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79ª Leva - 05/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ronaldo Cagiano

 

Desenho: Bárbara Damas

 

MEMÓRIA

 

desço as escadas do velho porão
onde hibernam infâncias amputadas

não vejo destino para os aniversários
diante da nauseante mendicância
de afetos
que ainda decora
as paredes mofadas,
albergue de fantasmas.

entrincheirado no passado
extraviado do futuro
há um presente alienígena
que sussurra no mato que engoliu o jardim.

tempo de corrosão
e abstinências.

lá fora
o mundo invadido
pelo lodaçal de supérfluos
está perdido, arcaico e desigual
diante da estupidez inflamada
de pastores que vendem gato por lebre
nas praças esterilizadas pela cegueira
da fé demencial dos evangélicos.

a casa desabitada
não revela o mistério
de tanta distância construída

umidade e fungo
batizam cada percurso
de minha descompassada lembrança

mas a memória, abrigo de punhais na mente,
não cede à cortês diligência da morte
que tão cedo impregnou de silêncios
os cômodos, os lençóis, os brinquedos
a cerca de arame farpado
o varal sem rumor
de panos

entre tantos desencontros
desencantos
descaminhos
o bisturi de Freud
duelando com o criminoso silêncio de Deus
responde às minhas dúvidas

 

 

***

 

 

ESCRUTÍNIO

 

no fundo da alma
a memória não sossega:
rio invisível e insondável
mas sublevado
……………………..e dissidente

febre que arde
e ressuscita
nas carcaças do passado

feito um saci,
salta
da floresta opaca e fria
……………….da noite

A Iniludível me acena
sem cordialidade nem música
com a inflexível veemência da morte,
que derrota a fé ensimesmada dos homens
e não camufla a inércia imperdoável de deus

na epiderme do oceano de dúvidas
uns olhos cavalgam sem sair do lugar

é noite alta e fria

não sei se é você ou é o luar
que exuma meus fantasmas
e exorciza a babel de mentiras

sei apenas que
quando agoniza a madrugada
e migra a população de vagalumes
o sol irrompe feito um furúnculo
e tudo pulsa em meu olhar

é a urgência da vida
a me desatinar

é a certeza do amor
vencendo a retórica imperial
…………………………………………do tempo

 

 

***

 

CICLO

 

Enquanto o cortejo seguia
alheio aos gestos automáticos
das mãos que cerravam as portas

……..outros continuavam a vida
……..imunes à que passava,
……..despojada de sua última chama.

A cidade não seria diferente
porque amanhã
outras notícias viriam

e o rio no qual navegamos,

……..Tejo a repetir a lógica de Heráclito,

seguiria rotineiro
como o sangue em nossas veias,
entre urgências e desatinos metabólicos.

Entre o solene despedir dos mortos
e a maquinal dor dos vivos

………..a criança se demorava
………..num olhar pensativo e inquiridor
………..rumo ao insondável.

E percebia,
ainda na antevéspera de sua existência,
que viver é um lento aprendizado de extinção.

 

(Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases, viveu em Brasília, onde formou-se em Direito, e reside em São Paulo. Publicou, dentre outros:  Palavra Engajada (Poesia, 1989),  Dezembro indigesto (contos, 2001 – prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001), Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio, 2006)  e O sol nas feridas (poesia, Dobra Editorial, SP, 2011). Organizou as coletâneas Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, DF,  2002), Antologia do conto brasiliense (2003, Projecto Editorial, DF) e Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo  (LGE, Brasília, 2006))

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Virgínia do Carmo

 

Desenho: Bárbara Damas

 

 

No avesso dos voos

 

Há pássaros que me doem no avesso
dos voos. Como se engolisse a vertigem
de um caos de penas e perdas. Acentos
graves em desassiso na queda invertida das
lágrimas

………do fundo de mim para a superfície dos teus
…………. olhos.

E sei que não há outra pele que me salve
da solidão. Porque tu corres-me por dentro
do corpo. Qual seiva espessa do ar que me
atravessa. Um abismo de sopros a romper-me
o peito. Tempestade de reversos. O oposto do
teu toque.

Há pássaros que me doem no avesso
das asas, sabes. Como se a vida fosse este caminho
de pernas para o ar. Um horizonte desenhado
ao contrário. Um céu que piso sob o peso da terra.

Há pássaros que me doem, meu amor.
No avesso dos voos.

 

 

***

 

Decomponho-me

 

Sitiada na hora da torção da luz, decomponho-me.

Em excertos de estrada húmida. Em filamentos
de solidão.

Entorno o meu corpo nos intervalos das tuas mãos
recorrentes, e contemplo a agonia amplificada dos
ruídos na crosta arfante da terra.

…………[Consubstanciação do impacto da memória.]

Como as gotas de ti no vidro sujo.Como aquele
cheiro a interior prescrito.

…………. [Como se não pudesses
habitar-me mais.]

E no movimento perplexo dos olhos golpeados
de horizontes intermitentes, respira-me o lamento.

O meu grito lentificado,

…….. [pedestal do teu aceno]

a sangrar visões de nós. Um uivo grave, desnorteado,
a ser-me eco mortificante na pele.

E sitiada, ainda, na hora da torção da luz,

……………decomponho-me.

 

 

***

 

 

O silêncio das pedras

 

Apetece-me o silêncio das pedras
A quietude das areias primitivas de um chão
sem dono
A lonjura sem fundo
nem pele
que me doa

Apetece-me a nudez das escarpas
salgadas
A liquidez inabraçável
do mar

O alívio de não ter peito
O descanso das mãos

Apetece-me o silêncio das pedras

 

 

***

 

 

Um rosário de dias sem nome

 

Sobre a mesa do meu jardim de pó e ar,
um rosário de dias sem nome. Dias
(in)seguros na compressão de dedos partidos.
Dias memoriados em cacos de porcelana azul.
Contas de um céu por limpar.

É um rosário de dias sem rosas nem chão. Dias
desfiados em mistérios de um tempo menor, a tremer
por dentro das coisas, a doer nas dobras dos dedos
partidos.  Atravessado de vestígios da salvação
por encontrar.

É um cordão de pedras e nós a engolirem silêncios
irrespiráveis.
Estranha cadência de uma procura qualquer.
Três terços de um todo por acabar.

 

 

***

 

 

Cansada

 

Cansada de me ser um relevo abstracto na textura das coisas que piso.
Cansada de percorrer esta cordilheira insular de abraços possíveis.
Aprendi a respirar vazios estranhos ao meu corpo e dói-me já o peito
de tanto me salvar dos espaços contaminados.

Cansada de calcar a ternura em gavetas que já não fecham e depois
partir para um mundo onde não cabe todo o tempo que ainda falta.

cansada.

Cansada de tudo o que me sobra do chão.

 

 

(Virgínia do Carmo nasceu em Champagnole, França, mas foi em Trás-os-Montes (Portugal) que cresceu e aprendeu a escrever. Licenciada em Comunicação Social, o seu percurso profissional passou pelo jornalismo, mas foi no mundo livreiro que encontrou a sua verdadeira vocação. Atualmente leva adiante um projeto (Poética – Livros, arte e eventos)  que, mais do que uma livraria, pretende ser um espaço de verdadeiro e profundo encontro de livros e pessoas. É autora das seguintes obras: “Tempos Cruzados” (poesia), Pé de Página Editores, Coimbra, 2004,“Sou, e Sinto” (poesia), Temas Originais, Coimbra, 2010,“Uma luz que nos nasce por dentro”, Lua de Marfim Editora, Lisboa, 2011)

 

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Demetrios Galvão

 

Desenho: Bárbara Damas

 

alguém comeu minhas mortes

 

minha boca suja de sono no teu sonho sujo desata novelos e subtrai gengivas: gosto de deserto em prato de cerâmica, língua escorregando pela geometria defasada. arapuca armada: impossível resistir ao ato de se abismar. a janela cega revela nódoas, sequelas atrás dos tijolos. o silêncio costurado com barbante faz lembrar que as raízes cortadas fazem falta: – onde furtaram meu quase nada há um incêndio infinito e asas longe do tronco.

 

 

***

 

 

no quintal de nossos umbigos

 

o teu riso desata um solstício – ( suprimimos os travessões, os dois pontos, as vírgulas, atropelamos a semântica com beijos salgados. retiramos do relento os balões desgarrados, retiramos também do guarda-roupa os sonhos velhos e os refizemos para o uso diário. nos encontramos quando erramos os caminhos, quando na interseção dos itinerários brincamos de nos perder e de nos achar e de trocar de pele.) – a cada gesto… um poema de amor, um samba, uma brincadeira no quintal de nossos umbigos.

 

 

 

 ***

 

 

 perdi muito mais que uma orelha

 

e tudo vaza pela ferida do pé: as árvores sorumbáticas, os peixes dopados de barbitúrico em mazeladas coreografias. a paisagem cabe em garrafas, enfio os fantasmas em um cordão e os penduro no pescoço. os dentes estão sujos, o corpo livre, os ossos antes oxidados sentem a velocidade retomar seu lugar, os espinhos nascem fortes novamente, devo a alguém o que me foi de vazio. o telefone está mudo e o colchão acolhedor em sua extensão longitudinal, província dos sonhos que arrebenta o nervo dos álbuns de fotografias, capitania tremembé guardada na memória das pedras. – e tudo vaza pela ferida do pé.

 

 

***

 

 

a espinha de março

 

i
a espinha de março atravessa a garganta do abismo.
um relâmpago indigente cai no deserto de presságios
perpendicular às asas verdes inoxidáveis que me pertenciam.

mordida pela nevralgia do cão andaluz
a menina conseguiu apanhar a mão no vazio da rua,
………………………………………………….antes que as formigas
………………………………………..chegassem.
quando no entardecer chovia no sol-laranja
os últimos demônios que ainda esperneavam se iam,
deslizando lentamente pelo orifício do horizonte
acompanhando o movimento do astro sumindo.

 

 

ii

21 gramas é o peso da alma dentro da anatomia rígida do caroço,
…………………………………….do hermetismo flácido da certeza
……………………………………..quando os pássaros caem feito folhas
……………………………………………..no chão abjeto,
……………………………………………..um quase-som do violinista verde.

 

impossível saber que código contém aqueles rostos:
………………………………………..quase poço sem fundo.
………………………………………..não importa.
fazendo a barba dos olhos com navalha
eu deixava a assonância dos acordes criar sons de cor,
……………………………………..jardins sinestésicos
………………………………………pra alimentar camaleões.

 

iii
março passa a conta-gotas em pingos diacrônicos,
um gole no líquido baldio da xícara
e um gosto suave insiste em permanecer,
………………………………imitando os dias teimosos.

as alpercatas do tempo acariciam degraus,
………………………a tangente dos cílios,
……………..o astigmatismo do olho d’água:
a diáspora das figuras-carcomidas que moravam nos armários,
……………………………………………………………gavetas,
…………………………………………….estantes da lembrança.

 

iv
– os insetos digerem o mundo na sua enzimática-paciência-atemporal,
tal como as ostras em seu silêncio-de-calcário-inacessível
guardam os pecados do mar num cofre impermeável.

 

(Demetrios Galvão é Historiador e poeta. Nasceu em Teresina-PI, cidade onde reside. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (FUNDAC/PI, 2005), Insólito (ed. Corsário, 2011) e o cd Um Pandemônio Léxico no Arquipélago Parabólico (2005). Foi membro do coletivo poético Academia Onírica e um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011), além de ter participado da produção do cd Veículo q.s.p – Quantidade Suficiente Para (2010). Atualmente edita a revista Acrobata)

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Tatiana Druck

 

Foto: Rosa De Luca

 

 

BICHO GEOGRÁFICO

 

Entrou no corpo do outro como larva
portando a bandeira da colonização

tomou o corpo
de refém
e andou

em chão batido
vias planas
vazias de ocupação

tateou
sem mãos nem tentáculos
arma ou carinho

escavou
levantando pele, entranhas
procurando planos

vasculhou
roupas, veias, papéis,
revirou enganos

em busca de explicação
para sua falta de caminho

 

 

 

***

 

 

 

MALDIÇÃO

 

Atreva-se a comandar o ritmo de um coração –
por maldição, entreva-se para sempre no corpo
uma batida simbólica espasmódica nostálgica
disforme sistólica atávica
e descompassada

 

 

 

***

 

 

 

MANDINGA

 

Depois de maldizer os santos
racionalizar os fatos
desfazer quebrantos
recolher as flores, apagar as velas
demolir o altar e o querubim

Segurei com firmeza meu próprio pulso
sem batimento
e com a fé que dispunha
rompi em prantos e sem testemunhas
a fitinha do senhor do bom-fim

A partir de agora, não creio nem em mim.

 

 

 

***

 

 

 

CÚMPLICE REFLEXO

 

O espelho atesta o que não dá para mudar:
o tempo, o prazo vencido,
o tônus que se foi
ônus da trajetória.

Sem julgamento,
o espelho mostra
a melhor versão da história
que Deus nos deu:

avisa o que está faltando,
arrola o que dá pro gasto,
ensina truques e esquemas
e anima antes da festa
com um ângulo de visão belo
ou uma viável distorção.

O espelho não faz trapaça
mas admite pactos:
como fiel escudeiro
esconde em segredo alguns traços

Assobia, disfarça, esfumaça,
mas não conta –
nem que o quebrem em cacos.

 

 

***

 

 

 

PARTILHA

 

Parto
em dois o que era nosso:
o pudim do almoço
os jornais da cesta
o cobertor de lã sobre o sofá
alguns cristais
Deixo
as contas decimais:
o calendário asteca da geladeira
uns quantos sermões
segredos viscerais
Pedaços inteiros de lembranças
não fracionais.

 

 

(Tatiana Druck é autora do livro de poesia “Par e Impar” (Ed. Mecenas, POA, 2010). Tem textos publicados em diversas antologias. Conquistou prêmios literários nacionais, entre eles, o 1º lugar em crônica no VIII Concurso Mário Quintana (2012) e o 1º lugar em poesia no XXVI Concurso Brasil dos Reis/RJ (2011). É advogada, mestre em Direito Privado pela UFRGS, tem 42 anos, vive em Porto Alegre)

 

 

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Wender Montenegro

 

Foto: Rosa De Luca

 

ABSTRATO EM LUZ E MEDO

 

O medo é a alma dizendo onde dói
pássaro conduzindo léguas
sob asas feridas.

É grito de Munch sangrando a moldura
expressão da face à beira-morte
quando um anjo anuncia o delírio.

É o temor do cântaro ao desuso
jardins plenos de sede e gerânios
cardumes de espectros
pescando crendices nos rios da noite.

Há mel e fé na colmeia do medo
e os anjos terríveis de Rilke
pintam de ferrugem cada luz e riso;
semeiam gerânios sobre cada grito.

 

 

 

***

 

 

 

MEA CULPA OU PROFISSÃO DE FÉ

 

Ao poeta Francisco Carvalho

 

Semear poeiras e andrajos de esperas
dissecar os ossos das metáforas
acender espantalhos no amarelo das espigas.

Decantar o silêncio que sustenta o cais
ostentar um colar de metonímias
despir a voz da louca, cuja febre anuncia
um evangelho apócrifo.

Caminhar sob pedras como por milagre
ouvir a foz rouca dos rios da infância
borrifar no azul as flores do arco-íris.

Pintar um verão vazio de andorinhas
se encharcar de sol e devaneios
hastear um lenço sujo de saudade
ajustar os ponteiros na cópula dos pardais.

 

 

 

***

 

 

 

INVENTÁRIO

 

O brasão está posto nas cãs da matriarca
as chaves da terra
penduradas no peso dos anos
lhe enferrujam a voz.

Sete línguas mastigam as léguas do tempo
sete reses ruminam as vozes dos mortos.

E meu filho dorme, alheio a tudo isso.
Inocente ainda e derradeiro herdeiro
apenas deseja palmilhar um sonho
nas léguas do seu chão
de berço.

 

 

 

***

 

 

 

TEMPO DESCARRILHADO

 

Ao poeta Mário Gomes

 

Esses olhos que a terra não deseja
hão de comer a vastidão da terra
plantar no solo o sêmen de seus rastros
cravar na pedra o seu punhal de febre,
sonho pleno de pedra.
As algemas de sangue, solidão e medo;
o luminoso terror noturno…
Há tragédia em cada ato
no tempo descarrilhado
e um gosto de eternidade.

 

 

(Wender Montenegro, natural de Trairi/CE, é professor de História e poeta. Tem poemas publicados nas revistas TRIPLOV, Blecaute, dEsEnrEdoS e em outros espaços literários. É autor de Arestas, 2008, pela All Print editora/SP, com o qual foi indicado para o Prêmio Codex de Ouro 2011, na categoria Poesia)

 

 

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Janela Poética VI

Vítor Nascimento Sá

 

Foto: Rosa De Luca

 

POÉTICA

 

I

 

Ser capaz de colher,
na árvore de Mallarmé,
um punhado de sementes,
transformá-las em estrelas negras
e compor uma constelação
sobre o céu branco do papel.

Entre o barulho e o
……………………….silêncio

Deixar o vento amalgamado
num móbile
……..da
………..sala
……….de
………….estar.

 

 

II

 

Nesta mesma escrivaninha,
um texto por encomenda:
angústia.

Prazo, quase findo,
lugar marcado,
papel em branco.

Um amigo, ao telefone,
questiona a validade,
a importância das
digitais sobre o teclado.

Mais uma gota de suor,
mais uma xícara de chá amargo,
mais litros e litros
de vazio até a escuridão entrar pela janela.

E, mais, uma vez,
adio a primeira linha
para o dia seguinte.

 

 

III

 

de pronto dilata-se
……..    minha ideia
e me faz maior
que o universo
então tudo se aquieta
……..    em mim
estrelas
……………..soar de sinos
……..    fundos mares
verbos de outras
terras
……………..virgens
são minha alma
sob o manto enviesado
a empreender mantras
tudo absolutamente tudo
em minha poesia

ou em mim
quiçá até o inexistente
o que equivale dizer
que é ela também o nada

para além do que se sente

minha poesia é um desmentido
……..    em jornais de folhas rotas
………………guardanapos nos bares da esquina

é quase tudo
inda
é muito

porque é arte de tudo dizer com o mínimo possível

é o limite entre os sons e os completamente silentes

para o resto ela é só uma porção de dúvida
diante da certeza dos que se pensam contentes

 

 

IV

 

Muito antes deste poema,
fui forçado a escrever o meu braço,
sustento de mãos, colegiado de dedos e sonos.

Muito antes deste poema
a saliva estava para teu corpo
assim como o rio está para o barco
ou para o cão a observar o seu curso.

Jamais entenderás a solidez
de minha primeira água.

Ainda não liquidada,
a energia devorou
meus dedos de escuridão,
abismo, ausência.

Foi esse então o primeiro facho.

 

(Natural de Maracás, Bahia, Vitor Nascimento Sá é gestor escolar, revisor e professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, licenciado em Letras pela UESB em Jequié e mestrando em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. É diretor e cofundador da Associação Grupo Concriz: Poetas, Recitadores e Afins. Tem textos publicados nas revistas Verbo21 (BA), Blecaute (PB), Correio das Artes (PB), Cronópios (SP) e Laboratório de Poéticas (SP). Participa da antologia Sangue Novo: 21 poetas baianos do século XXI (2011))

 

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78ª Leva - 04/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Rita Santana

 

Foto: Rosa De Luca

 

Agrestidade

 

Tornei-me bruta
Após travar batalhas de tentares.
O tear do tempo cumpriu-se dentro do universo
E eu apenas cedi ao fim.
Almocei nua no último banquete
E acendi velas à mesa.

Arrumei minhas tralhas e deixei-as
Alheias aos venenos da aorta,
Aos anéis do abandono.

Deixei o feérico, o cupim, a cumplicidade das rotas.
Fiquei à deriva de mim mesma.
Feita toda inteira de atordoamentos
E mutilâncias.

Arrebatada de almas.
Pouco morta.

 

 

***

 

 

Esbeltez

 

A quem minha embriaguez seca,
Meus depósitos de pele crua,
Minhas vastidões interrompidas,
Meus abortos clandestinos,
E o meu destino de santa?

A quem ofertar minha Esbeltez
Sem alicerces, nem cárceres,
Nem desbravadas cercanias
Que alimentam a vitalidade
Da minha alma ainda à toa,
Na invasão das tormentas?

Equilíbrio algum
Invalida meus anseios.

 

 

***

 

 

Catedral de Marfim

 

Ele atropela regras de pertencimento
E toma posse dos meus feudos,
Naufraga em meus açudes rasos,
Desperta carícias clandestinas
Na corporeidade do desejo.

Decifra meus rastros arrastados no chão da Casa,
Lambe o osso exposto do meu sexo,
Rompe seus votos de castidade,
E me põe à vontade em sua Catedral de Marfim.

Ele é assim, afeito aos meus mistérios
E dono testamental dos meus dotes.

 

 

***

 

 

Crepúsculo das Vertigens

 

Ante o teu olhar de céu marítimo,
Cedo oferendas ao teu cinismo-seco.
Crepusculo raízes de verdades verdes,
E ainda assim, quero-te meu!
Apaixonado e obscuro-louco,
Encantador das minhas servas serpentes.

Mente quem olha em silêncio
Tua brandura!
És ofertado a escândalos de botequins.
Tens no nome um Império de mangues,
E no meu lodo escavas pepitas,
Pratarias de negra apanhada
Em arrecifes de ciúmes.

Vingo-me perante o ópio epiderme de teus olhos
E morro a cada romper de casco sobre pedras.

 

 

***

 

 

Ílio

 

Osso meu,
Na ilicitude dos meus requintes.
Cravado em terreno fértil de flamas,
Abnegado esterco na orgia
Dos meus desacertos correntes,
Corpórea mácula na vértebra do meu querer.

Homem Ilíaco!
Indagam sobre minhas adegas
E meus repastos de fêmea acometida
Pelas danosidades da carne.
Indagam sobre minhas vestes e os meus vexames.
Apontam-me entre as professas
Enquanto devassam meus pergaminhos
De mulher conhecedora de homem.

Indagam sobre os meus tormentos
Indagam sobre certas Adagas
Fincadas no lastro da minha cama.

 

(Rita Santana é atriz, escritora e professora. Nascida em Ilhéus, Bahia, iniciou sua carreira literária em 1993. Possui artigos e contos veiculados em revistas e jornais. Recebeu, em 2004, o Prêmio Braskem de Cultura e Arte – Literatura pelo livro de contos “Tramela” (Fundação Casa de Jorge Amado). Além de integrar antologias, publicou os livros de poemas “Tratado das Veias” (As Letras da Bahia – 2006) e, mais recentemente, “Alforrias” (Editus – 2012))

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Tristan A. Guimet

 

Foto: Rosa De Luca

 

24

 

Sei perfeitamente. Ensejo saber que existem páginas brancas
desalinhadas da sua pele que artilham colisões acomodadas pela
força da iminência.
Às vezes recorro amedrontado ao luzir dos presságios, à precavidade
da noite, à temerária impaciência do sono.
herdamos pelas encostas do sangue
o momento pela repartição do impossível
o eixo da corrente nocturna
a delicadeza da palavra intangível do seu espaço
o recreio inexplicável do absoluto, o irreprimível mistério
pelo teu nome
que encadeia – as mãos submersas.

 

 

***

 

Fogo Posto

 

gosto muito devagar
o movimento insinuante de um gato
quando calmamente atravessa as paredes,
devagar as mãos descobrem iníquo os rasto dos dedos
devagar,
para não perturbar a sonolência dos espelhos.

 

 

***

 

As linhas traçam a brancura do medo
procuramos a afabilidade do silêncio
sobre a ingenuidade da terra
Escrever é um acto tardio                  que
Existe na perecível arritmia de toda a ausência.

 

 

***

 

O Caminhante

 

a Bruno Pereira

 

Mostra-me um pouco o recanto
de um homem sobre a fé de um cego
Recorda-me melhor a cadeira
dos sítios de nunca
Bebo um pouco mais de vinho
que penso ter na caneta,
Devora-me o caminho das chuvas
que me enviaram no pensamento
húmido da tua voz
Alheamente aceito a partida de um corpo
soletrado na origem frágil do encadeamento da queda.

un, deux, trois.

Au revoir.

 

 

(Tristan A. Guimet, 23 anos, jovem poeta de naturalidade francesa, de pai francês e de mãe chilena. Imigrou para Lisboa em 1998, onde a língua portuguesa tornou-se, hermeticamente, a sua “primeira morada de silêncio”. Estudante de Letras na Universidade Nova de Lisboa)

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Raquel Gaio

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

um desconhecido que me fala ao pé da noite,
possui entre os dentes
a calmaria de um rio.
em meus sonhos agudos,
sorve como um ventre
os esqueletos decadentes
e translúcidos de minha confissão.
(visões de um deserto que ninguém pressente)
esse sonho
transe alucinatório e místico
onde perco a dormência e o verbo,
nos inventa sem falta
sem desonra.

alegria cobiçada por Deus.

salto com violinos à beira-mar.

a fala desse desconhecido
se debruça sobre meu piano mudo,
e a cada nota costurada à goela,
desmancha qualquer pudor
qualquer lábio e cabelo
sem desastre
e escuridão.

reflexos da manhã

tudo nele é nada
gema de destroços
espinha de peixe
vastidão.

através de sua música onírica,
decomponho-me surrealisticamente.

/porque há um estrangeiro que me habita todas as noites
como uma avenca em perpétuas ilusões/

 

 

***

 

 

costurar na minha virilha
nosso enlace.
apertá-lo com as pernas nas noites
prenhas e insones.
(encontro frutífero de terrenos baldios-
benção de um deus que não reza.)

 

 

***

 

 

perpetuar  homicídios
abater  andorinhas
e retirar de cada mamilo o pouso.
as feridas continuam a se mover em círculos, você não vê?
o adorno dos corpos diz o destino
diz a escama escura e perpétua?
uma matilha de cães te ensaboando as vísceras
e no meio da guerra  compartilhando a romã da madrugada.

um explícito exu encosta em meu hálito,
e fecundo o chão grávido de nada.
(o chão me exige uma paternidade que não posso dar)

desejos de fim de ano
derramando o café
substituindo a borra pela combustão.

/eu tenho um relâmpago nas mãos e uma fratura na boca/

estou vendendo o tempo que esse poema consumiu pra ser feito,
quanto você pagaria?

 

 

***

 

 

um poema me começa
e invade minha saudade inventada.
tenho um sonâmbulo amor
e as costelas lúcidas da madrugada.
– sei que isso já foi escrito em algum lugar-
sou plagiadora desde nascença.
imito paraísos e tonturas.
tenho correspondências não lidas
que ocupam toda a mesa de jantar.
– ando preferindo ser horizontal e mística.
encerro esperanças na vodka
e minha sede se derrama pela noite.
cem estilhaços me dão a mão,
e no verão,
tenho contrações
devido ao número excessivo de verbos.

qual a palavra/gesto que costura
um abcesso?

observações pertinentes a esse plágio:
não possuo óculos escuros
e  antes de sair de casa,
esqueço de tirar os soluços do bolso.

 

 

(Raquel Gaio nasceu na cidade do Rio de Janeiro, é atriz, poeta e performer. Cursa o último período da Faculdade de Letras da UFRJ. No ano de 2011, lançou o livro de poesias “O Exercício no Mundo” com Luis Alexandre Louzada e Denise Fraga. Foi publicada nas revistas Um Conto, Diversos Afins, Estrelas Vagabundas e Zebra, estas duas últimas da UFRJ. Suas performances, algumas delas, são derivadas de suas poesias como “Retina” e “poemas vermelhos”. Mantém o blog Sensação de Violeta, onde publica suas poesias e algumas imagens de seus trabalhos)

 

 

 

 

Categorias
77ª Leva - 03/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alberto Boco

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

Fotograma

 

Para Daniel Tubío

ni una sola hoja el árbol ese
contra el cielo espeso de julio

desafía la fuerza de la gravedad y la brisa
fuera del tiempo detenido el dibujo del árbol
en esa luz diciendo que para mirar
el ojo es nada más que un aparato

lo que ve y lo que mira
el capricho estocástico del día*
es otra cosa

 

* Contraluz, Thomas Pynchon, P.943

 

 

***

 

 

La fuerza de la ilusión

 

…sospechar que tal vez todo
no sea sino páramo como luz
de casualidad puede crecer algo
(puede que flor u otra cosa)
hasta que la cosa muere y al tiempo
aparece lo igual y lo distinto
y el evocar de cada flor o lo que sea
lo real (si existiera) y lo imaginado
por todos los recuerdos
de cada uno y de todos
hacen la historieta del páramo
que se hizo a su vez otro cada día
sin saber primero
como sospecha después
acaso por querer conocer
y siempre la duda en el final
ahí donde se oye cuando
suena más fuerte la risa
que cualquiera voluntad.

Así también se ama, dicen algunos.

 

 

***

 

 

Oniricón

 

Para Alfredo

mientras el sueño  visita las tardes
donde todavía el calor no hizo su estrago
en espera de la sombra que trae cuando se retira
el sol como si fuera vaya uno a saber qué
decimos y se desviste o desvive por ahí…
no
en este borde no hay modo de saber qué
va a suceder entre todas las cosas
que los dados del sueño fabrican
(…el azar..la rareza..)
soñamos como los niños que miran
las cosas que se preservan
cuando cierta música los arrasa
… sabemos bien que más allá
de toda reflexión somos aquí los garantes
del sueño de la ferocidad
y la ternura de las cosas de la vigilia
en que las cosas pasan porque
pasan las cosas que  hacemos que pasen
sin descanso ni pensar al pasar
en cada paso dado del nosotros
nosotros responsables del sabor
el ruido y el perfume de las comidas
que comemos e imaginamos y el olor
de las pieles que dan testimonio
como una forma de respuesta con alegría
sobre la luz de las  calles donde todas
todas estas palabras están de más.

***

 

 

Pylon*

 

Para Ida

 

imaginar los postes y el plano vacío el giro
la figura que repite y se repite hasta la duda
perro en suspenso del que busca
sabe y descubre que no son los postes
más que la pobre ilusión del punto fijo
no hay más que órbita y vacío
mirada y pulso sueltos en la última curva
y dejar el dibujo
con breve bamboleo de las alas
volar al abierto en propia luz y sombra
propios el vacío y el plano
los recuerdos
el olvido …eso sí…
el olvido

 

 

* Pylon é o título de uma novela de Willian Faulkner, de 1935. Narra a história de pilotos que realizam competições de acrobacias aéreas. Também se denominam “pylon” os pontos de referência que indicam o circuito através do qual os pilotos devem percorrer. Chama-se “giro em pylon”, a manobra típica de uma aeronave ao redor de um ponto fixo, denominação oriunda do tipo de acrobacia realizada pelos competidores.

 

 

***

 

 

Estar callado y saber

 

Todas las cosas acontecen en nosotros mucho antes de que sucedan
Novalis (Georg Friedrich Philipp Freiherr von Hardenberg)

 

…a veces aquello que parece que no sirve crece
cuando lo apartamos
y a pesar de la ternura y el dolor de la pena
cuando se descarta
(¿cuánto hay que cuidarse del odio y el amor a la ternura?
¿tanto como de la ternura vana, de la ternura misma?)
lo que parece que no sirve permanece en una zona
de la espera como en un cuarto desconocido de la casa vieja
uno de los rincones del tiempo que olvidado supo
resguardarse de la sabia demolición de la memoria
y espera callado que un verbo
vaya y lo rescate como decir callar
en vez de amar y callar
en vez de amar callar temer no estar
como un (¿inútil?) morir anticipado

lo que sabe dentro de nosotros
bien podría ser un color de lo que siente
una nota muda en la música
del silencio nuestro
y de nuestro valor.

 

 

(O poeta Alberto Boco nasceu em Buenos Aires. São de sua autoria os livros de poemas “Arcas o pequeñas señales” (1986), Ausentes con aviso (1997), “Riachuelo” (2008), “Malena” (2012), dentre outros. Por sua obra, recebeu prêmios e menções na Argentina. Em 2007, coordenou o Café Literário “Mirá lo que quedó”, junto com Alicia Grinbank, Alfredo Palacio e Rolando Revagliatti. Publicou poemas e artigos em revistas literárias impressas da Argentina e do exterior. Prepara o livro de poemas “Evanescentes, In Propios Y Pequeño”)