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147ª Leva - 02/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Elton Uliana

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

ausência

 

o corpo

imperceptível
em sua
palpável
totalidade

ali

esparramado

entre
o que a tela
faz
presente

e

o que
deixa
………………….de lado

 

 

 

***

 

 

 

vazio

 

no som insistente
dos pés

o desejo

delinear
a física solidez
de uma figura
fantasmagórica

andando
sem rumo
para cima
e para baixo

nunca sucedendo
em produzir
um ser de sentido pleno

um ser todo

pendurado
…………….pelas
…………………próprias
…………………….palavras

 

 

 

***

 

 

 

razão insatisfatória

 

…………………….a questão

sobre
o que está envolvido
na leitura
de um poema

conecta-se

com
…………………a questão

…………………………………….central

sobre a qual
este poema
medita

nomeadamente

……………….a questão

 

 

 

***

 

 

 

uma sensação de abismo

 

entre a altura aérea
da torre
e
o pesadelo inconstante do poço

a mesmice incessante dos aeroportos

 

 

 

***

 

 

 

contínuo

 

a narrativa
é o impedimento da morte

tomando refúgio
na fantasia de uma ilha
como uma curva fabular
dentro do tempo comum
da extinção

a narrativa
do fim
da narrativa
é ela própria
fechada
dentro
de uma narrativa

adicional

o fato da aniquilação
mantido no futuro da narração

ou

consignado
ao passado
da sobrevivência

 

 

 

***

 

 

 

realidade bruta

 

esfregando os narizes
no fato de que
aconteça o que acontecer
no poema
acontece
em termos da linguagem

mas
linguagem
assim
carece
de espessura
de textura

separações tempestuosas
colapsos trágicos
conjunto de marcas pretas

palavras enviadas
em uma farra

estendendo-se por meia página

com

becos labirínticos
e
alamedas sintáticas
impulsionando o significado
da passagem
por meio
de cantos gramaticais apertados e
curvas fechadas

 

 

 

***

 

 

 

uma sentença

 

 

uma sentença
de estilo fraturado em sua itinerante tipografia no espaço branco serpenteando em uma névoa de metáforas evitando o verbo com as ferramentas da gramática e do léxico suas consoladoras repetições de som e palavra refletindo sobre a força de produzir imagens e sua frágil linguagem figurativa adulterando os esforços da prosa denotando com suas descrições elusivas e seu tom portentoso e seu registro petulante e suas arritmias sintáticas e seus digressivos complementos permanentemente deslocando-se protelando-se oscilando eternamente entre domínio e acidente até que de repente uma virgula um pivô
um ponto

 

Elton Uliana é escritor, tradutor e crítico literário brasileiro radicado em Londres. Ele é o coeditor do Brazilian Translation Club da University College London (UCL), um projeto criado para a disseminação de escritores brasileiros no mercado literário anglófono. Atualmente trabalha com o Laboratório de Antropologia Multimídia da UCL, desenvolvendo um Museu de Patrimônio Cultural em Realidade Virtual para e junto com os povos Guarani e Kaiowá do Brasil, uma parceria entre a UCL e o Museu Britânico.

 

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147ª Leva - 02/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Manuella Bezerra de Melo

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

A pele, uma vez que habita o sal
assume posição protocolar de felicidade

Os povos dos trópicos são luminosos,
tem o coração cortado pela linha do Equador

Uma flecha acerta-lhes como alvo
e assim despejam-se nas águas mornas

O corpo em feridas que sangra se cura
se levanta em sal pra render a vida vindoura

Os povos dos trópicos são mumificados para que
durem milênios, tornam-se pais e mães de todos os povos

A pele, uma vez que habita o sal
assume o estatuto da eternidade

Espera o seu retorno
Esperam a chegada do seu reinado

 

 

 

***

 

 

 

Envenenei o céu pra que você
não visse morrer a segunda filha
o socialismo é um programa
é uma fenda no meu umbigo
é uma pasta de grão de bico
sob uma torrada com azeite
cancelei o café diário
que equivale ao suicídio sem extremismos
quantos estômagos são necessários
pra digerir a graxa que você passou¿
quantos fígados precisas
pra filtrar todo álcool necessário
de seguir viva?
Perguntam-me como estou?
efetivamente viva
por vezes, nem tanto
quase sempre
esta parte, omito
omissão é a caverna eficiente dos ineficientes
não se compartilha maledicências
dores amargores brotoejas
feridas abertas são constrangedoras
e já não há mais ninguém em condições
tenha selfies sorridentes e esbeltas
braços abertos, rei do mundo
as minorias se adequam
ou desaparecem

antagonismos a parte
o socialismo é um programa

 

 

 

***

 

 

 

soou-me o alarme às seis
soa tal o uivo de uma cadela
guindasteei-me na força de uma mãe
servi melão pão café leite
ele partiu porque filhos partem
e levou a matéria orgânica dos dias
esvaziei-me e vazia dei a mim
trinta convalescentes minutos
curei-me da morte numa pilha de pratos
uma típica manhã: caríbdis no inox

 

 

 

***

 

 

 

enxergo através dos muros
embebida em sangue vermelho
me afundo em sede espessa
enquanto passeiam gabirus
em fuga dos cozinheiros e serventes
com suas vassouras sujas
não interfi ro: observo acompanho
e
pra que não adentrem meus sonhos
cerro as janelas

 

 

 

***

 

 

 

Tereza olhou-me
meteu medo até em xangô
como um rio e seu poder
adentrou em mim
aventurou-se de mim

Nos olhos lustrados de Tereza
centelhas podem ferir

seu flanco não é mais o mesmo
não é mais do mesmo
seu flanco é todo ele meu flanco
meu flanco nunca será o mesmo
depois de suar sob o teu

pelo cabelo aproximei-me
ajoelhei, pedi uma benção

Tereza, isto é uma carta:
– Quero beijar-te agora.
Salva-me!

 

 

 

***

 

 

 

sobre janelas
e casas grandes
[coloniais]

desconforto é aquilo que se sente
quando cortam sua língua

desconforto é aquilo que se sente
quando te arrancam de uma zona
que você não planejou sair

território
ocupação
produção
distribuição

Liberdade é campo de batalha

todo corpo é uma
metáfora bélica

 

Manuella Bezerra de Melo é uma jornalista, investigadora e escritora brasileira residente em Portugal. Autora de “Pés Pequenos pra tanto corpo” (Urutau) e “Pra que roam os cães nessa hecatombe” (Macabéa), “Um fado atlântico” (Urutau) e “A Fissura” (no prelo pela editora Zouk), é organizadora e curadora da coleção de antologias VOLTA para tua terra de escritores estrangeiros. Pós-graduada em Literatura brasileira e interculturalidade (Unicap), é mestre em Teoria da Literatura e Literaturas Lusófonas (Uminho) e bolseira no Programa Doutoral em Modernidades Comparadas; Literaturas, artes e culturas da Universidade do Minho.

 

 

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147ª Leva - 02/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Priscila Branco

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

nunca controlei meu suor
minhas fezes, minha urina
o sangue menstrual
os surtos psicóticos
a raiva ao capitalismo
a pulsão da morte
os pelos desgovernados
as unhas rapideiras
a respiração acelerada
o odor do trabalho

já não suporto
o grito controlado
a lágrima domada
o soco parindo
um livro inteiro

 

 

 

***

 

 

 

é preciso falar com portas
imaginando o outro
lado um mundo inteiro
submerso em labirintos
pontes entre portas
guardando carros
carroças e andarilhos

é preciso bater em portas
aceitar o silêncio
como resposta
aguardar bocejando
uma vigília
sem pressa e sem prece

é preciso derrubar portas
chutar até cair
abrir estradas
descosturar suturas
inventar saídas
para vencer os abismos

 

 

 

***

 

 

 

só mais um dia de fracasso
o acaso me diz
és uma máquina de fazer ossos

como meu grande ofício,
reparo no verbo antepassado
gosto de carne queimada
churrasco mal feito
respondo teimando:

não sou nada disso
tu que é chato.

 

 

 

***

 

 

 

…sempre à beira
o poema é um salto
quebrado

por outro lado,
ler poesia é voar
num barco

depois de alguns anos, está tudo no lixo.

 

 

 

***

 

 

 

eu bem gostaria de uma surpresa
às três da tarde de uma segunda
terceira opção
no meio do ano
quando o frio parece feio
porque acontecido
e a saudade não suporta mais
o real.

 

 

 

***

 

 

 

basílica à noite

 

no corpo, um corte profundo
como uma cena de filme bem feita
como um take da sua câmera quebrada
um corte religioso
que nem o cabelo de maria
madalena
ou judas
quem sabe a gente reescreve a história
beijando na boca.

 

Priscila Branco é poeta, mestre e doutoranda em literatura brasileira, pesquisadora da poesia contemporânea escrita por mulheres brasileiras fora do cânone, editora da Revista Toró e da Macabéa Edições, além de ser colunista da Revista Cassandra. Também faz parte do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM-UFRJ) e do grupo de pesquisa Mulheres na Edição (CEFET-MG). “Açúcar” (2021) é seu livro de estreia, acompanhado pela plaquete “Pitada de prosa”.

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Kleber Lima

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Os cavalos começam a correr.
Balançam minha cabeça.
Sacodem meu coração.
Em seus fortes lombos,
a doce bagagem extraviada,
segue terrestre e profundamente,
despachada na corrente sanguínea
até para fora da realidade.
– caem sobre dois olhos que brilham –
brilham como duas velinhas obstinadas
acesas por dentro da mais ampla escuridão.

 

 

 

***

 

 

 

agora me sento e penso em você.
penso sobre teus pés e tuas mãos.
no teu sorriso milésimos de segundos antes
de atravessar a linha de chegada até o meu.
nesta pequena dosagem de teus dedos angulares
que por onde passam
deixam um legado de lírios
como se iniciassem pássaros
a caligrafia dos teus cílios.

– me aquieto
afixado entre teus olhos
organizado como horóscopo
na estante do teu olhar –
aberto como livro em suas mãos,
páginas à tona num deserto,
hóspede da direção incerta
do ascendente do teu beijo,
que por detrás da cortina,
à espreita,
arranha meu peito.

 

 

 

***

 

 

 

Lá está você
uma janela por onde se vê os próprios olhos
um mar cujas águas mais fundas desembocam em si mesmas
uma flor que tanto mais desabrocha quanto mais entranhada do próprio perfume
um sol que por dentro irradia outros sóis
uma casa que é o único caminho para o próprio lar
um livro de páginas tais lidas com a língua embrulhada pelo silêncio
um alimento que cultiva a fome assim como a luz talha a sombra
uma oração que religa, dedo a dedo, as próprias mãos.

 

 

 

***

 

 

 

Veja
são todos leões
soltos na savana do sangue –
pesadas pedras que se carrega até ao mais alto.
Parecem com relâmpagos
arqueados pelos parapeitos do céu
prestes a eletrocutarem o ar que já não existe no peito.
Muito semelhante a trens desgovernados
cujos trilhos dependem de pedaços dos nossos corpos para não envergar.
Não se engane
são todos templos dinamitados
cujas crenças permanecem por séculos vivas
trabalhando em segredo por esse vínculo inquebrantável.
Eu havia falado: são leões, todos leões
rugem mais alto ou mais baixo –
depende da dose.
eu acabei de dizer:
são antídoto e veneno.

 

 

 

***

 

 

 

Meu deserto é um animal selvagem –
ao encontrar uma sombra
desiste da caça
e move-se contra si mesmo –
da própria carne tira os nacos
que endurecem o movediço terreno
fincado debaixo de si.

por onde quer que se olhe –
areia areia areia.
nada sobrevive nada
à fome de se devorar
dentro
o lugar de onde veio
esse coração dependurado
que rasga como um olho
a escuridão que teima em acender.

 

 

 

***

 

 

 

Depois que você devorou a si mesmo
mastigou sua orelha
a ponta dos seus dedos
folheou seu coração
encheu de tufos de cílios
páginas com os melhores trechos –
inaugurou uma plateia com suas vísceras
pôs cadeiras cativas para
sua inadequação
suas conjunções malignas
seus monstros
sua má companhia –
depois que seus dentes molares
começaram a balançar
do tanto de violentas mordidas
nos maciços tijolos da lida –
enfim aprendeu que a vida
com seu adubo de feridas
é que nos engraça.

 

Kleber Lima. Bibliotecário. Teresina (PI). 1984. Publicou “Poemas I” pela Ed. Penalux em 2016.

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Clarissa Macedo

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Rejeição

 

Teu olhar ginecológico
habita o meu aquário
de usuras e medos.

Profissional, asséptico e vidrado
o deslocar dos teus olhos
ofende o meu útero,
cansado da espera.

Enquanto me curo da tua ausência
da tua face clínica e distante,
que jamais arranca o chamado do meu apelo,
bordo a falsa flor,
laureada de armadilha,
clandestina
como a agulha que não soube usar
e que espetei na casa mais alta do teu coração.

 

 

 

***

 

 

 

Surpresa

 

Não fui a garota que todos esperavam
[porque a mim nada foi creditado]
— “Será igual ao pai”, diziam
[aquele que me foi(-se) tirado].
Não fui a boa menina,
mas uma paisagem caricaturada:
por fora, o avesso, a penúria, uma linguagem muda
por dentro, um cacto de selênio e violência.

(Uma poesia autoafirmativa como esta não pode valer a pena).

Uma menina, inesperada;
uma mulher, horizonte irrecuperável.

 

 

 

***

 

 

 

Endereço

 

Minha casa é uma ilha
Um mar que secou há tanto
Onde os pássaros bebem a bile dos meus sonhos.

 

 

 

***

 

 

 

Cenáculo

 

para Lílian Almeida

 

Ao pé das Oliveiras,
um alaúde queimava
e ele via as cordas.

Sob a árvore do deserto,
uma lágrima de pudor
e a fuga ao coração do incerto.

Judas, o mais amado,
sem prata, um sopro,
um engano à mercê
do medo –
do Senhor, um olho.

 

 

 

***

 

 

 

Perpétuo

 

Uma encosta
um leme de celas
que sobrevive
à interrupção do tempo.

Um salário de medos
veste a carapaça,
tigre de oito metros.

No infinito,
um relógio esquivo permanece.
Na intermitência,
o cortejo dos solos que deixaram
dos deuses que temeram.

 

 

 

***

 

 

 

Espículo

 

Onde eu estava?
Quem era quando, desavisada,
olhava de longe o percurso dos anos?

Todos sabem da morte,
e dizem dela com intimidade.

Hoje eu a topo de frente,
como um cão olha a tarde
como um pássaro que, sísmico,
pousa nas remotas asas.

 

 

 

***

 

 

 

Do abrupto

 

Molhar as plantas
Comprar sabão
Depenar as frutas
Saudar os óculos
Amarrar sapatos
Limpar os poros
Minha mãe é morta.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, agente cultural, pesquisadora e professora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e exterior. Integra coletâneas, revistas, blogs e sites. Publicou “O trem vermelho que partiu das cinzas”, “Na pata do cavalo há sete abismos” (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia; traduzido ao espanhol), “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição” e “A casa mais alta do teu coração” (Prêmio Biblioteca Digital do Paraná). É a idealizadora do “Encontro de Autoras Baianas” e do “Sarau Cartografias”.

 

 

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146ª Leva - 01/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Vitória Terra

 

Foto: Fátima Soll

 

NÁRKISSOS

 

Compacto
meu iceberg
de trevas
pesa

mão perversa
que estrangula
e cala
gestos
e intenções

vigília de cegos
paliada em véu
de altar
sou cativeiro
das respostas
engolidas

não há
sombras
lembranças de um sol posto
em mim não há
tocar meu breu
é sorver o abismo
possuir o charco

subverto
as palavras ácidas
pisando a madrugada madura
nesse lagar sem mosto
e pouco a pouco
seduzo-te ao Lago Baykal
e sem perceber desapareces
na minha água escura

 

 

 

***

 

 

 

TIME REALISE

 

Fico perplexa
ao ver a idade dos seus olhos
um menino
que escorrega
nos vincos da sua face
e quando você ri
mais bonito ele fica
e se esconde maroto
nos fios brancos
das suas barbas

ali onde a vida se revela
vulnerável
sapos coaxam
era um casal
de tucanos
você riu
do meu engano

 

 

 

***

 

 

 

ESTAÇÃO DO VALONGO

 

O trem que passa
às 2h
arrastando vagões
intermináveis
rangendo
no aço que some
em paralelo
por entre as serras
galopa como as tropas
de Quitaúna
e mais longe de mim
toca um trilo

comprido
anunciando que estou

muito só
dentro desse trem
errante
nem um mendigo
se esconde
sob o banco
nem um passageiro
curvado pela janela
se mistura na paisagem

nenhuma criança
corre aos gritos
de um corrimão a outro
ele singra
furando a noite
atravessando
minha madrugada
insone
desaparecendo
feito a fumaça
do charuto
de James Brunlees

nesses trilhos
que brilham mais
na grota
funda da infância
lembro com medo mesmo
é daqueles
dentes lunáticos
do vendedor
de coxinhas
rangendo e rindo
rangendo e rindo
rangendo e rindo

 


 

***

 

 

 

ÀS VEZES SOU

 
 ...............................................para Cecília Meireles

 

Às vezes sou céu dentro do mar
às vezes só mar na imensidão
nenhuma estrela
e o vento todo soprando em vão

houve um tempo em que meus cabelos
eram carinho nas minhas mãos
meus dias
desenhos soltos
faziam cócegas no meu pensar

hoje, avulta-se o fantasma da lembrança
passa a janela
e na terceira vigília
acordo pra sempre
do que fui

susto pulsações
busco uma despedida
um aceno
quando? pra onde?
e só o vento
só o vento soprando em vão

 

 

 

***

 

 

 

SOU TODAS AS PÁTRIAS

 

Sou todas as pátrias
as famintas e as que vomitam suas gorduras
sou a pele escura e brilhante
dos habitantes do Níger
e seus olhos vasculhando o lixo
sou a pele translúcida com veias azuis
dos que frequentam o Cassoulet Maison de Paris
e suas sobrancelhas de avelã
sou todas as almas partidas ou
ancoradas num porto qualquer
com suas mãos de aceno
com seus pés de chegada
sou as ancas ondulantes
das mulheres na calçada da Shotwell Street
e as mãos entrelaçadas na gratidão
dos milagres conferidos à retidão das súplicas
sou todas as pátrias
sou a terra arada lavrada e semeada
sou a chuva serôdia e a seca esturricante
o beijo úmido onde escorrega o desejo
e a palavra que corta sangra e o mata
sou um punhado de nadas

 

 

 

***

 

 

 

POMBA

 

Aninhada na boca do abismo
sem lona
sem porta, sem ferrolho
senhora dos quatro ventos

a mansidão do mundo
dorme nos seus olhos de semente
quando contempla a solitária crisálida
pendida sob o teto
da folha

espera imóvel
que guarda um tesouro
na aridez do penhasco
ovos de liberdade
quentes de constância e coragem

até que a luz da aurora
seja dia perfeito
e num instante etéreo
perca pra sempre
o que intrepidamente ajuntou

 

Vitória Terra nasceu em Maracajú, MS. É fundadora do Terra Franklin Advogados, especializada em filosofia do direito e em direito processual civil pela UFU, Master Business Administration pela FGV, atuando como advogada em todo o território nacional. Escritora e poeta, publicou “Não mais os falsos infinitos”, Ed. Patuá e, virtualmente, publica nas páginas Vitória Terra Poesia (Facebook), vitoria_terra_poesia (Instagram), além de revistas e jornais literários.

 

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146ª Leva - 01/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Bianca Grassi

 

Foto: Fátima Soll

 

Graças a deus

 

manhã de quarta-feira
botei teu nome na boca do sapo
e costurei com fios do teu cabelo
a fim de levar todas as desgraças do mundo
de volta pra tua cama
pra tua mesa, pro teu banho
a fim de deixar um gosto amargo na tua boca
e teus olhos secos
teus ouvidos zunindo
teus dedos formigando

acendi uma vela vermelha
que é pra tua sede durar 7 dias
tua fome ir só aumentando
a chama atrapalhar teu sono
trazer queimação pro teu estômago
fazer teu corpo suar frio

coloquei a estatueta de Jesus de cabeça pra baixo
num pote de merda de porco
junto com pedaços de unhas tuas
que é pra deus nenhum ouvir teus apelos
e milagre algum te alcançar

depois, de zombaria,
chamei padre, exorcista, freira e benzedeira
e no meio da reza
fiz um boneco de pano com tua foto 3×4
e marquei teu peito em brasa quente
com um crucifixo invertido

matei galinha, comi pipoca,
servi banquete com coração de boi
misturei sangue de virgem com cachaça
botei veneno de rato na água benta
alisei teu cabelo feito de palha
acendi um fósforo
e entre o cheiro de enxofre e de alfazema
te assisti queimar até as cinzas

fui expulsa do reino dos céus ainda criança
mas faz tempo perdi o medo do inferno
hoje o diabo sou eu
graças a deus

 

 

 

***

 

 

 

Sonho

 

sonhei que ia me mutilando aos poucos
primeiro arrancava todas as unhas
depois cortava um dedo da mão esquerda,
o menorzinho,
depois sumia com a pele dos cotovelos

arranquei a clavícula
quebrei as costelas
expus as tripas, o útero, o baço
no lugar dos seios, sangue
o coração nas mãos
depois também as mãos foram pro chão
com os braços, com o resto

desconstruí tudo que era sabido ser eu
até que enfim fiquei em pedaços
e acordei
sem pé nem cabeça

 

 

 

***

 

 

 

Brecha

 

não aprendi as coisas básicas da vida
ainda não sei dirigir
não sei nada de elétrica
não sei investir na bolsa
não lembro bem datas nem nomes da história
nem entendo muito
das coisas todas que são importantes
mas aprendi algumas coisas
talvez irrelevantes
como chorar quando alguém chora
e saber ler as pessoas muito bem
e a sentir
sentir muito, todos os sentimentos,
até os que não são meus
e entre a pilha de coisas que eu deveria ter aprendido
e a pilha de coisas que eu deveria desaprender
existe uma brecha pequena
onde eu durmo

 

 

 

***

 

 

 

Boca do estômago

 

das coisas todas que destruí
sobreviveu em mim esse sentimento na boca do estômago

têm sido dias estranhos,
o passado me visita nos detalhes do cotidiano

nunca mais ouvi uma chaleira apitando.
me sinto mal todos os dias por volta das cinco.
por que será que tenho fome mesmo de barriga cheia?

toda vez que faz frio eu tenho o mesmo pesadelo
e pelas manhãs sinto saudade
de uma versão de mim que talvez nunca existiu

 

 

 

***

 

 

 

tem uma coisa hoje que me atravessa

 

tem uma coisa hoje que me atravessa
e eu quero gritar de desespero
mas tem um bicho trancado na minha garganta
um gosto de sangue entre meus dentes
e, na língua,
uma palavra
atrasada

tem uma coisa, hoje, me comendo as entranhas
uma dor intensa no joelho direito
e eu quero chorar
mas tem um bicho pendurado na borda do meu olho esquerdo

tem uma coisa hoje que me atravessa
feito flecha, feito soco, feito poesia
uma dor
indescritível
invisível
infinita

mas tem um bicho sentado nos meus ombros
me dizendo
que é assim mesmo:

quando algo dentro da gente deixa de existir
o vazio nos atravessa

 

 

 

***

 

 

 

Sábado

 

Organizei as gavetas naquele sábado
Guardei as notas fiscais
Os poemas
As senhas
Cataloguei tudo que era importante
Aquela memória de 1998
Alguns desenhos
Chaveiros, ímãs, fotos
Joguei fora o que já não era (m)eu
Boletos pagos
Diários da adolescência
Emails impressos
Apostilas de francês (que nunca aprendi)

O que mais eu deveria deixar à vista caso morresse?
Passaportes
Certidão de nascimento
O número de telefone da minha mãe
A foto e as roupas que quero no meu velório
Meu livro não impresso semi-editado
(Seriam essas as minhas últimas palavras?)
as roupas e a coleção de Milan Kundera para doar
– sorte que não tenho muitos sapatos –

Sobrariam ainda algumas tarefas para o depois:
Alguém teria que devolver as minhas coisas no escritório
Transferir o dinheiro pouco que economizei e não usufruí
Cancelar minhas contas nos bancos
Desativar minhas redes sociais
Apagar os vestígios de mim que deixei
Sem querer
E mandar meu corpo de volta (pra onde?)

Quero que doem meus órgãos,
A pele, as córneas, tudo que sobrar de bom
– não é muito –
E que possam finalmente jogar meus pulmões no lixo
(enfim vou parar de espirrar!)

Se eu morrer nesse final de semana
Ou em qualquer outro
Mesmo que seja às sete da manhã
Já vai ser tarde

 

Bianca Grassi é uma artista contemporânea baiana que usa uma combinação dinâmica de materiais, métodos, conceitos e temas em sua arte. Formada em publicidade e propaganda com ênfase em marketing pelo IPA, em Porto Alegre/RS, é designer, ilustradora e escritora. Tem um conto publicado no livro Algumas Ficções (Editora De Leon) e poemas em revistas digitais como Mallarmargens, Literatura e Fechadura, Germina e Ser MulherArte. Desde 2016 mora em Praga, na República Tcheca.

 

 

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146ª Leva - 01/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Duda Las Casas

 

Imagem: Fátima Soll

 

Leio borra de cafés
nuvens
cartas
faço freelas
como me cansa ser otimista

 

 

 

***

 

 

 

P AR TO

 

Se dizes que não sabes se vem
ocupo seu lado da cama
com livros
espero o pai chegar
para a boa hora
tomo cuidado para não gestar algo maior
que fique difícil depois de sair
Pra eles é mais fácil parir
Como dói
uma palavra que só tem no presente
Encaro a conjunção
dou colo para o passado
escolho uma vida
para o destino
das palavras

 

 

 

***

 

 

 

Dura na queda

 

Olhar para o alto
no grito do falcão
o
aviso
para antecipar o voo
em pleno ar
ao
invés de cair
eu
poderia apenas
ter feito um poema

 

 

 

***

 

 

 

Um prato para os ancestrais

 

Respirar para o encontro
o grande encontro das forças
sobreviver
pra dançar I’ll survive
Retornar a Aushwitz
desejar ser bisavó
espalhar o dna por ai
No mapa registrar as curvas até Sintra
abrir uma Durex
dar-se conta
de que todos os espermatozoides
no fundo
desejam ser felizes

 

 

 

***

 

 

Não choro mais Julio
pelo livro que não fez sucesso
Nem pela poeta que ficou esquecida
Em Sirius
Só me preocupo em regar
Com água solarizada
Sinto forte
A dama da noite
Gero minha própria luz
monstera deliciosa
Sem hífen
virgula
Abre caminho
anti-matéria

amiga:
as alquimistas ocuparam toda a varanda
Recebo agora
um coração
revestido de selenita
comemoro o batismo
a chegada
do meu novo nome cósmico

 

 

 

***

 

 

 

Agora que o sangue desceu

 

procuro partilhar sonhos
como se estar por cima servisse
como um método contraceptivo
diagramo a mandala
o sangue passeia comigo
junto a serpente
retorno ao Rio
volto para buscar o que pensava ser nosso
visualizo a floresta brasileira
o búfalo
me agarro às orações
pouca probabilidade de ser arrastada por desejos
no primeiro dia do ciclo
não contarei mais
o tempo que leva para uma barba crescer

 

Duda Las Casas é colecionadora de imagens, oráculos e palavras. Carioca, diretora de tv e cinema, estudou jornalismo em Belo Horizonte e artes visuais no Rio de Janeiro. Duda se divide entre Brasil e Portugal, onde pesquisa a língua portuguesa na Universidade Nova de Lisboa e administra uma página de memes. “Viseira” é seu primeiro livro. 

 

 

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146ª Leva - 01/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Bruno Oggione

 

Foto: Fátima Soll

 

O SAL DOS TINTEIROS

 

atrás dessas máquinas,
nas folhas, no papel,
desenhei, iluminado à nome,
a física do mundo.

há luas, há sóis
atrás dessas máquinas.
dias sem imobilidade,
flores brancas.

atrás dessas máquinas
desabrochou a noite morta
a consumir as linhas
do dia germinado.

há palavras sujas
atrás dessas máquinas,
fixando ao sonho
extintas ideias.

atrás dessas máquinas
circulei a emoção sanguínea
de poetas fantasmáticos,
monstruosos, aquáticos.

atrás dessas máquinas…
bichos mais densos
lutam. sou lápis (e carvão),
dentro do branco pouso,
pouso salgados gestos,
pouso o sal dos tinteiros.

 

 

 

***

 

 

 

a passagem das tardes
deita
no vazio da hora

pouso solene
brilho
de uma ardência concentrada

nudez
vista
numa mesa
antiga

no espelho aceso
navego ao silêncio súbito

 

 

 

***

 

 

 

PALAVRA

 

a nudez.
a nudez no tempo.
o rugido tão vulcânico como a nudez.

arremessávamos
fetos,
cruzamos a cratera, procriamos
a cópia que renascia do milagre:
palavra.

palavra – uma cópia do silêncio
o rugido no rugido
iça
anti-seres.

vaidade.
a lua de mar a mar
se afoga.

uma cópia ainda, assim, e as imagens
flutuam no tempo primordial.

 

 

 

***

 

 

 

entre o mapa indecifrável e inabitável
um homem surdo navega.
tateia uma zona nebulosa
feita de tremor e de silêncio…

o seu frescor ardente espaça
atrás de si os astros e os palmares.
este o ilumina, este outro o escreve…
visível a tais surgimentos,

brilhosa a costa em clamor inavegável,
sabiamente ele navega.
tateia uma zona nebulosa,
feita de tremor e de silêncio…

 

 

 

***

 

 

 

A ESPADA

 

os esquecidos vibram no regresso dos enigmas
abertamente.
e eu naveguei do meu espelho
os segredos mais milenares.
o meu sono movimenta meu corpo
em todas as noites que voguei.

dentro da sombra
no fio ácido do rosto
finjo-me marinheiro.
dos olhos das lendas
surge o rumor das águas,
incertas como um sêmen de inseto.
sei que depois quando me erguer
escutarei a espada da insônia
abrir salgada a crônica das medusas.

 

 

 

***

 

 

 

O DOM DO SILÊNCIO

 

o silêncio termina
onde o silêncio começa:
à margem do paraíso
uma súbita brisa de velas
comanda naus

e contudo o silêncio termina
e o sorriso grisalho
se curva sobre
a flâmula luciferina –
no horizonte onde o silêncio começa

coração de ideias: o silêncio termina
mansa tela cancerígena
exigindo as cores da arte –
no horizonte onde o silêncio começa

branca praia e mar albino
laborando ideias –
no silêncio onde o horizonte começa

 

 

 

***

 

 

 

O CÁ FORA E O LÁ DENTRO

 

a liberdade emerge no jogo silencioso sonhado pela alma
e transparece perigoso no fundo surdo do mar.
entre o cá fora e o lá dentro, no dia liso que os sufoca,
súbitos desastres cantam.

 

Bruno Oggione nasceu em 1990 na cidade do Rio de Janeiro. É graduado em Letras (UERJ), mestre em Literatura Portuguesa (UERJ) e doutorando em Literatura Portuguesa (UERJ). Autor dos livros “Mãos de Ninguém” (pequenas astúcias) (Editora Morandi) e “Velas Pandas, andas… – Ode Marítima e Os Lusíadas” (Folio Digital, no prelo). Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens e Aboio.

 

 

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146ª Leva - 01/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Jorge Elias Neto

 

Foto: Fátima Soll

 

MANUAL PARA O ALZHEIMER DE DEUS

 

Relembrar,
saber-se Ele.

Ao rés do espetáculo,
no átrio do templo,
tricotar o Verbo,
tirar as cartas,
recostar-se no tabernáculo
e arriscar um jogo da velha.

 

 

 

***

 

 

 

MANUAL PARA ACENDER A GRELHA

 

Nas gretas
recostam-se as cinzas
deixadas a recordar
querelas e tragédias
de um calendário
sem trégua.

A chama,
filha do sopro,
do risco alquímico
a enveredar calor
nos recortes dos fósseis
dos troncos tombados.

Da brasa
exige-se o atropelo
das lástimas
e um devaneio divino.

Resta à carne
o arder anônimo,
o suor da salmoura
e o resgate ao útero do Mundo.

 

 

 

***

 

 

 

MANUAL PARA FAZER BOLA DE GOMA DE MASCAR

 

A goma é urbana
̶ ruminância humana.

 

Observar
os preceitos do bom uso
dos dentes,
da forma de mascar,
de sorver a abundância
da saliva,
remoer na mandíbula
e repousar sobre a língua.

(Dissimulada leveza
do Ser de vícios.)

Artificialidade do gosto
̶ subterfúgio ̶
do que é falso
e não mascavo,
borracha
e não morango.

Remexer, revirar,
mastigar o que não é hóstia,
aguardar o porvir do nada,
do sem gosto,
da palidez real
da hipocrisia.

Contorcer sobre as papilas
a massa amorfa ̶
corrompê-la.
Pressionando no céu
da boca
o que não é estrela.

Espalhar a massa,
fazê-la translúcida.

(Apropriar-se da sacrossanta trindade
x̶xx – palato, dentes e língua.)

Cingir os lábios,
usar do fole,
de soprar velas,
dar suspiros.

Trazer do tórax
o ar quente
por estreitos caminhos
x̶xx – forjar destinos.

Dissecar a lâmina,
arremeter em fuga
o balão menino.

Expandir
a liberdade,
testemunhar o baque,
o estouro,
a impossibilidade do voo.

Sentir tombar sobre a boca
os restos, as sobras,
o restolho do sopro
x̶xx – a felicidade.

 

 

 

***

 

 

 

MANUAL PARA PERMANECER INCÓGNITO

 

Um modo de ser perdido:
o extenso do nome descartado.

(Toda escolha é um pacto
de sangue.)

A marca d’água derramada
̶ comunhão do ébrio.

A certeza da régua
é um esboço sem cópia.

 

 

 

***

 

 

 

MANUAL PARA DESPERTAR

 

Guardar os corpos na memória,
desfazer a ilusão
de que se constrói sobre flores,
pois são mártires
e escombros, e fuzis,
e ferozes trombetas do infortúnio,
e um sentimento
de tentar entender o tempo.

 

 

 

***

 

 

 

MANUAL DO SER DIVINO

 

O mais das vezes
este excesso,

esta fartura,
x̶xx – entusiasmo de merda ̶

esta ruína,
deslumbramento,

suspensório
para não arrear o escroto

ser de vidro
na fogueira do Inferno.

 

 

 

***

 

 

 

MANUAL DO SANTO AMPARO

 

Apoio a cabeça
em mão que não é minha.

Ela me batiza,
me passa a unha,

acaricia,
desmancha o cabelo,

me põe medo
tampando os olhos,

empurra o nariz
contra a porta,

me sufoca
com o travesseiro,

encosta a guimba do cigarro,
me intimida,

espeta achas,
apazigua as rugas dos anos,

sustendo erguida
a face tombada

e espalha em meus lábios
o sabor das batalhas.

 

Jorge Elias Neto é de Vitória, Espírito Santo (1964-), Médico, Poeta e pesquisador. É membro da AEL. Publicou “Verdes versos” (2007), “Rascunhos do absurdo” (2010), “Os ossos da baleia” (2013), “Glacial” (2014), “Breve dicionário (poético) do boxe” (2015), “Glacial” (2016), “Breviário dos olhos” (2017), “Ornitorrinco do pau Oco” (2018), “Sonetos em Crise” (2020) e “Manual para Estilhaçar Vidraças” (2021).