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72ª Leva - 10/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

 Diego Tardivo

 

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 


 

CANÇÃO DOS MANJARES MÍSTICOS

 

Este pão que comes, meu filho,
Subjaz nos lábios da castidade
E nas terrinas úmidas do Amor –
Sem que para tanto necessitem
Os antigos escravos de sua míngua
De caridade e compaixão, tudo
Entrelaçado enquanto os corpos
Ausentam-se nos dias cáusticos.

Esta água que bebes, meu filho,
Refluía ao longo de músculos nus
E gotejava de calhas profanas como
O gorgolejar de luares no puro inferno –
É a insígnia da perfeita bonança
E a paz teria beijado o seio da guerra
Quando da unidade adâmica surgissem
Diamantes – adormecidos e lânguidos.

Esta arma que empunhas, meu filho,
É o brasão vil da mortandade oculta,
Dessas que se escondem em armários
E ainda assim permanecem fiéis à Musa.
Terrível dobre de infinito censurado,
Volvei, ó palidez, que a morte chega
Uivando à miséria hinos de beleza amarga
E barganhas prostradas na lama de fogo.

Este vinho que provas, meu filho,
Já havia embelezado as cabeleiras nuas
De pobres dançarinas cantando absurdos
Enquanto os poetas lamentam a alegria –
E continuará por muito tempo ainda
Sendo o espelho diante do qual figuram
Os sorrisos e as lágrimas que são precárias,
Os deleites e os êxtases que são tacanhos.

 

 

***

 

 

LEMBRANÇAS DO JAZZ

 

In memoriam Allen Ginsberg e Roberto Piva

 

Quantas imagens me acorriam em minhas febres de justiça!
Quantos uniformes pavoneando-se acima das folhas de cristal
& ainda quantos astros nus envolvidos na beberagem da tarde –
Eu não entendia por que a violência dos pederastas era temida,
Contos de Tchekov supurando nos bosques de amianto,
Lendas estraçalhadas na vívida vivissecção da realidade mais crassa,
Abóbora de ferro opinando sobre as dimensões de meu sexo
& eu continuo sendo inesquecível,
& eu continuo sendo imperdoável,
Sim, porque todas as danças me eram devidas a cada cena
& todos os profetas tinham seu sudário empoeirado e magro –
Candeeiro de emoções; lúgubre festa do quarto largo,
Eu me prostro, eu me persigno,
Eu me prosterno, eu me flagelo –
Ainda me cabem os amores que reneguei à custa de símbolos,
As imagens de oxigênio continuam em minha cama molhada,
Os barítonos da aurora jazem derreados nos catres de meus louvores,
A ladainha dos escravocratas morre ao contato das batalhas arredias
& tudo me foi revelado enquanto o dia corria entre minhas mãos –
Jamais saberei se minha alma é pura.
Jamais saberei se minha mente é sã.
Porque sou vil, a maldade se retorce em meus intestinos
& a morte que desconheço não me murmura sofreguidões;
Ah! Como lamento! Como lamento saber só agora
Dos corações que choram & dos cérebros que se enforcam,
Eu lamento, eu lamento ser esta serpente nojenta e traiçoeira
Sibilando e envenenando os acontecimentos do século,
Minhas quimeras são mais pérfidas do que o oceano
& santificados me acorriam os vagalumes néscios da Ventura;
Tudo quanto era meu regressou a meu Espírito
& no interior do enigma luminoso agitei as asas de minha angústia,
Porque todos os meus amigos zombavam de minha juventude
& todas as minhas namorada riam de minha promiscuidade,
Ó lampejos! Lembranças do jazz! –
Não me esqueço das notas que soaram para minha inocência,
Funesta exaltação dos sentidos encontrados no Silêncio
& último conhecimento absorvido pelas mentes embriagadas
…………………………………………………………………..{de minha geração.

 

 

(Diego Tardivo tem vinte e sete anos, nasceu e cresceu em Italva, interior do RJ. Começou a cursar Letras, mas largou no terceiro período. É casado e pai de um menino, Arthur – nome dado em homenagem ao poeta Arthur Rimbaud. É autor de cinco romances e três livros de poesia. Atualmente trabalha em dois livros: uma coleção de ensaios, que apenas começou a escrever, e uma coletânea com duas novelas intitulada “A Filosofia do Espírito”)

 

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Pintura: Sylvana Lobo

 

Impassível

Ian Lucena

 

quando deixei de ser
hipócrita algumas ampulhetas
foram embora
à busca das ampolas da memória

quando deixei de
morrer afora
a clepsidra da mágoa
trouxe tudo de volta
às águas da minha vida inócua

 

 

 

***

 

 

Chuva

 

numa noite movimentada
os fios de prata – tecidos – deslizam
atrapalham as vistas das mentes
pequenas
noutras noites os pingos
grossos metalizam a fina umidade
e se tornam tempestade às mentes
criadoras

apenas num dia árido
muito árido
como aqueles que nem é possível sonhar
a chuva acaba
e a minha visão aguçada
perdura

 

 

(Ian Lucena, natural de Cascavel – PR, é poeta, empresário e universitário do curso de Economia)

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

DANOS

Bruno Gaudêncio

 

quantas
asas
oram
nas covas
gastas?

?quantas
horas
vagas
cavam
nas curvas
postas?

?quantas
flores
mortas
ardem
em voltas
sem chegar
a lugar
algum?

 

 

***

 

 

RETINA

 

O olho do poema
permanece fechado,
fluente em seu acaso,
buscando o caos.

O olho do poema
escreve o seu atraso,
no teatro tenso
das luzes do mau.

O olho do poema
voa falso
(aos monstros da fala).

O olho do poema
come a razão
(com sua fome de nada)…

 

(Bruno Gaudêncio nasceu em Campina Grande, Paraíba. É escritor, jornalista e historiador. Publicou: O Ofício de Engordar as Sombras (Poesia, Sal da Terra, 2009) e Cântico Voraz do Precipício (Contos, Via Litteratum, 2011). Membro fundador dos Núcleos Literários Blecaute e Caixa Baixa na Paraíba. Membro do Conselho Estadual de Cultura do Estado da Paraíba. Possui poemas publicados nas seguintes revistas e sites culturais: Correio das Artes (PB), Revista Blecaute (PB), Verbo 21 (BA), Palavrarte (RJ), Revista Macondo (SP), Germina Literatura e Artes (SP) e Samizdat (POR). Atualmente Coeditor da Revista de Literatura Blecaute. Os poemas fazem parte do seu segundo livro de poesia, intitulado Acaso Caos, a ser publicado no início de 2013)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

Boana 

José Carlos Souza

 

existe uma cor
que desambienta a paixão.

na varanda
o sol se desdobra
arranhando os vãos das telhas
despencando em lanças de luz.

mofo e fuligem
no interior
das veias.

amanhã
a vida
terá outro nome.

 

 

***

 

 

sonhando manhãs

 

nos varais da sorte
há um riso
que amarro entre os dentes.
palavras não deixam rastros
entre a voz e o soluço.
passarinhos no ar
arquitetando ninhos
sequestram o luar.

permaneço sentado no vazio
sonhando manhãs.

 

(Algumas pistas: Sou baiano de Santo Antonio de Jesus, vivo entre a poesia e a música e teimo em acreditar no valor da amizade. Contato: aldebara743@gmail.com)


 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

CASULANIMUS

Floriano Martins e Viviane de Santana Paulo

 

descortinamos a sombra avulsa que mastiga o sol     faminta por entre os monturos
da tarde     surge nas vértebras do tempo uma nuvem de abismos
estática da agonia que não se comunica com seus vultos abandonados
feixe de evasivas     o pavor diante da pilha de cenários vazios     a cidade
regurgitando a própria memória como último recurso para evitar a asfixia     mas
o cansaço reveste os corpos de desamparo     e as esculturas perambulam pelas
galerias sem ninguém
no chão o ruído de madeira reclama as tiras das frestas que atam as cenas
germinando lentas     diáfanas     tendo que relutar
contra o espaço desabitado dos cenários      recolhem o movimento imperceptível
dos sentimentos
nos fios das travessias     emaranhados como um casulo na curva da clavícula
tecemos nossa ausência com as fibras das garoas finas
caída nas costas do crepúsculo     são corpos que mudam de lugar    cruzam as
artérias de um mundo desolado
enlutam os cabides gastos pela melancolia     escrevem os nomes trocados para
confundir a dor
há muito que reúnem as estações para pequenos tragos na madrugada     quando
revivem as imagens desfeitas     e destacam passagens incongruentes da
narrativa de suas vidas incomuns
sedimentando desvios nos fósseis da ressonância urbana
as pernas sonâmbulas dos sonhos no branco do teto deixam marcas longas e
frágeis de nervos de folha desgastada de verão    devoram as cicatrizes
rudimentares de umas poucas utopias que rastejam por monturos     cartazes
aniquilados     detritos surpresos     orquestração de misérias
fomos descortinando a pele dos desgastes     tateavas um palimpsesto aqui     eu
mascava uma imagem putrefata ali     a memória não alcançava o dia seguinte
perdemos a história
já não sabemos em que tempo conjugar os verbos

 

 

***

 

MASCARALVO

 

a noite e o problema confinado     jogo de despistar o solitário
noite de sexo sem a coroa de estrelas     não te conhecem as cigarras     o bafo quente
…..das sombras macias
somente as silhuetas dirimidas no breu     dissolvidas as cores do dia na saliva da boca

para dizer que tudo se esvai     mas permanece este delírio
arrancar a ilusão do duro das paredes
buscar as amarras     o equilíbrio das gotas de chuva no limiar do arame     na ponta
…..dos espinhos
minto carnavais e feriados     noite de sexo sem a purpurina vermelha     sem a pérola
…..branca
o estranho gosto do amor na boca amanhecida com atraso
lençóis rachados como os lábios do deserto de teu olhar   contrariar a roupa ao vesti-
…..la
gemidos entranhados entre a meia e o sapato     não te vás     não me sigas
o sol se retrai indeciso sobre o disfarce que usará
a janela se espreguiça com um gato decalcado em suas vértebras
o mundo não vai a parte alguma     nem sei ao certo quem és
rumino as penumbras dos gestos e algo quebra a casca fina da manhã gelada     onde
…..as primeiras luzes surgem indiferentes     inventam o cotidiano no gargalo dos
…..recintos
imperturbável na hora do despertar
nascem os corredores de reflexos     matizes promissoras e lembranças viajantes que
…..vagueiam no vasto do dia que vem sem ti
e precisamente onde não estás recupero o que houve de melhor entre nós
e o faço entornando a jarra de felicidade com que sei que nada voltará a se dar

 

(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Entre os livros mais recentes, se encontram Autobiografia de um truque” (2010) e Susana Wald – La vastedad simbólica” (2012))

(Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

 

Pintura: Sylvana Lobo

O ENCONTRO

Mariana Ianelli

 

Dá-me um acontecimento
E eu nada direi sobre isso.

O crime perfeito
Será meu segredo
Fechado por dentro
Em silêncio
Como um vício.

Face à justiça dos homens
Há de me salvar
A vida rotineira
Entre mil outras tão parecidas.

Irei mansamente,
Azul sobre azul,
Sem que desconfiem.

(Quase diurna, eu diria,
Não me turvasse o delírio.)

E no passeio dos lobos,
Teu sangue meu sangue,
Para o chão
Águas e limites.

Repleta do terceiro corpo,
Em asa de luz
Nada direi sobre isso.

De línguas mortas
E um tempo morto
Farei caixa de guardar
Minha fé ilícita.

 

 

***

 

 

O AMOR E DEPOIS

 

Era esperado que aos poucos
Definhasse, fosse desaparecendo
Naturalmente levado pelo sono.
Era suposto que por abandono
Morresse –

E não teria o vento nenhum sentido
De ventura, seria apenas
A passagem de uma hora branca,
Entre outras tantas,
Para um coração manso
Que já nada espera nem recorda –

Como se o tempo não devorasse
Também o desconsolo,
E dele fizesse exsudar um leve perfume,
Como se não arrastasse
Cada corpo uma penumbra,
Como se fosse possível
Em vida a paz dos mortos.

 

 

(Mariana Ianelli nasceu em São Paulo em 1979. É poeta e mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP). Publicou os livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007) e Treva alvorada (2010), todos pela editora Iluminuras. Participou dos livros Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Ed. Casa da Palavra, 2009), Roteiro da Poesia Brasileira – anos 90 (Ed. Global, 2011), Caminhos da Mística (Ed. Paulinas, 2012), entre outros. Tem poemas publicados em Portugal, Espanha, Cuba e Argentina. Em 2008 recebeu o Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude. Em 2011 obteve menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas (Cuba) pelo livro Treva alvorada)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

 

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

Insignificância

 

Em que pese os malefícios para o corpo,
devemos arrastar a consciência de nossa insignificância
Jorge Elias Neto

 

 

O azul se dissipa
em tons de desespero.

Os segundos corrompem
nossos sonhos,
e a eternidade –
consome toda inocência.

O céu conspira
dentro de mim,
ponto
sujo no útero
da neve.

 

 

***

 

 

Um resto de sol no desalento

 

Ocupo-me de uma febre
sem propósito.
Modos existem
de forjar os dias,
principiar universos,
rir-se do descomunal
segredo da vida …
Mas não nessa noite gelada
em que persisto centelha.
Eis a última pele – a palavra –
que se desgarra inapta
a prosseguir
afirmando
o esplendor da verdade.

 

 

(Jorge Elias Neto é médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

Poema # 5

L. Rafael Nolli

 

Que se desabroche como flor
em um vaso sobre a mesa –
alimentada por lâmpada fluorescente
………& água de cloro da torneira

(ou
às margens de uma estrada
que segue o curso do rio: onde
o sol faísca nos olhos dos cavalos)

Que se desabroche como as flores
no canto escuro da casa –
regada pelo encanamento rompido
…..& o árduo trabalho intestinal

(ou
no peito do homem
que entre tantos outros caminha
para libertar a cidade sitiada)

 

 

***

 

 

Inventário de um rio # 2

 

1
Aquele havia sido o meu Eufrates.
Ainda que inexpressivo
– sequer constava no mapa –
não teria havido nada sem ele

(a água era tão pouca
e de tão má qualidade
– pombos sedentos agonizavam
……………… às suas margens –
que nada sobrevivia em seu bojo
[além de vermes aquáticos
e caramujos da esquistossomose])

Aquele havia sido o meu Aqueronte.
Quando corria –
quase sempre estava engasgado
……..com o cadáver de um cão –
conduzia a inframundos
………………sobre o domínio de Hades

(pouca era a sua água
………e de tão má qualidade –
espessa como a baba de um enforcado –
que ela se mostrava incapaz de refletir o céu
[senão simulá-lo
………com um azul de olho vazado])

2
Aquele que havia sido o meu rio
se arrasta por galerias de concreto
– como um fantasma do Lete –
roendo pacientemente os pilares da cidade

 

(L. Rafael Nolli nasceu na cidade de Araxá, MG, no ano de 1980.  Publicou Memórias à Beira de um Estopim (2005). Pode ser lido semanalmente no blog Stalingrado. Contatos: nolli@bol.com.br.Twitter: @nollirafael)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

alter et idem

Davi Araújo

eis que a ave volátil declama o peixe solúvel
e de repente a geografia de uma rasura
conta a história d’alguma literatura

e são os ininteligentes elegíveis
na universalidade intraduzível
ismismos mesmo preferíveis
à grande banalidade indigerível

que a biblioteca me preserva a ignorância
porque o pior labirinto é uma linha reta
se nas leituras solitárias desde a infância
tornar-me um outro e o mesmo é a meta

contemplo o duplo na reflexão volúvel
altero-me só um pouco e no reflexo
outro é um eu de mim desconexo

***

Eus em Pessoa

Sou essas mil e uma almas que encarno & osso
Desde aquelas calmas às mais carne de pescoço

É uma infinidade de outros estranhos reunidos
Que há nos nós mesmos dos meus conhecidos

Em triz teço uma teia de nojo & metamorfoses
Do coral que me encanta com as minhas vozes

Uma corja de caráteres que trago personificados
Camaleões de fragmentos & tons resignificados

Iluminações de espelhos refletem o que emano
Contra a sombra que me usa de escudo humano

Nunca subo ao palco do qual sempre despenco
Engendro pequeno monólogo & grande elenco

 

(Davi Araújo é poeta, ficcionista, tradutor, ghostwriter e conselheiro editorial. Autor do blog Não Fique São, atualmente finaliza dois grandes livros de poemas, continuações da trilogia iniciada com Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal. Contato: davis.eu@gmail.com)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

cinegrafias

Gabriel Resende Santos

 

Na poltrona, desperto. Os ruídos
soprando grandes triângulos.
Pirâmides. Cilindros. Em
filas de cinema vislumbrei os pesados volumes
da terra sem lei. No Odeon as mímicas automáticas
de luminosas tesouras de titânio, cortando os tíckets
amarelos. As musas sob a pesada lona
exaltavam Wagner e as danças de mãos juntas.
As musas não se entendiam. Forçavam a trilha-sonora
nos narizes. Nas testas. Onde assinavam as cifras
e o roteiro da obra-prima.  Na poltrona, sabia ser Gigante
e subtrair espíritos em pequenos grunhidos. Era permitido
obter a glória na cabeça do vilão. As palavras flexíveis
viriam das bocas das ninfetas e bem antes das letrinhas.
Porque as musas são de bronze. Porque o céu é de couro.
E depois, porque o depois é fim, na última nota do violino e
no último crédito de figurante, todas as películas do sonho
se tornam uma una e imensa gota corporal
fugindo de olhos entreabertos.

 

 

***

 

da arte de versar cimento

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxao João

 

Hoje o dia de louvar o Mestre
que me confessou o criar
……………………….a partir do partir do criar.

Hoje o dia de lembrar do Arquiteto
sua cal antiga sua pedra antirocha
o comprimido      e       o      comprimento
…………………..mili-métricos.

Hoje o hoje do Canônico
as rosas inomináveis
..a desrazão lógica
os retalhos sem berço

…………………………..Ontem Neto
…………………………..Hoje Primogênito
………………………….. …do Poema.

explicar

Borboletas furiosas
invadem minha privacidade: extrair segredos
que souberam das folhas.

Peço que saiam. Com delicadeza.
Mas elas me fuzilam: o que significa essa di  agr  ama  ção
essa TIPOGRAFIA
essa questão metalinguística:
explica o poema fora do poema
explica a lagartixa o tigre o grifo
explica os segredos do fracasso.

Atiro uma receita de remédio
para os problemas de fibra
e acerto o coração lepidóptero. Ela pousa
meio trêmula

azulada

não pela morte
mas por uma fria ignorância.

Os segredos eu não conto
para nenhuma fúria.
No máximo aponto – sem autocalúnia –
o que me redescrevo.

 

(Gabriel Resende Santos nasceu no Rio de Janeiro, na última década do século passado.  Tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas. Atualmente trabalha no que pode se tornar seu primeiro livro. Mantém os blogues Occam, big bangs e outras explosões e Os Escritores Invisíveis)