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149ª Leva - 04/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Letícia Carvalho

 

Ilustração: Drika Prates

 

casa

para Maria Cristina

 

carregar até a porta dos fundos
os livros
as mensagens
todos os pensamentos em suspenso

sentar-se no batente
aproximar os joelhos do peito
mirar os pés do lado de fora

as patas que se aproximam
oferecer o rosto
e as mãos para carinhos
permanecer ali
falar com os cachorros e gatos

entender a razão daquele
ser o lugar favorito de sua mãe
na casa de Vila Isabel.

 

 

 

***

 

 

 

diário (2014 – 2018)

 

escutei os estalos de vidro
fotografei gente em automóveis
aprendi a desenvolver
bons raciocínios
mesmo que apressando o passo
pela Rio Branco
entendi o tempo
de se estar sozinha
em uma cidade grande
sinto saudade
daqueles ponteiros
por mais estranhos
que pudessem ser
seus arranhões.

 

 

 

***

 

 

 

pugilista heartless

 

eu pensei
nunca ser possível sofrer um golpe
digo
eu
nunca sofreria um golpe
com exceção do fatal
acredito
morremos em golpes.

eu sempre pensei
nunca ser possível sofrer um golpe
e permanecer
de pé ou sentada
com mais ou menos cabelo
com os olhos abertos ou fechados
com a boca seca
ou com saliva brilhante
com todos os balões
que habitam um corpo
ainda firmes.

é possível
sofrer um grande ou pequeno
golpe
perder os móveis da sala
os eletrodomésticos
o licor do avô
a coleção de imã de geladeira
o gosto pelos livros ilustrados
os melhores amigos
perder o colchão
as maçanetas do apartamento
os tapetes em que pisamos
e continuar aqui.

falamos do país e de golpe
certamente
em outros territórios
se fala em pancada e política
aqui também
trauma e economia.

mas a verdade
sempre tive a convicção
de nunca poder sofrer um golpe
eu mesma
apesar de já ter sofrido antes
(a memória se perde na lacuna exata entre um murro e outro)
dessa vez
repeti surpresa:
“não vi a mão ossuda chegando!”

 

 

 

***

 

 

 

a vista superior
da sua escápula
é onde nosso
gato
se aconchega
de manhã cedo
e também em dia de
trovoada
eu li que existe
um sentido figurativo
para esses ossos
apoio
esteio
como o fêmur
estirado em travesseiro
suporta todo
o meu peso
nos dias em que
fechamos as cortinas
para não ver
o dia virar noite
eu escondo vagalumes
pelo apartamento
como aquele retalho
bom de encontrar
na gaveta da sala
você tenta
um sorriso
de quem não tem jeito
para cortar cartolina
e nunca foi de chorar
mais do que nossos
joelhos
em queda no calçadão
o protetor solar
perdido
sua coluna tem algo
de triste
como os filmes
que assistia no
ensino médio
e gosto que você
combine perfeitamente
com os papeis de carta
que escolhi
para te mandar poemas
de amor
ou despedida
(as conjunções
quase sempre
permanecem)
mesmo que eu confunda
e deixe algumas
no envelope
sem correio.

 

 

 

***

 

 

 

Rio São Francisco

 

para Cely

 

a pequena carranca
que guardo ao lado
do bolo de contas amarelas
em um desaviso
pode parecer apenas um souvenir
mas cuido e encaro com precisão
essa companhia

você trouxe a miúda madeira esculpida
e mais alguns anos de sua vida
a amizade é uma proteção
envolve muito trabalho manual.

 

 

 

***

 

 

 

para planejar a tomada de uma casa

 

sua avó foi vista
na China do séc. XXI
com o casco fluorescente
os olhos vulcânicos

sua avó foi vista
no Haiti do séc. XXI
o alargamento das costelas
e da coluna vertebral resultou
no que hoje
é a sua casa

– botânica e política
concluíram que o perdão não é matéria de livro
esculpido em pedra –

esta casa que emerge
de água doce ou salgada
guarda em si
todas as substâncias do tempo
pode nos parecer eterna

é muito
para animais da terra
como eu ou você

o olhar penhorado de sua avó
caminha do céu até o fundo do oceano
sustentando a certeza de que nada retorna

de que não é possível sair ilesa
de tais eventos
extremos.

 

Letícia Carvalho (Barreiras, Bahia, 1994) é formada em Letras Vernáculas, pela Universidade Federal da Bahia. Mora em Salvador, onde trabalha como educadora e poeta. Publicou seu primeiro livro de poemas em 2020, “eu devia ter visto isso chegando”, pelo selo editorial Paralelo13S. 

 

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149ª Leva - 04/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Marcelo Benini

 

Ilustração: Drika Prates

 

Flores de Kafka

 

As cores sequestradas
Mistificadas em jardins
Ciano, magenta, amarelo e preto
Adesivos, banners, catálogos, prospectos
Brindes, camisetas, painéis
Uniformes anunciam a impossibilidade
De não estar mais dentro daquelas cores
De viver além do azul ou do vermelho
De fugir da identidade
De jogar o corpo fora da escala.

 

 

 

***

 

 

 

Passarinho

 

Só sei fazer poemas com passarinho
Todas as palavras cabem em passarinho
Dor, por exemplo, é uma palavra que
A gente não pensa em passarinho
Mas dor é passarinho
Na palavra gaiola
Saudade é uma palavra passarinho
Que procura terras distantes
Deus é passarinho no mamão
Amor é a palavra passarinho disfarçada
De passarinho.

 

 

 

***

 

 

 

Degredo

 

Deste país nada sei
Nele não respiro
Moro no país das árvores caídas
Dos banheiros sujos
Das escolas que enganam
Tropeço nas manhãs sóbrias
E infames deste lugar
Que não reconheço
Quero as noites sem pátria
Dos copos vazios
Do país de ontem.

 

 

 

***

 

 

 

A visão iletrada

 

Leio meu país
Com a visão iletrada
E o sorriso envergonhado
Faltando dentes

O país onde só as solidões
Grandes podem existir

A dos meninos
Das estatísticas
E a das fronteiras
Distantes
Em territórios vazios
De país

Leio meu país
Com o coração dos que
Nada sabem
Trancados neste lugar
Imaginário

De montanhas para baixo
E cidades desabitadas

Na posta-restante dos extravios humanos
Nasci neste país
Imenso e imerso
Em mim.

 

 

 

***

 

 

 

Palíndromo

 

Encontro sombras nos olhos negros
Sob a copa da árvore
No fundo do rio
Posso sair do rio
Mas estaria sob a copa da árvore
Posso cortar as árvores
Lá estariam os olhos negros
Posso fechar os olhos
Só restariam sombras.

 

 

 

***

 

 

 

Retrato com abelha no cabelo

 

Escrevo o lado oposto de quem me lê
Nunca pensei ser compreendido
Senão por passarinhos e saguis
As frutas me ajudaram mais que os
Dicionários de verbos e regimes
E as gramáticas
As palavras com as quais me importo
Ciscam
O vento que escrevo está nas folhas
Dos buritis
Só faço versos que têm sopro
No coração.

 

Marcelo Benini nasceu em 1970, na cidade de Cataguases, Minas Gerais. Publicou “O Capim Sobre o Coleiro” (poesia/2010/edição do autor); “O Homem Interdito” (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); “Currais Concretos” (poesia/2018/Intermeios); “Poemas do Núcleo Rural” (poesia/2022/Penalux). Vive em uma área rural próxima a Brasília/DF.

 

 

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149ª Leva - 04/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Leonardo Bachiega

 

Ilustração: Drika Prates

 

Nua

 

nada sabe esgotar
que este mistério de corpo
em volta de mim
beijado
inicia

um texto
de inseparáveis linguagens

 

 

 

***

 

 

 

Tatuagem

 

nos descosturamos
para fazer a água dos mares
a razão dos lugares
por explorar
e hipnotizar o mundo
dando nossos avisos

eu me divido
entre suas penínsulas desertas
e suas praias
desenhados por sereias

 

 

 

***

 

 

 

pequenas jornadas

 

1.

ninguém sofrerá tanto quanto uma mãe
a separar-se de sua terra

tarde ela busca alfazemas
que ora se desfaz

para desmanchar-se em vida como um dente-de-leão num sopro

2.

deito esperando debruçar-me
como uma criança desajeitada
dormindo numa nuvem improvisada

3.

remendando a túnica
meia-lua
a folhas de bananeira

no que a sua sombra
engolia o deserto
fazia um novo filho
na alba
uma mulher

4.

a palavra ajoelha-se no leito
como fora um amigo
como se um rio passasse no pensamento

5.

nos perguntamos sempre próximos
dos nossos povos o que vocês são
mesmo que nossos povos
não sejam mais que pedra

6.

está o homem parado
pelo agreste que o atravessa
nessa carne sol
nos dias quando celebra a solidão igual a uma amante
as voltas das folhagens são assim as mais nuas

7.

a mulher procurou uma clareira para beber
como se definhasse palavra por palavra
largou o corpo na primeira esquina
deitou-se como numa pintura de schiele
entendia o espaço
como o carinho de um ser amado

8.

vivi em outro tempo longe
acordava com a planura da mulher
e cantigas de uma ave
era outro o que em mim curvava
como a madrugada do itálico de uma letra
hoje ajudo o silêncio
para me desfazer lentamente

9.

o que é a cólera
perguntou certa vez o monge

são as campas oferecidas
que segredam às mães…
separação

10.

um pouco triste
levo meu pensamento
num caminho cercado
por relíquias amorosas

que monge fez da terra crucifixo
para a alma
criar um agricultor
prestes a plantar orações

 

Leonardo Bachiega é arquiteto, urbanista e escritor, nascido em São Paulo, hoje reside na cidade de Carapicuíba. É autor de alguns livros de poesia e um de dramaturgia e no momento se dedica a um livro de contos e mais uma peça. Possui poemas publicados em diversas revistas literárias do Brasil e Portugal, e também possui poemas em diversas antologias, entre elas a antologia da off flip. É criador do podcast “Proximidades do Acaso”, onde recita poemas. Essa leva faz parte do livro “ A cidade é o céu”.

 

 

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149ª Leva - 04/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Ilustração: Drika Prates

 

 

DL50

 

busco a poesia
…..capaz de sepultar o que somos

caracteres de toxicidade aguda
letras de paralisia
……………de asfixia
………………..e de coma

a palavra
em dose
e efeito

semântica sem remédio

que o primeiro verso baste
…..e o último
…………………………..vague

 

 

 

***

 

 

 

mal tempo

 

quero inquietar,
incomodar o recôndito.

causar desassossego
naquilo que descansa.

o engano flore e frutifica
no paradeiro.

sopro a tormenta,
com raio, chuva e trovão.

provoco o desastre
que varre as encostas.

inicio tempestades de areia,
transporto dunas
e cubro ruínas.

que venha o novo.

o efeito perturbador
elimina o status quo.

 

 

 

***

 

 

 

atrito

 

seguro o jornal como quem apanha a notícia.

o movimento que faço com os dedos
mancha-os com a tinta. borro palavras
e aquela informação me suja.

a notícia parece volúvel, da mesma qualidade
da impressão. letras de contornos frágeis,
que qualquer fricção deforma.

abandono o jornal como quem recusa a notícia.

 

 

 

***

 

 

 

fluxo

 

a árvore não guarda a semente,
nem o faz a flor.

quem vive ensimesmado
não dá fruto,
tampouco amor.

 

 

 

***

 

 

 

vilania

 

podes voar alto,
mas tua sombra anda rasteira,
acorrentada ao teu corpo.

pesado como a noite,
o teu decalque
esfrega-se nas imundícies do chão.

mesmo que ligeiro,
arrastas-te sobre cuspes
e vidas extintas.

cobres os seres vis
que um dia te cobrirão,
no ciclo eterno da natureza.

o carbono que ora te compõe,
já foi húmus, árvore, fruta
e podridão.

 

 

 

***

 

 

 

contra o medo

 

o medo, este fantasma
que se materializa
na fraqueza.

ele se alimenta
da coisa evitada
e dessedenta-se com lágrimas.

vencê-lo
é penoso
– exige matar sozinho
um parte de si

ou, a dois,
apertá-lo entre as mãos dadas.

 

 

 

***

 

 

 

o tempo de conversão

 

as evidências da razão
depõem a favor da probabilidade
para abordar as premissas do acaso
em discursos impalpáveis e falíveis

os dados lançados
fora do tabuleiro de Deus
submetem-se à álea da gravidade

 

Geraldo Lavigne de Lemos é poeta e advogado, membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos seis livros de poesia.

 

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Janela Poética II

Cristina de Souza

 

Ilustração: Drika Prates

 

Soterramento

 

Soterro a voz.

Aterro meu corpo
A um espírito mudo.

E em tudo que escuto
Só há silêncio

Marcado na ausência,
Na vaga.

No luto profundo
Pelo morto não morto,

Pela onda não quebrada,
Por esta maré vazante

Onde me afogo
Na terra,
Na areia
No nada

 

 

 

***

 

 

 

Identidade

 

Escondo-me
Por horas a fio
Enquanto me busco no espelho.
Finjo serem meus olhos,
Os olhos que me fitam
Sem me reconhecerem.

Hiberno
Dias inteiros
Em pelos que não são meus,
Em ossos que se fraturam aos poucos
Sem que eu os perceba.

Durmo
Numa caverna escura
Chamada quarto,
Aonde jaz uma cama branca,
Onde morro todos os dias
E moro todas as noites.

Risco
meu nome na identidade
perco
a foto na carteira
Apago
Minha face com a manga puída de um casaco velho

Esqueço-me
Numa gaveta.

 

 

 

***

 

 

 

Farpa

 

Descubro-me num
verso aberto, na
farpa do mundo.

Traço meu rastro
no deserto mudo.

Cactos secos em
solo rude e
céu vermelho.

Eu piso em pedras e
cascalho, madeira ressecada,
casca de árvores mortas.

Cabelos misturados à areia,
olhos que suam, sal rolando
de poros e escleras.

 

 

 

***

 

 

 

Cantiga

 

Sou feita de ecos
E ocos.
Sou filha da noite
Escura e sem luar.
Sou a santa pecadora
De palavras extintas
Coleciono preces que invento
Sem saber orar.

Sou cheia de ocos
E desfeita em ecos,
Canto uma canção de ninar.
Fogo brando é chama e vela,
Minha vida paralela,
Projetada numa tela,
Eu que já nem sei chorar.

E esta espera pelo amor
que não vem,

nunca vem.

Dias contados, rosto
marcado por rugas
que não tenho.

Noite cadente,
vida vertente.

A verdade é um soslaio,
enquanto a farpa enterra
a esperança na pele quente.

 

 

 

***

 

 

 

Invenção

 

invento a madrugada.

planto a manhã
com dedos hábeis e

do espelho azul do céu
minha espera germina.

minutos e horas
se vão,

cedo ou tarde
a luz confunde
o sol
com a lua cheia
prenha de prata.

arranco
a erva daninha
que brota dos meus pés,
raízes
me imobilizando:
cresço árvore

dos galhos do meu corpo
braços se movem
ao balanço do vento,

e minhas folhas dançam
em seda verde,
ondas sem mar.

espreito o poente,

recolho-me na noite,

o orvalho me abraça,
estrelas brincam.

durmo e amanheço
flor aberta
entranhas à mostra
corpo exposto

renasço
sou apenas eu
ser sem espírito
ondulando
meus espinhos secos
ao sabor do dia

 

 

 

***

 

 

 

Sem Rumo

 

sinto-me oca,
vazia
até a boca,
sigo só
a esperar.

espero
pelo nada,
tua risada,
meu medo,
nosso desencontro
e este desespero
de chegar

em qualquer lugar.

aterrizo
dentro de mim
cansada
e faminta
de luz

o escuro pinta
a noite sem fim
enquanto desperto
onírica
no azul profundo
deste meu
quase mundo,
onde meus olhos
se desvendam
nus.

 

Cristina de Souza é médica e poeta, vive em Fênix, Arizona, onde escreve e pratica medicina. Ela já teve vários poemas publicados em revistas literárias nos Estados Unidos e Europa (Inglaterra e Alemanha) e outros publicados pela revista Mallarmargens no Brasil. Em 2016, obteve um mestrado em literatura e composição literária pelo Vermont College of Fine Arts  e em 2019 teve um livro de poemas em inglês publicados pela editora Main Street Rag, intitulado “Grammar of Senses” (A Gramática dos Sentidos).  Seu email para comunicação é: colo2309@gmail.com. Seu livro “Quase Azul” está no prelo e deve ser publicado em novembro de 2022 pela Kotter Editorial.

 

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148ª Leva - 03/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Patricia Porto

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Retrato

 

O corpo é uma promessa
Um passaporte para o estrangeiro.
Carrega luz e outro tanto de oculto.
Nem todas as camadas podem ser escavadas.
O rosto esconde poços. Com e sem água.
E há mais da sede que poço.
Todas os símbolos são expressões do encontro
entre o deserto e a passagem de mar.
No rosto daquela mulher há uma constelação,
uma onça que nada,
uma casa sempre assombrada.
Um bebê derramando choro no escuro
é quem ela embala em fantasia.
O Cão morde seu calcanhar
e ela ainda Monalisa.

 

 

 

***

 

 

 

Fênix

 

Apesar dos grandes abalos
Sísifo encontrou a luz
Era uma luz pequena.
Uma luzinha de nada.
Um pedacinho claro na fria escuridão.
Apesar dos outros muitos lugares de medo,
na saída foi que Sísifo encontrou o tempo de mastigar
– com dentes afiados na pedra –
os desgostos do pássaro morto.
Apesar do imenso infortúnio da noite,
Sísifo feliz saiu dos escombros
da casa incendiada,
não nas asas de um ser vivo,
mas com as asas de sua ave morta.

 

 

 

***

 

 

 

A mulher de Safo

 

Uma mulher inteira é uma mulher intensa
é uma mulher na cabeça
nos desvios
vãos
abismos
entranhas
vulva e falo
uma mulher inteira é inteira na palavra
é inteira ao acordar com seus humores
seus cheiros
axilas
pelos
suores noturnos
uma mulher inteira é um bicho de si mesma
é concreta e abstrata
é múltipla e una
é uma mulher na cabeça
uma mulher inteira não passa por um ângulo ou agulha
uma mulher inteira é um círculo de ciclos
é uma mulher descalça em seus pés
é uma mulher que ri, gargalha, não teme
e chora e grita se for preciso
diante do soco
diante da merda que corrói o amor
diante da rigidez, do autoritarismo
é uma mulher que se atravessa
se alimenta de seivas
se reconstrói
se reinicia
se regenera
se liberta
se emancipa
para dizer todos os adeuses
para colocar fim nas histórias mortas
é uma mulher que se levanta dela mesma
e anda com sua cabeça

 

 

 

***

 

 

 

Casa do mar

 

o amor como esse vinho que cai sobre a toalha branca
o amor como esse sangue derramado no sofá branco
o dia feito sangue e vinho
as aves dos dias em que tudo escoa
tudo molha
tudo mofa

o amor como esse vento frio dos homens
o amor na geladeira
com as frutas

no tempo das castanhas
das folhas jogadas ao chão

o amor dos inacabados
para onde caminhamos sem saber
se ainda somos crianças ou não
se somos velhos ou figos

o amor na porta de entrada
um gato quieto, parado
estranhado de sua natureza

vive e respira
profusamente

 

 

 

***

 

 

 

Às cegas

 

O amor é uma dança de espelhos
Uma dança de corpos
Uma aliança entre elementos químicos
Quem dera eu tivesse um cão guia
para me ajudar nos teus passos

 

 

 

***

 

 

 

Casulo

 

A noite caiu como fiapo de tempo
Guardei as histórias de chorar
Para depois
Depois de nós, de um amontoado de fantasmas
Desfilando sonoros
Em nossos países de dormir, matar ou morrer

Seremos um dia os mesmos de ontem?
Guardei minhas esperanças na caixa de sonhos
alucinações, um casulo de doídos,
uma Pandora decidida

e estou mais velha que meu espanto
branqueio na paisagem

 

Patricia Porto é poeta maranhense, Doutora e Mestre em Políticas Públicas Educação, formada em Letras, publicou vários artigos, a obra acadêmica “Narrativas memorialísticas: por uma arte docente na escolarização da literatura” e os livros de poesia “Sobre pétalas e preces”, “Diário de viagem para espantalhos e andarilhos”, “Cabeça de Antígona” e “Casa de boneca para elefantes”. Participou, ainda, de coletâneas literárias no Brasil e no exterior.

 

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Janela Poética IV

Julia Sereno

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Barro

 

O céu laranja empoeirado
traz o deserto que meus pés
ainda não conhecem
para meu inverno particular

A areia do Saara paira
e move
deixando uma cor diferente
na minha pele península

 

 

 

***

 

 

 

Mulher locomotiva enlouquece
e esquece e repete e comete
um crime sem arma ou morte
apenas um ato ou seria
um pacto
de sanidade
com a própria
liberdade

Ela escreve
a mulher

 

 

 

***

 

 

 

Palavras puras
não existem
só com as híbridas
escrevo
e recito
os segredos
que desencontro
no caminho

 

 

 

***

 

 

 

Despertar

 

vento frio na pele
respiro sem deixar
o medo amanhecer
junto ao meu
despertar repentino

não sei se este dia
será como um dia
qualquer ou como
o outro que deixei
sem terminar

aquele que passou
horas a fio
desencapado
doendo pela
ponta que esqueci
de cortar

 

 

 

***

 

 

 

Um mapa

 

Fui nascida em dezembro, abaixo daquela
linha imaginária que corta o mapa
desenhado nos livros
por quem?
Fui ensinada a reconhecer as fronteiras,
mas depois aprendi que as bordas
desaparecem e se desviam do rumo
para onde?
Fui crescendo no território sem limites
dos meus medos e sonhos
misturados na geografia
de qual país?
Ainda não sei.

 

 

 

***

 

 

 

A minha revolução
acontece em silêncio
dentro do coração

e meu texto
busca derreter
os gritos congelados

que se forem ouvidos…

sinfonia

 

 

 

***

 

 

 

Aqui moram…
uma verdade que arruma a casa
e nunca recebe visitas
um desejo que deixo escondido
e esqueço de vigiar
umas dores de criança pequena
uns sorrisos de mulher adulta
e alguns livros que nunca li

 

Julia Sereno nasceu em 1978, no Rio de Janeiro, mas atualmente mora em Lisboa. Mestre e doutoranda em Estudos de Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ, é professora e tradutora. Em 2022, publicou seu primeiro livro, “As Outras em Mim”. 

 

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Janela Poética V

Drika Prates

 

Foto: Gilucci Augusto

 

 

culpei-me
como se fosse meu o controle do tempo
culpei-me até por não morrer
culpei-me pelas dores do mundo
e pelas minhas próprias
desculpei-me por ser maria
e também quando não fui
como quem entende que não existe tempo, nem controle
desculpei-me da desculpa por envelhecer
desculpei-me pela vida e por amar o mundo, ainda que cheio de dores
desculpei-me, arranquei a culpa do amor-próprio
e ele próprio me desculpou

 

 

 

***

 

 

 

Sujeito é verbo

 

Não soube não ser anônima
É homônima

Homófona

Não sabe ser hegemônica
Quem é de escola antropofágica

 

 

 

***

 

 

 

note minha natureza morta
esqueci de abrir a porta
e de nós surge a revolta
impedindo aquele sim

veja a muralha que nos cerca
é o medo da poeta
ainda há viga entreaberta
concreto que esgota em mim

se já não entendo o que me importa
e desconheço minha resposta
natureza viva ou morta
com visão um pouco torta
percebo o mundo à minha volta

mas se me prende ou se me solta
se me sente ou se desloca
se me vende ou subloca
se me entende ou acha louca
se me quer ou me conhece
se me mente ou se me esquece
se projeta o meu alcance
não sou boa nesse lance…

a linguagem que me livra
de confusão desmedida
incompleta a minha obra
e o que é que de mim sobra?

a reforma que me cobra
quem sou eu para mim?

note a minha natureza torta
nossa vida em minha porta
o que não sei não me solta
o que sei sempre se esgota
quem me salva da revolta?

me interessa aquele sim.

 

 

 

***

 

 

 

sou produto do hoje (com memória)
precedida a história
sou produto do hoje (com medo)
precedido o enredo
sou processo lento (contento)
resultado do tempo
procuro o presente
-no limiar do sentimento-
precedidas posturas
procuro não procurar futuro …
ai.

 

 

 

***

 

 

 

a real tem idade
e são anos luz
sem tempos de agora
(nem depois)
nem olho que vê
nem cheiro que sente
nem tato que esbarra
um tropeço no real, para,
do chão passar
rejeição é doença que sara
ao lembrar de olhar pra frente

 

 

 

***

 

 

 

Kafka

 

eu aspirei esse ar pirado
fiquei asfixiado
e aficcionado
por qualquer tipo de enredo e qualquer tipo de estado
passei pela rua e sorri
fui filmado
passei da linha e recebi
importante papel timbrado
no documento li “fichado”
caí nas lentes, fui logrado

 

Drika Prates trabalha como ilustradora, designer gráfica e, de vez em quando, pinta murais. Seu trabalho com as imagens é retroalimentado por sua escrita, que vai das crônicas aos poemas. Vive em Portugal desde 2018, quando resolveu fazer um mestrado em História da Arte Contemporânea e participou de residências artísticas locais, como o Festival A Salto e a Bienal de Coruche. Nos últimos anos, ilustrou dois livros de poesia: “Exposta”, de Marina Vergueiro e “Aorta”, de Rani Ghazzaoui. Acredita que um dia vai ilustrar um livro próprio, integrando suas palavras e imagens. Sua escrita reflete cartografias que vão do micro ao macro, do corpo(natureza) à cidade, além de transitar por inquietações feministas.

 

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148ª Leva - 03/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Laura Assis

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Chão

 

O silêncio
não é o melhor meio
de conter acidentes.

corpo escolha luz sorte
detalhe perda relógio tudo
existe além da linguagem

(seu nome:
serial de rumores
que nada diz
sobre seus gestos)

Talvez ler
o livro do mundo
seja também
saber perdê-lo.

Antes do ruído
a vida é.

 

 

 

***

 

 

 

Passo

 

Ainda que isso seja
inversamente proporcional
(pode ser que eu me perca
no meio do passo
e tudo acabe
antes de você chegar)
quem não dança,
esmaece:
gira
mais devagar.

 

 

 

***

 

 

 

Oberkampf

 

Nossos pais morreram
no mesmo acidente estúpido:
vimos o sangue,
vimos os corpos.
E você me fez prometer
que jamais
te deixaria

Morávamos
no mesmo
prédio,
no mesmo
andar.
Sua porta era colada
à minha porta e
entrar no seu quarto
ou no meu
era igual,
mas ao contrário.

O metrô passava a cada
três ou quatro
minutos
a estação era a cozinha
da sua casa,
parecia Oberkampf
mas com menos
azulejos amarelos.

Sua voz ainda era
uma força da natureza
que me alcançava
na sinestesia
dos sonhos.

E dos sonhos
acordei
e nunca mais
escrevi sobre cadernos
folhas
em branco
desertos

palavras escondidas
atrás de
palavras escondidas

E as coisas passaram
a ser como antes eram:
as coisas,
só as coisas
pouco importa a ênfase
pouco importa a verdade
o que importa é a vida
(e a vida
não cabe).

 

 

 

***

 

 

 

O desamparo é um labirinto perverso.
Onde nunca se imagina a saída,
é justamente o lugar em que ela está:

…………………………………………………………na entrada.

O princípio é isso:
duvidar de tudo sem saber
de nada.
Não alcançar o interruptor,
um vislumbre de móveis
e mágoas.

Crianças crescendo no escuro.
Perséfone
descendo
escadas.

(mas só bem mais tarde elas entenderiam essa metáfora)

 

 

 

***

 

 

 

Uma década com os olhos
cheios de névoa
e as mãos

tomadas por livros
errando

por corredores
onde as mulheres que se pareciam comigo
falavam baixo pediam
desculpas

…………………………………………………………………..sumiam

 

 

 

***

 

 

 

I
Nunca estou sozinha nos corredores
de lojas e supermercados;
isso poderia ser uma história de amor,
mas é exatamente o contrário.

 

 

 

***

 

 

 

II
Existem várias maneiras
de se livrar de um corpo:
obrigue o corpo
a esconder
seu corpo;
olhe pro corpo
como quem vê
outra coisa
no lugar
do corpo;
ensine ao corpo
que tudo bem
ser ferido e morto
por outro corpo;
convença o corpo
de que ele é
apenas um corpo
e nada mais.

 

Laura Assis (Juiz de Fora, 1985) é poeta, tradutora, editora e professora, com doutorado em Literatura pela PUC-Rio. É autora dos livros “Depois de rasgar os mapas” (Aquela Editora, 2014) e “Parkour” (Edições Macondo, 2022). Integra o coletivo editorial Capiranhas do Parahybuna, edita a revista ADobra e dá aulas de Língua Portuguesa e Literatura no CAp. João XXIII/UFJF.

 

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148ª Leva - 03/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Lucio Carvalho

 

Foto
Foto: Gilucci Augusto

 

Mergulho

 

Tão poucas chances de entender
como os animais escolhem aonde ir
– mas é tão bom não saber
o que o vento é e senti-lo –
nem como a água molha e banhar-se
num silencioso e profundo mergulho
de onde não houvesse retorno
e ser peixe como num sonho
em que fosse apenas questão de escolher
entre o retorno e o borbulho.

 

 

 

***

 

 

 

Chuvisco de inverno (kanakana shigure)

 

Por muito pouco tempo,
tudo faz sentido.

É quase impossível saber
que tudo se dissolve

qual um arco íris
que não se alcança,

num jardim pleno
onde nada grita, nada urge

e nada é maior
que estar ali.

E logo somos tão velhos
até para erguer as patas…

Será bom que outros animais
possam levar-nos

e ainda é melhor
que nos acordem mais cedo.

Sou movido por um livro
cujas palavras estão soltas.

Se me pegarem pelo alto
então posso rir à toa,

mas mesmo isso dura pouco
e nem faz tanto sentido.

O acorde no piano me acorda
ou é esse chuvisco eterno?

Não devo mostrar meu rosto
até que termine o inverno.

 

 

 

***

 

 

 

Não importa o que leve dentro,
quanto mais toco em meu centro

o sal entra em mim e determina
o que sou, me contamina

de sódio, como ao mar,
até matar.

Ser afogado até era melhor,
mas a isso não poderia chamar: amor.

 

 

 

***

 

 

 

Zazen

 

Se a queda não
continua nas
folhas
e tanto a nitidez
absoluta
da noite
quanto o rumor
perpétuo
da água
jamais
sobrevivem
ao instante,
para o que
é que
olhas?

 

 

 

***

 

 

 

Revoada

 

Lendo assim,
desde a primeira letra
o poema é relâmpago
sem trovoada.
Voz absurda
e dissonante,
pássaro avulso
na revoada.

 

 

 

***

 

 

 

O sul

 

Deste braço até a Ásia,
são dois oceanos
de monstros decepados.

Da cabeça até o norte,
há um palhaço
de pernas para o alto.

Do lado em que o sol se põe
até o fim (anoiteceu),
não há ninguém.

E aqui, até você (Vésper insone)
já esqueceu
meu nome.

 

Lucio Carvalho nasceu em Bagé (RS), em 1971, e reside atualmente em Porto Alegre (RS). Foi por uma década (2008 – 2018) redator e editor do portal e revista Inclusive, premiada em 2010 com o Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos, pela OEI/SPR. É autor do livro de contos “A aposta” (Ed. Movimento, 2015), do livro de artigos e ensaios “Inclusão em Pauta” (Valentine, 2017), do romance Trapézio” (Valentine, 2019) e outros. Em 2019, cursou a especialização em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e publicou “A crise da representação rural na literatura rio-grandense” (Editora Fi, 2021). É editor no selo Valentine e edita a revista literária Sepé.