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141ª Leva - 01/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Bruna Mitrano

 

Desenho: Geometria da palavra

 

 

tem espinhos na língua.
o encontro é quando lambe o racho da minha sola.
até que o primeiro lapso nos levante às pressas –
ensacamos entulhos com sutilezas de rancor.
nada que despossuímos sobrevive ao que gestamos.
é nesse escuro lúcido que soldamos as carnes?
sim, estaremos sempre sozinhos –
guardo nossos segredos com muitas mãos,
seu sangue seco nas minhas coxas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

você não sabe se enxugar,
eu disse rindo.
das suas pernas encharcadas brotavam poças escuras
que no corredor escuro
pareciam buracos –
eu não desviava,
espalhava seus abismos.
até que ficava insuportável te ver escorrer
e eu me agachava e lambia dos seus extremos até o pé,
a língua desmoronando em cada dobra,
enquanto você ardia por toda a dor do mundo.

e foi por ela,
foi por toda a dor do mundo
que chorei em seus pés
e supus as linhas do seu rosto quando minhas águas,
lágrimas, coriza, bichos,
tanto amor,
amornaram seus dedos.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

ainda falava em reparação
o nariz bicando a asa de frango frita
boca e mãos luzindo engorduradas –
meu bem, seu amor é patético ao meio dia.
e a cara amarela desde a manhã
se havia
um grito vinha da cozinha
geladeira velha
bebo água e a voz grave do vizinho me treme
outro copo quebrado
varro mal
esqueço e
ah esse calor terrível
deito no chão –
você acha que vai chover?

 

 

 

 

***

 

 

 

 

choque
uns passos
segundo plano
acho que vi um milagre!
acho que vi!
as mãos estavam vazias
quando o homem louco
aos berros no meio da rua
esclareceu
o último gole
a raiva ainda alinhada –
é difícil, ele disse,
morrer.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

rasgava a camisa com os dentes
a raiva desnudada de pavor
e se deixava à beira –
como adestrar a mão convulsa?
o mijo morno entre as cobertas era como peitos grandes pietá
aninhava-se no turbilhão do que era
reconhecia
seu corpo
erguendo à boca a própria armadilha
e lembrava das frutas que nasceram podres
as que nasceriam pra sempre.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

deito, abro as pernas em pássaro e curvo a cervical pra, daqui, te ver. no centro, os lábios úmidos do animal todo boca devoram a sua imagem diminuída pela máxima distância suportada – sobre o corpo inerte, não obstante o grito esmurrar a película que encobre o peito, no golpe extático da pequena morte, dançam o líquido branco espesso e meus muitos coágulos – emaranham-se, escorrem. as mãos, não soltamos.

 

Bruna Mitrano vive na periferia do Rio de Janeiro. Filha de camelô e neta de lavadeira, é mestre em Literatura pela UERJ, professora, escritora, desenhista e articuladora cultural. Publicou poemas, contos e desenhos em jornais, revistas e antologias no Brasil e no exterior. É autora do livro Não (Ed. Patuá, 2016).

 

 

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Janela Poética IV

Mírian Freitas

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Instante

 

Mas para que serve o instante?
Na sobrevida do momento íntimo
flâmulas acesas chamuscam
no escuro da parede de tijolo cru
pavio insano aceso
entorpece os olhos nus
duas biroscas matizadas
no reflexo da luz e da sombra
–fotografia nas instâncias letais
do corpo—
infinitude
incompletude
o instante se faz ausente.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Solidão

 

Olhe para dentro,
há o turbilhão das vozes,
íntimas raízes, mortos que falam.
O solitário não fala, mente.
Traduz de si para si
o calendário da alma.
Dentro
–realisticamente–
ninguém
ninguém.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

À flor da pele

 

Labaredas da alma acesas
como fogueira incessante
a queimar os poros
as células viciantes do corpo
a vicissitude do instinto
o bojo dos lábios,
o fogo,
incêndio no pedestal da cabeça.
Fogo!
respira fundo,
o fogo nos ossos
a crepitar no instante do último fôlego.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

A Morte dos bois

 

Os bois antes de morrer, choram.
Cabisbaixos,
lagrimejam os grandes olhos
sabem que vão ser mortos.
A caminho do matadouro,
em fila indiana,
os mais delicados sussurram seu pranto triste.
Outros, ao berros, urram de medo
e desespero.

Quem, afinal, gosta de morrer?
Quem, afinal, vê na morte uma necessidade?

Sofridos, desalentados,
os bois choram.
Inútil chorar.
As algemas da morte estão atadas
não perdoam.

As lâminas afiadas cortam,
o sangue escorre.
Lágrimas, gemidos, sussurros tristes

de nada adiantam.
Morrer é preciso.
Morrer é urgente.
Os bois suportam o mundo.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Come in

 

Cultiva-te em mim as tuas mãos
como se fossem galhos apressados, firmes,
molhados pela doçura do orvalho noturno.
Despoja-te em mim teu corpo
como um barco náufrago, afogando-se
no pranto da multidão
no poço das águas revoltas.
Mergulha-te em mim como um peixe
a esfregar tuas escamas no meus pelos negros
insanos
— rebeldes–.
Transborda-te em mim como um líquido
assim,
gotejando em silêncio, sem dizer palavra,
apenas abraçando-me na mudez
como a planta que ama
sem necessitar do verbo.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Os que nascem em abril
comem maçãs vivas
enquanto pensam escuro lá dentro
na terra e nas folhas

relâmpagos sopram faíscas
luzes solitárias—vivas como os invertebrados,
além das luzes, o arfar do vento acende o termômetro
da vida pulsante
que não se atrasa para partir—.

Partir-se infiel a um outro
no escuro atrás das coisas
serpente nos olhos
–vibrantes— a vida no centro
submerge como os submarinos,

bolhas na água límpida flutuam espumantes
vozes indefinidas atrás das estâncias líquidas
naufragam o poema.

 

Mírian Freitas, mineira, reside em Juiz de Fora, doutora em Estudos de literatura (UFF), lecionou em Massachusetts,  EUA, por quase 10 anos e atualmente é professora do Núcleo de Línguas do IFSUDESTE/JF. Autora de “Intimidade vasculhada” (contos- Editora 7  Letras/Imprimatur), “Exílios naufrágios e outras passagens” (poesia- Editora Patuá), “Caio Fernando Abreu: Uma poética da alteridade e da identidade”- no Prelo- (Ensaio), foi uma das autoras da Antologia Lusófona I (poemas- Folheto Edições&Design, Leiria- Portugal). Possui textos espalhados em  revistas como CP Literatura (Editora Escala), Revista Cult, blogs e sites de literatura como o Releituras, portal Cronópios e outros.

 

 

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Janela Poética V

Cristiano Silva Rato

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Venha até mim

 

Como é ridículo falar amor
E, belo, falar dor.
Ah, duas palavras, rimam,
mas uma é água
e a outra é lama sufocando lentamente o rio.

Ah! Por que querem que eu fale sobre o ódio?
Quero dizer coisas ridículas,
que esta raiva passe
e gritar pelado, pelas avenidas, ruas e becos
Amor,
Amor, venha me salvar da selva,
venha salvar meu corpo caído
estancar o sangue que corre como lama
por este buraco de bala.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Sem resposta

 

Sei, estou fora do tom,
do dom
da porra toda.

Recomeçar é difícil
como uma cãibra
no meio da madrugada
enquanto se dorme.

Mas não movo
um dedo.
Observo
toda a velocidade
os amigos que saem,
as pessoas que se vão

Estou no centro
não sou ninguém.
Quem é você?
Me perguntam.
Eu sou uma selfie muda.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Para os fracos

 

Nesta época
não se pode fazer poemas de amor,
temos que ser fortes
e sentimentos não combinam com a luta.
Tempos de guerra,
tempo líquido, gasoso, sem piedade.
De venenos destilados,
jogados em passeatas.
Mas me recuso, tudo me afeta,
a falta, a presença,
os raios de sol,
os sorrisos que não tenho mais.
O amor é para os fracos,
para os pobres,
para os que perderam,
para quem nunca teve,
aqueles que não conseguem dizer uma palavra
sem lembrar da sensação de um beijo.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Dormente

 

Outra noite, e algo estava perdido,
minha consciência já não existia mais,
não era eu.
Você pode me odiar
me ridicularizar,
mas minha mente se foi,
eu não lembro.

Outro dia,
o álcool já não fazia mais efeito,
a cocaína já não era tão boa assim,
o thc já não me acalmava,
minha alma já não era minha,
eu não lembro,
minha mente se foi.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

… 1

 

Não me agradeça
repetidas vezes.
Não diga obrigado
quando eu lhe entregar as chaves.
Não diga obrigado
quando eu lhe der uma palavra.
Não diga nada,
não me olhe nos olhos.
Não ouço mais as revoadas de pássaros,
os latidos.
Eu não tenho mais que levantar,
não consigo mais.
Não me agradeça,
eu sinto um grito agudo,
uma canção de Dylan
e lágrimas,
acho que estou mole,
hoje em mim bate um silêncio,
não quero mais poesia e
palavras em
primeira
pessoa.

 

Cristiano Silva Rato é autor de “Todos que conheço são suicidas” (2019, Editora Caos & Letras) e “Sentido Suspenso!” (2012, Multifoco), tem diversos textos espalhados pela internet e em antologias. Documentarista, ajudou a criar e dirigiu o programa de websérie Literatura no Boteco. É Coordenador do Coletivo Terra Firme, responsável pelo selo editorial e agência multimídia Marginália Comunicação, locutor e produtor do programa Cemitério dos Vivos, na Matula Web Rádio, co-fundador e editor na Editora Caos & Letras. cristianorato@caoseletras.com

 

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Janela Poética I

Mônica Ribeiro

 

Desenho: Geometria da palavra

 

ÂNIMA

 

As coisas têm vida
se vida damos a elas

[quem me ensinou foi Patti Smith]

Mas eu já sabia
Só não tinha coragem
ainda
de falar com as coisas

E tinha menos coragem
ainda mais
ou ainda menos
de ouvir as respostas das coisas

Mas não

Coragem de ouvi-las
não tenho
ainda

Para tanto
é preciso saber
ouvir o dentro

As coisas não se ouvem de fora

 

 

 

 

***

 

 

 

 

PERNAS

 

As pernas da cabeça
bambas e trêmulas
não conseguiram
me fazer conseguir

Machucaram-se
as pernas da cabeça
Foi ataque dos pensamentos:
chutes, rasteiras, chaves de perna

As pernas da cabeça
agridem as pernas da cabeça
e permanecem firmes
torneadas
Nem um arranhão

As pernas da cabeça
agredidas pelas pernas da cabeça
doloridas, flácidas
não se levantam do chão

 

 

 

 

***

 

 

 

 

AMPULHETA

 

Não sei
quantos pontos
são necessários
para estancar
o sangue
de quem se corta
com cacos
de ampulheta

Não sei
quantas pinças
são necessárias
para tirar
do sangue
a areia do tempo
que escapou
da ampulheta quebrada

Não sei
quantos anos
sofridos
são necessários
para que a ampulheta
não se quebre

Há de se saber
que a ampulheta
é por si
torta
trincada
mal lacrada

Embora viva
morta

 

 

 

 

***

 

 

 

 

MEMÓRIA

 

Faz-me falta o que eu não tive
mas que sei muito bem
É coisa que retive
na não memória

É coisa do que não veio
do que não vem

Distraída disfarço
a falta
o cansaço

Retraída
eu perco
esta dança
e o compasso

 

 

 

 

***

 

 

 

 

TEMPESTADE DE AREIA

 

Dor não se mede
Dor desnorteia
Desagrega o ser
que agoniza
mesmo sem morrer

Dor é falta de ar
ventania que sufoca
hiperventilação arenosa
choro seco
de lágrimas secas

Dor é tempestade de areia
é falta de brisa
daquela que
em vez de ferir
alisa

 

 

 

 

***

 

 

 

 

FADO

 

Antes que fosse cedo
já se fez tarde
O tempo rompeu
a velocidade da luz
A vida escoou
aliada do tempo que é
A vida acabou
sobrou foi nada
Feneceu a vida que
como o tempo
é fadada

 

Mô Ribeiro, ou Mônica Ribeiro, é mineira de Belo Horizonte. Arquiteta de formação, descobriu-se poeta por insistência do inconsciente. Participou da antologia “É Urgente o Amor”, Edições Vieira da Silva, Portugal, e também da antologia “Ruínas”, da Editora Patuá. Foi publicada pelas revistas Caliban, Desvario, Germina, Literatura & Fechadura, Mallarmargens, Mirada, Revista de Ouro, Revista Ser MulherArte e Ruído Manifesto, entre outras. Publicou, este ano, seu primeiro livro de poemas, PAGANÍSSIMA TRINDADE, pela Editora Penalux. Nasceu em 1971 e deu trabalho para vir à tona: o parto foi de fórceps. A escrita, ao contrário, vem nas contrações que dão à luz seus poemas. Partos rápidos, mas não sem dor, e depois o cuidado com a cria. Assim é sua escrita.

 

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Janela Poética II

Marcus Groza

 

Desenho: Geometria da palavra

 

do rascunho pra trás

 

no princípio era traço era rascunho
desenhamos o homem à imagem
e semelhança dos bichos selvagens

caçamos com afinco o dia futuro
em que o rascunho ganharia lustro
e progredindo de forma gradativa

chegaria quem sabe enfim às franjas
da perfeição por ser ele mesmo
braço mão cinzel e obra-prima

porém o que críamos ser qual nenê
que inspira cuidados e pede teta
mas alegria e graça promete aos pais

logo se mostrou nada mais do que
uma tosca versão definitiva
do omi-nenê sub-espécie extinção

progresso nenhum não veio aliás
senão o temporal que se prenuncia
com gestos de velhice e finitude

e avanço só mesmo qual curupira
cujo rastro é tão enigmático
que sherlock nenhum elucida

se no caso retrocedemos pra frente
ou se a vida é do rascunho pra trás

 

 

 

 

***

 

 

 

 

vinho manga losna ou cacau

 

o apetite dos convidados de uma casa em festa
Luís da Câmara Cascudo

 

é amarga a vida diz um sincero
que nem tanat no primeiro gole

no início são fiapos de manga
aguerridos choupos ao vento

é o que respondo pois já nem
praguejo o visgo que se adere

e empedra no vão dos dentes
é uma manga a vida eu digo

é amarga repete o sincero
feito losna no dia seguinte

sinceridade é ateísmo açucarado
mesmo entre os mais crédulos

primeiro é tanino que amarra na boca
um gosto forte que água não leva

me lembra quando tudo salgado
da língua à garganta marrenta

como durante o sexo oral
não é sede na boca sedenta

a mim lembra bílis diz o sincero
que sobe em refluxo fermentado

e o palatante por fim experimenta
assombrações dos antigos manjares

entre arrotos azia e sabor azedo
é amarga a vida então eu penso

verdade é mancha no fundo da taça
o roxo que nos colore os lábios

amargor é vida eu digo
língua travosa cacau 100%

 

 

 

 

***

 

 

 

 

vinagre da insistência

 

…………em toda mesa de trabalho
não só o café esfria
…….como cedo ou tarde
……………a ossatura ideal se rompe
……………………emulsão e textura coalham
…………..então resta nas mãos
…………………o vinagre da insistência

…………………….verter ali nossas lágrimas
………..chorar a linfa empoçada
………………os pés inchados
…………..se inda resultasse num afeto-feitiço
…………………..mas sequer materializa a prata

………….desaprender ………única tarefa
………………………………começa vertendo o método
…………………………em leito sinuoso quando sabemos
……………………..que nos cabe esperar
………………..da seiva extraviada
…..apenas uma poeira nos olhos
………um silêncio condensado

 

 

 

 

***

 

 

 

 

osso

 

dentre tudo Q descarna
o amor é a mão suja
dum açougueiro indo pra casa
quando prende o punho
na engrenagem da porta basculante
e os dedos não se magoam
de tão acostumados ao sangue

 

 

 

 

***

 

 

 

 

para raquel gaio

 

dentre tudo Q oxida
embolora e resseca
faço um semicírculo
de flores e folhagens
rejeitos e pedregulhos
Q você coleta
quando andamos
pelos arrebaldes
escombros e estrelas
Q despencam
e você coleciona
cacos informes
materiais imperfeitos
irmãos nossos
servem de pretexto
pra esquecermos
a respiração curta
os invisíveis desabamentos
escombros e estrelas
Q despencam
e você coleciona

 

 

 

 

***

 

 

 

 

suor e oração

 

dentre todos cuja
pele não formiga
e imolam remorsos
com fósforos molhados
Quem me dera
ser todo estômago
movimento peristáltico
bile e refluxo
pra poder vomitar tudo

vomitar nossa servidão voluntária
aos gritos sem delinquência
ao valor moral do trabalho
aos traumas produzidos
em banho maria
no seio das famílias

quisera ser todo estômago
pra vomitar os ritos insossos
vomitar a obediência
vomitar a hierarquia
as ordens cantadas
os papeis de leis escritas
mastigar como uma cabra
a tábua dos mandamentos
e cagar uma merda ungida

 

Marcus Groza é escritor, dramaturgo, performer e pesquisador. Autor dos livros “Uma pedra em cima disso” (no prelo), “Milésima demão nas paredes de estar perdido” (Ed. Urutau – 2019) e dos textos dramatúrgicos “Não Urine no Chão”, “Tambor de Couro Vivo”, “Maré Morta”, entre outros. Participou com oralização de poemas no programa “Manos e Minas” da TV Cultura (São Paulo-SP), no “Eco Performances Poéticas” (Juiz de Fora-MG), no “Inverno Cultural” da UFSJ (São João del Rey-MG), no “Tercer Jueves” (Buenos Aires) etc. O seu ensaio “Para uma poética do esquecimento” foi traduzido para o espanhol e saiu no livro Olvidar – Brumaria Works #9 (Madrid, 2018).

 

 

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Janela Poética III

Milena Martins

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Antes da queda é cárcere.

A comida não chega à boca
E o passado não chega ao hoje
Antes da queda.

É cárcere
Sangrando a carne nas grades.

Antes do salto da queda
É cárcere
Sob a tutela da incerteza da verdade.

Não saber é cela antes da queda.

Vieram as tochas, a fogueira.
Os versos condenados.
A morte de Hipatia pelo fogo e pela cruz.

Cárcere
Antes da queda.

E calou aos que buscaram gritar
O rastro de silêncio do carrasco.

Antes da queda, caíram as folhas,
Morreram os frutos,
Cortaram-se as línguas,
Nasceram os súditos.

Antes do nascimento é morte.

 

 

 

***

 

 

 

Hoje há meio sol lá fora
E um estrondo de antecipação.
É hora do risco.
Ponho sapatos apertados
E a dor é mais forte que eu.
Eu nunca fui muito forte.
Cada passo é um esquecimento.
Eu nunca fui muito forte.
Deixei a dúvida dentro do forno talvez ligado
E o propósito em cima da mesa.

Começou a chover no meio do caminho.

Eu nunca fui muito forte.

 

 

 

***

 

 

 

Alguém manteve o fogo
Depois que eu fugi.
Outros vieram continuar os trabalhos.
Eu corri até caírem as pernas
E rastejei uns metros mais.
Fui achada morta de bruços com os demônios presos às costas.
O fogo ainda arde na carne de alguém
Com o calor que eu temi um dia.

 

 

 

***

 

 

 

Não repara a bagunça.
É que eu enlouqueci de ontem pra hoje
E esqueci de guardar os sapatos.
As cartas acumularam pela metade,
As plantas morreram
E os pulmões agora doem.
A loucura chegou de madrugada,
Me achou sem defesa,
respirando entre os dentes.
E os cravou na carne dos meus braços
Como se eu fosse acordar.
E me bateu com os dedos no crânio
Como se eu ainda
Tivesse
Lágrima.
 

 

 

***

 

 

 

Eu machuco o som
Com as unhas.
Cada gota é um soluço.
Finjo-o num devaneio ruim,
Ferido da minha memória.
E só eu o conhecerei,
No escuro atrás dos olhos.
Morreu na garganta uma letra.
O mundo não terá
Esse castigo.

 

 

 

***

 

 

 

Cada desvio podia ser o último.
Eu tinha sopro demais.
Eu tinha gotas de mágoa,
Saltos de susto.

Eu já não conseguia olhar nos olhos
E nunca aprenderia a jogar.

E as décadas que vieram eram ainda futuro,
Que tudo pode enquanto não é.

O sopro se dissolveu em nota
E os aros ficaram vermelhos.
E a liberdade me caiu pelos ombros quando pude sorrir.

O jogo se acabou pela metade.
Ninguém ganhou.

Morreu o medo ao espelho.

 

Milena Martins  é mestre em literatura brasileira pela Uerj e tradutora. Autora dos livros “Promessa Vazia” (2011) e ”Os Oráculos dos meus Óculos” (2014). É também cantora e compositora, autora do EP Flamboyant (2018). Publica poemas, fotografias e pinturas no perfil de Instagram @oraculos_dos_oculos. 

 

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Janela Poética IV

Alex Simões

 

Foto: Cristiano Xavier

 

cama de gato

 

nas voltas
que a poesia
nos dá
nos laços
e
nos nós
nas amarras
e
nos desenlaces
nas cordas
e
nas codas
eu faço versos como quem
faz uma cama
de gato

 

 

 

***

 

 

 

o albatroz brasileiro

para Paquito

 

um albatroz-de-sobrancelha-negra é o mais
brasileiro albatroz porque é tão malandro,
a ponto de ganhar a alcunha por meandros
tais, que coloca em xeque se irracionais
são eles ou se somos nós. senão, vejamos:
ele plana o litoral de Sul ao Sudeste,
mas jamais pousa no solo do Brasil, este
belo animal alado e baudelairiano.
talvez por precaução à fama de trollagem
que dão aos brasileiros em outras paisagens,
o pássaro sambou na rixa com a Argentina.
ganhou fama de ser o Albatroz do Brasil
de onde só se vê riscando o céu de anil,
mas só relaxa e pousa nas Ilhas Malvinas.

 

 

 

***

 

 

 

aquele que convoca uma assembleia

 

não há nada de novo sob o sol.
depois do coronavírus nos dar

tantos golpes, ceifar tantas possíveis
uniões afetivas, reuniões

fraternais, festas de tantas linguagens
artísticas, estamos nós aqui,

os que sobrevivemos, recontando
histórias dos que nos antecederam

para que nos iluminem, apesar
do horror, a memória e um inclemente sol.

 

 

 

***

 

 

 

QU4DR1LHA

 

João marcava Teresa que enviava a Raimundo
Num direct pra Maria que zapeava Joaquim que tuitava para Lili
Que não dava match com ninguém.
Raimundo, Maria, Joaquim e Lili estão em isolamento social
Marcando nas publicações e enviando para o zap que marcaram J. Pinto Fernandes
Que não tinha visualizado o Stories.

 

 

 

***

 

 

 

sonetos metidos a ingleses I

para Natan Barreto

 

falava 26 nesse teu sonho nosso.
talvez não fosse só dos meus alunos em
viagem além-mar em direção à Ítaca
saxônica. talvez fosse eu balbuciando
que o afeto, uma vez instaurado, jamais
se degenerará. se se perdeu, não houve.
e sinto que aqui há. o canto das sereias
da Ilha de Avalon tentou nos encantar.
mas não cantaram em vão, porque as escutamos
e dançamos a sós, cada um em seu sonho,
copiando em log books as notas dos solfejos.

 

 

 

***

 

 

 

astrolábio de sete faces (6a face)

 

fórmula: sangue, saliva, fio de cabelo ou sêmen, líquido amniótico, ossos, face, cu, dentre outros tecidos, entulho de amante, musa, silêncio, problemas, oxigênio, tapa-buraco, permissão progressiva, triz, sigilo, troca de segredos, treda ao lado, tecnologia, contas para viver melhor, conexos e conexões, odum, incêndio, puta dor, fúria e alta tensão no mundo, todos temos. no meu corpo, o canto.

 

Alex Simões é poeta e performer. Tem quatro livros publicados e uma série de poemas em antologias, coletâneas, revistas e sites nacionais e internacionais. Participa de importantes saraus, festivais literários e eventos multilinguagens na Bahia e fora dela desde os anos 90. No dia 5 de dezembro vai lançar “no meu corpo o canto: #experimentoscomletrasurbanas”, livro de artista em coautoria com o Coletivo Tanto Criações Compartilhadas.

 

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Janela Poética V

Felipe Fleury

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Esta manhã que não finda

 

quando o dia
tem sede

sorve o eclipse rubro
da manhã
em cálice de pedra

enquanto espera com paciência
balas escavarem epígrafes escarlates
nos seus olhos inflamados

é tiro e queda
antes do fim da tarde
choverá vinagre

sobre as terrinas
dispostas nos cemitérios
– o que nem sempre sacia a sua sede –

até as trombetas soarem
mais alto que as sirenas

anunciando o funeral
da mãe do natimorto

quando o dia tem sede
até o silêncio se tinge
de vermelho

não
não é o fim do mundo
ainda

É só esta manhã
que não finda.

 

 

 

***

 

 

 

Sem sombra

 

Penso nas pequenas deslembranças
para esconder as grandes demais.

Faço este verso mais longo só para ocupar minhas mãos:
que não escavem sob as raízes
memórias que não procuro.

A noite, embora escura,
não é seara do esquecimento,

é onde a memória trabalha em silêncio,
é quando a poeira da consciência
se amontoa sobre os meus ombros.

Ando então até ser de manhã,
– para cegar-me à luz do sol e enxergar
apenas o que os meus dedos tateiam –

pisando sem deixar rastros
chegando sem fazer sombra,

sem me saber,
nem sabendo o que se perdeu
antes do último passo.

 

 

 

***

 

 

 

Amniótico

 

Imagina a palavra,
se não grita.

Imagina se entala
no cimo da garganta,
entre o céu da boca e a língua,
no silêncio claustrofóbico
e úmido da saliva.

Imagina um paralelepípedo.
Imaginou? É isso.

Imagina agora por que chora
o recém-nascido.

 

 

 

***

 

 

 

Ubíquo

 

O mundo já aconteceu
e o indestrutível é só o que passou.

Torres erguidas são escombros à meia-noite
e o amanhã, mero adiamento do caos.

Nada o impede ou controla.
Vem grasnando pela frincha das horas:

O caos me sabe entre os dentes
e me devora.

 

 

 

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Apneia

 

Entre um poema e outro,
o que me aflige é a lucidez da cena muda:
o mato crescendo nos seus espaços,
onde tudo é silêncio e desperdício.

Prendo o fôlego dentro do poema
sem desistir de respirar, no entanto
– até o fim da apneia,
meus pulmões serão líquidos -.

Expelirei somente
o que não for algum delírio.

 

 

 

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Colapso

 

O que vive
é o que me inspira:

a mosca, voo interrompido
no aço da teia invisível;

o cotidiano da formiga
sob o passo apressado;

o peixe, espasmos de prata
no cabo de guerra invencível;

o inocente sobre o chão de corpos,
alvo fixo na parede de chumbo.

O que me inspira vai
até ao vão da vida

e desaparece no lapso
do instante inexorável.

Viver é sobreviver
até ao colapso.

 

Felipe Fleury é formado em Direito, funcionário público, reside na cidade de Petrópolis/RJ. Tem poemas publicados no e-book do concurso de poesias da Universidade Federal de São João Del Rey (UFSJ-2018), nas Revistas Literárias Contempo, Contexto, Mallarmargens e Ruído Manifesto, além de ter sido selecionado para integrar a antologia, “quantos players hoje – poemas do árcade ao console”, organizada pelas Editoras Patuá e Fractal. Coorganizador dos saraus poéticos: Saracura e Sarauema. Instagram: @felipefleuryffc.

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Adriana Linhares

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Haverá um tempo de linhas imprecisas
onde não importa o princípio e a saída
e tudo se arranjará tão bem
como num embrulho de quereres
amplo e desorganizadamente eficaz.
O outro será descomplicado como você
qualquer outro será o seu amor
como num bloco de carnaval
sem interrupções

 

 

 

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Uma vez que pretendeu encontrar sentidos
passou a se esgueirar ao sol
sem pressa, pouca ânsia
horas desmarcadas
terreno, terreira
trinta e tantas luas novas.
Uma vez que não desviou veredas
foi levada avalanche
vendo, absorvendo, umedecendo
resrespirando
grão de areia e pétala
queda d’água sem método.

 

 

 

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Subterrâneo

 

as minúcias que sua cidade vomitava, a deixava de boca aberta
é talvez um acerto não ter postura ereta
diante da síndrome dos mais vendidos clássicos,
da argamassa de história que chapisca os prédios de mais de 200 anos,
diante das formas de vida que transitam atônitas,
em correrias irrecuperáveis
ela ainda se admirava de ter terra em que gostasse de pisar

para não atropelar a si mesma escrevia:

– busque compreender o crescimento do manjericão
– beba licor a cada vez que o cachorro do vizinho de solidão chorar
– entenda que a entrega é a fisiologia do presente

despejar anotações nos olhos era como ter um santuário nas mãos

na cidade que late nervos e bengalas, o subterrâneo também é sustento

 

 

 

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adormecer como fuga da monotonia agreste dos súbitos enganos
o repouso das ansiedades encardidas, dos despreparos de ser e estar

incumbir-se do real era algo escorregadio como fruta que ao cair se mistura no solfejo dos insetos
ampliar-se no real era como diluir-se em si mesmo
paisagem de tropeço e pequenas glórias trêmulas

aranhas fazem trilhas sobre a sacada
há quem ache desnecessário reparar nelas
no entanto elas arrancam minha atenção em confraria
mostrando que a vida miúda também hipnotiza

há algo dentro que ainda não sei definir ou nunca saberia
algo que às vezes ouso perfurar
que às vezes precisaria dizer a mim mesma mas esqueço pois tenho aquela compra do mês pra fazer

autoqueixa translúcida
organismo penitente e selvagem
gama de enigma que não cessa
que não sabe converter brevidades
e pôr em punho disfunções

quem haverá de me tecer ou o quê?
o que há de regular ou revirar?
não caibo nesses dias letivos repletos de filtros

 

 

 

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aglomerava seus segredos ao relento
eles às vezes entupiam sua espinha
silêncios substanciais
ancorados na couraça da ausência

se sentia só quando escutava os sons de jogos na antessala da memória
quando anunciavam seu nome completo pra participar de algo
e no exato momento que terminava a música do Milton,
sentia uma solidão tão alucinada
como se nada mais concedesse respiro
apenas os trechos extensos e sacanas dos poetas beatniks
o jeito rústico de quando a lua se alinhava com sua vênus no mapa astral
ou a maneira agridoce que aquela confidência atravessava certeira sua procissão de pensamentos

parecia que nada mais merecia castigo do que esses tempos em que as pessoas não se enviam mais cartas

 

 

 

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A vida reconciliada
potencialmente desvairada
às vezes no banco de trás
explodida nossa
lançada sem disfarce
no subúrbio dos ímpetos
desmemoriada e fatal
sequestrada do rebanho
contrariada no afeto
organizada sem autoridade
ofuscada com detalhes

A vida exatamente não literal

 

Adriana Linhares nasceu no Rio de Janeiro em 1982. É poeta, arte-educadora e mãe da Selena. Publica seu primeiro livro de poesias “Atrás do não-dito” em 2019 pela Fólio digital e participa da organização de saraus e do editorial do Fanzine Poesia Espiral desde 2005. Atualmente é mestranda no Programa de Pós-graduação em artes na UERJ.

 

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140ª Leva - 07/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Sara F. Costa

 

Foto: Cristiano Xavier

 

deixa o sol curar as cicatrizes de inverno
o céu cinzento verte das veias,
abre golpes nos poemas suburbanos.
olhos sem fogo engolidos em noites
que são rastos, que são desordem
que são pictogramas imóveis
na linguagem corporal.
deixa o silêncio relatar as memórias,
os poemas que surgem em sonhos
e que surgem nos bares, oferecem um cigarro
oferecem uma cerveja caseira
num fôlego sem pátria, sem fronteira,
sem bandeiras hasteadas na existência.
sentamo-nos numa ponta da eletricidade
e acabamos a comer shaobing
a ayi tem um rosto claro,
ilumina a escuridão do pensamento
trago os dedos gelados à boca
em breve acordarei em casa.

 

 

 

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Portugal é um segredo escondido na garganta,
é um licor muito forte entre os músculos e o poema.
livros enevoados desdizem a lógica subterrânea do medo.
um homem que amei encontra-me em espírito ainda viva
como o Genji encontrou a Sra. Rokujo.
voa em direções contrárias à minha personalidade.
o poeta organiza os enigmas em forma de dorso
para manter o segredo
mas a Murasaki escreveu a história da minha vida há um milénio.
a viagem do espírito fez-se num Boeing 777.
acima das nuvens, não vejo horizontes.

 

 

 

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tenho um animal sentado entre as sílabas,
ruge pela estética
trouxe-o no avião comigo para a China.
caminha pelos anéis da cidade,
fareja o nevoeiro de agosto,
pontua os poemas.
cresce silencioso no ventre cego
até à Cidade Proibida
onde vai dilacerar impérios
e invadir noites inteiras.
trago um animal que lateja pelo esgotamento
abre-se em forma de esfinge,
esconde-se entre as fissuras urbanas do poema.

 

 

 

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ela deita-se todos os dias contra a própria boca
como um arquipélago imóvel,
o nome ancorado ao desafio,
as pernas abertas em forma de espelho.
todos os clientes são válvulas:
deixam-na abrir-se ou obrigam-na a fechar-se
deixam-lhe no quarto turbulências –
por vezes não sabe se é carne ou se é um contentor.
quartos inteiros de sémen em todos os pesadelos
corpos mergulhados em si mesmos
é um crime definitivo
que não sai com as lavagens,
mesmo que se lave sete vezes por dia.
“vagina de betão”, descreve-se, como ao resto da cidade.
por vezes fala de uma criança que lhe mora na garganta
nascida numa vila em Sichuan,
garante que é ela quem chora convulsivamente antes de dormir.
da janela do motel lê “Crescimento Pacífico”
e é assim que se deixa estar,
crescendo apenas
até desaparecer.

 

 

 

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entro na biografia das ruas,
desaperto o vocabulário,
falo um mandarim rouco
como a forma do sino na torre.
Gulou dança elétrica nos nervos dos forasteiros,
artistas nas veias da noite
olhos violentos no êxtase vagaroso
das linhas de metro.
um velho come uma chuanr
enquanto outro velho a cospe, audível
cuspo também o peso sinistro
da mulher que vende cigarros,
há uma claridade que se desaperta do seu rosto
é um néon sinográfico,
hutongs gravitam em torno das árvores
que gravitam em torno da confusão dos turistas.
um Bentley bloqueia o estreito caminho
que vai dar à casa onde o poeta se embebeda.
ainda não é meia noite, mas já há música
endireitamos a cobra que nos desce da respiração
e lembramos que ainda é dia no país de onde viemos.

 

 

 

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fala mais alto acerca das estratégias de sobrevivência
para que a criança te possa ouvir.
fala da forma como os dedos de prata genéticos
podem ajudá-lo em dias confinados
às ambições das outras pessoas.
nós somos tão fortes quanto a repetição
dos dias que aceitamos.
tu estavas a brincar com os teus amigos
e o pequeno Xu bloqueou-te passagem –
ele achava que era uma cortina.
ora, se ele fosse realmente uma cortina,
ficavas assim tão zangado?
anda para a mesa da cozinha
antes de nos começarmos a conhecer
e não tenhas inveja:
somos muito menos estrangeiros do que
o homem à porta com as encomendas.

 

Sara F. Costa nasceu em 1987 na Vila de Cucujães. Licenciou-se em Línguas e Culturais Orientais pela Universidade do Minho e tirou o mestrado em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin. O seu último livro “A Transfiguração da Fome” obteve o Prémio Literário Internacional Glória de Sant’Anna para melhor obra de poesia publicada em países de língua portuguesa em 2018. Tem poemas traduzidos e publicados em publicações literárias um pouco por todo o mundo. Faz crítica literária e traduz poesia chinesa para português. Coordena eventos literários no coletivo artístico internacional Spittoon.