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145ª Leva - 05/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

DIZERES ALEGRES

 Por Sandro Ornellas

 

 

Pulsares é o segundo livro de Lílian Almeida, primeiro em versos, pois o anterior, Todas as cartas de amor, foi uma ficção poética. Publicado em 2019 pela Caramurê, divide-se em três partes: “Pulsares”, “Siderações” e “Eclipses”. São poemas curtos, à maneira de pequenos quadros carregados de lirismo e de certa forma organizados tematicamente em cada uma das partes. Cada uma delas parece desenhar uma mitologia específica da poeta, embora também possuam traços em comum na brevidade, nos versos curtos, no ritmo das imagens, sempre tendendo à construção de uma cosmologia poética muito pessoal, mas ao mesmo tempo inteligível pelo leitor.

Na primeira parte, a maior delas e homônima ao livro – ou seja, de alguma maneira a que orienta as demais ao longo da leitura – é onde percebemos alguns dos elementos mais característicos do lirismo de Lílian nesse livro: uma busca por associar, pelas palavras, o sujeito a elementos da natureza. Não que aquele seja constituído por estes, mas que ambos são aproximados como semelhança em suas constituições, como em “A imensidão das folhas / é silêncio de palavras”.

Mas a presença da natureza na poesia de Lílian não se limita a elementos do ambiente. Sua subjetivação se dá pari-passu a certos rimos e processos naturais, como no poema que abre o livro, “Crisálida”: “Grávida do ser que me habita / vou parir a mim mesma. / Outra. // Quando a lua anunciar negruras / já serei o que sou. // […]”; ou em “Fiat lux”: “A vida é o acender / e o apagar / da luz”; ou ainda em “Tuaregue”: “Tempestade de areia / açoita a alma / em desafio. // O sentido de seguir / inalienável / à revelia de qualquer intempérie. // Viver é deserto”.

Essa cosmologia se aterrará na segunda parte do livro “Siderações”. Antes, no entanto, quero ainda me deter nos dois últimos poemas de “Pulsares”, intitulados “Contemplação do infinito I e II”, nos quais percebemos um pouco da técnica de composição de Lílian. No primeiro, vemos três breves fragmentos se sucedendo e montando quadros que não se seguem ao modo de uma narrativa, mas se sobrepõem ao modo de fotografias em discreto diálogo, tanto que poderiam funcionar independentes, uma estrofe da outra, quanto em conjunto: “Fugaz passar de nuvens / em coração de menino. // Olhar pousado / em passado presente / de tanto chorar. // O azul derrama memórias / guardadas / no peito do céu”. Mas mesmo não construindo narrativas, a poesia de Lílian formula o que posso chamar de imagens em movimento, como na primeira estrofe do segundo poema da série, onde lemos: “Levita na tarde / um coração azul / mas rubro”, lembrando-nos que poesia é precisamente esse uso mágico da linguagem – “um coração azul / mas rubro” – fazendo um coração mudar de cor bem diante dos nossos olhos.

Disse acima que a cosmologia da primeira parte se aterraria na segunda, “Siderações”. Pois é quando “a memória / das estrelas”, do poema que abre a segunda parte se transforma no primeiro verso do poema seguinte “Saudade”: “há um cheiro de saudade nesta casa”. Da memória para a saudade, das estrelas para a casa, a ancestralidade ausente se faz presente no “chão”, “no varal”, “nas roupas”, nas “mãos da mulher”, “na cidade alba”, “na rua marechal mallet”, nos “pneus dos automóveis”. Afinal, toda ancestralidade, bem como toda poesia que se preze, é sempre o instante da “Presença”: “Os meus passados / passam-me / de trás para frente / em busca de futuros / cheios de agora.”

Mas não é só isso em “Siderações”, pois um poema como “Capoeira” ratifica o que disse anteriormente sobre os quadros montados pelos versos de Lílian: “O golpe girou no ar. // Açoite nas pernas / – velocidade e precisão. / Dorso no chão, / pés no alto: / rendição”. Quase homônimo de “o capoeira”, de Oswald de Andrade, a “Capoeira” de Lílian Almeida possui em seus três últimos versos a mesma imagem em movimento do poema oswaldiano no verso derradeiro. Tanto o último de Oswald (“pernas e cabeças na calçada”), quanto os últimos de Lílian (“Dorso no chão, / pés no alto: / rendição”) não possuem qualquer verbo, malgrado imporem ao olhar do leitor uma forte impressão de movimento dos substantivos que os compõem.

Agora a terceira parte do livro, “Eclipse”, é claramente a seção erótica do poema, lembrando-me em alguns momentos a poesia da angolana Paula Tavares na conjunção erótica entre elementos naturais e o corpo feminino: “Concha aberta / engole mar proeminente. // Pérolas líquidas cintilam / mistérios gozosos / ao entardecer”. Mas o erotismo da poesia de Lílian é muito mais intenso do que o de Paula, com “Explosão de mares / em pernas fendidas / fundadas / no espesso amor / sobre os lençóis.” O que se tem aí é uma poesia erótica, e por isso, transgressora de leis morais que historicamente ligam o corpo da mulher a um território controlado pela sociedade patriarcal. Lílian Almeida toma posse do seu corpo e das palavras para dizê-lo sem esses interditos, como em “Aurora”: “floriu vermelho / meu sexo / na tua boca / de vontades azuis”. Ao romper os limites do interdito, Lílian faz da sua palavra poética instrumento para ditos alegres.

Não importando o assunto de um poema, todo bom poema é sempre feito de dizeres alegres, pois rompe com a mera função de comunicar o que quer que seja e vai ao cerne da palavra tirar dela o que há de mais vivo e mais comum, não o comum da comunicação, mas o uso comum da linguagem, aquele absolutamente livre de um sentido único, uma reta, um único uso. O uso comum é um uso qualquer. É justo aí que percebo a alegria da poesia de Lílian: pequenas frases, versos, estrofes e poemas que são como potências indicadoras de caminhos luminosos, como diz seu próprio título Pulsares.

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.

 

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145ª Leva - 05/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Gabrielle Dal Molin

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

RUAS DA MEMÓRIA

 

silencio os estilhaços
das pequenas tragédias
semeando delícias
todos os dias
os homens criam apocalipses
enquanto procuro os parques da minha infância

 

 

 

***

 

 

 

CARNAVAL NO ABISMO

 

arisco feitiço

nosso tempo é desse silêncio
forte
feito o mar sem grito

é menor do que eu penso

arrisco chamar de amor
um carnaval nesse abismo

 

 

 

***

 

 

 

AMARGO

 

Alcançar a tristeza dos dias
Puxar a tristeza dos dias como um cobertor
Para cobrir o corpo talvez cansado
De estar exposto à alegria sem motivo
E a esse calor constante
É possível ser triste perto do Equador
É até comum
Embora finjam que o Carnaval nos livre
A liberdade e a tristeza se amam
É preciso se dar o direito de chorar
Muitos vivem presos na felicidade
Aquele riso colado entre os dentes
Colocar no café
a tristeza ao invés do açúcar
O amargo liberta a língua
de ter que ser feliz sempre

 

 

 

***

 

 

 

OS PÉS NA TERRA

 

minha avó anda firme com os pés na terra
na beira do rio
no silêncio do coração da mata
no peito que bate na mangueira
que abriga o espírito de uma grande mulher
ela se lembra
que seu pai rezava os bichos picados de cobra
e que ele salvou seu cachorro
meu bisavô que não sei o nome
tem minha bênção onde quer que esteja
minha tia que é mãe e avó e mãe duas vezes
lembra que meu avô
seu pai
lhe deu os nomes das árvores
quando pergunto ela me dá
o nome da candeia e da quaresminha
diz que vai lembrar o da flor amarela que agora não
consegue
confirma com sua mãe
minha avó
que seu pai sabia das plantas porque era reiseiro
minha avó
filha de rezador e mulher de rei
em suas veias
que hoje parecem coladas por cima da pele
já passaram folhas
filhos
vida e morte
seu cachorro ofendido pela cobra
por sorte foi salvo
e em meio a tantas outras
ela também não foi ofendida
mas perdoaria se fosse

 

 

 

***

 

 

 

ENTRE TUAS ÁGUAS

 

esse mar de navegar no escuro
é língua
sobre terra firme

 

 

 

***

 

 

 

MÃOS DE MÃE

 

entre as selvagens passagens do tempo
tenho notado que minhas mãos
estão ficando iguais às da minha mãe
as veias saltadas
herdadas da minha vó
os dedos grossos
tortuosos como caules do cerrado
as unhas maciças feito ardósia
— gatázios prontos para a vida —
entre os cabelos brancos das marias
tenho notado que minhas mães
de dentro e fora da matéria
têm os pés da cor da terra

 

Gabrielle Dal Molin nasceu em 1987, em São Paulo. Viveu no interior deste estado até se mudar para o Rio Grande do Norte. É professora de História, mestre em Antropologia e doula. Além de poemas, escreve sobre as vivências de ser mãe, bissexual e não monogâmica. Seu primeiro livro de poesia, “Seiva” (Ed. Multifoco) foi publicado em 2017 e o segundo, “Carnaval no Abismo”, acaba de ser publicado pela Munganga Edicões, contemplado pela Lei Aldir Blanc, através da Fundação José Augusto, do Governo do RN. 

 

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145ª Leva - 05/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

 

Sílvia Barros

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

Sentir fúria, banzo
Certeza e espanto
Meus direitos inviolavelmente
Humanos.

 

 

 

***

 

 

 

Embora fraca
Sigo firme
Embora feia
Sigo bela
Embora viva
Sigo morrendo
Todo os dias pelos corpos
Que desabam

Embora seja infinito o céu
………..Sigo sendo
………..Apenas
………..Uma
.Nuvem

 

 

 

***

 

 

 

Não é porque há guerra
— e porque me juntei à falange –
Que não possa desejar
Um minuto de paz.

 

 

 

***

 

 

 

Se a vida não é
Uma guerra
Ou uma eterna escavação
Nas entranhas
De uma história
Que começou
Nem sei quando.
Então estou
Depositando cada miligrama
De energia
Numa ideia completamente errada
Do que seja a existência.

Continuar
(trabalhando, dormindo, sonhando)
Como se tudo tivesse acontecido.
Não me preocupo
Se vai passar ou não
– passar é rastro incontornável do tempo –
Quero saber quem vai ficar
E como fazer
Uma vida de novo.

 

 

 

***

 

 

 

Mulheres que se deitam
Com os gatos.

Às vezes com livros nas mãos
Noutras com olhos cansados
E corpos paralisados de futuro.

….Os lobos que se virem.

 

 

 

***

 

 

 

Voltar para o corpo
Quando uma mulher tem filhos
Voltar para o corpo
Quando a alma se desloca e voa
Voltar para o corpo
Quando a mente desassocia
Voltar para o corpo
Depois que engorda
Voltar para o corpo
Quando nunca deveria ter partido.

 

Nasci em Natal, RN, mas cresci e vivo na cidade de Niterói, RJ. Sou professora por formação e escritora por nascimento. Atuo na educação básica e na pós-graduação. Sou doutora em literatura brasileira pela UFRJ, tenho três publicações individuais: “O belo trágico na literatura brasileira contemporânea” (ensaio), “Em tempos de guerra” (poesia) e “Poemas para meu corpo nu” (poesia). Tenho também participação em diversas antologias como Cadernos Negros volumes 41 e 42 e Negras Crônicas. Escrevo quinzenalmente a coluna Travessia, para a revista Ruído Manifesto.

 

 

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Janela Poética V

Jéssica Iancoski

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

IDEOLOGIA MACARRÃO

 

Para Matheus Guménin Barreto

 

pode até ter
de sêmola
mas
o brasileiro
pai de família
come

renata com ovos
isabela com ovos
adira com ovos
vilma com ovos
barilla com ovos
até dona benta
com ovos

mas fala
sempre que
prefere
espaguete
à penne
grano duro

o importante
mesmo é não
conter gordura
trans
 

 

***

 

 

 

SUPLEMENTAÇÃO DE VITAMINAS

 

Para Nicola Otávio

 

nos sábados
e nos domingos
o frasco fala
“para homens!”
nas segundas,
nas terças e nas quartas,
a cartela convaqueia
“para mulheres!”
nas quintas e nas sextas
completo com meia
cápsula de cada

a vitamina de homem influencia
nos músculos e na energia
a vitamina de mulher influi
nas unhas e na pele macia

para o espanto de todos,
não só dos farmacêuticos,
das farmacêuticas e
também des farmaceltiques
nenhuma delas me deixa
mais ou menos homem mais
ou menos mulher mais ou menos
anarco viado comunista
trans sapatona convicta.

 

 

 

***

 

 

 

ERVILHA VERMELHA

 

Para Belise Campos

 

Ontem me perguntaram se eu era uma menina
E eu não soube responder
Esse inferno de pergunta.

Não porque eu não seja mulher,
É que às vezes eu sou tanta coisa:

Uma garota,
Uma amante
Uma gota,
Um semblante,
Um inverno
Um menino,
Um pingo
E um girino,

Um giro de roda
No vento leste que sopra
No ponto final de cada esquina.

Uma menina é pouca coisa
Pra me definir
Quando eu sou tantas outras
Entre cada ervilha vermelha
Do interno do punho em meu ventre.

 

 

 

***

 

 

 

BREJO

 

quando o bico
dos dedos roçam
o corpo
tocam
ainda que viva
a pele morta

o corpo o corpo o
corpo é corpo é
corpo é o carpo
dos dedos apertados
no próprio punho

pulsa pulsão
pulsa pulsão
pulsa pulsão

quando a água
era límpida
carpos foram girinos
e turva é a visão
que entorta dentro
do corpo alguém

que não é sapo
nem sapa
ta sapatilha
samba canção
qualquer coisa
que só cabe
dentro d’
xxxxxxxxxx
xxxxxxxxxxxx
………………..um
…………___ não___

 

 

 

***

 

 

 

COUT <<NAME<< “\N’;

 

isso de binarismo
deixa pras
máquinas

somos seres
de membrana
plasmática

c.in c.out
permeabilidade
seletiva

seja célula
seja mais
e não C++

 

Jéssica Iancoski é pessoa não-binária, escritora, poeta e artista plástica. Publicou em várias antologias e revistas, nacionais (Mallarmargens, Ruído Manifesto, Acrobata, etc) e internacionais. É idealizadora do Toma Aí Um Poema – o maior podcast lusófono de declamação de poesias, segundo o Spotify – com mais de 44 mil ouvintes diferentes, ao longo do tempo e, também, revista literária digital. Nasceu em Curitiba em 10 de Fevereiro de 1996. É formada em Letras pela Universidade Federal do Paraná e em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

 

 

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145ª Leva - 05/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Roberta Tostes Daniel

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

Naquela costa
as nuvens migram
para a espiritualidade
os cavalos as feras
seres deste mundo
conectados a uma
estranha palavra
o invisível também
é natureza
a linguagem cobre
o corpo
nossa energia
o que sai de nós
linguagem
como uma espécie
de aura
diz que somos excessivos
processamos
a língua materna
ela quer nos preencher
daquela paisagem
ou acontecimento
– um poema
deveria ser escrito
em um idioma indomável
para assim se tornar
poesia novamente.

 

 

 

***

 

 

 

Yosef

 

ele que voltava ao continente
ou que tinha por país sua fuga
o coração incerto como a fronteira

nome na deriva do rio, moldava
o que era rio e o que era abismo
carne não bem situada

o coração costurado nas trevas
este lugar mais silencioso
que o canhão antes do tiro.

 

 

 

***

 

 

 

“É-me o corpo todo”

 

à Leonardo Fróes

 

teso, mudo, vegetal
ao modo de montanha
e octogésima pedra

onde fundações flutuam
insinuado monge, alpinista
artífice das raízes e itinerário das matas

o que pode sem a selvagem justificação de deus?
abarcar-se no corpo-cordilheira do poema

 

 

 

***

 

 

 

Hórus

 

um olho que emite sua fratura
encarnada e múltipla – um escuro
que atravessa a luz do verão
um olho que é o aceso o outro
que versa sobre o fim
um olho-oráculo fendido na distância
pela certeza pelo furo
na pintura o olho é posicionado
francamente como em prisma
só a ausência de simetria importa
o desequilíbrio, o desfazimento que penetra
na costura dos órgãos
na luz vibrante
na sua sonegação

 

 

 

***

 

 

 

o que pode o corpo contra a montanha dispersa?

quantas vezes deliberarei o corpo
nestas paisagens tropicais?

me antecipei em achar minha feminilidade
mas no fim fui ao altar das conchas
e não mais saí de lá

sou a ostra aguerrida contra o céu gigante
constituindo sua periculosidade em pérola

e o sexo, embora um mero acaso
é também uma ética

com que nos comunicamos
nos semeamos, nos esgotamos.

 

 

 

***

 

 

 

Aos pés da cotovia

 

um pensamento é puro magnetismo
tem sal nos caninos

eu escuto o passo aproximado
de uma cotovia
é um som de errância gaulesa
e é à prova de som

chegar à casa desses pensamentos
apossada do escuro magnetismo

mensurar a visibilidade
desses espaçamentos

me sentir real
um desejo de ser real
de ser cada vez mais real

aos pés da cotovia
nas ferrovias, montanhas
no meu país interno
e no reino inventado do brasil

 

Roberta Tostes Daniel, poeta carioca, nascida em 1981. Publicou “Uma casa perto de um vulcão” (Patuá, 2018) e “Ainda ancora o infinito” (Moinhos, 2019). Possui participações em várias revistas literárias, no meio impresso e digital. Propõe imagens e acasos lá no @robertatostesdaniel (instagram).

 

 

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145ª Leva - 05/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Constança Guimarães

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

minha mãe me contou
meu avô guardava
os palitos
de fósforo
queimados
na caixa

talvez a gente lavasse a louça depois
de um almoço em família quando
ela me disse entre
outras memórias
guardo sempre comigo uma caixa
riscada que nunca
fica vazia

 

 

 

***

 

 

 

quero

que me largue de uma
vez de repente………….me abandone

o pensamento os cabelos
num rabo
de cavalo alto………….o diafragma
que soluça………………quero um vento
………………………………………………….forte
norte

note
eu quero ir como uma onça

 

 

 

***

 

 

 

sabe
quando
nada muda
hoje de manhã
teve café
depois
à noite
sopa
o ano que vem
também

teve pernilongos no verão

 

 

 

***

 


para Angélica

 

o sismógrafo ficava sobre a mesa
da sala
no jantar
fora um presente
media a mulher espasmos estouros
a louca
o sismógrafo não media
abalos
abaixo da superfície
onde havia
a mulher inteira à força não media os destroços ela não tinha tempo

 

 

 

***

 

 

 

a náusea
de repente dona
até das minhas costas
envergadas
fecho os punhos aprendi
espanto
o fluxo e seguro
o reflexo
com força dentro
de mim com as mãos
quero expulsar
secar as vísceras o que mora lá dentro
o passado me incha

quando não há meio-termo
não há negócio
arma apontada
pra mim
na mesa posta vazia sem espinhas
quando sento na beirada
escuto a minha voz adulta
que fala alto
gesticula
inventa
com a garrafa de vinho
esvazio
combinações felizes impossíveis
na manhã seguinte
quando reconto com os olhos as taças sujas
e lavo uma por uma no banho
vergada fechei com força os punhos o vidro caiu no chão cortei meus pés sob água represada pelo ralo entupido

 

 

 

***

 

 

 

o que te preocupa?
além da cor negra do céu
estamos em alto mar
você não vê
aqui está muito frio
como as últimas vezes que saímos
fomos àquela festa bebemos muito
decidimos nos casar temos uma casa e viajamos
estamos no caminho de volta

não sabemos para onde
na casa não cabem mais dois quando te digo
seremos três
você deseja a onda imensa vencendo o navio que por fim é soberano
não morremos
seguimos
não sabemos para onde

eu só no navio via o mar aberto meu pulso duplicado

agora soube
o que te preocupa
o que te move ao revés

sabemos
está o caos instalado instalada a noz selada em mim eu a desejo
abandonada por você que me diz
o futuro será sem cais
plataforma ou estrado
decida
você me diz bruto.

minha palavra
final
te preocupa

 

Escritora mineira e jornalista, Constança Guimarães é autora de “Como se fosse possível medir o tamanho do escuro”, (Urutau, 2020), “Ombros caídos olhando pro Inferno” (Urutau, 2017) e “A sereia da contorno e outras histórias” (Leme, 2017). Tem poemas e contos em revistas como a Acrobata, Gueto (especiais Utopia/Distopia e Crianças em Guerra), Ruído Manifesto, Mirada, Germina, Laudelinas e Torquato, entre outras, e participa da antologia “Nao há nada mais parecido a um facista que um burguês assustado”, editora Hecatombe/2020.

 

 

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144ª Leva - 04/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Rafael Nolli

 

Foto: Lu Brito

 

Obituário
(ano da peste, 3 de abril de dois mil e vinte e um)

 

1
Em algum momento
(o nome certo é passado)
Reclamávamos das correntes infindáveis
Das mensagens – tão automáticas – de bom dia
Ignorávamos, dávamos deslike
Protestávamos com efusivos textões
(os tempos eram outros
havia tempo para isso)

Em algum momento
(o nome certo é passado)
Reclamávamos das fotos bonitinhas
– de peixes, de pássaros, de flores, de jardins –
Emolduradas com frases bíblicas
Ou enfeitadas com poemas de péssima qualidade
(os tempos eram outros
havia tempo para isso)

Hoje – não há como chamar de presente –
As fotos postadas vão mudando de cor
(um inverno terrível se alastrando)
As imagens coloridas – antiga regra –
Vão dando lugar a outras tonalidades

Os registros sorridentes – nas fotos de perfil –
Sendo trocadas pela bandeira negra da dor
E só a palavra LUTO prospera entre as postagens

 

2
“o sofrimento maior
na maioria dos casos
é não poder fazer nada”
– alguém postou hoje, de manhã

E tudo que nos cerca
– em qualquer uma das redes sociais –
É um imenso obituário

 

3
Riscar a palavra futuro dos dicionários
Como se apaga uma ilha do mapa
(a bomba derradeira, armada ali
em uma de suas mais belas praias)

O que se divisa no horizonte
– daqui de onde falo
até onde a vista alcança –
Tem o cheiro sombrio da morte

E os maus ventos
– que nunca foram tantos –
Não se furtam em propagá-lo

 

4
Não há casa que ela não tenha sondado
Não há família em que ela não tenha rondado
Não há perfil em que ela não tenha visitado
(mesmo que distante, só de passagem)

Incansável a sua mão, incansável a sua pena
Infinitas as florestas (sombrias) de onde vem o seu papel
Infinitas as usinas (sombrias) de onde vem a sua tinta
Infinitas as fábricas (sombrias) de onde vem os seus livros

Que as pessoas – memento mori –
Que tiveram o nome escrito nessas páginas
Descansem em paz

 

5
Os aliados da morte
Sorrindo, enchem os pulmões de ar
E cada uma de suas palavras
É uma nova vala que se escava

Os entusiastas da peste
Sorrindo, enchem os pulmões de ar
E cada uma de suas palavras
É uma nova vala que se escava

Os capitães do mato do caos
Sorrindo, enchem os pulmões de ar
E cada uma de suas palavras
É uma nova vala que se escava

(dizer que falam, obviamente
É um erro crasso, um exagero:
Urram, mugem, guincham, relincham)

E cada uma de suas palavras
É uma nova vala que se escava

 

6
Có có có corvos grasnam
(os aliados da morte)
E cada grasnar có có có corvos
É uma nova cova que se abre

Có có có corvos grasnam
(os entusiastas da peste)
E cada grasnar có có có corvos
É uma nova cova que se abre

Có có có corvos grasnam
(os capitães do mato da morte)
E cada grasnar có có có corvos
É uma nova cova que se abre

 

7
À sombra circular dos abutres
Descansam, exaustos, os coveiros

 

Rafael Nolli é natural de Araxá, MG. Professor, formado em Letras e Geografia. Publicou livros de prosa e poesia, com destaque para “Isca” (poemas, lançado em 2020) e “Gertrude Sabe Tudo” (obra infanto-juvenil de 2016).

 

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144ª Leva - 04/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Rafael de Oliveira Fernandes

 

Foto: Lu Brito

 

As horas

 

Uma trilha de formigas
sobe a parede
parecendo um ponteiro.
Sai de trás de um relógio
e cada uma
parece um segundo
em direção ao poço do prédio
onde só há o esquecimento.
Vão fugindo tão devagar
que é possível fechar a janela
para que o tempo
não escape do quarto
Para que as formigas deem voltas
e mais voltas ao redor da gente
como se o tempo parasse.
Ou para que retornem ao relógio
como se o tempo retrocedesse.
Voltasse ao ponto
em que instantes antes
uma formiga andava pelo chão
e você, numa cena linda
com um copo de plástico
retirou-a dali
colocando-a nas plantas
para que aquele pequeno segundo
jamais
se perdesse

 

 

 

***

 

 

 

Cena

 

Ver você através da janela
como se os limpadores de para-brisa
fossem os pincéis numa cena
que vai virando passado
à medida em que o ônibus
se aproxima.
Como uma pintura que vemos na sala
e imaginamos apenas
os movimentos do pincel
atrás das cores.
Ou uma música em que imaginamos
o que fazíamos e onde estávamos
ao ouvi-la da primeira vez.
Como se no ônibus eu estivesse
com fones de ouvido
e assim que chegasse,
a cena do encontro já estivesse
em um dos seus desenhos.
E tudo que parecia acontecer
pela primeira vez
os sons, as cores, as lembranças que teria
quando chegasse
fosse algo que eu apenas recordasse
pois você já teria me mostrado
no caminho
há muito tempo

 

 

 

***

 

 

 

Viagem dentro de um quadro

 

Ela olhava pra fora
do carro como se houvesse uma pintura
que ia se fazendo aos poucos.
Então passava os dedos no vidro
como se fosse ela
que pintasse a paisagem.
Primeiro pintava as árvores, contornando-as,
ou as rosas, cujas pétalas
pareciam sair da tintura vermelha das unhas,
e um lago aparecia conforme a respiração
embaçava o vidro e ela murmurava o barulho das águas.
Depois, era a paisagem que entrava pelo vidro aberto,
na luz que coloria a pele,
no vento que trazia os cheiros das flores
e desenhava seus cabelos
como se fosse ela que estivesse dentro do quadro.
Ela parecia dormir encostada no vidro,
sonhar com a paisagem
que aos poucos se formava.
Por isso, ao atravessar um longo túnel,
a lua aparecia como um olho brilhante que investigava
tudo. E quando uma montanha na forma de
menina enrolava toda a pintura,
parecia ser ela se preparando para dormir
do outro
lado

 

 

 

***

 

 

 

Caixa de sapatos

 

Ela guardava suas fotos
numa velha caixa de sapatos.
Mas o olhar que a câmera
capturava era o olhar que
eu via todos os dias.
Aquela doçura já lhe servia
quando criança.
E as olheiras lhe serviam
à medida em que o corpo crescia.
O olhar mais lindo que eu
vi era como uma roupa
que sempre a acompanhava
e através dele eu podia imaginá-la
ao meu lado mas também
no corpo de antigamente e nos vestidos
que usava naqueles dias.
Era como um tênis
cujo número nunca mudava.
Que ela guardava numa caixa
como se aquele tênis fosse também
uma espécie de fotografia

 

Rafael de Oliveira Fernandes nasceu em São Paulo, em 1981, é autor dos livros de poesia ”Menino no Telhado” e “Cadernos de Espiral” (ed. 7letras), e dos romances “Vista Parcial do Tejo” e “Baseado em Fantasmas Reais” (ed. Patuá).

 

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144ª Leva - 04/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Milena Martins Moura

 

Foto: Lu Brito

 

milena esconda essas vergonhas
limpe dos olhos dos pios a presença na casa

escórias
o sujo

paredes molhadas
de cheiro vivo

guarde no armário a presença na casa milena
guarde nas gavetas
debaixo das roupas proibidas
que roçam na umidade

sobras à beira do canal
dobras
na ponta dos dedos

é suja a presença na casa

a terra sob os peitos qual serpente
e outros castigos pelos feitos de eva

maçã vermelho-sangue salivando gênesis

 

 

 

***

 

 

 

terra sob as unhas,
sob as solas,
sob o ventre.
eu rastejo.
e o frescor do solo
contra a pele
conhece apenas
quem tem a minha sede.
tantos milhões de anos dedicados
a levantar a criatura humana
em duas pernas
e eu prefiro ver o mundo
desde o chão,
de fora, de frente.
contrariando o igual dos dias.
aqui, desse lado da lida,
todo e cada corpo
é um querubim rebelado
ainda acometido
pela dor da queda.
aprendendo passos senoidais.
aqui, desse lado da lida,
os ciclos se fecham
qual mandíbula nas caudas.
passamos bem, provando o proibido,
que não é tão saboroso quanto pregam uns
tampouco põe as malas na porta.
passamos bem, mas nos botaram
a cabeça a prêmio
num livro famoso
e agora estão querendo nos queimar.
não se vê piedade
para as que preferiram
abandonar pelo caminho
braço e pena,
rito sagrado e doutrina
em nome de um ângulo primevo
que nenhum ser
jamais verá
na vertical.

 

 

 

***

 

 

 

tenho uma dobra vermelha na pele do rosto
como um corte

entranha

……..você viu

a marca vermelha da cama no meu corpo
branco
onde dói o sol

……..você viu
os meus sinais em coleção
imitando a pose ereta de órion

ombro em rigel pé em betelgeuse

as partes proibidas à mostra
faz calor
e eu tenho sede

todos os tabus desnudados

……..constelações

e eu ariadne corpo celeste
vindo jantar nos escombros

as pontas dos seus dedos mastigando os meus contornos

entranha

todos os lábios
mordendo
a fraqueza da carne

 

 

 

***

 

 

 

suas mãos em expectativa
vinham me manter acordada
era hora do sol
…….isso tem que ser visto
o primeiro é o raio das promessas
que se fazem por medo
o segundo é o raio das mentiras
que se contam por amor
os que vêm depois são para aquecer a culpa nos ossos
…….isso tem que ser visto
a manhã é a hora de uma verdade
que não desce com água
nem harmoniza com vinho
hora do lugar da língua que ocupa o sabor do erro
salgado demais para o sangue]
…….em gota
…….em gota
vem ver
já vai nascer
vamos ter certezas
e as janelas ainda mostravam a cidade alagada

 

 

 

***

 

 

 

o reles ato
de atar
os cadarços
……..o inacabado
e a boca continua aberta em suspenso
……..eu respiro
o reles ato
de pés e mãos
……..atarefados
feito o sapato em tropeços
……..desatado
e eu sou inábil em usar as mãos
servem-me à inutilidade
de não arrematar o rosto
……..o inacabado
do ano de quem morreu
dos planos de quem surtou
dos meus dentes que eram tortos
e continuaram tortos
dentro apenas do limite do ignorável
o final da chuva em que eu dancei pequena
tomei bronca
mas não gripei
mamãe estava errada
……..você não é todo mundo
e quem não é todo mundo
é ninguém
e eu ainda tropeço nos pés
e sujo a blusa da escola de sangue
……..eu respiro
e o calor de madureira lateja as minhas veias de infância
o mundo passando
na telefunken
1984
que já estava ali quando eu nasci

 

 

 

***

 

 

 

comecei no mundo com um grito de dor
……..o primeiro ar

comburente universal
……..fogo no peito

a minha história
que nasceu do grito
sucessão de notas descolocadas
em sol maior

fogo grave
……..queimadura

a minha história
escrava no fogo da forja

molda o passo torto
com que tento dançar
……..na ponta
……..do lápis

nanquim luz e sombra
todos os fados padecendo ao sol

o meu deposto aos pés do fogo
gota de sal na pele nos pelos

……..cai o pano

eu seco os olhos com o desfecho inesperado

eu seco o corpo da impureza nos poros

 

Milena Martins Moura é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros “Promessa Vazia” (2011), “Os Oráculos dos meus Óculos” (2014) e “A Orquestra dos Inocentes Condenados” (Primata, 2021, no prelo). Integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia e de colunistas da revista Tamarina Literária. Publica suas produções em diversas esferas artísticas no Instagram @oraculos_dos_oculos. Contato: milenamartinstradutora@gmail.com.

 

 

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144ª Leva - 04/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Carla Diacov

 

Foto: Lu Brito

 

x
sobreviventes deitados trocam
figurinhas repetidas
experiências amorosas repetidas
de bruços trocam
feito meninos que tocam trocar
sorrisos enigmáticos repetidos
trocam até cascalhos repetidos
balançam os calcanhares no ar repetido e trocam
viram as barriguinhas para o céu
trocam o curso das nuvens repetidas
trocam andorinhas repetidas
repetem TROCO NÃO TROCO TROCO
trocam as pernas de lugar
trocam o lugar de estado
os joelhos com os joelhos dos joelhos mais jovens
o de joelhos tortos repetidos
trocam hálitos repetidos
trocam ar
sobreviventes trocam tudo
apontam calor nós nos cabelos
trocam fluidos inevitáveis repetidos
furos de guerras ecoadas
trocam repetida a terra de lugar
dormem com raízes parecidas a joelhos
sobreviventes dormem repetidos
de repetidas mãos dadas a sonhar
incertas repetições mais
exatos epílogos mais

 

 

 

***

 

 

 

:
não me sinto tão
bem nunca me senti tão capada
não tenho a memória de estar
vibrante “As they say on my own Cape Cod”
sinto que deveria ter me dedicado ao
arco e flecha como dediquei o pescoço
à leitura de teorias UFO
acordo com essa pança cheia de melancolia
olho minha mãe me olhando
minha cachorrinha me olha olhando minha mãe triste
já fui pega olhando uma lata
de molho de tomates no lugar errado
o rapaz me pegou pela mão perguntou meu nome
perdida mora por perto está sozinha
entre ervilhas eu disse
o molho entre ervilhas
comprei caqui mole e bistecas de porco
comprei a serralheria dos ouvidos açougueiros
nunca me senti tão amputada
o caminho me levou até minha mãe
minha cachorrinha olhando minha mãe triste me olhando morta
acho que seu pai tinha isso que você tem
e isso veio da conversa com a psiquiatra
isso não tinha CID e eu tenho pensamentos mágicos
trocamos a cidade a psiquiatra
me sinto bem pior
agora que sei ser vibrante com a não compreensão
do tigre CONVIVER
sei e posso e alcanço falar sobre minhas deficiências
sobre meus distúrbios
e isso assusta muito quem não me vê babando
errando as pernas letras assusta não conhecer
devo ser mesmo esse caqui mole olhando
a lata errada nos mercados
carla
ninguém fala moléstia no poema
carla é só uma lata fora do lugar
carla
“As they say on my own Cape Cod”
a vida é bonita e cheia de coelhos com trevos entre os dentes
o rapaz mais famoso da minha estante
me puxa pelos cabelos
perdida mora por perto está sozinha
uma lata errada
“a loucura é portátil”

é claro que a lata não é errada
carla e a lata
“As they say on my own Cape Cod…
partners in prosperity.”

 

 

 

***

 

 

 

x
o sobrevivente estende as mãos à estátua
o ritmo dos joelhos
o pão ainda cru
obscenidades
algumas razões
quinas duns pensamentos
mas chora
o sobrevivente estende as mãos à estátua
mas chora
o sobrevivente teme o caminho da lágrima na mão embrutecida
chora toda a sede da goela
mas estende as mãos
mas contorna
um ponto além do contorno duro
contorna
imita
estende a biografia do nariz
o sobrevivente afia a moela e cisca o assoalho
ESTOU PERTO ESTOU BEM PERTO
o sobrevivente e algumas razões
o pão ainda cru
mas pão

 

 

 

***

 

 

 

:
estender a asa norte e
sair feito uma garça rodada
eriçar a última pluma e sair
feito uma pavoa mentecapta
esticar as unhas e sair feito
um galo tarado espichar o sal
e sair feito um flamingo excessivo
arrepiar o bigode e sair
da moita em espasmos apaixonantes
o pescoço é o pêndulo da coisa penada
abraça um queixo meu peito pombo
bica uma pena que me coça a chaga da coisa penada

mania ave
de quantos bigodes precisa uma mulher para sair?

 

 

 

***

 

 

 

:
tenho uma memória inquieta
tenho um pescoço de criança
conforto em lã com cheiro de avô
lavanda
canela com leite morno
nada mau
diriam
para uma casa abandonada
nada mau
dizem
nada nada mau
comenta quem acabará por morder meu pescocinho mofo

 

 

 

***

 

 

 

:
no inverno
vou jogar meu pescoço para trás
largar um pensamento horrível no cúmulo
de uma pedra sob o sol
faço por você
mostro um pedacinho da minha arquitetura
por você
para que você não fique com a impressão
e sim com a certeza:
não sei lidar com meu próprio sumiço
com a destruição
palmo a palmo
daquilo que em nós dois
soma estações tectônicas com
flores daninhas entre os desencaixes

 

Carla Diacov [@diacovcarla] nasceu em São Bernardo do Campo em 1975. Lançou os livros “Amanhã alguém morre no samba” (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), “A metáfora mais gentil do mundo gentil” (Edições Macondo, 2016), “Ninguém vai poder dizer que eu não disse” (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro online pela Enfermaria 6, 2017), “A menstruação de Valter Hugo Mãe” (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017) e “A munição compro depois” (Cozinha Experimental, 2018). Os poemas aqui apresentados estão no próximo livro de Carla Diacov, : “pescoço x sobreviventes”, que sairá pela Garupa.