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143ª Leva - 03/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Anna Clara de Vitto

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

arrebentação

 

o mar
vindo desmaiar aos nossos pés
o sangue do sol se dissolvendo
nos beijos salgados d’água na areia
onde um olhar mais cuidadoso
desvendaria pegadas
apagadas
porém ainda minhas

procuro inutilmente
na fotografia recém tirada
um pedaço de felicidade
sobrevivente

 

 

 

***

 

 

 

atenciosamente

 

antes que os caminhos
desapareçam sob a chuva,
olha-me de perto

à luz das pedras, sou outra
olha-me mais uma vez:
ignora as lamparinas falsas

sou medusa vitoriosa
se não te pareço monstro,
olha-me de novo

mais sóbrio

 

 

 

***

 

 

 

qual o foco exato
do sismo definitivo?
qual a linha entre imensos
tectônicos?
qual a linha da vida
na palma das placas?
qual sua parte e
qual a minha?
seremos nós
a ameaça ao mapa?

 

 

 

***

 

 

 

a mulher sem mãos conta os dias
em comprimidos
e no crescimento dos fios de cabelo
diligentemente arrancados antes
do colapso dos sistemas de saúde
bonito é quando cicatriza — ela repisa
e se contenta: não sabe mais do passar das semanas
bonito é quando cicatriza — reprisa
e mede as horas nas unhas que se refazem
após os cortes programados
os minutos na tampa do dedo arrancada
durante o preparo do jantar
os segundos nas gotas do ansiolítico
e sobretudo nos mantras mentalmente entoados
enquanto a mulher sem mãos ensaboa
cotovelos
antebraços
punhos
palmas
parabéns-pra-você
enquanto isso
ossos expostos
sob a água pandêmica da torneira
inauguram
novo calendário

 

 

 

***

 

 

 

142ª

 

que cor tem o tempo ido?

salpicos que cirandam no fundo branco
retratos mortos de olhos postos
nas paredes à espera de retornos

na noite enorme do porto
cargueiros e transatlânticos
lançam preces aos práticos

amanhã
a certeza do sol
ao leste da orla

amanhã
não haveria chave
que abrisse a mesma porta

 

 

 

***

 

 

 

o olhar amansado
por pedras
as pedras
antes dos poemas
os passos
antes do caminho
eu ainda penso
eu ainda penso
eu ainda penso
penso nas pedras
e levanto o olhar com ânsia
para me certificar de que as pedras
ainda são pedras
já não tropeço

uma mulher entre pedras
vestia a camiseta:
“e agora
que você sabe?”

 

Anna Clara de Vitto (Santos/SP, 1986), é poeta e autora de “Água indócil” (Urutau, 2019) e MEADA (ed. da autora, 2019). Desde 2017, integra  coordenação do Clube da Escrita para Mulheres, fundado pela escritora, cordelista e poeta Jarid Arraes. Possui poemas publicados nas revistas Ruído Manifesto, Mallarmagens, Germina Literatura, Plural, Fazia Poesia, Literatura e Fechadura, Escrita Droide, entre outras. Além das publicações esparsas, ministra oficinas de poesia e participa de saraus, performances poéticas, podcasts, leituras e mesas de debate.   

 

 

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Janela Poética IV

Helena Aranha

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Meus ouvidos são copos de vidro
bacias onde escorre pra dentro
água salgada
– ao passo do conta gotas
da gravidade –
nascida do lençol freático
que me corta.

Dentro da noite
há pontilhados
no teto, que me fogem
dançando o ronco das motos
O eterno ruído da boca
do estômago
arranca.

Dentro da noite
há algo que me escapa
ou me consome. Dentro
da fronha do travesseiro
Dentro
do café que tomei mais cedo
Dentro
não.

[ de vidro ]

 

 

 

***

 

 

 

Percebi que nós pode significar nós como os nós de uma corda de uma corrente
nós podem(os) barrar a fluidez de um movimento de um peso
obstruir a entrada de certas coisas
nós de uma armadilha nós de dedos apertados e nós juntos nós
não necessariamente somos bons mesmo quando pensar em nós é bom
nós somos ruins atados ou quando um dos nós se prende
nós sugerem uma ligação feita à força e não se questiona
à quem ela pertence à quem interessa estes nós tão presos e dados
nós talvez se desfaçam com paciência e com jeito
mas para tanto nos deixam machucados, tanto que desistimos dele
não como quem se conforma mas como quem se cansa e larga
com as mãos ocupadas

 

 

 

***

 

 

Esquecer tem uma manha, uma regra,
consiste numa fórmula que todo mundo conhece,
da qual por algum motivo fui alienada?
Esquecer tem textura de pele,
ou gosto de cigarro,
seu cheiro fica impregnado nos dedos?

A língua amarga e inchada dentro da boca,
os olhos vermelhos e apertados,
tentando enxergar na claridade branca do mormaço?
O som da espuma iluminada e efervescente
que interrompe o ensurdecer calmo do mar,
a onda que atinge sem aviso?
E que te puxa para onde quiser,
em uma dança descoordenada
que te engole por inteiro
e você não sabe mais se faz algumas horas, um final de semana,
ou uma vida toda em que a ardência do sal na garganta
se esgueirou em direção ao peito
se expandindo até explodir em um rasgo,
num ciclo onde as histórias se repetem
sem platéia e sem voz.

Seria o suor escorrendo pelas costas,
a tatuagem desbotada,
o calor abafado, a voz que grita e ri,
um cinema abandonado na República?
Seria o amigo que te beija a bochecha,
afundar em um abismo de almofadas,
a dor que vem tirar o sono?
Ou seria cantar baixo acompanhando as curvas da estrada?

Quantos copos de café tomar até esquecer?
Quantos goles, quantos dias, quantas manhãs em silêncio,
quantas vezes chegar em casa, o tilintar indiscreto das chaves no escuro,
caminhar às cegas pelo corredor memorizado,
fechar a janela do quarto como um ritual de encerramento
que se repete toda noite e finda absolutamente nada.

Penso tanto nessas 8 letras, uma de cada vez,
uma memória por vez,
separo em sílabas à medida em que também divido as horas,
três sílabas, três horas, três meses,
a semântica não me parece inteligível
pois só me vem à cabeça o antônimo que é lembrar a todo segundo
e quase implorar para alguém me ensinar
como se faz para esquecer o que é gostar de você.

 

 

 

***

 

 

 

sombras teu contorno cobre páginas as palavras falam sobre ele
ou sobre nós é difícil ter certeza sobre mim e sobre o que são apenas
sombras observo tudo o que há em nós sob uma camada de sombras
sombras na esquina da loja me assusto com algumas sombras
e de volta para casa corro sozinha pois me vejo envolta por sombras
no frio do apartamento não te enxergo em meio às sombras e pela janela
o gato branco se perde sorrateiro entre sombras sua bicicleta me corta
jogada em sombras num emaranhado de cacos e roupas e lixo e tantas
outras sombras mentiras e sombras a corda despejada me amarra
e me revela minhas próprias sombras o escuro e o som da chuva
me confundem pois seu rosto está repleto de sombras sombras
quando caminho pelas ruas vejo apenas sombras sombras e na mente
de cada pessoa sombras sombras no metrô prevejo abismos onde
potencialmente existem sombras sombras ou apenas sombras
até que ponto há sombras há profundidade nas sombras e as sombras
e os planos são apenas sombras se os pensamentos tão escuros
estão apenas no meio das sombras sombras quanto mais a sombra
é difícil de entender nas sombras que caminham ao meu lado
e se são sombras ou apenas sombras.

 

 

 

***

 

 

 

Nessas férias comi bem.
Estive ocupada, te garanto,
por isso não respondi nenhuma das suas mensagens.
Perambulei por lombadas diversas que me chamaram,
sem rotina, sem dever. Li o que meu professor
escreveu sobre sexo e mais um tanto
de introduções e coisas incompletas.

O noticiário estava difícil, as noites às vezes
mais, o vinho intragável embora delicioso.
Matei a curiosidade ao quase me afogar
entre ondas que, ao se partirem ao meio,
acariciaram minha bochecha esquerda.

Encontrei no céu um laranja tão aberto
que não podia ser verdade; na mata,
o sopro da noite; na água, a divisão do mundo;
vi ao longe (não tão longe) uma mulher
de maiô branco e me vi de maiô preto.
Lembrei de você e de você e de você,
meus pés às vezes emergiam e avistei
até um caranguejo sendo levado pela maré.

O pêssego estragou, mas comi alguns,
o maracujá que ia virar bolo também.
Tudo bem; tenho o corpo abastecido,
minha barriga se dobra em conforto,
meu coração saciado
pois nessas férias comi bem,
embora você não tenha me comido.

 

 

 

***

 

 

 

Hoje em dia é com o coiote que transo,

embora haja ainda um resquício
a memória de canto de olho
das chaves lubrificadas pelo frio
escorregando no bolso do peito
da respiração que pintava o escuro
dos pelos eriçados
e meus passos que lambiam gelo.

De noite
o olho do coiote brilha
milhares de vezes em cada folha úmida
estrelas negras flutuantes
na rua que tentava ser uma velha amiga
onde uma mulher emergia dos arbustos
onde um homem deslizava de bicicleta
onde eu caminhava sem querer ser vista.

Hoje em dia estou na mesma rua
hoje em dia o corredor não se esquece
hoje em dia a casa não chega
as chaves estão perdidas
no pega-pega infinito de uma caçada

e meus passos doem

e meus olhos ardem.

Naquela rua não havia um coiote
Ele não se escondia
Ele não me enganava.

 

Helena Aranha (1991) é designer, nascida em São Paulo, onde reside atualmente. Em seu estúdio na capital paulista, desenvolve experimentos artísticos com poesia e artes visuais, além de projetos de design gráfico e ilustração.

 

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Janela Poética V

Ilza Carla Reis

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Poesia silenciada

 

O silêncio da poesia ecoa
pelos muros da cidade
Seu silêncio ensurdecedor
Gritou em meus tímpanos dormentes
e calou…

Mesmo calada, reticente,
posso sentir sua respiração em minha respiração
e o seu pulsar em minhas veias

Os versos insistem em viver
no deserto da minha sobrevivência…

Fatigada pela indiferença dos homens
e sufocada pelo concreto
a poesia reclina-se em meu peito.

Mesmo reclusa, ela continua a bradar
com sua costumeira altivez!

 

 

 

***

 

 

 

Certezas utópicas

 

Ilusão pensar que se vê
Engano pensar que se sabe
Porque vemos apenas a sombra
Sabemos do todo uma parte
Apenas a parte que nos cabe!

 

 

 

***

 

 

 

Raízes profundas

 

Fincada em meu chão
e injetada de ânimo,
sobrevivo à aridez das minhas perdas!

Em meio ao cinza da paisagem dos dias
insisto, verdejante, renascendo
tal como a flor do mandacaru
que desfila sua beleza em cores!

Espero, serena e forte,
que a paisagem que me cerca se renove.
E ela sempre se renova…

A vida é mesmo feita de paradoxos
e há um tempo pra cada coisa:
tempo de acinzentar e tempo de verdejar!

 

 

 

***

 

 

 

Avesso das coisas

 

O universo quer voltar ao princípio
porque tudo está demasiadamente duro
demasiadamente perverso

A borboleta deseja voltar ao casulo
porque, lá, ela se sente protegida
da excessiva dureza da vida
da descomedida perversidade dos homens

A criança chora com saudade
do ventre materno
onde ela era livre
onde o cordão umbilical
era laço que unia…

Aqui fora, a criança chora
e reclama a ausência
infligida pela pressa das horas
do tempo que nunca sobra…

É preciso colocar, de novo,
as coisas no prumo!

Vai, criança!
Não dá mais pra voltar pr’o ventre
Então, segue em frente
e desavessa o mundo!

 

 


***

 

 

 

Parto

 

Para Clarissa Macedo

 

Não quero ter
de escrever este poema
porque ele dói em mim
e não quero que doa
também em você

Não quero
escrever este poema
porque seus versos
diluem minhas certezas que
mesmo aleijadas
me sustentam
e
como não posso
viver sem elas
imagino que você
também não possa viver

Já disse!
Não quero
escrever este poema!
Só de gestá-lo
em meus pensamentos
sinto que me falta
o ar nos pulmões

Suas metáforas amoladas
cutucam minhas feridas que
pensava
já estariam saradas
mas elas sangram
novamente

Teimoso poema!
Mesmo contra a minha vontade
teima em nascer
teima em vir ao mundo
a este mundo que não o quer

Pois bem!
Nasce logo de uma vez
bendito poema
e me livra das dores deste parto!
……(
………………………….
…………………………..)

Já posso senti-lo
saindo de minhas entranhas
consigo vê-lo
esborrachando-se no papel,
sujo de sangue,
do meu sangue,
………………e
ainda dói
agora
uma dor mitigada
por tê-lo parido
por vê-lo nascido
……………….[finalmente

Entorpecida
ouço seus primeiros gemidos
e antes mesmo de respirar
………………[ele chora
Pobre poema…
parece já saber
que viver neste mundo
não será nada fácil

E a dor que doía em mim
agora dói nele
………………..[mais uma dor parida em versos…]

 

Ilza Carla Reis, escritora, mãe, professora, é natural de Euclides da Cunha (Cumbe), Bahia, Brasil, onde trabalha e reside. Professora do curso de Letras do campus XXII da UNEB. Autora do livro de poesias “Poemeadura” (Mondrongo, 2018) e coorganizadora, ao lado de Luís Felippe Serpa, da coletânea em prosa “Histórias pra quem gosta de aprender” (Darda, 2019). Integra os coletivos “Confraria Poética Feminina”, pelo qual participa de diversos projetos e coletâneas, “Mulherio das Letras” e “Coverso19”. Considera-se, ousadamente, uma mulher que faz “peraltagens com as palavras”. 

 

 

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143ª Leva - 03/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

JP Schwenck

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Colapso Central

 

E não há tempo
Para as coisas fúteis
Para as discussões inúteis
Já foi-se letra pra pouco argumento.

Não há mais sentimento
Só se formulam lamentos
Sanidade espalhada no chão em um manicômio urbano
Poesias pisadas até saírem sangue. Esse é o movimento.

E de praxe, eu estendo a bandeira da minha própria sanidade e des-rimo os versos proferidos
Queimo parte por parte
Depois me jogo nas cinzas e rolo
E rio
E choro.

Pois é a vida, não é mesmo?
Após disso morro lentamente nos braços da cidade
E soluçando, clamo à vida, a perda, as perdas.
E apago, acordo e não me encontro.
Vou pra onde não vou e ando por onde não ando.
Morro de novo aos pés da poesia.
E está consumado.

 

 

 

***

 

 

 

Limite

 

a cadência dos clarões fantasmas
os monstros geométricos
a quimera gigante no céu
árvores em negativo fosforescente
um pedaço de sorriso morto uivando no mar.

um trem fantasma só de ida sem nem mais voltar
o sugador de almas com fome
o canibal demoníaco poliquântico
o terror sanguinário de barba e dentes

e os pedaços do espelho que espalharam-se no chão ao atravessar
e as paredes que te fecham pra te esmagar
e o seu corpo que te prende e tenta te devorar
até desmaterializar
prendendo o limite das coisas que trancamos pra não mais lembrar.

 

 

 

***

 

 

 

Barulhos

 

quando se escreve um artifício
o peso das palavras fura o leve do ofício

há quem diga que o poema é feito de ar
eu digo que o poema é feito de alma
de uma alma pra outra alma.

há quem diga que o que há no poema é barulho.
eu digo que o que há no poema é erupção mental.

seja corrosivo, colorido, carnal
matéria visível, palpável e espiritual.

 

 

 

***

 

 

 

Cortejo Fúnebre

 

enquanto todos dormem
nas ruas, fantasmas caminham calados
em pares, braços juntos ao corpo
no meio panorâmico, caixões levados pelos ombros.
os borrões seguem cabisbaixos.
e vão aumentando.

o cortejo assombra a cidade
e vira um carnaval de sombras.

 

 

 

***

 

 

 

Brisas Continentais

 

Mais uma vez não cumpri as coisas que jurei prometer
Tanta coisa na minha lista e eu não sei o que fazer
Tô tentando seguir reto para não enlouquecer
Não gritar de madrugada pra ninguém me ver morrer
Pois até no meu último suspiro só me vem você.

Sua voz no meu lado chamando pra ao seu lado permancer
O sonho é tão real que até posso tocar o céu
De mel são as minhas asas e tão alto eu sei q vou alcançar
Minhas brisas tão inertes me levando de volta para o mar.

E do alto dessa vista, meu impulso me faz voar
No meio da fumaça do cigarro que tenta me cegar
Imerso nas brisas continentais que me deslocam de lugar.

 

 

 

***

 

 

 

Pedaço de Corpo

 

dos olhos da felicidade
nada vaza, nada escapa
pelos vãos, os sonhos vis
as pontes deixadas pela nossa imaginação.

talvez o amor fosse apenas uma invenção
uma história, um peso, um erro, uma superação
nunca escolhemos o que cegos, nós vivemos
apenas temos mudas noções.

e se cegos vivemos, nada faz tão sentido em nossas direções
perdidos estamos, vencidos ficamos ultrapassando nossas próprias invenções.

 

JP Schwenck é um artista multimídia carioca nascido no ano N⁰ II do século XXI. Proveniente de uma geração hiperativa e explosiva, ele escreve desde os 12 e produz conteúdo independente e efusivamente. Em 2020, publicou “Opus”, seu primeiro livro por si próprio e lançou seu podcast experimental “Alma Mastigada”. Inspirado na arte contemporânea e no seu cotidiano, sua missão é expor a sua visão do mundo que lhe absorve e transpor sua liberdade artística.

 

 

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Janela Poética II

Bruna Salgado Baldez

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Retórica

 

Meu silêncio
é onomatopeico
e sinestésico:

tem som de branco
e cor de léxico.

 

 

 

***

 

 

 

Percurso de um vocábulo

 

Do conceito
nasce a palavra
perdida, indefinida,
sintaticamente
inexistente.

Em vozes vertida
ganha uso, ganha vida,
desfaz e refaz
a sua morfologia.

Variável em geografia
mal atribuída
confundida
semanticamente
dependente.

Evocada por mestres,
Drummonds e Severinas,
enuncia e anuncia
a sua polissemia.

 

 

 

***

 

 

 

Endotérmica

 

Permita-me ser,
na discrição de meu canto,
este pequeno espanto
em velado e tímido pranto.

Aceita-me
na minha inteira delicadeza
no meu balançar modesto
na minha insonora leveza.

Deixa-me
embrenhar-me em meus versos
misturar-me às rimas
metrificar-me
até que eu lhes seja ímã.

Exponha-me
somente em palavras
quando eu não mais houver;
quando as sobras
de mim
forem brasas.

 

 

 

***

 

 

 

Corpo-linguagem

 

Ao mundo abstrato renuncio
para concretizar-me
em palavras.

A todos os deuses renego
para cultuar-me
entre linhas.

Costurei-me poesia
– sou inteira cicatriz.

Eu só existo
por escrito.
Sobrevivo
à flor do lápis.

 

 

 

***

 

 

 

Não quero cantar o medo, não quero cantar a morte. Não quero ser autora deste tempo e espaço. Não quero ser um retrato da época, a cair pelo mesmo buraco.

Quero um corpo transcendental, que exista e escreva d’outro lugar. Quero simular vidas de outrora. Quero narrar memórias de outrem. Quero apartar o tempo vigente da minha palavra inocente.

Quero ser a poeta dissimulada – e não esta (ao chão acorrentada).

 

 

 

***

 

 

 

Meu grito é gravado. Minha luz é elétrica. Planto flores de plástico. Tenho olhos envidraçados.

Meu cérebro tem radares, mas não sente, não reage. Fui cultivada in vitro.

Protótipo da humanidade, sou projeto aplaudido.

 

 

 

***

 

 

 

Às vezes penso que a vida acontecia antes.

Comecei tomando diariamente algumas doses de tempo passado, de forma a anestesiar o presente. Notei que, à medida que as engolia, os membros do corpo lentamente adormeciam. Fui perdendo minha habilidade tátil. Meu olhar passou a beirar pelas laterais, as pálpebras semicerradas. As memórias resistiam e se derramavam, paralisando cada órgão. Um minuto a mais e eu me desacontecia.

Hoje, inebriada de passado, sou apenas uma lembrança ambulante, sonâmbula. Não há mais um corpo presente para morrer. A vida já aconteceu.

 

Bruna Salgado Baldez nasceu em 1992, é natural do Rio de Janeiro (RJ) e reside em São Paulo (SP) desde 2019. É graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduada em Língua Portuguesa pelo Liceu Literário Português, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atua como preparadora e revisora de textos na Universidade Paulista (Unip). É autora do livro de poemas “Armadura lírica”, recém-publicado pela Editora Patuá (2021). Participou da Antologia “Ruínas” (Ed. Patuá, 2020), foi selecionada no Prêmio Poesia Agora Outono (Ed. Trevo, 2019) e premiada no 1º Concurso Literário AMCGuedes de Poesias e Contos (Ed. AMCGuedes, 2015).

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Maitê Rosa Alegretti

 

Foto: Joice Kreiss

 

distender as próximas
vinte e quarto horas
para que os segundos
esparramem-se de forma
desigual em cada
músculo de carne
morta

 

 

 

***

 

 

 

Titubear é um modo de estar no mundo
quem titubeia passa a conhecer os desígnios da vida
por entre borras de café& quiromancia.

Os passos do ser vacilante são largos
gastos em seus solados inferiores
o torso sustenta-se bambeando seu equilíbrio pelas pontas dos pés.

E ao vacilar
a troca venosa – arterial
é suspendida
para aguardar
um lapso
de
lucidez.

 

 

 

***

 

 

 

Despe o guarda-roupa
atirando todas as
peças
ao chão

……..aparta as cores
……..distantes
……………….seleciona o que cai bem
……………….ao corpo
……………….esguio & pequeno
………………………….acelera sua pressa
………………………….de livrar
………………………….o móvel
………………………….abarrotado de
………………………….segundas-peles
………………………….casacos pouco
……………….usados
……………………falsas
……………………esperanças
……………………vontades
……………………suicidas &
……………………fé moída
…………………………Repara o chão
…………………………………..refém de tanta bagunça
…………………………………………..mas o espaço vazio
…………………………………………………..entre cabides
……………………………………………………………ainda é um caminho
………………………………………………………………………..a começar.

 

 

 

***

 

 

 

Você me acorda de manhã
dizendo que vai fazer o café
ainda com os cabelos desajeitados,
pergunta se eu não vou me levantar

a casa acorda ouvindo os seus passos
pequenas formiguinhas mordendo
o piso já em vias de ser trocado

a casa desliza pelas suas mãos,
um dia o armário da louça está no corredor
outro dia de volta à cozinha

Você me acorda dizendo que vai fazer frio
antes que eu dê por mim
cobre meu corpo esquio com as cobertas
jogadas no chão

no meio da tarde
estica as pernas para cima
se deita com a cabeça
voltada ao chão
vai descansar a seu modo

Você vai perceber o copo quebrado
debaixo da pia
vai protestar pela minha falta de atenção
vai dizer como se fosse pela primeira vez

“Pode juntar todos os cacos.”

 

 

 

***

 

 

 

no apartamento da frente
escuto os berros
de uma mulher chamando outra de burra,
os meus olhos saltam para a janela com os
fogos de artifício,
algum time ruim
ganhou aquele campeonato
de novo,
as pessoas gritam,
os pássaros
amontoando-se na árvore aqui do lado,
voam de cá pra lá,
desorientados
até mesmo os urubus lá das
antenas,
são quase sequestrados
do seu ritual pacato de vida
carnificina,
tento encontrar concentração
queria escrever um poema sobre
alguém que eu gostaria de conhecer
sem ser blasé, sem parecer algo estúpido
o calor deixa as minhas ideias misturadas com a temperatura
Alexa diz: são 29 nove graus
logo depois imagino você traçando uma linha nos cabelos
como se já os tivesse visto,
decido, então, escrever sobre você olhando para os próprios
cabelos

 

 

 

***

 

 

 

eu precisava aprender
que a mesma rua
já não guardava as pessoas de antes
e a cidade se deslocava todos os dias
centímetros abaixo de nós
antes de deixar de me locomover
a cruzar a linha férrea
capital – zona metropolitana
sabendo o impulso preciso a dar
entre o vão e a plataforma
eu precisava desfazer das armações
pequenas, descolorir metade
dos cabelos, amar mais uma vez
& salgar o asfalto
por onde passei.

 

Maitê Rosa Alegretti (1993) nasceu em Osasco, onde atualmente reside. É professora de italiano e mestranda em literatura italiana pela USP. Em 2017 foi finalista do prêmio Nascente/ USP na categoria poesia, contou com alguns poemas publicados na revista Ruído Manifesto, Mallamargens e A Bacana, também participou da antologia “Parem as máquinas” do Selo Off da Flip (2020). “Titubeio” seu primeiro livro foi publicado pela editora Urutau em junho de 2020.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Leonardo Bachiega

 

Foto: Joice Kreiss

 

brincando de equilíbrio

espelhado em ee cummings

 

como se não bastasse olhar
de olhos fechados
as tuas palavras em malvas
o que há dentro do limo
que um mistério não cure…
sob uma locomotiva cuspindo violetas*
o amor está
…onde o desenham
nalgum lugar
em que nunca estive*

 

* Sampler de um poema de ee cummings

 

 

 

***

 

 

 

uma pessoa normal

 

você tem noite nos dedos
rindo ironicamente como uma
esferográfica que borra
nós somos cobrados por nossos resultados
a tua ausência de alguma forma
sempre me fez escrever
um pouco mais sobre o mar
se o céu tivesse uma lua
você se arrependeria naquele momento
até te olhares no espelho… dizer
tu poderias ter sido uma pessoa melhor
mas fostes a ti mesmo

 

 

 

***

 

 

 

sempre

 

um soneto de Shakespeare
amolece um muro
em favos de uma meia – noite
neste apego à letra
o desejo de apertar o céu
de cada dia
um pouco além

 

 

 

***

 

 

 

ao parar

 

há um desfiladeiro nos teus olhos
a que eu chamo eternidade
tua voz seria uma grama que se move
nada mais caberá
do que aprouver em mim cabe em asa
ainda me abre

 

 

 

***

 

 

 

sobre a ternura

 

falo de amor apenas
com os olhos saídos de areias imaginadas
céu de durar poucas violetas
e saúvas no sol da terra
debaixo da noite saudável
sempre repousa uma estrela órfã
como quando se decide habitar na solidão para viver
morar futuros humanos
morrer sob os passos de alguma fera

eu entendo o amor
como um pássaro que sobrevoa
um país extinto
e não consegue nos ver

 

 

 

***

 

 

 

Entreabre

 

a grama é uma trepadeira que ao cair
desajeitada
ficou no chão para sempre
o relento é a folha vestida de seda
transparente cada folha desfalece

 

Leonardo Bachiega é arquiteto, urbanista, poeta e dramaturgo, nascido em São Paulo, hoje reside próximo à capital paulista. É autor de alguns livros de poesia e um de dramaturgia, possui poemas publicados em diversas revistas literárias do Brasil e Portugal. Os poemas desta leva estão no livro “Solfejo de Cores”, publicado em 2021. Fernando Pessoa é seu poeta da vida.

 

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142ª Leva - 02/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética V

André Siqueira

 

Foto: Joice Kreiss

 

Quarentena

 

Os objetos conhecem
os quartos, partes, cômodos,
extensões de remansos
que abrigam toda a gente
íntima do silêncio
isolado na espera
de cada ser fechado.
Testemunhas ocultas
mesmo que emudecidas,
hospedeiros de gente
no vírus desse mundo.
Sem luva sinto, pálido:
os objetos na casa
prosseguem retesados
e infectados de gente.

 

 

 

***

 

 

 

chuviscou nos telhados simples
as gotas dançavam dulcíssimas
trespassando os pedestres rápidos
indo e voltando pelo asfalto
empoçado numa renúncia
de quem cansou de tanta gente
que passa e não percebe os cacos
de esmeraldas nos velhos ombros
dos muros plantados nas terras
abertas pelas mãos passadas
silentes no canto da casa
erguida no solo tocado

chuviscou nos telhados simples
as gotas acertavam como
barcos de papel naufragando
no mar de imagens chuviscadas

 

 

 

***

 

 

 

o silêncio quebrado apenas
pelo pernilongo da casa
mata o tempo das horas moucas
horas corredoras da noite
enquanto na parede o dono
é o relógio cafona como
a minha cara malpassada
nos ponteiros do meu relógio
sedento e sisudo conduz
a bocarra que enruga e cospe
os detritos vãos da memória

 

 

 

***

 

 

 

20 de julho e o tempo

 

O tempo.
Aplacá-lo, interrogá-lo,
inquiri-lo, investigá-lo.
O relógio de antanho.
O de agora pende sobre mim.
Sou deitado assombro.

O tempo (esse clichê avolumado)
perpassa espectralmente.
Fui digerido, digeridos fomos.
Fica esse arroto do tempo.
Verdugo taciturno em horas.

 

 

 

***

 

 

 

Breve cafeína

 

Começo o dia com café
Nas ruas o verde das folhas grita
delicadezas
Espero o ônibus de reminiscências
que mornas ainda excitam. Temo
a velhice e os frutos podres
Pessoas passam em águas turvas. Uma
gota ferida.
Termino a noite num riso sarcástico
de fé.

 

 

 

***

 

 

 

Recuperação do cansaço

 

O grande som do avião atravessa a noite.
No sofá, à meia-luz, enquanto o macarrão
não fica pronto, velo a vida ancorada nos
quartos vazios, engolindo coaxos longos
e maduras ventanias.

 

André Siqueira é poeta, mora em Jacareí, interior de São Paulo. Cursou a faculdade de Letras pela UNIP, mas não concluiu. Publicou em 2020 seu primeiro livro de poemas “As Manhãs Fechadas” (editora Gataria). Já colaborou em diversas revistas, jornais, blogues e antologias de poesia. Atualmente participa de eventos, palestras, oficinas e saraus, além de escrever regularmente para a revista de literatura e arte Pixé.

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Marize Castro

 

Foto: Joice Kreiss

 

[…]

 

 

De aço e seixos são meus lábios.
Misturo-os com os lábios do homem-mulher
e da mulher-homem

Giramos na mesma rotação até rompermos
o que de mais precioso possuímos

Então a miséria nos suspende
O amor se espalha em nosso sangue
e segreda: não se imobilizem

Daí a luz entra e já somos outros:
subterrâneos para os subterrâneos
translúcidos para a ternura

A coragem se mostra entre plátanos e feras
(na estranheza a bondade ancora)

 

 

[…]

 

 

A verdade é mesmo só um grão nunca visto?

 

 

[…]

 

 

Sonhei com o céu azul em meu ombro
e nele o meu rei estava
Suas árvores e seus segredos agora são meus

Tudo dele irradia e sobrevive em mim

Aonde ele foi?
Aonde irei?

Nenhum e todo lugar te espera
diz o meu coração enquanto se entrega
ao enigma mais distante

 

 

[…]

 

 

À luz de spots pavões esperam, o desejo lateja
Seivas de dríades deslocam-se

Na ilha de Circe, redefino-me

Em páginas secretas escrevo o que me golpeia:
terra e céu clareiam quando me esqueço
terra e céu agonizam quando te esqueço

Ouço os olhos do silêncio:
aquela mulher te ama porque te quer míssil
aquele homem te ama porque te quer pântano

Mãos imperfeitas libertam sépalas
Mulheres mancas e macias espraiam-se em areias remotas
Elas sabem: nada terá tido lugar senão o lugar

Em amor, território primeiro e último, vigio a morte
Ergo-me queimada entre campânulas
e restos de êxtase trazem-me de volta
(aprendi a deixar nascer as coisas)

 

 

[…]

 

 

Depois procurar o céu e exigir uma saída
para este país de sol e morte

Eis que com a tempestade a delicadeza surge
e guarda em cântaros de aço palavras como
pélago, guirlanda, alabastro

À noite lembro que a poeta Liu Xia
continua presa e seu homem amado está morto
lembro que Marielle está morta
e permanece sendo assassinada
– nove balas não são suficientes –

Monstros nos gabinetes ordenam:
destruam o êxtase e a verdade
São eles os inimigos, gritam os atrozes

 

 

[…]

 

 

À margem e sempre abismada, pergunto:
quem ouve e beija minha alma neste tempo
de enorme gravidade?
o garoto que no trânsito se banha em cristais?
a amiga que no alto da colina sorri, estratosférica?
o menino despido na casa que alcança o céu?
a  outra miga que se afoga no mar?
o rapaz trans que me oferta o sexo?

Busco a lanterna mágica de Tsvetáieva
Aquela que amou loucamente as palavras
seu aspecto
seu som
sua inconstância
sua imutabilidade

Sim e sim: amar com o mesmo amor
– nossa bênção e nosso anátema –

(tudo suave e ácido, cintilação e sombra)

Em mútuo desamparo, amantes sussurram:
…………………………………………Tânatos é puro

Um claustro se abre
e línguas de argila e ardor são arremessadas
na superfície do mundo

Seu coração em minha boca, minha boca em seu coração:
sorvo e ascendo

 

Marize Castro (Natal-RN, 1962) é autora dos livros de poemas Marrons Crepons Marfins (1984); Rito (1993); poço. festim. mosaico (1996); Esperado ouro (2005); Lábios-espelhos (2009); Habitar teu nome (2011) e A mesma fome (2016). É graduada em Jornalismo, tem mestrado em Educação e doutorado em Estudos da Linguagem. Editou nos anos 1980 o jornal O Galo e, nos anos 1990, a revista Odisseia. Edita seus livros por sua própria editora, a Una, que define como deliciosa e desamparada viagem.

 

 

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Janela Poética II

Wilton Cardoso

 

Foto: Joice Kreiss

 

Rio do esquecimento

 

a vida escorre pelo ralo dos relógios
no inferno de cimento e piche
gases e automóveis

os sonhos derretem no asfalto
o alto dos edifícios é um abismo
no fundo: rio do esquecimento
em brancas nuvens

cocô de cachorro pedaços de
copos plásticos folhas secas
rolando sobre a grama seca
no ar quente e seco de setembro
canteiro
no meio da avenida
o sol martela a pele manchada
a imundície dos cabelos
a cara-cadáver noias
putas mendigos (de)ambulantes
viajam as vias (s)em volta
da rodoviária

 

 

 

***

 

 

 

Haicais crepusculares

 

folhas secas
bailam no asfalto
ao ritmo do vento

ruído
fiel companheiro
por horas a fio

é tarde
só poentes
brotam no horizonte

 

 

 

***

 

 

 

Paisagem muda
Rua 57, C 137

 

O lote limpo dos detritos:
retângulo de concreto
entre três muros
e a calçada.

Quem quer se lembrar
da dor que irradia
da cápsula ao corpo,
do corpo à alma?

Do muro dos fundos
um grafite grita
a dor soterrada
no concreto do lote.

Um grafite grafa
as letras de Leide
que não vai mais andar
em nossa cidade.

Só um grafite
(arte de negros)
corta o silêncio
de concreto do lote

e desenterra a dor
(grito invisível)
dos que não têm voz.

 

 

 

***

 

 

 

A alma podre do poeta

 

Do lado de dentro da máscara
burocrata, um solo putrefato
gesta uma flor feia e ex-
uberante, um poeta etílico
de rosto lúcido, límpido,
barbeado e banho tomado.

Do lado de dentro uma flor
suja, um olor fétido, enraizado
na face sombria da alma e, mais
ao fundo, se afunda no lodo
podre da cidade, alma de asfalto
e cimento, vidro e plástico, corpo
atravessado de horários e cifrões.

Do lado de dentro da fantasia feliz que desfila
no carnaval do dia a dia (de patrões
e labuta, dos negócios, do gozo
cinza e furioso do consumo) se dis-
semina a onda bacante, a erva
daninha, praga sem serventia,
a poesia.

 

 

 

***

 

 

 

A noite que vem

 

A noite tem a cor do medo e do ódio
A noite cheira à tristeza e vingança
A noite com sangue nos olhos
é mais escura que o breu
O coração das trevas da noite
exala um hálito verde-oliva
A noite e seus campos ressequidos
na terra que definha
A noite e seu rebanho de bestas-feras
A noite dos chicotes
tangendo o rebanho ao abismo
A noite dos pastores ensandecidos
À noite
o pastoreio da morte

 

 

 

***

 

 

 

Alguma coisa

 

Alguém
presta atenção às folhas
na praça dançando ao vento, ao vento
que entra pela janela e acaricia
os poros, na memória lenta dos mortos,
no emaranhado de fios sobre a avenida,
no vai e vem sem sentido das formigas
humanas, às ruas do dia cheias
de carros, nas ruas vazias
da noite, à noite de luzes
e gatos da cidade, ao mendigo
que dorme na calçada, à letra
da música, em alguma
poesia?

Alguém consegue………..prestar atenção
……………………………….em alguma coisa?

 

Wilton Cardoso nasceu em 1971 em Morrinhos-GO. Formou-se em Jornalismo e cursou pós-graduação em Estudos Literários pela UFG. Trabalhou como programador de computadores e professor de língua portuguesa e literatura. Atualmente é servidor público do Estado de Goiás e mora em Goiânia. Além de poemas, escreve ensaios e mantém o blog pessoal O engenheiro onírico, onde disponibiliza as suas obras sob licença copyleft.