Categorias
70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

 

ENCANTAMENTO

Luiz Otávio Oliani

 

no balde de juçaras
o homem busca
a água de que precisa

no terreno seco
procura o vento

encontra Deus
disfarçado de sabiá

 

***

 

O POETA E O OPERÁRIO
xxxxxxxxxxxxxxA Maiakóvski

 

o que difere
o poeta do operário?

na maquinaria
o trabalho braçal
dá lugar à escolha
de substantivos
verbos
metáforas

se um carrega cimento
terra areia
o outro esculpe o ser
talha a essência

se um usa espaçador de piso
espátula roldana
o outro opera em silêncio
na construção do poema

 

(Luiz Otávio Oliani nasceu no Rio de Janeiro. É graduado em Letras e Direito. Em maio de 2000, foi homenageado com a medalha “Só para Lembrar” no recital “Versos Noturnos” organizado pela SPOC. É detentor de mais de 50 prêmios literários. Publicou dois livros pela Editora da Palavra: “Fora de órbita”, 2007 e “Espiral”, 2009; e “A Eternidade dos Dias” pela Editora Multifoco, 2012)

 

 

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

Daniel Gonçalves

 

O amor quando se afasta da tua luz deixa tudo desarrumado.
Caminhas de olhos vendados, tropeçando nas palavras que ficaram por dizer.
Na verdade o que ficou por dizer não foram palavras.
Foi uma casa caiada de fresco, um jardim com tulipas todo o ano.
A cancela vedando os gatos.
Por isso esta cadeira vazia.
De um lado para o outro, carregando e esvaziando o silêncio.
Sempre o silêncio.
Não podia ser outra coisa que outra coisa não sobra quando estás sozinho.
É a balança com que medes os teus pensamentos.
Sai-te do bolso como quem perde moedas e não se importa com o tilintar da miséria.

 

***

 

o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor
saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão
inútil como uma palavra à roda de um poema que não se alumiou

o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar
parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio
deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento

passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa
e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato

já não te serve porque esqueceste de mudar a água aos girassóis
e agora há uma escuridão que se enovela à volta da tua tristeza
pesando sobre os teus olhos como uma pedra tirada a um poço
ou uma música de embalar de onde se perdeu a letra e o sonhar

o vestido que trazes está perfumado de pérolas que se partiram
num excesso das sombras que musicam a vaivência da solidão

e como uma vinha a quem se arrancou o chão antes da vindima
pareces-me abreviada despida exangue impossível descosturada

 

 

(Daniel Gonçalves nasceu na Suíça e é filho de emigrantes portugueses. Em 1983, a sua família regressa a Portugal e fixa residência em Santo Tirso. Estuda em Ermesinde e Braga, onde completa a Licenciatura em Ensino de Português. Desde 1999 que leciona em Santa Maria. A sua obra mereceu vários destaques e edições. Entre os principais prêmios, conta-se o Prêmio de Revelação de Poesia da APL 1997, o Prêmio de Poesia Cesário Verde 2003 e, mais recentemente, o Prêmio de Poesia Manuel Alegre 2010. Os últimos livros publicados foram “a tua luz costurou-me uma bainha no coração” (Editora Labirinto) e “um coração simples” (Instituto Politécnico de Leiria, ambos em 2012)

 

 

 

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

XIII

Adriana Zapparoli

 

Com o nome prisioneiro no silêncio
aniquila o anacrônico em sua língua-lavanda
e acúleo
além da estação.
O escorpião.
Uma fruição bélica entre a lírica essência
de fruta cítrica (Nárandja)
e o perfume em lençol vestido
pelo sol vespertino.

 

***

 

XIV

 

no código da memória
o deserto da sala de atacama
em ágata – eldorado
são estômago, músculo e vaso
na sombra a projetar a mucama
despida pela paisagem escondida
em tara de bisão
que em carne de pescoço, comunga a intenção
aramada sobre o crânio seus ascos
em botão.
há fissuras que cortam a retina
em boca-de-leão (Antirrhinum majus)
em cultivo o florífero, estio em dia tinto
pela flor-de-maria, um cacho-lírico,
de uva em gotícula.

em vilarejo tântrico
habita-se,  entre véu e o espanto,
o amor-víneo de ensejo
na centelha de um seio-
castonhola, um alçapão de olhos
em crucifixo de desejo.

 

(Adriana Zapparoli é escritora, poeta e tradutora. Seus trabalhos foram editados em revistas impressas e eletrônicas. Publicou as plaquetes de poesia A Flor da Abissínia (2007) Cocatriz (2008), Violeta de Sofia (2009), Tílias e Tulipas (2010), o livro O Leão de Neméia (2011) pela Coleção Caixa Preta, Flor de Lírio (2012) todos pela Lumme Editor. Prevista para agosto de 2012 a publicação da plaquete Lontra Corola Libido, pela Coleção Poesia Viva, Centro Cultural São Paulo)

 

 

Categorias
69ª Leva - 07/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Desenho: Rui Cavaleiro

O MURAL DE ALEXANDRE

Marra Signoreli

 

O amanhã é a lágrima de criação do sangue
É o silêncio dos anjos que nos anuncia Ítaca
Vejam a eternidade dessas velas e também os peixes
Como vocês tive medo e também tive carne
Não tive voz quando as correntes me prendiam o corpo
Não tive o além quando o desejo me desfez o mundo
Se tive Aline foi quando o mar me desejou o sonho
E tudo quanto mais voei foi pura inexistência.

Agora vejam, homens que perpassam sem destino!
Esta aurora que se desfez em nada,
Este pó que sou eu nas suas carnes e nos seus rumos
Eu que agora pulso em suas veias pelo sangue dos peixes
Eu estou morto como vocês.

 

 

***

 

 

CANÇÃO DO DESNASCIMENTO

 

Às vezes sob os olhos um pássaro decanta
entardecido aos ossos da gaiola,
assim eu via o idioma de seu rosto
mudo de toda pluma da existência.

As mãos de nunca, que não mais distinguem
a dor e o sono;
as vértebras de mármore, que prendem
as vésperas do pássaro, que evolam
nas batidas de um coração parado
já não me luzem a espera de seus olhos,
nem mais me guardam sonhos de outro dia.
Seu corpo é lâmpada de ausência no mistério
sangrando do céu os anjos de silêncio.

Um dia nos amaremos mais distantes,
mas por hora você dorme noutro sonho
em noite inatingível, enfim sorrindo
a pétala do vôo que me vale.

 

(João Antônio Marra Signoreli nasceu em 15 de dezembro de 1989 e é graduando na Faculdade de Letras da UFG, onde pretende bacharelar-se em literatura. Escreveu o livro “Klívena Klarim”, publicado em novembro do ano passado pela coleção Goiânia em Verso & Prosa, participou do blog Vida Miúda e hoje participa do Mallarmargens)

 

 

 

Categorias
69ª Leva - 07/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Desenho: Rui Cavaleiro

UMA ANDANÇA

Raquel Gaio

 

nenhuma sombra pairava em tuas pálpebras
apenas raios de girassol te faziam navegar
nesse escaldante sol de vertigens variáveis.
eu contava os giros de tua andança
e admirava teu suor sem valia
que brotava nesse terreno áspero e doce (que é tua matéria)

minha ansiedade e o tempero do dia
rasgavam teu continente fechado e fronteiriço
que emanava artifícios de um futuro bom.
você ruminava formosuras pra dentro das bocas-desejos
recomeçando assim teu trabalho de escavar juramentos (relíquias da noite)
uma música embalava a vertigem do dia
e você, como era usual, a usava para amordaçar bocas.

 

 

***

 

eu, um invertebrado sem celas,
suportando os caprichos intermináveis dos dias,
engravidando as horas de sonhos,
oscilando entre não-vértebras violetas,
depositando versos no penhasco do tempo,
observando esse corpo irredutivelmente numa estiagem.

é longo o processo das horas.
o arrastar-se ainda comove.
.
.
.
.
.
{desliza inevitavelmente. como os ponteiros}.

 

 

***

 

 

sob a pele de tuas palavras
estremeço nua
/entranhas escarlate/
essas sílabas esses sons esse gozo
amarram-me e me fazem
delirar num silêncio ambíguo
que põe em minha boca
suores ainda não provados
e em meu corpo
uma cama cheia de ecos.

 

(Raquel Gaio é atriz e poeta. Cursa o 8° período da Faculdade de Letras da UFRJ. No ano de 2011, lançou o livro de poesias “O Exercício no Mundo”, pela Editora Multifoco, com os amigos Luis Alexandre e Denise Fraga, que abarcou intervenções artísticas, como performances, desenho, vídeo-poema e intervenções musicais. Também foi publicada nas revistas literárias da UFRJ, “Estrelas Vagabundas” e “Zebra”. Tirou o 3° lugar com “Contágios” no Concurso da Cidade do Rio de Janeiro pela Ed. Taba Cultural, antologia a ser lançada ainda esse ano. Atualmente se dedica a pesquisar linguagens poéticas e visuais)

 

 

Categorias
69ª Leva - 07/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Desenho: Rui Cavaleiro

PRIMAVERAS

Helena Barbagelata

 

Quando vieste, primavera
aberçar-te a meu corpo branco,
nascia já o Inverno de entre as
longitudes inenarráveis da alma;
as amendoeiras pousavam em
langor os seus braços perfumados,
e as canções escutavam-se vagarosas
sem chegar; havia já tamanha
brandura no abandono, e a sombra
descansava imperturbável e só, vigiando
as voltas do desassossego; já tudo regressara
então, ao seu leito de lis, e o coração
sereno procurava a fonte.

 

 

***

 

 

HUMOR DA NOITE

 

O jardim permanece inerte em
cestos de prata, a névoa é apenas
uma meditação de espuma que
jaz de rente ao ocidente; submerjo
o nume num derrame adivinhado;
o regaço terno do humor da noite
num acato sigiloso, aluviões de
astros, onde começa a alma, tão
dispersa e impenetrável; procurá-la
na finitude amortecida da vida, no
embalo contíguo do violino;
reencontrada musa, as cordas num
afago milimétrico, os dedos
que choram.

 

(Helena Barbagelata nasceu em Lisboa. É uma artista multidisciplinar, dedicada às artes plásticas, música e letras. Participa em revistas e antologias literárias em Portugal, Brasil e Itália, tendo sido laureada em diversos concursos internacionais)

 

 

Categorias
69ª Leva - 07/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Mercedes Lorenzo

 

 

 

 

(Mercedes Lorenzo é fotógrafa paulistana, que eventualmente se permite a ousadia de escrever coisas poéticas ou não, e esporadicamente também fixá-las em fotos da própria lavra. Pela ludicidade com que encara a poesia, nomeou esta série de “Poemas Descartáveis Para Superfícies Ordinárias”, que também é o sub-título de seu blog. Não há muito mistério sobre sua pessoa para uma boa biografia, mesmo mínima, embora digam as más línguas que ela se diverte além da conta com muito pouco. Pura calúnia, pois ela tem consigo a dor e a delícia de 50 anos repletos até o gargalo)

 

 

Categorias
69ª Leva - 07/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

 

Desenho: Rui Cavaleiro

 

 

SAUDAÇÃO

Clarissa Macedo

 

Hoje enterrei um lobo
de olhos esfomeados.

Na liturgia que devora
as feras, engoli o hálito
esfolado de sangue em
minha retina omissa.

Enlutada na incoerência
da terra, dedilho o quintal
de míticas odisseias.

Nas amarras da fome,
matei aquele lobo
que me cerceava,
inverossímil homem
carcaça de pelo e miséria.

O mundo, e suas lâminas,
decepam a seiva dos anjos
e sugam a heresia do uivo,
são grades de pétalas.

 

 

***

 

 

ALVORECER

 

A fé é rasgo de sol
que entra pela madrugada.

Perdida na melodia dos pensamentos,
cansada da vida nas placas,
busca significados e unguentos
na penumbra dos raios dourados.

Tédio sublime que arrebenta
os fios da amargura petrificada,
dissolve-se no claro do rasgo de sol
que avança machucado pela madrugada.

 

 

(Clarissa Macedo é baiana. Trabalha como revisora, escritora e produtora. Cursa Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS). Está presente nas coletâneas Godofredo Filho (2010), Sangue Novo (2011) e Verso e Prosa – Oficina de Criação Literária III Feira do Livro (2011). Publicou na Revista Verbo 21, no site Musa Rara, no Barcaças, e em A Poesia do Brasil.  Participou, em 2011, da IV Feira do Livro de Feira de Santana e da 10ª Bienal do Livro da Bahia na abertura da Praça de Cordel e Poesia)

 

 

Categorias
68ª Leva - 06/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Foto: Juh Moraes

Viviane de Santana Paulo

 

acredito no ocaso das tempestades no copo d’água
depois das ondas presas no mínimo oceano
dos relâmpagos azuis nas bordas das palavras
da borrasca no reverso dos gestos
acredito no zéfiro alisando o esgar dos rochedos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxno cimo do dia seguinte

 

 

***


quantas frações de instantes até o felino
abater o antílope e enfiar os dentes afiados
no pescoço macio e morno do pulsar exasperado
da fuga    curta
a liberdade que era de  um
passa a ser do outro que se satisfaz
com o andamento prescrito das coisas
com o manejo das mandíbulas
e o rosnar faminto da Natureza dualística
tanto cruel como generosa   e sempre política

 

 

(Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Participou, em fevereiro de 2012, do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua)

 

 

Categorias
68ª Leva - 06/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Foto: Juh Moraes

EVIDÊNCIAS

Helena Figueiredo

 

Hoje, que nada nos chama,
as horas
xpendem vagarosas no espelho,
xe o corpo
xespanta-se,
nos fatos desabotoados,
na curvatura das costas,
naquela ruga que apareceu num dia mau.
Crescemos numa aparência sem nexo,
e atordoados,
xprocuramos as flores,
a confusão das cadeiras,
os brinquedos que viviam no corredor.
Precisa de óleo a dobradiça do armário,
e os joelhos,
xgritam a idade
esquecida de virar no calendário.

 

***

 

FLASH

 

Escrevo nas pedras um postulado redentor.
Indiferentes,
as árvores
pintam as folhas de um sabor vermelho,
os pássaros
equilibram seus ninhos no vento,
e é tão clara a sapiência deste chão,
que me apetece rasgar as utopias,
e seguir paralelo ao fervor dos insetos.

 

(Helena Figueiredo nasceu e reside em Carregal do Sal, distrito de Viseu, Portugal.  É licenciada em Educação de Infância.  Editou  textos e poemas no site-revista TRIPLOV, da escritora Maria Estela Guedes.  Até agora não se encontra editada em livro. Contato: helena_lopes_m@hotmail.com)