena
já veneno do sabor
da cor do coração,
já tremor
da terra que te atrapalha, e parte
o passo onde o pé te tropeça,
antes que seja dia de mais, a mais.
Deixa para trás
o dia, voa, cai
vai e diz, e
faz do traço do giz o tronco
da voz, a quase fronteira
quase pressentimento
dum eu inteiro, corpo presente
estranho equinócio de ninguém,
vai, vem, diz ou
como quem diz,
parte!
***
Já fui astro sem abrigo
Para Helena Terra
Sabem-me a mar as mãos que em mim derramam
o traço de giz, o fecho do circulo que me abriga
repousado na terra, o corpo do corpo recolhido no chão
[e que não se faça dia, ainda não!]
que cuidam-me da luz que se adentra em astro que já fui
pela porta no sol alinhada, bordada raiz onde também se envelhece o coração.
Sabem-me a manto, as emendas provisórias na linha da vida
essas rugas mãos de tecido frágil e fugaz,
que apesar do silêncio, quase murmúrio, quase espinho
do eu que em desalinho, não finjo, não sou capaz.
Já silêncio, ao primeiro canto da terra, às raízes do chão em giz derramado
no círculo que me adormece,
[talvez luz, talvez dia o dia que acontece]
sabem-me a mar essas mãos, eu não.
***
Instante
Ainda há tempo,
ainda há barro e pedra,
grão da negra terra feita chuva,
para construir,
a tão urgente, a grande nuvem
de papel vegetal,
agora
que ainda há vento
e aprendizagem do caminho
que invento, devagar.
Ainda há tempo,
ainda há por cosmo um lugar
um peito adivinho e teimoso
na pegada do primeiro chão
que invento
devagar,
nas formas do céu em linho
o corpo da ave, o movimento
do rio que na nascente se demora
em água anis,
e também
o que no mundo se faz ventre,
a nuvem dum céu que não erra,
que havemos ainda
por tábua, por vidro, por pedra,
aqui e todo o lugar, o mais além
onde ainda há tempo
para construir, a tão urgente
a pedra mole
que bate dentro,
desigual
e para tal, haja a vontade
porque ainda há tempo.
***
Um Anjo Nasce
Para André Mehmari, com admiração
Em certas manhãs que na medula
dum espinho
na água e no sal,
no linho
remendado no sopro das cinzas
revolvo do chão
como se fosse corpo,
o canto da terra
e então um anjo nasce.
Em certas manhãs
e apesar das águas abruptas, tão calmas
como palavras
da palavra, da raiz o saliente silêncio
primeira comunhão
antes que se faça azul
o dia coração
branco ou negro, cinza rosa velho baço,
devolvo insignificante, o corpo
ao nome que me já não sei
e ao mundo, e no mundo
quer eu queira, quer não
um anjo nasce.
***
Como quem diz um homem, por vezes poeira frágil
Em cada homem há uma viagem para um planeta longínquo… (Para os pobres é a Terra.)
Em cada homem, José Gomes Ferreira
o que haverá de prender o homem ao chão que pisa, quase nada
ou como quem diz um passo de passo, já da brisa vento breve sobre a terra, quase
fronteira, quase fronteira, quase nada
ou como quem diz da viagem, a poeira frágil quase pegada
do astro que no homem se teima, chão momento, vão finito
como quem diz corpo urgente, corpo do dia madrugada, quase
tinta clara na página breve do mundo, diria, esboço primeiro
ou como quem diz, um homem por vezes poeira frágil
guardador de infinitos, margens e ventos, como quem diz
se há outro eu, eu sou a viagem.
(Aquele que se assina como Leonardo B., nasceu em Lisboa. Sem “linhas mestras” bem definidas, construiu parte da obra poética sob o apelido de Ricardo S. Desse período constam colaborações irregulares com o DN Jovem. Mais tarde colaborou no das artes e das letras, suplemento cultural de O Primeiro de Janeiro, até à reformulação daquele suplemento. Só em 2009, com a criação do seu primeiro blog, Na Linha das Fronteiras, e mais tarde a Barca dos Amantes, chega a uma mais ampla divulgação, e por opção, não editou até esta data em formato de livro… o que crê que possa acontecer no próximo ano)
o pão
não alimenta
a mão
que morde
os dentes da fome
a palavra vai
para além
destas fronteiras agudas
repousam na língua
ali se cristalizam
em gotas calcárias
e músculos
***
todas ausências
1
o menino
seus olhos de pires
emulando uma coruja
e o brilho de pios agourentos
facilmente se assusta
e o tempo todo
foge do dia
dentro de seus sonhos
todas as noites
cobras engolindo pedras
digeridas
carcomidas
defecadas
em limpos diamantes
tudo sob um céu azul cristal
dia eterno
e os olhos bem abertos
2
a menina tímida desengonçada
tem os olhos
rasgados no rosto
trabalho de arado cirúrgico
o útero
sempre à luz do dia
a luz do mundo
à vista de todos
aos que quiserem ver
e aos que não
não se admira
ter tido cria tão cedo
a crianças semitransparentes
que nunca tiveram
solidão ou escuridão
sonha com serpentes
vagando em desertos vermelhos
o cheiro de sangue nas ventas
e o rosto materno nunca visto
3
à noite
menina com lágrimas e espigas
senta-se sob a grande árvore
sob a sombra da noite
chora por todas ausências
os filhos
sempre alçam voo
assim que nascidos
***
a fome
recobrou o olho
e este tinha fome
a fome insaciável dos olhos
e o olho cobrou a fome
desde os tempos imemoriais da fome
o quanto dar de comer ao olho
se este não se sacia
quanto de velhas fotografias
tanto de livros amarelos
jornais dobrados até se tornarem quebradiços
cartas de amor não correspondido
e flores e frutos secos guardados em gavetas
quanto de moedas antigas
de quinquilharias
a fome voraz de papéis velhos
e dedos envelhecidos
óculos para miopia
de tantos e todos tempos e temperos
que calaram em renascimentos
e aí se destilou o dia
com a luz coada
de olhares furtivos pela janela
e seus vidros ensebados e turvos ………………………………………………..cor que se esmaecia
***
a parte que te cabe
para o amigo Celso de Alencar
Circe
amarrou a Ulisses
não com correntes
usou os músculos de sua vagina
mesmo estando em êxtase
a saudade de seu chão
e do cheiro do esterco das ovelhas
o chamavam para casa
e se libertou
Circe disse fica
mas Ítaca clamou mais alto
o esperava em casa
uma vagina mais mansa
e doméstica
sem grandes bailados
e malabarismos
mas que demonstrou um furor selvagem
ao se fechar aos machos
que não eram para ela
e na vingança e na morte
se abriu em sorriso
enquanto seu homem
trespassava seus adversários com flechas
nas noites que se seguiram
Ulisses não sentiu saudades
da insaciável bruxa deusa
Penélope
cansada de tecer
exigiu a parte do homem
que lhe cabia
(Edson Bueno de Camargo foi operário da indústria, dentro de uma realidade suburbana. Muitos de seus primeiros poemas foram escritos no “chão da fábrica” com cheiro de máquinas. Escreve desde muito jovem, sempre muito prolixo. Na maturidade, passou a ter uma relação com a poesia que vai para além da literatura, a poesia é sua experimentação do sagrado. Escrever poesia é seu tempo do sonho. Os poemas aqui presentes fazem parte de seu mais novo livro, “a fome insaciável dos olhos”, recentemente lançado pela Editora Patuá)
o balouçar dos tempos está rangendo
o escárnio surgindo frio pela manhã
dentre vogais que se misturam
nasce a doçura rasgando ingênua.
armadura ginasial nunca polida
dentre dissipados olhares se abrilhantam
sem rumo levando ao descobrimento
degelando essas sensações estupefatas
numa consolidação platônica dominante.
se eu tivesse um sonho
ele seria o pesadelo.
moeda em cobre fundido
no fundo da bolsa
nunca trouxe sorte.
se eu tivesse um pesadelo
um dia seria sonho.
***
entre minhas frestas
um tanto irritante
deitou-se no tapete da sala
sorvendo o cheiro da geladeira
precisando de limpeza.
um tanto amável
acendeu as velas
iluminando os poros
em meu corpo ácido.
um tanto irritante
reclamou das manchas
negras e antigas
no fundo da banheira.
sol nascente
um oriente
plantado feito arroz desnudo,
ficou irritando e doendo por dias,
guardado entre meus dentes
feito massinhas mastigadas
de bolachas japonesas.
***
flamejante
o início perde o rumo
quando lanço chamas
nesse abismo inflamado
em devaneios bucólicos
flamejantes feito ritos
sarcásticos esmorecendo
gota a gota no quintal.
o nariz?
o que é o nariz?
– sentença em riste
buscando amadurecimento.
***
temporário
os trilhos da cidade esperam
minha cheia sangria.
às sete da manhã
vem o primeiro trem
e sua sonora carga amarela
invade as ruas do arpoador.
desaparece nos trilhos,
evade meu pranto sem crenças
e volto pra vida com cheiro de morte
temporário.
***
sóbrio
arfar e sentir o drama inveterado
gota a gota retratando as lágrimas
sóbrias nessa madrugada mnemônica.
não nasci ou amadureci neste nevoeiro
entre discos e canções dos bandoleiros,
odeias tudo em mim e não sentes nada?
sem sol, lua ou cartolinas recortadas
para meus primeiros trabalhos escolares.
nessas madrugadas apenas vício e chamas
me afastam e não sou parte dos seus sonhos.
desconexo nessas pequenas noções de vida
sôfrega voltando a destruir tudo outra vez.
pai, não há mais lamparinas nos cômodos:
sou seu sexo violento sem revide,
a placenta que caiu e não alimentou
em seu nome e do filho que se fez.
(Stefanni Marion nasceu em 1981, no dia do aniversário de sua mãe e no meio do caminho entre cidades do litoral sul de São Paulo. Já se envolveu com teatro, cinema, curadoria artística, mas acabou rendendo-se ao encantamento pelos livros e graduando-se em Biblioteconomia. “Temporário” (Editora Patuá) é seu primeiro livro de poemas)
te sonhei Dionísio
em teu abandono.
e te esperei,
lasciva,
por três ciclos lunares.
é a inteirez da tua presença,
quando me tomas,
que guarda o corpo
nos enquantos.
é esse estar
inteiramente
em mim mesma
e ainda assim alheada
que faz com que eu construa,
do meu corpo,
tua morada.
II.
e por te querer Dionísio
fiz-me templo
de chorar e louvar
loucura e grandeza.
os olhos, arrebatados,
não inventam:
é o peso de quem se fez
máscara e Deus
o que, ao corpo-casa,
retorna, refazendo-se.
por ti mesmo ocupas
desde o pequeno eu
ao universo meu ampliado,
entoando cantos de recusa
enquanto invades,
com tuas palavras,
o que as mãos do deus
já não tocam.
III.
te exigi Dionísio
em teu rigor.
meu ventre suplicando
fluxo, a por em curso
vento e águas.
da minha lucidez
fingi voo cego
abrindo campo para o mergulho,
de um outro azul, mais intestino.
fechava os olhos para os teus escuros
fazendo-me noite e esquecimento.
da tua dor, fui o gesto mesmo,
suspenso em teus extremos.
e dormi sobre a tua vergonha,
mesmo me querendo
sol e grito.
pensava-te assim,
inteiro,
descortinando o teu pior
entre a cama
e o ocultamento.
IV.
te percebia Dionísio
em cadências.
tu devolvias o olhar,
sendo.
e porque não te quis fixo,
modulavas existência,
passeavas sentimento,
em melodia densa e vivaz.
conheci fugas em
fragmentos escalares.
nos instantes, fomos
tempo
e contratempo.
do teu corpo, toquei
desníveis, falésias, falhas abertas
como se o próprio som
do terrível anjo.
do labirinto,
veio à tona
a tensão latente
e me percebi
versão pulsante
do teu tema.
queria ter sido uma nota
menor
entre a tônica e a dominante.
quem sabe o corte nas incumbências.
***
NOTURNO
o chão da casa range
os dentes da noite.
tábuas, esquadrias,
abrem frestas vagueando
vozes melancólicas: uma
composição. o vento
por trás das estantes
a folhear palavras
imprecisas ditas na mudez
dos toques. A noite
e suas bocas enormes.
o prédio respira o mesmo sono
dos bichos adormecidos
de humanidade. o céu caído
sobre o mundo, sem promessa.
e o mar distante ainda farfalha
o tempo, que progride como o som,
entre o que não se vê, até
amanhecermos.
(Fabiana Turcié formada em Filosofia e mestranda em Educação, Arte e História da Cultura. Presa entre a palavra e o silêncio, escreve para incomunicar. Publicou o livro de poemas Desobjetos (Ibis Libris, 2009) e organiza a coletânea História íntima da Leitura)