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68ª Leva - 06/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Foto: Juh Moraes

 

 

GÊNESE DO DIA

Vitor Nascimento Sá

 

Hoje, dia de feras,
xxxxxProcusto me arrasta à sua senda,
xxxxxestrada de aparar arestas.
Hoje, dia de feras,
sou devorado pelo
xxxxxxxxxxxxxcéu
xxxxx– Urano e seus velhos vícios –
xxxxxxxxxxem suas artes de imitar o pai
xxxxxxxxxxem suas artes de imitar o tempo.
Hoje é dia de feras.
xxxxxE eu, vítima de Minos.
E o fio?
Em algum ponto se perdeu entre feras
Em algum ponto se desfez
xxxxxE como não ser eu agora
xxxxxa carne de alimentar os deuses
xxxxxdragões famintos, febres?
Eu e minhas pernas podres,
eu e o meu pouco fôlego,
eu e minhas doenças,
únicas verdadeiras propriedades.

Eu, fera de mim mesmo,
eu, auto-rei, auto-deus,
autófago, autômato, arauto.

 

***

 

TEORIA GERAL DA GUERRA

 

Sangue e terra:
na olaria da morte,
o barro inconcreto do nada.

Diante do abismo,
o fim diagramado dos mapas
sobre a mesa de generais aquartelados:
cada centímetro noturno
arrastado em mil fios,
entesados e enrodilhados,
dentro da trincheira imersa
no fosso da alma do soldado.

Sangue e terra:
barro nos pares de coturno,
morte dificultando a marcha
com todos os medos sufocados
na garganta do inimigo degolado.

 

(Natural de Maracás, Bahia, Vitor Nascimento Sá é gestor escolar, revisor e professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, licenciado em Letras pela UESB em Jequié e mestrando em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. É diretor e cofundador da Associação Grupo Concriz: Poetas, Recitadores e Afins. Tem textos publicados nas revistas Verbo21 (BA), Blecaute (PB), Correio das Artes (PB), Cronópios (SP) e Laboratório de Poéticas (SP). Participa da antologia Sangue Novo: 21 poetas baianos do século XXI (2011). Os poemas acima fazem parte do seu primeiro livro, intitulado Escapulário (no prelo)

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68ª Leva - 06/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

 

Foto: Juh Moraes

 

VOO

Fabiana Turci

 

I.
te sabia Ícaro
em altura e desejos.
num azul impossível,
a curvatura delicada,
de pasmar gaivotas,
tramava no meu corpo o curso das alturas,
no desejo de ver-te sob esta claridade de meio-dia.
a superfície crescente impunha-se aos ombros
fazendo verdade da fantasia
e, do sonho,
corpo.
fiz-me pássaro,
seguindo-te,
a dividir o azul.

 

II.
que te pedi, Ícaro,
para que cuidasse
da queda.
que nas margens
nuas
da praia
não restasse o meu corpo,
abandonando ardências.

 

III.
e me destes essa casa
de pedra e paredes
onde o céu desaba,
pelas manhãs,
nos corredores
fazendo caminho do meu cansaço.
o teu olhar, desde dentro,
me ofertando o infinito.
se já era teu o azul
– dentre os muros
de onde te fizeste –
tive de ti
o sol mesmo,
transfigurado pelas artes
do teu desejo.
perdoe-me, Ícaro,
se me faltou ver o artifício.
se reconheci a incandescência
e na iridescência me fiz inteira,
irradiando teus sonhos de cera.

 

IV.
foi de asas, Ícaro,
o meu erro.
de supor que o corpo,
entre o voo e a permanência,
encontraria seu contorno.
e porque te quis mais terra
fiz-me, adolescente, ideia
para que intuísses dissipação.
por me querer contradição
que me fiz celeste.
e me entreguei a ti
como casa.

 

V.
sei que foram muitas as
vezes em que me ofereceste
o fio de Ariadne.
eram os pés, antiquíssimos,
que negavam partida.
os pés soldados à terra
como quem ouvisse,
feminino,
os apelos do que é
só possibilidade.
a terra úmida,
fértil.
o novelo em minhas mãos.
mas é o azul, Ícaro,
que é irresistível.

 

(Fabiana Turci é formada em Filosofia e mestranda em Educação, Arte e História da Cultura. Presa entre a palavra e o silêncio, escreve para incomunicar. Publicou o livro de poemas Desobjetos (Ibis Libris, 2009) e organiza a coletânea História íntima da Leitura (no prelo))

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Foto: Juh Moraes

 

 

 

UMA RESERVA DE SUTILEZAS

Aline Aimée

 

Tenho meus carinhos, meus cuidados.
Levo sempre comigo uma dose reserva de sutilezas.
Quem mergulha em mar de flores,
acaba levando um punhado de cortes,
que cicatrizam em palavras de mistério –
seus segredos, meus segredos.
Sussurros sobre a pele, indícios
que hão de nos surpreender revelados.

Por isso, carrego sempre comigo
uma dose secreta de afagos
que hão de aplainar os ímpetos,
hão de evitar estragos,
mas nunca reterão os arrepios
que segredamos, silenciados.


 

***

 

 

ANSEIOS CINZAS, SUJOS

 

vagabundo errante,
risco por entre o lixo
minhas pegadas pesadas,
a carga de uma sobrevivência
– resiliência toda casca
que se desmonta, mas revigora,
comprimindo a massa túmida,
de ardor, angústia, desespero:
anseios cinzas
suspirando por opressores microporos

e enquanto nessa espessa casca
cresço,
incho-me sangrando
nutrindo a terra de poesia suja,
sorvendo a força das lágrimas diárias…

e me arrasto
avançando, ousado
por sobre as pedras,
contra previsões e planos

/é meu grito rubro que mancha de espanto tua noite funda/

 

(Aline Aimée nasceu no Rio de Janeiro, em 1981. Mestre em Literatura Brasileira, trabalha como funcionária pública federal. Tem textos publicados em sites e revistas virtuais, como a Diversos Afins, a Conexão Maringá e a Garganta da Serpente. Contato: alineaimee@hotmail.com)

 

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67ª Leva - 05/2012 Janelas Poéticas Outras Levas

Janela Poética III

 

Desenho: Felipe Stefani

 

INSONDÁVEL

Ronaldo Cagiano

 

O apito do trem
o atrito do trem
o arbítrio do trem

xxxxxSerpente histérica
xxxxxrasgando os montes,
xxxxxa existência vai c(r)avando
xxxxxxxem nós uma estrada de mistérios

xxxxxNo duelo com a vida
xxxxxa literatura concedeu-me as armas.

xxxxxTriste como um passado
xxxxxvivo como uma ferida:

assim é o tempo (moenda de Chronos)
xxxxxcom sua carpintaria de ferrugens
xxxxxa sagração dos labirintos

 

 

***

 

 

ÁLBUM RECLUSO

        para Sérgio Fantini

 

Um presente póstumo
invade as páginas
desse baú de espantos.

Na parede ou no álbum
as fotografias
desconstroem as palavras.

Há filosofia bastante
no cortejo dessas traças
que sitiam o passado.

Porém,
a refratária infância
perdura
xxxxxxxintangível
no absolutismo de
xxxxxxxtantos silêncios.

 

 

(Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases, viveu em Brasília, onde formou-se em Direito, e reside em São Paulo. Publicou, dentre outros:  Palavra Engajada (Poesia, 1989),  Dezembro indigesto (contos, 2001 – prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001), Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio, 2006)  e O sol nas feridas (poesia, Dobra Editorial, SP, 2011). Organizou as coletâneas Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, DF,  2002), Antologia do conto brasiliense (2003, Projecto Editorial, DF) e Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo  (LGE, Brasília, 2006))

 

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Janela Poética IV

Desenho: Felipe Stefani

ABREM-SE AS ASAS DOS CABELOS

Mar Becker

 

abrem-se as asas
dos cabelos,

digo-te: rosa

(uma trança a se
desfazer)

-dos-
ventos.

que mãos bordaram-na?,

(o que tu sangras,
sussurro.

digo-te, ave escarlate,

ao pé das pétalas
que encalham

nos meus ombros

como se fossem coágulos
de areia,

conchas: as pérolas
dos brincos).

é outono, meu bem; ouve,
todas as peles

rangem.

 

 

***

 

 

AGOSTO – I

 

respinguei no vidro
da palavra que

fechaste,

da janela que em
tão pouco,

tão perto,

se calou dentro de
ti.

agosto, ainda.
muita chuva,

(mas nenhuma fresta
nos lábios,

um sopro, que
fosse,

nenhum silêncio
entreaberto

para que à noite meu
nome

adormeça no teu).

respinguei no vidro,
no para-

peito,

o coração logo atrás.

 

 

(Marceli Andresa Becker é estudante de filosofia e professora. Publicou poemas nas revistas Zunái, Germina, Pausa e Eutomia, no Portal Cronópios e em diversos blogs. Participou ainda da Miniantologia Poética do Centro Cultural de São Paulo, organizada por Claudio Daniel, da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel, e do trabalho Canto Ancestral (CD e livro), do cantor nativista Lisandro Amaral. Na área de filosofia, publicou artigos científicos e ensaios em revistas eletrônicas e mídias impressas. Contato: mab_1109@yahoo.com.br)

 


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Janela Poética V

Desenho: Felipe Stefani

SOMBRA DE SAL E SILÊNCIO

Wender Montenegro

 

Não dizer palavra…
Deixar o silêncio plantar sua nódoa
na cinza dos olhos.
E uma sombra há de vir,
insustentável,
e despojada de dor e remorso e cansaço
trará numa das mãos linho novo,
alfazema;
na outra, conchas de praia deserta,
frutos da estação,
e ainda sem dizer palavra
acenderá os cílios com o sal das águas
de uma outra concha,
essa mão que rasgará silêncios,
tatuando na pele uma palavra gasta.

 

 

***

 

 

TECIDO DE ESPERAS

 

O olhar colhe asperezas…
Nenhuma alma de regresso às mãos
cansadas de tecer esperas;
nenhuma nau singra a saudade
e a tessitura é desfeita
pela ausência de abraços.

 

(Wender Montenegro, natural de Trairi/CE, é professor de História e poeta. Tem poemas publicados nas revistas TRIPLOV, Blecaute, dEsEnrEdoS e em outros espaços literários. É autor de Arestas, 2008, pela All Print editora/SP, com o qual foi indicado para o Prêmio Codex de Ouro 2011, na categoria Poesia, e espera publicar em 2012 dois livros inéditos, o Casca de nós e o Livro-arbítrio)

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Janela Poética II

Desenho: Felipe Stefani

 

ONDA

Elizabeth Hazin

 

o desejo é como água:
flui
circunda
onda mais alta
(de cor profunda)

o desejo é como água
(de mar ?):
sempre distante do porto
e o que fazer do corpo
apenas invólucro
– breve,
finito –
e, portanto, sequioso
do próprio desejo
em que se afunda ?

sobre o cetim da pele
desliza a veste que escolho
ou nenhuma veste

o desejo é como água:
flui  reflui
escorre   inunda
o corpo
(quem bebe ?)

 

 

***

 

 

DESDE O FOGO

 

Sou triste
desde o fogo impresso na argila:
odeio todos os deuses.

Minha tristeza vem desde o nome
a revelar-me  a sede
a fome
a farsa que me corrói a face
nua.

Não quero essa alma que me queima:
de  barro estava bem.
Arde em meus olhos o desejo dos deuses
(como o dos homens).

Não quero a palavra
acesa
que à minha revelia me incendeia:
de repente
é impossível  restar calada.

Desde o fogo
a tristeza nos consome.

 

(Elizabeth Hazin publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987) e O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e a Editora 7Letras publicou o livro escrito a quatro mãos com Davino Sena: Lêgo & Davinovich. Em 2010, foi re-publicado pela Vieira & Lent o Arco-Íris, poemas para crianças. Já ensinou nas universidades federais de Pernambuco e Bahia. Atualmente, é professora de Literatura Brasileira na UnB – Universidade de Brasília)

 

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Destaques Outras Levas

Janela Poética I

Desenho: Felipe Stefani

CÍRCULO DE SANGUE

Edson Bueno de Camargo

 

carrego a sede
de desertos
e a certeza perene
da repetição do verso
costurada
nos dentes

sou dos homens
que trazem
um círculo de sangue
na parte superior
da mão

e as palmas limpas
como areia de aluvião
das que repousam
o fundo das torrentes
depois de secas
as chuvas

 

 

***

 

LILITH

 

entre a escolha
entre a mulher virtuosa
e a que caminha sinuosa

embora cindido
eu prefiro a que tenha asas

que me beije como um anjo
e escolha a posição que quiser

 

 

(Edson Bueno de Camargo foi operário da indústria, dentro de uma realidade suburbana. Muitos de seus primeiros poemas foram escritos no “chão da fábrica” com cheiro de máquinas. Escreve desde muito jovem, sempre muito prolixo. Na maturidade, passou a ter uma relação com a poesia que vai para além da literatura, a poesia é sua experimentação do sagrado. Escrever poesia é seu tempo do sonho)

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66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

NOTURNO

Felipe Stefani

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Nos estreitos breves
a arte íngreme
de ser,
frente às faces do mundo.

A margens se re-
dobram nas entranhas das luas.

As barcas sonham a distância das flautas.

Fendido ao tempo feito
um canal,
nos orifícios cegos do fôlego,
basta
aquilo que arrefece.

A inocência do mar submerge as cítaras.

 


Desenho: Felipe Stefani

V

Colossal angústia
da muda serpente
que passa rente
à inexistência.

O inefável labirinto absoluto
está em tudo.

A essência é o enigma,

e a morte toca as margens
com dedos surdos.

Somos o estigma do vento
na estiagem do infinito.

 

(Felipe Stefani é poeta e artista plástico. Nasceu em São Paulo em 1975. Tem os desenhos publicados no site Sodesenho. Ilustrador, já ilustrou muitos livros de outros escritores, e também seus dois livros de poemas já lançados: “O Corpo Possível” (2008), pelo coletivo Dulcinéia Catadora e “Verso Para Outro Sentido” (2010), pela Escrituras Editora. Prefere que sua arte fale por si mesma)

 

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Anna Apolinário

 

Foto: Kenia Vartan

 

 

AÇOITES

 

Angústias castigam estrelas
Ruínas laceram papoulas
Lembranças torturam meus sonhos
Poemas mastigam meus dedos

O amor
dói-me nas veias.

 

 

***

 

 

EPIFANIA

 

Grafito em tua alma
Um verso vermelho
Serpe sibilina
Estilhaço de estrela

Tatuo em tua boca
Que mordo com rimas
A flauta de fogo
Da minha poesia

 

(Anna Apolinário é natural de João Pessoa, Paraíba, poetisa e pedagoga. Participou de várias antologias nacionais. Foi premiada com o 4° Lugar no VI Festival de Poesia Encenada do Sesc Paraíba em 2010 com o poema “Dédalo”, no mesmo ano publicou seu primeiro livro, “Solfejo de Eros” pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (Rio de Janeiro -RJ)