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77ª Leva - 03/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Nestor Lampros

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

OS CAVALEIROS

 

Há mais que um forte clamor de transtornos
neste cavalgar dos quatro cavalos.
Seus cascos rebrilham em tons nada claros,
tens já em tua mente as cores e os nomes?

Toda a relva desiste de vida.
Toda vida é silêncio e clausura.
Todos os sons, segredos, sepulcros.
Tudo completo, enfim, tudo escuro.

Quatro bandeiras, quatro promessas,
quatro pensamentos, quatro discursos.
Quatro adeuses, acenos encobertos,
quatro mistérios cavalgam o mundo.

No teu quarto aparente e seguro
só com teus olhos se surpreenderias
se com teus ouvidos avistasses os galopes,
os galopes, os galopes já em teus corredores.

Não mais ao longe, na distante Beirute;
China ou Coreia, Senegal ou Rússia,
mas no meio de ti, na corrente profunda,
no sutil e diário passear do teu sangue.

 

 

***

 

 

A CONQUISTA DA PALAVRA

 

Para a palavra ser bem escavada
não se pode apenas esperar o dado
no desígnio aleatório da jogada.

Como touro no trabalho dos dias
ferido de ferro a palavra é faca
que desfaz antigas missões já concluídas.

É falar deste cão irritante que escapa,
no encanto elíptico da palavra,
não nos omitindo, mas presentes.

Em cada azul dentro dos céus que chama,
fixa conquista dos significados: – Ata
este labor sobre a terra transparente.

 

 

***

 

 

A CANÇÃO

 

Esta canção não é a minha,
surgida das cinzas e das
chuvas
impetuosas na rubra
manhã,
que está na cisma do
escuro,
e na noite mais serena e
fria.

Esta canção não é a minha
ouvida
no laticínio posto à mesa,
no azeite
e na cólera cega,
em assembleias
onde homens procuram
a fome
e se fartam
da solidão da espera.

Esta canção não é a minha
absurdo canto
do acalanto
nebuloso
nas patas de um urso
bravio
que quer capturar
os sussurros
impossíveis
da rósea tarde
finda.

Esta canção não é a minha
se estatelada ao chão
em cruzes que bifurcam-se,
transformando-se
em moradas
de insetos
abjetos
em ruelas
ainda projetos
de moradas
não resolvidas.

Nenhum canto
se tantos
se encantam:
nenhum povo é temido
nenhum caldo é tomado,
é fervido,
nenhum santo é morto.

Todos ouvem o nada
e do nada se fartam,
pois não ouviram
das canções
cantos
nas estradas
polidas
em
que ainda
percorrem
ruas e becos
sem saídas
em rampas
íngremes.

E a canção negada
se transforma
em visão.
Esta visão
outra coisa
mais estrela ou vegetal
puro, do mais puro minério.

E esta canção
canta-se alto
afligindo a surdez de um mundo,
que não suporta uma voz  trina,
perfeita e única a governar o gorjeio
dos eternos pássaros bravios.

E é esta a canção-nula,
que ensurdece
e limpa as várzeas e os celestes céus
se faz cantoria alada
na suavidade intacta de uma mulher.

Mulher que devolve a canção
desdobrada
para o infinito.

E já não é campo, é nação.
E já não é só, é junto.
E já não é pós, é este.
Além do que foi e sempre será,
e que seria:
– a poesia.

 

 

(Autor do livro de poemas Roupagem Leve (Editora Patuá), Nestor Lampros é arte-educador, escritor, artista gráfico, quadrinista e artista plástico. Em 2002, representou Atibaia no Mapa Cultural Paulista, onde, em 2004, obteve o segundo lugar. Em 2008, novamente, chegou à final. Participou de diversas exposições como artista plástico. Criou ilustrações para livros e revistas em editoras, tais como Ática e a Editora Três. É membro-fundador da Academia Literária Atibaiense (ALA). É formado em Letras pela FESB, de Bragança Paulista (2005), e pós-graduado em Arte Educação pela FAAT(2009))

 


 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Dirk von Petersdorff

Tradução: Viviane de Santana Paulo*

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

 

No museu da história

 

Uma caixa de vidro iluminada,
no interior uma pedra cinza,
as bordas lascadas,
e assim ocorre-me ainda,

quão absorto eu sentado estava,
em Kiel, à mesa da cozinha,
quando a notícia surgiu,
quando o Muro caiu.

 

Im Museum der Geschichte

 

Ein Glaskasten im Licht,
darin ein grauer Stein,
der an den Rändern bricht;
und also fällt mir ein,

wie ich versunken saß,
am Küchentisch in Kiel,
als die Meldung kam,
als die Mauer fiel.

 

 

***

 

 

Fliperama

 

Pena! Inferno! Susto e dor!
Espasmos! Tinidos! Abismos não!
Oh rapidez! Alavanca! Torção!
Luzes! Sim! Nova cor!

Mas certamente, deve-se planejar,
pode-se apontar o alvo e é preciso adivinhar –
rio de luzes, dança eufórica,
oh, quem sabe, medo e glória.

 

Flippern

 

Jammer! Hell! Schreck und Pein!
Zucken! Klacken! Abgrund nein!
Ach vergeh! Bumper! Drall!
Leuchten! Yes! Neuer Ball!

Aber sicher, man soll planen,
man kann zielen und muss ahnen –
Lichterfluss, schneller Tanz,
ach wer weiß, Angst und Glanz.

 

 

***

 

 

O futuro começa

 

como no quadro de Rafael a Madonna
na parte inferior da obra o arranjo,
a próxima geração – anjos,
com quase um bocejo à tona.

Velha é a magia,
um sorriso principia
nos lábios, e entretanto –
o que sabem os anjos?

A cabeça apoiada na mão,
já não é tão
ao fundo da moldura
nem tanto consola a formosura.

 

Die Zukunft beginnt

 

wie auf Raffaels Madonna:
Am unteren Bildrand lehnen
die Engel – nächste Generation.
Die müssen fast gähnen,

der Zauber ist alt,
ein Lächeln wächst
auf den Lippen, und bald –
was wissen die Engel?

Den Kopf in der Hand,
schon nicht mehr ganz da
am unteren Rand
ein trostreiches Paar.

 

 

***

 

 

Eles se encontram no corredor

 

Meu filho veste camisa amarela com letras irregulares,
onde cavaleiros erguem espadas de lasers
e uma cobra dá de cara com uma pantera –
para mim são coisas já passadas nesta vida.
Mas estou na posse de vitórias antigas
como um menino na bicicleta que conquistou a glória,
porque ela, oh Deus, subiu na minha garupa,
tocou meu quadril, – corrente elétrica.
Ainda acontecerá com o menino:
o sútil, incerto futuro-flamejante,
o corar abrasador até as orelhas
e a impaciência, o pulso querendo acelerar.

………O homem tira lentamente a gravata,
………o menino passa empurrando a bicicleta.

 

Man trifft sich im Flur

 

Mein Sohn trägt gelbe Shirts mit Zackenschrift,
wo Ritter ihre Laserschwerter heben
und eine Schlange einen Panther trifft –
das ist für mich vorbei in diesem Leben.
Doch bin ich im Besitz von frühen Siegen
als Fahrradfahrer, der dem Glück erlag,
denn sie, oh Gott, ist hinten aufgestiegen,
fasst meine Hüfte an, Elektroschlag.
Das steht dem Jungen alles noch bevor:
das feine, ungewisse Zukunfts-Brennen,
die heiße Röte bis hinauf zum Ohr
und Ungeduld, der Puls will immer rennen.

……..    Der Mann macht langsam die Krawatte frei,
……..    der Junge schiebt sein Mountainbike vorbei.

 

 

***

 

 

10º andar,

 

edifício com ar condicionado, celeiro dos mortais.
Fique frio, sorria, o mais alto é o 19º,
minha guia, enfraqueço, quando
passo por um bando de secretárias
maquiadas, ménades, bocas trêmulas
….. para que a encenação?
seus pensamentos
….. chamamos de volta
surgem quando falam
….. tudo como sempre
e displicentes comem donuts
esperando a existência, e nisso acompanha
a música: tudo é bom, canta
Madonna, que quer saltar no Etna;
e em frente as janelas precipitam-se
as núvens passageiras, cinza profundo, depois a queda
de brilho no escritório espaçoso,
manchas de luzes na tela da face,
sussurro de fax, eternamente – ok, ok,
há inúmeros purgatórios, há
televisão após a morte do moderador,
se eu, por favor, pelo menos, a chave
o código, do local
o âmago – ela riu.

 

10. Stock,

 

klimatisiertes Hochhaus, Tenne der Sterblichen.
Cool bleiben, lachte, höchstens 19,
meine Führerin, schwach ich, als
wir einen Schwarm von Sekretärinnen
passierten, geschminkt, mänadisch, zappelnde
Münder
……..was soll das Theater?
ihre Gedanken
……..wir rufen zurück
entstehen beim Reden
……..alles wie immer
nebenbei essen sie Donuts u.
warten auf die Existenz; dazu
die Musik: Alles ist gut, singt
Madonna, sie will in den Ätna springen;
und vor den Fenstern rasender
Wolkenzug, tiefgrau, dann Stürze
von Helligkeiten im Großraumbüro,
Lichtflecken, auf einem Schirm Gesichte,
Fax-Surren, ewig – okay, okay,
es gibt zahlreiche Fegefeuer, es gibt
Fernsehen nach dem Tod des Moderators,
wenn ich wenigstens, bitte, den Schlüssel,
den Code, was den Laden
im Innersten – sie lachte.

 

 

* Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007)

(Dirk von Petersdorff (1966/Kiel) é poeta, ensaísta e crítico literário. Estudou filologia germânica e história na Universidade de Kiel. É professor de literatura alemã moderna na Universidade de Jena. Dirk também é membro da Academia de Ciências e Literatura de Mainz (Akademie der Wissenschaften und der Literatur) e do Centro Internacional de Pesquisa Clássica (Internationalen Zentrums für Klassikforschung). Em 2006, foi membro do júri do Prêmio Kleist (Kleist-Preis))

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Jorge de Souza Araújo

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

JOGO

 

Quando afinal o que não se diga
eu o imponderável lógico matemático
querendo-me aberto patife herói safo
discurso que não esporre ou ex-porre
o húmus da terra me cobrirá
ou a gala o cuspe o vômito do mundo
se farão o lanho das minhas carnes e feridas?

Com essas dúvidas
estarei reencontrado e pronto
para o sacrifício
se em dia de intensa morte
louco de ver-te e te perder
eu te puder manter na ponta dos meus dedos
e com eles trocar a incúria e o terror
dos olhos do povo
por tua presença, liberdade

 

 

***

 

 

NADA SOSSEGA O HOMEM

 

Nada sossega o homem nada
o acalma nada o amansa
que não o amor

nada aflige o homem nada
o amarga nada o suprime
que não a opressão

Nada sucumbe o homem nada
o dilacera nada o subjuga
que não a inconsciência

Sejamos pois
……………..fome ao amor
……………..firmes à opressão
……………..fortes à inconsciência

Votemos nada a tudo o que seja
contrário ao homem
Vivamos fartos o destempero do sem-ódio
do sem-medo do sem-nada
Joguemos livres o lá de nossa paz

 

 

***

 

 

NESTA ILHA V

 

Nesta ilha
não me arquipélago
noutros largos (inexistentes)

ouço
ventos gemendo ausências
nas vidraças, polifônicos

e me guardo
do apocalipse dardejando
sinas, sinos, senões

 

 

***

 

 

VADE

 

O segredo não está no aceite de uma relatividade
nem no acinte de uma vã docilidade
Cumpre e urge no entanto
dar curso e recurso a esta longa sensação de ácido:
a vida
Quem com ela advir-se
descobrirá incertos fios invisíveis a tecer
Maio deste ágio imponderável
bússola sem reparo decaída árvore sem sumo
a vida é uma mulher cega cantando ladainhas no adro do tempo
Não há como esquecer-se:
para encontrá-la, à vida
nada como embriagar-se e ver de novo
seu renascer assim papoula desgarrada
em tarde quieta e loucas laudas
de um sequer talvez quem sabe porventura

 

 

***

 

 

DATUM

 

E se de repente
me fosse dada
a sentença da vida
e da morte

eu escolheria
ficar na terra
cheirando a terra
comendo a terra
vivendo a terra
em sangue
em seiva
em salva
e mel (ou fel)

 

 

(Jorge de Souza Araújo é poeta, Mestre e Doutor em Letras pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-professor de Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Comparada na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Dentre suas publicações, estão: “Os becos do homem” (poesia – Rio de Janeiro: Antares, 1982), “Profecias morenas: discurso do eu e da pátria em Antônio Vieira” (Salvador – Assembleia Legislativa/Academia de Letras da Bahia, 1999), “Dioniso & Cia. na moqueca de dendê: desejo, revolução e prazer na obra de Jorge Amado” (Rio de Janeiro – Relume Dumará, 2003), “Floração de imaginários – o romance baiano no século 20” (Itabuna: BA, Via Litterarum, 2008), “Essa esquiva e dilacerada fauna” (Contos – Ed. Mondrongo, 2012)

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Ana Pérola Pacheco

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

Quando quebrar não é suficiente

 

A vida me causa espasmos
E eu permaneço ao chão
Um caco que não quer adentrar – e não vai!

Uma ferida aberta, que jorra
Que glorifica o prazer de
Ainda suspirar – e sorrio!

A vida me intensifica
E sobretudo,
Acredito e cicatrizo – continuo!

 

 

***

 

 

fragmento

 

Achava legal a superficialidade porque a comparava como as bordas das coisas, como as cascas das frutas, onde, por exemplo, fica concentrada a essência do sabor. Depois, aprofundar qualquer coisa que fosse, era preciso coragem. Nem todo mundo está disposto a espinhar-se. Os dias soltam venenos. Os dias superam. Amanhã o céu será mais azul, e mataremos a sede no suor que escorre sal-ga-do!

 

 

***

 

 

22:22

 

toco o breu, meio ao jardim na sua cabeça de rosas
……………………………………………………………………………..sangrentas
 ……………………………………….e salivo.
paladar só assim.

infinito.

 

 

***

 

 

Ela queria ser seu casaco inúmeras vezes. Não! Não falo deste grudado no seu corpo que insiste substituir a quentura da minha alma, aquecendo sua meia-estação. Ela se refere ao que você leva nas mãos em caminhadas noturnas. Ela fala deste, deste que te faz decorar cheiros.

 

 

(Ana Pérola Pacheco (RJ – 1988), mora em Florianópolis, é poeta, fotógrafa, tem ensaios publicados na Revista Ellenismos, exposição fotográfica e conto na Revista Cruviana. Além de escrever em redes sociais e em seu blog Sentidos, é colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica  e no projeto infantil Para Qualquer faz de Conta e atua também na área de Recursos Humanosma qual é graduada)

 

 

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

João Urubu

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

Efemérides do Desuso da Dor.

 

I

O que Mereço ou O que me Passo –

 

Eu tenho medo, confesso.
Juro que confesso meu medo
Meu medo
Meu medo é que se calem meus olhos.

Que meus olhos se calem o que há muito já não diz minha boca
Tenho medo que já não me caiba em meus olhos um mundo
Um mundo que em mim já é submerso, absorto.

Eles já calam as despedidas, meus olhos.
Outrora tão serenos, meus olhos cerrados, doídos.

Agora inertes trôpegos de uma maldade relutante
E uma saudade relutante
E eu não queria
Eu não queria que alguma coisa em mim
Como os olhos
Se tornasse finita.

Tudo é finito.
Desgostoso, admito o fato.
Tudo é finito aos olhos de Deus
E aos olhos do estômago.

Meus rins doem
E riem.

Meus olhos já nada
Nada em meus olhos
Pela tortura da dormente sensação de sofrimento por antecipação
Não sinto meus olhos.

E ao fim, que a eles pertence.
Que chegará sem que eu sinta.
Meus olhos morrerão no meio da minha preocupação medíocre
E eu não o saberei, mediocremente, justo por querer sabê-lo.

É justo.
Calar-se em meio disso é justo, é nobre.

Por isso falo, falo sem pensar, sem parar.
Ajo sem pensar, sem parar.
No fundo no fundo acho que o que eu quero é dessentir.
Por medo de provar do sabor de realidade que ludibrio.

E eu sinto tanto, sinto muito.
Sem sentir nada.

A vida é justa aos que a vivem plenamente.
E eu acho que nunca a vivi.

Minha vida é nada, minha poesia é nada.
Eu nunca vivi.
Tudo é falsidade, porque nem me permitir sentir, de forma íntegra, eu consigo.
Eu não sei ser íntegro aos olhos que falam.
Aos olhos que cantam
Aos olhos que cegam
Aos que cerram, à noite, em paz.
Os que cerram pra sempre.

Eu não mereço o olhar de nenhum cristão falso
Ou pederasta.

Matei meus olhos, sufocaram.
Sufocaram de tanta dor não sentida
Eu sinto um vazio no peito.
Eu sinto um vazio.
Vazio é vazio.
Vazio não se sente.

Assim eu adormeço, jurando pra mim mesmo que mereço outro dia.

Há sempre outro dia.

Há sempre outro dia

Há sempre outro dia

E é o que eu mereço.

 

 

***

 

 

IV
Lächeln und Verzweiflung –

Para Carla Diacov

 

Feita
Seleciono silenciosamente gritos
Sempiternos e silenciosos gritos
Ditos no oco de minha alma estática e muda
Onde já não há estática forma
De se dissimular verdade.

Que verdade o acaso me espera saber responder, corresponder, adivinhar?
Se não me caibo equilibrar para além dos poros qualquer tropeço
Se a minha carne trêmula veta a possibilidade dos tremores cardíacos.

-Os tremores cardíacos os quais calo-

Que razão desmensurada me propõe tamanho lirismo?
Que conveniência me propõe tamanho gozo?
Que proficiência assentida pressupõe-me?

Chega de dúvidas.
Ao descaber-me dessas, curvo-me ao escuro.
Que ameniza, juntamente aos cigarros.
-Os limitadores de afã- Cigarros.
Porque afã cansa
E eu me sinto cansada.
De espera.

O mirone da vida teimou em dizer-lhe:
Olha como falha, demente, ao que tanto anseia.
Viciada nas parvoíces do devir.
Viciada na espera.
A paixão já lhe descai naturalmente fugaz.

Sou o acúmulo dos sentimentos néscios.
Eu que me deixo lograr.
E digo assim complexamente, pois fujo.
Que não me permito perceber.

Licença poética das medidas provisórias…
É onde me arranjo, porque meu ganho nessa corja de ideal é quase nada.
Minha cara dada a tapa somente ao vento, que muito maliciosamente bagunça os meus cabelos.

Quisera eu, quem sabe, perceber metade de mim nessa realidade que criei por cima da pele.
Ah, titubeando pro nada a graça de um brado valoroso.
Como sou mesquinha
E leve.

Avessamente bem quista pelos extremos de mim mesma.
A revolução por dentro da pele
O apaziguamento para além dos poros.

Como quisera eu ser pra dentro
O que pra dentro eu queria fora.

 

 

(João Urubu é músico, poeta e compositor da cidade de Belém – PA, graduando de Licenciatura Plena em Letras com Habilitação na Língua Francesa pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Dos três anos como poeta e compositor, passou um ano especificamente trabalhando como compositor de trilhas e diretor musical de teatro)

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Karinne Santiago

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

As nuvens redesenham o azul

 

a poesia
lambe minha cara
engole a vergonha
e despe a alma
sem espelhos

as cicatrizes
são marcas
do que não me partiu (…)

feriu
em golpes mestres (…)

ou me pariu
num gozo de estrelas (…)

a sobra camufla a falta

não condecoro a dor
aos meus vazios
janela e ventania

 

 

***

 

 

(in)verso da metáfora

 

sua língua
segredo que dissipa
palavras em paladares
antigo diálogo amante

verbos complacentes
ordens sem imperativos
diminutivos ais

ditos sem rima
reinscrevo a estrofe
quando deita em mim
o mote

sou o (in)verso
da metáfora.

 

 

***

 

 

arremato
minha solidão a sua

alinhavo vazios

moldo minha pele
no contorno dos seus braços
dobro o tempo e amasso

ajusto o amor
espeto o dedo
esqueço que esgarça

 

 

***

 

 

não aceitam devolução

 

inexato
traço no lábio
ensaio
esboço de riso

quebrou o grafite
nasceu torto
no rosto

inacabado

porém
expressivo

o riso torto

 

 

(Karinne Santiago é sergipana, mãe de um menino descabelado, poeta e psicóloga. Escreve em redes sociais e em seus blogues: Poeticaria e Poesia Veneno antimonotonia, como colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica. Atualmente, envolvida no projeto de poesia infantil onde convida outros poetas a se aventurarem no universo lúdico das palavras)

 

 

 

 

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Janela Poética V

Sandrio Cândido

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

Casa em dezembro

 

A saudade queima os campos interiores
crepúsculos ardem na garganta.
Minhas paisagens estão ficando para trás
as cinzas do ontem transpassam-me

o tempo tem fome do meu corpo
fontes soterradas me gritam
as cadeiras pairam no pensamento
esburacando o enxame de ausências.

Acendo o fogão a lenha
o rio em meus olhos ficou poluído
dentro os corpos apodreceram

os rostos límpidos fecharam-se nos espelhos
dói-me os passos encravados no antes.

 

 

***

 

 

Tereza

 

Os dedos molhados na luz
escavam a pedra de sal no coração
abre fendas no espelho calcinado
em busca da fonte.
Existe uma porta em cada silêncio
uma janela onde pousa a ave branca
flores de arame guardam a paisagem
rosas em chamas trancam a passagem.
Nas pontes escorregadias
desliza o nome pronunciado no bosque
plantado dentro da fome.
Atravesso com os passos cansados
a praia do silêncio
estendo as mãos feridas
escavo
dentro da pedra existe um lírio branco
dentro dos olhos uma estrada esquecida.
As palavras grávidas semeiam lâmpadas
desejam parir um caminho
arder a solidão em outra solidão
fazer crescer um jardim por dentro da fome.

 

 

***

 

 

Navegantes

“Desveladas correntezas para aportar”
Roberta Tostes Daniel

Desértica palavra veste o meu canto
tenho sede
cobertores de areia envolvem meus lábios.
Agacho os ouvidos
tento ouvir os sussurros de Deus
agasalhando meu cansaço
é inútil
ele se nega a dizer o meu nome
enquanto isso
o fogo consome meus passos
as tábuas da vida queimam lentamente
um pouco de mim escoa sem rumo
tenho pouco tempo
a chuva tarda em beijar os meus lábios
meu coração rachado não comporta flores
espero ansioso chegar o jardineiro
plantar as ramas da luz na escuridão
cultivar lírios brancos
onde crateras empoeiradas avançam.

 

(Sandrio Cândido (1991), reside em Curitiba (PR) onde cursa Filosofia. Possui poemas publicados na Mallarmargens revista de poesia e arte contemporânea, Zunái Revista de poesia e debates e em outros espaços virtuais. Edita o blog A alma e a rosa. Email: sandriocp@yahoo.com.br)

 


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Janela Poética VI

Eduardo Lacerda

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

Pomba-gira. ou do Apocalipse

Para Alessandra Cantero
Um pouco a dormir, um pouco a cochilar;
outro pouco deitado de mãos cruzadas, para dormir.
(Provérbios 24:33)

Não me lembro bem

quando cruzei

as pernas

pela primeira

vez.

/Talvez os corpos

aprendam

com

os seus extremos:

É impossível

(pedindo)

cerrar os punhos

cruzando os dedos./

Sei que sempre, e
antes, já cruzava
os braços com
alguma

habilidade.

Cruzar.

O corpo é indeciso
com seus vários

defeitos.

O corpo, e seus
muitos medos

contraindo-
se sobre
-si

mesmo.

Este é o momento final

(apocalipse

do corpo)

a que chegamos

em pecado:

cruzar o amor

ao corpo

do ser

amado.

 

 

***

 

 

A Última Ceia

 

Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.

/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda

dos pais.

Restos do pequeno
que sentavam ao meio

da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas). /

Já não me encaixo
depois que aprendi

a olhar de lado
e sair por baixo.

 

 

***

 

 

Desistência

 

Como à cama há pouco tempo
nos olhávamos em silêncio
hoje, nossos ossos, esqueletos
encaram-se, em paralelos.

Comungados da mesma hóstia
repartida e azeda / dois exércitos
negros, iguais, porém divididos
por um mesmo tabuleiro

: o ódio

, encarnando-se por este alimento
toda parte de um corpo
tanta carne sobre

ossos

que a vida é quem nos indaga:

– Ainda haverá sangue?

/ a tristeza

é que

na vida não se

pode,

como no jogo

o roque /

 

 

***

 

 

Por um Fio

Para Aline Rocha

 

Esta pálpebra revela,
quando se fecha, que se
ajoelha ao que deseja
e se curva ao que espera.

Ela não vê, está cega.

E ainda que esfregue
os olhos, ela mesma

não se enxerga.

ela esconde, de sua retina
que se arregala,

e brilha (como cortina
que uma festa encerra)

tudo aquilo

ao que se destina.

O seu destino.

(ela está presa, pele
cárcere que se repete

Sísifo.)

/ Carrega em sua cabeça
cada peça do que pede:

tímida como quem reza. /

Cruza os dedos, arranca os cílios.

Ela realizará à força

o que é pedido,

mas parece promessa

Chora?

É um cisco.

 

 

(Eduardo Lacerda, autor do livro de poemas “Outro dia de folia” (Editora Patuá), nasceu em Porto Alegre, mas vive em São Paulo, cidade que ama, desde os dois anos de idade. Cursou Letras na Universidade de São Paulo, mas não concluiu o curso. Como um legítimo geminiano, também não conseguiu concluir nada até hoje. Atualmente, é coeditor da Editora Patuá, onde acredita que livros são amuletos. Tem poemas publicados em revistas eletrônicas e impressas. Não se considera poeta. Sua paixão, editando, é fazer nascerem livros e poetas)

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Joelma Bittencourt

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

Sobrevoo em mar íntimo

 

Tem dia que só acontece
na concha das mãos

trilha escondida
labirinto sem mito
passagem secreta para mundo
onde a voz tem som de mar
límpido
sem ondas
sem sal
sem naufrágios

e o olhar é gaivota
à espreita da hora certa
de mergulhar.

 

 

***

 

 

latrodectus

 

sei o que tens
em tua íris
palavra
de instinto aracnídeo

tece
prende
mata
devora

digere o bardo
com tua libido

 

 

***

 

 

guizos e mordaças

 

laços dão-se
nós e pesam
no estômago

a profilaxia
atordoa
o bom senso

a ebriedade
não brinca
de bacante

reza o mito
desconsagrado
e impuro

: o amor
finge-se fingir

 

 

***

 

 

matéria

 

a mesma carne
que ama
é vil
quando rejeitada

líquor
: o outro nome
da alma?

 

 

***

 

 

lírica explosiva

 

o hipotálamo
rende-se
ao olor
da úmida
flor
que lhe acena
entre coxas

e erotizado
fode com
meu juízo

 

 

(Joelma Bittencourt é paraense. Formada em Letras pela Universidade Federal do Pará. Dedica-se ao ensino de Linguagem. Sua relação apaixonada com a poesia dá-se pela necessidade de exteriorizar sensações e imagens que lhe acometem. Além de assinar os textos com o próprio nome, utiliza o pseudônimo Acqua, quando aborda temáticas mais densas. Publica seus poemas nos blogues pessoais Transfigurações e Negrume, e nos sites coletivos Poesia: Falsidade Ideológica, Dardo, Poetas Vivos)

 

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Heitor Brasileiro Filho

 

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

 

A OUTRA FACE

 

A poesia não aceita algemas
nem acredita em bombas
……………..de efeito moral

madona ou doidivanas
a espada de Dâmocles
madrasta humana

tremula o horror
nos lábios de uma menina
tremula o horror
na face de uma criança

no lado acordado peito
tremula uma flâmula
tremula uma bandeira
no quintal da infância

no lado açodado do peito
tremula um fleuma
e mais que infla o inflama

novamente o arbítrio
a tutela – cinco dedos
tatuados na cara
e os chutes na canela

colar de medos
adorna o tornozelo
os guizos no esqueleto
pedem ao novo ilustre
um lustre na caveira
limpem as botas pois
os novos soldados

aonde vai a insensatez
essa bala de borracha
se o espaço é infinito
e o átomo está dividido?

está dividido o homem
o peito está dividido
e o coração endividado
despe-se em inexato leito

madona ou doidivanas
a espada de Dâmocles
madrasta humana

a poesia não aceita algemas
nem acredita em bombas
……………..de efeito moral

 

 

***

 

 

SOLUÇO SÍSMICO

 

Farto é o fogo
dos vulcões
julgados extintos

soluço sísmico
na contração do parto

pende um quadro
trêmulo
na parede do útero

Sem a distorção
da moldura
arde uma tela
de Cícero Matos:

deserto
a ser florido
rio morto
a ser aguado

Jacobina
não é apenas um retrato
na parede

um berço
a ser embalado

 

 

***

 

 

A TIBIEZ DA PAISAGEM

 

Eles estiveram aqui
trouxeram antiga mala
……………em espécie
…….sob auspícios
de Pandora

foram afáveis
com a minha mulher
e acariciaram
a fronte do meu filho

eles estiveram aqui
com uma grande mala
abriram seu coração
com cédulas perfumadas

– fixaram uma etiqueta –

tinham dentes retocáveis
como um sorriso de Hollywood
& tinham olhos comovidos
com a tibiez da paisagem

dóceis
……..porta-vozes
………………….do agouro

um dia estiveram aqui
& diante dos seus olhos
abrimos aquela grande mala

incrédulos: todos os pássaros
foram libertados
como borboletas em chamas

 

 

***

 

 

HARAKIRI

 

todas as manhãs
afia a lâmina
de matar o tédio

tira-a da têmpora

– aonde
..a forja arde –

e divide a tâmara

essa lâmina
……………luminar

eletricidade
…………..e nuvem

não a porta
………mas
a comporta

………. não a porta
………. mas
………. a transporta

na baínha da alma
na cerzida
….bainha da alma

essa lâmina
fotossintática
………tética

para
……enfim
………….guardá-la

entre pétalas
na floração do umbigo

 

 

(Heitor Brasileiro Filho é ensaísta, cronista e poeta. Natural de Jacobina, Bahia, reside em Ilhéus desde 1994. Licenciado em Letras, é pós-graduado em Estudos Comparativos em Literaturas de Língua Portuguesa. Integra os livros “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum); “O Triunfo de Sosígenes Costa” (ensaio – Editus UESC-UEFS), e “Bahia de todas as letras” (conto – Editus – Via Litterarum). Acaba de lançar o livro de poemas “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo – 2013))