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76ª Leva - 02/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Silvio Crisóstomo

O que dizer dos vestígios que deixamos em vida? Na profusão dos seres, cada acesso percorrido sugere um arremesso. A medida inexata das profundidades flerta constantemente com os mergulhos a que nos propomos. Assim, vamos tentando alguma pista sobre nós mesmos, quiçá um entendimento sobre o que reter da jornada errante. O expelir das palavras pode nos auxiliar nesse exercício de transitar pelos lugares todos. Talvez a capacidade de abstração seja a possível cura para alguns cruciais desfoques do olhar. Enquanto somos impelidos à busca, a leitura dos sinais aparece multifacetada em toda a sorte de trajetos. Ao mesmo tempo em que viver é se deparar com as manifestações ululantes daquilo que temos em conta como sendo o real, o emaranhado de nossa subjetividade enreda laços para o fugidio descompasso dos instantes. Então, nos é dado o abrigo do sonho, não como um refúgio premeditado, mas como vias de reinvenção da existência. Daí, encontrar artesãos da palavra que sabem o gosto que tal missão encerra. Na Leva que apresentamos agora, a entrevista com o escritor paraense Vicente Franz Cecim dá-nos um pouco da dimensão disso tudo. Tendo como cenário de sua obra a mítica Andara, Vicente descortina outras camadas dessa complexa e misteriosa experiência que é o estar-se vivo. Entre textos e seus múltiplos signos, somos levados pela exposição das fotografias de Silvio Crisóstomo, cujo trabalho confere um denso e especial olhar sobre a cidade de São Paulo. Os ventos poéticos de então sussurram marcantes sinais nas escrituras de Joelma Bittencourt, Heitor Brasileiro Filho, Eduardo Lacerda, Karinne Santiago, João Urubu e Sandrio Cândido. Enlaces do cotidiano, os quais nos marcam a ferro e fogo, estão presentes nos contos de Carla Diacov e Rodrigo Melo. Nesse terreno, ainda há espaço para a veia fabular do argentino Fernando Sorrentino. Num convite à leitura, a escritora Márcia Barbieri propõe um percurso pelo romance de estreia de Halley Margon. Larissa Mendes desfila impressões sobre o mais novo disco do cantor e compositor Otto. A produção americana Moonrise Kingdom é tema da resenha cinéfila de Bolívar Landi.  A 76ª Leva prenuncia seus novos mergulhos. Sejam bem-vindos, caros leitores!

 

Os Leveiros


 

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76ª Leva - 02/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Joelma Bittencourt

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

Sobrevoo em mar íntimo

 

Tem dia que só acontece
na concha das mãos

trilha escondida
labirinto sem mito
passagem secreta para mundo
onde a voz tem som de mar
límpido
sem ondas
sem sal
sem naufrágios

e o olhar é gaivota
à espreita da hora certa
de mergulhar.

 

 

***

 

 

latrodectus

 

sei o que tens
em tua íris
palavra
de instinto aracnídeo

tece
prende
mata
devora

digere o bardo
com tua libido

 

 

***

 

 

guizos e mordaças

 

laços dão-se
nós e pesam
no estômago

a profilaxia
atordoa
o bom senso

a ebriedade
não brinca
de bacante

reza o mito
desconsagrado
e impuro

: o amor
finge-se fingir

 

 

***

 

 

matéria

 

a mesma carne
que ama
é vil
quando rejeitada

líquor
: o outro nome
da alma?

 

 

***

 

 

lírica explosiva

 

o hipotálamo
rende-se
ao olor
da úmida
flor
que lhe acena
entre coxas

e erotizado
fode com
meu juízo

 

 

(Joelma Bittencourt é paraense. Formada em Letras pela Universidade Federal do Pará. Dedica-se ao ensino de Linguagem. Sua relação apaixonada com a poesia dá-se pela necessidade de exteriorizar sensações e imagens que lhe acometem. Além de assinar os textos com o próprio nome, utiliza o pseudônimo Acqua, quando aborda temáticas mais densas. Publica seus poemas nos blogues pessoais Transfigurações e Negrume, e nos sites coletivos Poesia: Falsidade Ideológica, Dardo, Poetas Vivos)