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85ª Leva - 11/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Julia Debasse

O flerte com a inquietude nos toma de tal maneira que tudo parece nela se fundar. Por vezes gentil, noutras tenebrosa, esta senhora se espraia de modo mais intenso do que supomos. E vais mais além, cria ramificações ao ponto de notarmos que, sem ela, muita coisa em matéria de criação não sobreviveria aos mínimos lances do tempo. Basta um simples gesto e logo estamos dependentes de seus comandos, todos eles a ditar o modo como gestar as obras. Ao pensarmos na construção de uma nova Leva da revista, raramente nos vem em mente a presença absoluta e centralizadora de um tema qualquer. Pelo contrário, buscamos aquilo que emana das criações de então, estabelecendo uma via de mão dupla, ciclo constante a retroalimentar nossos ímpetos editoriais. Mas até mesmo esse desejo de sempre impulsionar a aproximação de novos colaboradores e seus feitos deriva dos arremates da inquietude. O termo vem a calhar diante de manifestações criativas como as da artista plástica Julia Debasse que, com seus desenhos e pinturas, opera um efeito de diálogo com o mosaico de textos que ora apresentamos. É possível perceber isso na convergência tida em torno dos poemas de Gustavo Petter, Mar Becker, Fred Matos, Marcantonio e João Filho. No caminho que exala densidades, os contos de Állex Leilla, Sérgio Tavares e Lara Amaral nos falam de coisas entranhadas nos recônditos humanos. O escritor e editor Floriano Martins partilha conosco uma conversa com a cantora Elaine Guedes. Aos olhos de Silvério Duque, o novo livro de poemas de Heitor Brasileiro Filho é verdadeiro convite à leitura. As impressões sobre o filme “Frances Ha” estão registradas nas linhas de Larissa Mendes. Evocando a obra do escritor Whisner Fraga, Anderson Fonseca e Mariel Reis assinalam seus olhares. No girar de nosso Gramofone, as escutas estão voltadas para “Recanto”, trigésimo disco da vigorosa carreira de Gal Costa. Assim, pautamos a construção de mais uma edição, certos de que ao menor esboço de ausência da inquietude, saberemos que algo está fora da ordem natural das coisas. Sendo improvável tal falta, nasce e resiste uma 85ª Leva. Boas leituras a todos!

 

Os Leveiros

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

João Filho

 

Arte: Julia Debasse

 

 

 

NITIDEZ SUBMERSA


Nos sapatos confortáveis
um pouco velhos e gastos
a fuligem das cidades
redesenha o seu mapa.

Não me venham com saudades,
sombras, vultos e fantasmas,
o peso e a profundidade
das coisas não nos sufocam.

Dos caminhos caminhados
— avenidas, becos, praças —
multidões tumultuosas
na fuligem dos sapatos.

Pó do mundo respirado
em seu tédio corrosivo,
não escapam os voos altos
das naves mais arrojadas.

Na verdade, nada escapa.
É preciso a cada istmo
contra essa névoa cegante
renovar o gesto limpo,

porém não lave os sapatos,
não porque registre tantos
itinerários, andanças,
mil labirintos urbanos, a

fuligem aí pousada,
cartografia amorosa,
indica veios, filões
dessa nitidez submersa.

Alargue as tuas pupilas:
paciência ao inspecionar
cada trecho dessas nódoas;
nos interstícios, estrias,

nas grafias do diáfano,
se entrevê pela fuligem
a clara sustentação
dos fios frágeis do mundo.

 

 

***

 

 

SALVADOR, 1996-2013

 

Dos acidentes que a modelam
em luz e sal, essas escarpas
são os desenhos que mais pesam,
a vida em queda dos sem mapa.

Ali do alto, que é abrupto,
a cidade é curva contínua,
sinuosidade negativa,
abre-se em praias e ravinas.

Disseram gorda em seu amplexo,
digo salitre, vento Atlântico:
salga e apodrece em paradoxo.
Aqui se canta um velho cântico:

lá no São Bento, anjos mulatos;
em toda cúpula e pilastra
pesam arcanos e Evangelhos,
da vida menos a mais vasta.

No Santo Antônio Além do Carmo
o casario nada ensina;
sim, a não ser o som amargo
do que ruindo contamina.

Tudo externado? Não o âmago,
por isso engana quem a vê
cidade-entrega, as cores gritam
em cada esquina o seu não ter.

A precisão só vem de cima —
luz em ladeiras, luz marinha,
a luz em flor, a que combina
a dor do nu, o mel da vinha.

 

 

***

 

 

Para José Luís Franco

 

Esteve aqui, durante a tarde e nunca mais…
E lenta, lentamente, sua ausência cresce.

Mais uma. Porém, perdas não são sempre iguais,
e o tempo, irmão, nem tudo amadurece.

Dói e assusta qualquer resquício de presença,
falta é peso e não vácuo e silêncio,

pois arrastamos nossa carga imensa
nesta margem extrema que nos vence, e o

que temos e tocamos é tal solidão,
e mesmo as coisas mais amadas são amargas:

os valores sem níquel perdidos ou não:
dedicatórias, fotos, versos, as recargas

da memória tão vária na mesmice.
A carne arde só e não há lágrima

para dessedentá-la. Luz franca sem lástima.
No travo dos adeuses fica o que eu não disse.

 

 

***

 

 

DIDÁTICA

 

O áspero poema? Não mais quero.
O inviável abismo? Já descri.
Foi com inabalável esmero
que duramente me persegui.

Se tudo é insuficiente, espero.
O instante vence o tédio, senti.
Se a valsa mudou-se em bolero,
o ritmo pouco importa, vivi.

Pelo tropeço suavizei o passo.
Seu corpo é o sentido que devasso
devagar, como quem respira.

Gota que se equilibra suspensa —
a vida. Mínima que é imensa,
quando pensa que é real, delira.

 

 

***

 

 

LUZ PRIMEIRA

 

É possível que tão inquieto quanto este,
menos o acúmulo de desacertos de sua rota,
mais o céu primevo
e o azul bruto.
É provável que já fosse isto,
porém tosco a palmilhar seu sentido
e se assombrasse de estar desperto na disposição geral de tudo;
melhor não, nem mais puro,
não isso,
talvez intactos alguns caminhos,
e a relva e as águas e os bichos
fossem realmente mais livres.
A luz primeira veio com o primeiro grito,
e o invisível foi o medo mais duro,
porque o visto era em sua metade crível;
ao perceber que negar não era resolver,
a morte
foi o mistério mais agudo.

 

 

(João Filho nasceu em 1975, em Bom Jesus da Lapa/BA. Participou de algumas antologias, dentre elas: Contos sobre tela, Editora Pinakotheke, 2005, Brasil; Terriblemente felices. Nueva narrativa brasileña, Emecé Editores, 2007, Argentina; Travessias singulares – Pais e filhos, Casarão do Verbo, 2008, Brasil; Geração Zero Zero, fricções em rede, Língua Geral, 2011, Brasil; Popcorn unterm Zuckerhut, Verlag Klaus Wagenbach, 2013, Alemanha. Publicou Encarniçado, contos, Editora Baleia, 2004; Três sibilas, poesia, Dulcinéia Catadora, 2008, e Ao longo da linha amarela, contos, P55, 2009)

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Mercedes Lorenzo

Erguer uma nova edição é, de certa forma, deixar-se conduzir pelos imperativos de um fluxo especial de comunicações. Nessa perspectiva, dois pólos mostram-se intimamente relacionados: a manifestação espontânea dos criadores, através do interesse em terem suas obras apreciadas e, do outro lado, a busca própria da revista pelo conjunto de expressões que melhor se identifiquem com sua linha de publicações. Desse equilíbrio de ações, surgem descobertas significativas as quais reforçam o valor dos encontros, aspecto tido como essencial em nossa jornada editorial. Não haveria sentido em tocar o projeto adiante se, diante de tais convergências, não fosse possível estabelecer uma conexão de linguagens múltiplas e consistentes. Mais do que uma proposta supostamente ordenada de resultados criativos, estamos sempre à procura de epifanias que permitam a transgressão. E transgredir sugere um algo muito além de uma mera quebra de barreiras. Aponta também para a capacidade que uma determinada obra possui de deslocar nossas leituras de mundo para lugares desabitados de obviedade e inércia. Basta observar detidamente a verve poética de gente como Carla Diacov, João Filho e Carolina Caetano para percebermos que o “modus operandi” da criação reflete um teor singular. Contribuem também para o ambiente onde os versos denotam um cuidado valioso com forma e conteúdo as manifestações de Diego Tardivo e Silvério Duque. No campo das imagens, as fotografias de Mercedes Lorenzo retiram da matéria cotidiana os vestígios deixados pelas complexas andanças humanas. Há substância, entrega e domínio textual que roubam a cena na prosa de Alice Fergo e Yara Camillo.  Na Pequena Sabatina ao Artista, o poeta e editor Floriano Martins estabelece um diálogo musical vigoroso com o cantor e compositor Graco Braz Peixoto. Em sua resenha sobre o filme argentino “Elefante Branco”, Larissa Mendes pontua o denso apelo social presente na obra. W. J. Solha nos propõe um percurso pelos ensaios e poemas dispersos em “Psi, a penúltima”, livro de Soares Feitosa. Outro valioso convite à leitura nos é apresentado pelo escritor Geraldo Lima, quando discorre sobre o novo rebento literário de Vera Helena Rossi. O dramaturgo Paulo Afonso de Souza Castro expõe reflexões e perspectivas em torno do teatro. Em nosso gramofone, giram as canções do segundo disco de Tulipa Ruiz. Eis uma nova Leva, caro leitor, coberta de signos e outras tantas vias por descortinar.  


Os Leveiros

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

João Filho

 

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

 

ESTAMPA

 

01

 

Sempre falta alguma coisa
feito saída de viagem,
porém nada foi esquecido,
definitivamente certo:
sempre falta alguma coisa —
no vôo errático da ave
em busca, no acúmulo de
atos, na escolha do vário,
no acatamento do imenso,
na recusa da identidade,
ou disso tudo o contrário, mesmo
que não veja, falta alguma
coisa, que se concretiza em
trajeto ou imobilidade.

E essa falta integrante do
ser que ao Ser aspira ergue com
sua falha uma divisa
onde se apoia, um momento,
e é toda a sua cantiga.

 

02

 

Sei que esperamos, sei.
O sonho que se desata?
Na sala o terror súbito?
O até aonde nos for dado?
A Volta em julgamento?
Quem apressa a data sai
de dentro da esfera; quem
cada momento amarga,
ainda espera: a possibilidade
aberta que deságua em
Atlânticos de sentido,
no sempre espanto ou no
todo apagamento.

A espera e as suas leis,
a sua disciplina
austera e demorada, aqui nesta
brevidade que nos é
dolorosamente doada.

 

 

***

 

 

IMPONDERÁVEL

 

Quando nosso deus envelhecer
virá uma morte maior, de
nada adiantará os colossos
erguidos nas planícies e nos

desertos, nas montanhas sem fim
de nossa alma em sua jornada
agônica pelos séculos;
de nós salmo nenhum ao vento

dirá se fomos loucos ou belos;
porém no espelho insondável e
eterno, além de nossa pobreza
e vaidade, quem há de constatar

que nossa estadia não foi um
capricho? Nós, os imponderáveis.

 

 

(João Filho plana no blogue voo sem pouso e já assentou em várias antologias pelo Brasil adentro e afora. A última foi Geração Zero Zero, fricções em rede, organizada por Nelson de Oliveira. Individualmente pousou três vezes, em 2004 com os contos de Encarniçado, em 2008 com os poemas de Três sibilas, em 2009 com os contos de Ao longo da linha amarela. Espera que o seu pouso definitivo demore muito, até cansar as asas)