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66ª Leva - 04/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

LÍNGUA PAPIRA OU O QUARTO DO CORPO

Wesley Peres  

 

Foto: Kenia Vartan

A palavra erra o corpo;
mesmo nele inscrita,
o corpo, entanto,  não
é ermo de qualquer voz.

Disso nem se adivinha o quaseabismo
entre, no corpo, o que é e o que não é boca.
Mesmo no beijo, há línguas,
o que faz da boca insular
anomalia no monastério-corpo.

Ainda que pulse toda papira
como na suposta poética cabralina
: a palavra em suspensão minéria
arranjada na lei mosaica
exigindo o não
espraiar-se dos olhos:

alguma papila pronuncia o tempo no corpo;

ainda que, na palavra papira,
o corpo sonhe de si se eximir,
conservar-se em  reino minériumano,

na mônada no sonho-linguagem,
há um silêncio irremediável,
ruidoso palatável, quasilha de carne
inóspita no na língua canavial;

disso se adivinha um estranho quarto,
minimenso e brancareia, no qual
corpo e palavra furtam-se,
mutuamente,
desde o final dos tempos.

 

(Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance Casa Entre Vértebras, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: Palimpsestos (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, Rio Revoando (poemas) USP/COM-ARTE 2003; Água Anônima (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL. No prelo: O corpo de uma voz despedaçada (poesia, a sair pela Casa Editorial Luminara/Porto Alegre); As pequenas mortes (a sair pela Ed. Rocco))

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Janela Poética II

Foto: Kenia Vartan


INALTERADO

Ana Vieira

 

Nada no espaço do peito, na mortalha do dia, na
luz na voz no horizonte no mundo na fenda que submerge,

a não ser o espelho líquido, a imprecisão embrulhada nos gestos aquáticos.
Os peixes sedentos no poente da escuta, no eco do grito, na mão que derrete.

Invento o bater do espelho a cair,
a gota, o veio, o corte na carne
desfeita.
A frase repetida, o inalterado, o sem cor,
a corroer-se inteiro por dentro, a escorrer pernas abaixo como lava que desencandesce e se agarra, se infiltra, penetra cada poro

congela em pedra dura um coração colosso.

A dor nos dedos
no espaço,
na espera, na curva,
no fio da teia da aranha.


***

 

Faço-me solidão em silêncio.
Faço-me solidão espécie suicida de muitas idas e
nenhuma volta
nenhum retorno
nenhum escudo.
Nenhuma pequena vala comum no fim do túnel.

Faço-me sozinha e às vezes aflita.
Sozinha e por vezes contrita fechada
por dentro desse silêncio à força de escrever aos gritos.

Faço-me sozinha e às vezes aflita.
Sozinha e às vezes cativa aflitamente cativa
da solidão e do silêncio opalino
da tua voz.

 

(A poetisa portuguesa Ana Vieira Pereira é mestre e doutora em Letras pela USP. Mãe de 7 filhos, publicou contos, crônicas e um volume de poemas, “O que sobre vive”. Mora atualmente em Araraquara/SP e escreve porque, como os demais, precisa de oxigênio)