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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 Jorge Mendes

 

Foto: María Tudela

 

SOBRE OS OMBROS DO VENTO VELOZ QUE ME LEVA

 

ontologia voraz

 

o tempo tem dentes afiados e come pelas bordas. você não percebe o estrago, a erosão abrindo buracos escuros no peito e pratica esportes monocromáticos, se socializa com os vermes, decora as senhas. segue o esquema. o tempo é um bom cão de caça e se alimenta de sombras e psicopatologias. você sente calafrios, flutua entre nuvens desidratas, faz pactos com a insolvência, é seduzido pelos que sabem manipular o gelo. o tempo tem os olhos de vidro que embaçam e hipnotizam e você não está vivo nem morto e ninguém dá a mínima. o tempo sofre do vício em adrenalina e vertigens. o tempo sussurra em seus ouvidos o primeiro nome do inimigo e engatilha a pistola nos seus tímpanos. o tempo está parado na esquina vendendo relógios, negociando destroços e doenças de pele. o tempo acumula rancores e vaidades em caixinhas espelhadas. o tempo entra no mormaço, trava o coração. o tempo tem as pontas dos dedos geladas e um manto negro sobre os ombros. o tempo vai domesticar todos os sonhos, corromper a natureza dos pássaros. o tempo é o outro, todos os outros.

 

 

 

***

 

 

 

sitiado

 

cercado por bichinhos de estimação, orquídeas rancorosas e teorias motivacionais. cercado por perfis megalomaníacos, necrológicos recreativos e hinos de louvor. cercado por incensos e britadeiras. cercado pelo bizarro, por imagens da destruição e helicópteros. cercado pelos cães da polícia militar, gerentes do tráfico e garotas anoréticas que me monitoram pelo google. cercado por flores de perfumes degradantes, por pássaros autistas, gatos obesos e crianças em tons de cinza. cercado por energéticos, depressivos, anticorrosivos. cercado pelas vozes dos alto-falantes, por fogos de artifício, pelos gritos e tiros de ar-15. cercado pelo mormaço, pelo frio calor. cercado por corpos e objetos que provocam dor e fazem sangrar. cercado por máscaras, próteses, luvas de borracha, gadgets e metáforas da carnificina. cercado por deuses de plástico e caixas de supermercado. cercado por passeatas e paredes, orixás, gases lacrimogêneos e erva daninha. cercado pelo invisível horror e por todo o lixo que existe ao meu redor.

 

 

 

***

 

 

 

necrosociety

 

é preciso acalmar o medo com voos panorâmicos no elevador de vidro, próteses sensoriais, tabletes, ansiolíticos. é preciso acalmar o medo levantando peso, clareando os dentes, eliminando gordura. é preciso acalmar o medo com mantras, mentiras, hinos de louvor, esgoto, efusões de ervas mágicas, gadgets. é preciso acalmar o medo bebendo do veneno incandescente. é preciso acalmar o medo no comércio dos corpos, na sala escura com aparelhos de tv, indo dançar com os trapaceiros. é preciso acalmar o medo negociando com os deuses e os demônios da dissimulação, com doses cavalares de tédio e tinturas para o rosto. é preciso acalmar o medo com alvejantes, sucos de clorofila, recebendo propinas e espíritos da maledicência. é preciso acalmar o medo com barbitúricos líricos, falcatruas, câmeras de segurança, estelionato. é preciso acalmar o medo molhando de sangue, suborno e miséria as mãos dos homens públicos. é preciso acalmar o medo ficando rígido e desidratado. é preciso acalmar o medo como fazem os cadáveres.

 

 

 

***

 

 

 

addiction blues

 

ela diz que sou feio, confuso e indiferente à luz do sol e tenta me prender dentro do cubo de gelo. ela simula caridade e ataques cardíacos pra que eu entre em transe e frite na fervura. em seu planetinha corrosivo existem plantas carnívoras, tempestades elétricas, cocaína. ela corrompe minha natureza de pássaro, me passa malária e os barbitúricos. ela se finge de morta e eu só no conhaque. ela lê o que escrevo sentada só de calcinha na mesa da cozinha e diz que não tem tempo nem paciência prus meus paradoxos e viagens suicidas ao redor do fogo. ela ri do meu medo, me aprisiona em espelhos que são frios frios frios. ela me leva pru fundo do mar e me deixa anêmico, aflito, incomunicável. ela tem um jeito de mexer nos cabelos curtos que desestabiliza as sólidas estruturas. ela me olha de longe, sem piscar, e ainda dói. ela me beija com desespero e ternura, ela me ama com tigres e punhais, ela corrói meu voo de ícaro, apaga meus passos, me abandona em labirintos, acende meu desejo, morde meus mamilos e é por isso que eu bebo.

 

 

 

***

 

 

 

ininteligível       

 

existe algo de sublime e sujo no amor. algo que faz o assoalho tremer e que incomoda a vizinhança. existe algo no amor que fura a pele e deixa rastros de sangue pelo chão da cozinha. existe algo no amor que provoca febres, corrosões, desmoronamentos. existe algo no amor que embriaga os pássaros e nos faz dançar violentos e descontrolados ao redor da fogueira. existe algo no amor que é doce, ácido, incandescente. existe algo no amor que alucina, causa sonambulismo, desafia a gravidade e faz voar. existe algo no amor que provoca espasmos, psicoses, infecções e ainda goza. existe algo no amor que cavalga os ventos, arranha a carne e as paredes, corta os cabelos bem curtos, abre oceanos e produz cegueira e uma severa forma de dor. existe algo no amor que não tem cura, que é loucura, perversidade e canibalismo. existe algo no amor que dispensa explicação.

 

 

 

***

 

 

 

chroma key

 

um romance parecido com filme super 8 e rastros de fogo. um romance com hálito de vodca, com formigas correndo na corrente sanguínea, pista magnética e flores carnívoras. um romance que solte as mãos na curva fechada, que abra asas quando pular do décimo segundo andar. um romance atravessado na calçada atrapalhando os pedestres. um romance sem dia seguinte, com olheiras fundas e olhar obstinado. um romance volátil que levite sobre os incêndios. um romance com os cabelos molhados pela tempestade, que solte faíscas e choque elétrico a cada beijo. um romance inesperado, sem ponto final, que comece pelo fim, que encante meu corpo e me faça dançar o blues.

 

 

 

***

 

 

 

sobre os ombros do vento veloz que me leva

 

talvez não haja tempo nem paciência pra esperar pelo sol. preciso acender fogueiras e deixar o fogo se alastrar. a garota linda me ama e me odeia e mora longe numa casa cheia de gatinhos psicóticos. eu encaro paredes, minto pru chefe e pru sub-chefe e de noite viro dragão da lua e faço sobrevoos. existe dor nas coisas que toco com a ponta dos dedos, pessoas insalubres no fim do arco-íris, dissonâncias e tempestades que não me deixam mentir. sigo só de encontro ao inimigo. por livre e espontânea vontade caio em todas as armadilhas. sou fraco para os cálculos. talvez não haja amor, doses de conhaque, neblina e manhã seguinte. preciso ir.

 

 

 

***

 

 

 

devir

 

para o medo da morte doses cavalares de adrenalina e nuvens. para o desejo que arde fogo alto, brasa viva, solstício. para o beijo outro beijo outro beijo outro beijo. para o sangue que corre pelas veias oxigênio e matilha. para os olhos andrômedas, luas de virgem, calafrios. para o passado, o presente e o futuro as águas dos rios, a dura luz do dia. para todas as coisas que existem e para as que estão por vir o fundo do mar, a matemática do sol, a pureza do sal e o que escrevo aqui sozinho.

 

Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.

 

 

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98ª Leva - 01/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

É tempo de continuar os caminhos. Levar adiante a primeira investida editorial do ano traz consigo um sentido de renovação de ânimos. Abertas estão as escutas para que outras tantas vozes consolidem por aqui o ideal essencial de diversidade. E assim o maior desejo que rege os instantes é o de promover encontros em torno da arte. Poder harmonizar as energias que atravessam textos e imagens favorecendo um mosaico vivo de expressões múltiplas. Erguer uma edição da revista representa agregar individualidades rumo a um norte coletivo que não se dilui pelo caráter da heterogeneidade. Por mais que cada colaborador traga sua carga pessoal e distinta, algo torna o resultado final curiosamente dotado de um equilíbrio. Nunca houve uma espinha dorsal premeditada quando a intenção era a de solidificar uma determinada leva. Autores e artistas se aproximam ou são convidados e, a partir disso, a convergência de atuações segue fluxos de naturalidade como se um único e permanente tema se apresentasse: a busca pela qualidade. Cada criador que por aqui desfila seus verbos e imagens cristaliza a identidade da revista. Hoje, é tempo de percebermos o que nos dizem as vozes poéticas de Carla Carbatti, Roberto Dutra Jr., Neuzamaria Kerner, Alexandre Guarnieri e Mariana Fernandes. Oportunidade de percorrer as densas linhas dos contos de Márcia Denser, Jorge Mendes e Lia Beltrão. Lermos o que o escritor Rafael Mendes tem a dizer sobre seu engajamento literário numa entrevista capitaneada por Sérgio Tavares. Por seu curso, Igor Fagundes resenha o novo livro de poemas de Alexandre Guarnieri. A conturbada trama do filme “Garota Exemplar” encontra respaldo nas anotações de Larissa Mendes.  O escritor Gustavo Rios fala de suas impressões sobre o mais novo disco da banda de punk rock Pastel de Miolos. Os recentes lançamentos poéticos de Geraldo Lavigne recebem a leitura atenta de Jorge Elias Neto. Entremeando os trajetos da nova edição, as fotografias de Pedro Alles remontam às nossas complexas paisagens humanas. 2015 pede passagem trazendo junto uma vasta gama de perspectivas. E os caminhos apenas estão no seu início. Seja bem-vindo à 98ª Leva, caro leitor!

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98ª Leva - 01/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Jorge Mendes

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

suíte para amores em estado de ebulição

 

errática

o amor tem tudo pra dar errado e você descalça, sem sutiãs, de cabelos curtos, exorcizando a luz do sol. o amor tem tudo pra dar errado e seus olhos grandes e persecutórios sobre mim, a cidade e suas febres, seu corpo por cima do meu. o amor tem tudo pra dar errado e você levitando no vapor, sua voz praticando malabares com as proparoxítonas, os sintomas, os sinais e os arrepios da sua língua. o amor tem tudo pra dar errado e você dança no fogo desconstruindo sombras, apagando as coisas ao redor. o amor tem tudo pra dar errado e mesmo assim o salto, o passo no lugar escuro. mesmo assim sopro no seu ouvido minha palavra brutal, seguro sua mão e você sorri e entende o lance.

……

anamnese

estou envolvido com essa doença chamada amor. as corais brancas da vodca, a bola oito na caçapa do meio, bar do paraíba às cinco e meia da madrugada. baladas de simon & garfunkel, o silêncio que sai dos corpos. estou envolvido com essa doença chamada amor. a chuva contra o meu rosto, os demônios da demolição trabalhando duro dentro do peito, o medo nos olhos fixos do anjo de vidro, o tifo epidêmico na pele de gesso. estou envolvido com essa doença chamada amor. o calor da febre na ponta da língua, o torpor nas pontas dos dedos, as flores de plástico dentro do copo com água e açúcar, as pedras dentro da cabeça. estou envolvido com essa doença chamada amor. as espirais de fumaça do cigarro, os medicamentos do entorpecimento, as longas horas diante da geladeira, as paredes. estou envolvido com essa doença chamada amor e não sei se tenho cura ou se escapo dessa com vida.

……

claro enigma

o que existe em você que me entorpece? qual palavra elétrica pronunciar? seu corpo salgado e sem sombras aparece dentro de meus sonhos causando erosões. o que existe em você que me paralisa? onde extrair o veneno? você sairá das águas e me fará voar entre os prédios mais altos? irá gritar meu nome na tempestade? sentirei dor? o que existe em você que me seduz e me faz suar frio? onde encontrar o pote de ouro? ouço seu nome no fundo do mar. você irá morder meu desejo, evaporar minhas tristezas? o que existe em você que perverte os sentidos? deixa mudo meu português caótico, invade e destrói territórios e os ambientes tóxicos? serei morto pelos fabulários? morderei do fruto? serei um outro? o que existe em você que me deixa volátil e lírico? o que existe em você que me apaga o medo, me faz voar entre corvos, sorrir prus que me desprezam? o que existe em você que me acalma o incêndio, ilumina as trevas, desanuvia o domingo e me deixa assim quase feliz?

…….

das necessidades do amor

você precisa de adrenalina e eletricidade pra desobstruir  o ar dos pulmões. você precisa mastigar com dentes de fogo a imagem congelada. você precisa sangrar até perder os sentidos e estabelecer paradoxos. você precisa decifrar o gelo e os signos da carnificina. precisa conhecer os homens ocos do t.s elliot. precisa deixar de ser crisálida e virar pássaro em chamas. você precisar deixar de lado os renascentistas de pedra e mergulhar de vez no atlântico. você precisa levar choque térmico nos mamilos adormecidos e acender as luzes do quarto escuro. precisa desligar o automático, entrar em curto-circuito. você precisa virar clave de sol, romper a barreira do espelho, cortar os cabelos, abrir asas e alçar vôo seja lá pra onde for, meu amor.

…….

sim!

se você esfaqueasse o orgulho numa noite fria e saísse correndo nua na tempestade, se você sorrisse na cara do carrasco, se colocasse na boca e comesse o desejo dos pássaros, se você saísse das águas com flores nos cabelos e ressuscitasse os mortos, se você incendiasse o sangue de todos os poemas, se fizesse explodir os bancos e desaparecesse na cidade em chamas, se você tivesse os olhos vazados pela luz magnífica e dançasse de braços abertos na beira do mundo, se você deixasse de lado sua vaidade de mulher má, me estendesse a mão e dissesse venha, eu juro que iria.

 

Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.

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87ª Leva - 01/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Vera Lluch

A primeira Leva de 2014 assinala a reunião de novos personagens ao redor da mesa que partilha os feitos culturais. Como não poderia deixar de ser, a busca por outros atores que movem o surpreendente mundo das palavras e imagens é tarefa das mais complexas, porém jamais algo desanimadora. À medida que nos aproximamos de artistas e autores das mais variadas orientações, percebemos que as possibilidades de diálogos formam um rico painel de renovação. Nesse intervalo, pensamos caminhos, tentando promover um frequente exercício de escutas. Todo esse trajeto remonta a mergulhos necessários no microuniverso contido em cada voz que tenciona estar conosco desfrutando dos anseios comuns da arte. Sem as diferenças trazidas pelas peculiaridades de cada um, não seria possível vislumbrar um painel de diversidade pretendido desde sempre pela revista. É justamente através dos traços da individualidade que cada autor encontra morada no meio de nós. Sendo assim, é impensável tencionarmos qualquer espécie de avaliação preliminar das expressões que dê força a aspectos meramente objetivos. Pelo contrário, interessa-nos perceber o quão estimuladoras e sensíveis podem ser as criações, sobretudo que tipo de aproximação efetiva elas podem gerar junto aos leitores. Arte e palavra precisam muito mais do que uma couraça hermética e superficial a lhes adornar a face. Necessitam de alma, de algo que faça parte de um universo notadamente amplo de apreensões. Daí não ser nada fácil tentar definir o comportamento imprevisível da subjetividade.  Autores como Carina Castro, Ana Elisa Ribeiro, Danilo Gusmão, Fernanda Pacheco, Caio Carmacho e Beatriz Bajo, que por aqui desfilam agora seus versos, são a prova viva dessa jornada rumo a outras paragens literárias possíveis. Em meio a estes e outros verbos dispersos nesta edição, as ilustrações de Vera Lluch inundam com sua vastidão de cenários os espaços habitáveis pela sensibilidade. No terreno dos contos, Mariel Reis, Jorge Mendes e Larissa Mendes nos apresentam suas visões particulares de mundo. Numa entrevista, a cantora Selmma Carvalho fala sobre o seu novo disco e de como o tempo tem sido seu aliado na evolução da carreira. O escritor Sérgio Tavares apresenta suas impressões sobre “A condição indestrutível de ter sido”, primeiro romance de Helena Terra. O mais novo disco da banda carioca Tono roda em nosso Gramofone. Em mais uma de suas investidas cinéfilas, Larissa Mendes percorre as vias da produção “Her”. O ano que se inicia reafirma os impulsos editoriais da Diversos Afins, cuja missão maior é a de promover encontros. Que você, caro leitor, possa trilhar conosco mais uma caminhada pelos ventos da arte e da literatura. Boas leituras!

 

Os Leveiros

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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Jorge Mendes

 

Ilustração: Vera Lluch

 

balada da vida ordinária

 

na vida ordinária você varre a sujeira pra debaixo do tapete, faz clareamento dentário e fica limpo e asséptico como os cadáveres da hora sublime. na vida ordinária você usa óculos escuros renascentista, um coração de grife e lê livros que fazem você ser um filhodaputa cada dia melhor. na vida ordinária você sente piedade e compaixão, entra em transe quando vai às compras e é dotado de poderes mágicos tecnológicos. na vida ordinária você compra/vende/aluga/negocia corpos, mentes, cargos públicos, ignomínias. na vida ordinária você se exercita na arte da dissimulação, cita os clássicos e vai virando alma penada. na vida ordinária os amigos que você nunca teve, as mulheres que nunca o amaram, estão todos mortos bebendo chopes na orla da praia. na vida ordinária você consome frutas químicas, amores desidratados, imagens de santos e mártires. na vida ordinária você não sente medo nem torpor, só psicose e rancores frígidos. na vida ordinária tudo tem preço, peso e sabor e é tão artificial com corantes que dá vontade de morder. na vida ordinária você higieniza o desejo, acumula gorduras, segue o comando da voz. na vida ordinária existem dívidas, apólices, banco de dados e catálogos que explicam. na vida ordinária você trapaceia, ilude, ludibria e finge como todos fingem. na vida ordinária você é célula, parafuso, número, uma coisa entre coisas. na vida ordinária todos os sonhos estão em liquidação e você ainda pode pagar no cartão daqui a 30 dias. na vida ordinária você gasta o seu salário em culpas e acessórios, constitui família, constrói muros, patrimônios e agoniza místico e feliz todas as horas do fim.

 

***

 

ânima

 

crie asas, encantamentos, quebre o cimento, beba do meu conhaque. faça adormecer os móveis, leve minha tristeza pra passear. saia do frio com os cabelos molhados, caia morta. quero morder palavras de sal e fundo do mar. apague meu rosto e me deixa fugir pelas galerias. invente um cálculo para o que sofro, corte meus pulsos, morda meu pescoço, lamba meu desejo, perfume meu medo, invente um corpo para o que escrevo, me faça respirar.

 

***

 

manual da trapaça

o truque é ter medo até derreter os ossos. o truque é virar estátua de sal e correr com os cães. o truque é ser de gelo e não evaporar. depois é o lodo corrosivo, o torpor na curva escura, a lógica dos falsários. depois é a solidão comendo pelas bordas, os narcisos do paraíso digital escrevendo líricas sintéticas. depois são só os ratos pedindo perdão. o segredo então é ser ulisses na caverna com os ciclopes e não ser ninguém. o segredo é entrar no invisível com sangue escorrendo pelo nariz. o segredo é viver no agora descartável, indolor, sóbrio como os mortos. o segredo é investir na prótese dentária, no artifício lúdico, no verniz da auto-promoção. depois é o vôo raso sobre os escombros, teatro infanto-juvenil, kardecismo e psicose. depois são os alcoviteiros do bairro, o churrasco, a porção de fritas, o chopps. depois é o tráfico, a corrida de obstáculos e o grande espetáculo diário dos horrores.

 

***

 

hell paraíso

agora assinamos leis que matam crianças, tatuamos o nome do medo e da cobiça em nossas carnes, perdoamos o inimigo e amamos nossas bichinhos de estimação. cientistas políticos, agências publicitárias e poetas irascíveis negociam o céu azul enquanto queimamos índios e fugimos em nossos velozes carros envenenados. agora cultivamos flores cheias de rancor em nossos jardins dos horrores. milhares de nós sentem piedade e psicose, assistem a morte colorida nas tvs e mentem e riem e batem palmas e emitem sons semelhantes aos focas e as hienas. agora os falsários e os corruptos se multiplicam nos corredores das repartições públicas, vampiros almoçam em fast-foods como príncipes das trevas que são. agora o gelo nos dentes, a primavera devastada, os amores minúsculos e o hálito podre das vaidades dos mesquinhos dos bairros. agora é o futuro em ruínas, a ilha dos tubarões, o paraíso dos assassinos.

 

***

 

esfinge

o que você fez? mexeu nos meus papéis? vasculhou meu lixo? fez despacho pra iansã? o que você fez? coou meu café na calcinha, colocou veneno de escorpião na minha bebida, deu um nó nas minhas meias, quebrou meu espelho, escreveu meu nome na pedra de gelo, o que você fez? espetou um alfinete no meu peito? sussurrou em meu ouvido enquanto eu dormia? o que você fez? deu prus meus amigos? emborcou meus sapatos? queimou minhas cartas, meus planos de vôo? roeu minhas unhas, meus ossos, todos meus sonhos? o que você fez? deixou meu nome na encruzilhada? chamou a polícia? jogou minhas cinzas prus ratos? envenenou minha comida? o que você fez? colocou minhas coisas numa mala e jogou no mar? riscou um x vermelho na minha cara no porta-retrato? o que você fez? mastigou minha sombra com os seus caninos? mergulhou meus cabelos no inferno? tocou com a ponta dos dedos em minha testa e enlouqueci? o que você fez?

 

Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

Realizações e projeções fazem parte de qualquer trajetória. Não é diferente com o projeto levado a cabo pela Diversos Afins. Hoje, perfazer a marca de 80 Levas é uma conquista que se deve a inúmeros fatores. De todos eles, talvez a persistência, travestida em teimosia, seja um atributo mais adequado. São 7 anos de uma jornada trilhada especialmente pela reunião de desejos e expectativas harmonizadas em torno de um propósito: descobrir e propagar vozes. Durante esse tempo, chegamos à conclusão de que tudo aponta para um exercício de aprendizado constante. Certezas são questionadas e outras visões de mundo se apresentam. Atestar a qualidade desse ou daquele autor, tanto no terreno das palavras quanto no das imagens, não vem necessariamente de pontos de vista cristalizados. Sem deixar de lado os aspectos que robustecem, de fato, uma determinada obra, tentamos privilegiar o modo como ela pode ser interessante aos olhos dos leitores. É algo complexo de conduzir, mas a experiência tem demonstrado que temos conseguido aproximações importantes. Para quem edita, é recompensador, vez ou outra, ser surpreendido por alternativas diferenciadas de criação. O universo de colaboradores que estão dispersos por todas as edições da revista é nosso maior legado. Sem eles, não seria possível falar em continuidade. A Leva de agora é marcada pela reinvenção de territórios trazida pelos olhos do fotógrafo Peterson Azevedo. Em matéria de poesia, juntam-se a nós as expressões de Neuzamaria Kerner, Leonardo B., Ana Peluso, Edson Bueno de Camargo e Maria da Conceição Paranhos. Nossa sabatinada da vez, a poeta, atriz e professora Rita Santana, tem muito a dizer de suas andanças literárias e da sua lúcida condição de mulher. Os contos de Jorge Mendes, Márcia Denser e José Aloise Bahia chacoalham nossa zona de conforto. Em suas pesquisas musicais, Larissa Mendes descobre o disco do cantor e compositor Baia. O escritor Marcos Pasche nos convida a conhecer o novo livro do poeta cearense Assis Lima. Em meio ao panorama teatral de Brasília, Geraldo Lima destaca a trajetória do Grupo Cena. Noutro ponto, uma leitura para o aclamado “O Som ao redor”, filme de Kleber Mendonça Filho. Como todas as outras, essa edição comemorativa de aniversário celebra o desejo de se prolongar caminhos. É com muita alegria e disposição que agradecemos a todos, leitores e colaboradores, por nos ajudarem a construir essa história. Sejam sempre bem-vindos!

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Jorge Mendes

 

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

agora que setembro chegou

 

deixa eu entrar nesse mundo estranho de flores letárgicas e comprimidos que causam rupturas. tenho um par de botas e uns truques sujos na manga caso você precise gritar entre os girassóis. antes me diz quem te assustou o olhar, te viciou no corrosivo, deu o clique. deixa eu fazer parte desse enredo enérgico: também sinto medo e bebo até o chão virar gelatina. adoro tua tristeza na areia da praia, as canções das máquinas binárias, a maneira febril do teu cabelo no rosto. seja generosa comigo e deixa eu participar da tua festa no gelo, dos teus joguinhos extremos no quarto escuro, do silêncio repentino dos homens e das coisas um pouco antes do mundo explodir. ao redor só vejo vultos fossilizados e fui atraído pelo frio. há algo confuso, um descontrole e mágica assassina quando tu passas incendiando os prédios centrais. bebe um conhaque comigo, fique parada com cara de fada louca bem na minha frente. vamos nos divertir agora que é setembro, antes que o sangue esfrie e a gente vire esse jardim grotesco, esse horror que todo mundo é.

 

 

 

***

 

 

diga adeus antes de ir embora

 

não me ame com sangue debaixo da unhas, com ódio nos dentes, com venenos finos nos olhos, na ponta da língua. não atire nosso prato de yakisoba caseiro no chão da cozinha, não cuspa as canções do kurt cobain na minha cara, não grite na fila do banco que me quer morto em pedacinhos. não seja hostil com os garçons da madrugada, não rasgue nosso retrato do dia perfeito, não desligue o telefone e nem bata a porta dizendo palavras cruéis. não vire santa prus cadáveres dos subterrâneos. não me deixe fritando na festa dos canibais. perdão se não sou e nunca fui o príncipe-fodão que você sonhou olhando a tempestade cair no seu jardim dos horrores. perdão se bebo muito e não distribuo sorrisos nem frases de efeito relaxante pra rapaziada da intelligentsia. sinto tudo, sinto medo, sinto muito e vivo dentro do meu bloco de gelo com meus demônios fazendo festinha no peito. então não me beije com rancor, não me derrube da cama, não morda meu pau, não me foda por vingança, não me arranque o coração, não me faça sangrar e não precisa empurrar porque já estou saindo.

 

***

 

 

brasa

essa garota que anda por aí incendiando avenidas, destruindo linguagens, derretendo estruturas, me pegou de jeito, pegou gostoso. também só queríamos beijo na nuca, amasso em toda curva escura, coisas do corpo e outros hipnóticos. por exemplo, se me perguntarem o nome dela eu digo saliva, língua, navegação. tem esse sabor de sal e pétala nos seios de mamilos bizantinos, esse cheiro de nicotina e oceano atlântico nos cabelos desestruturados, canções de aretha franklin e afundo. vejo nuvens carregadas de eletricidade e desejo, clarões púrpuras no escuro céu e o corpo segue formigando na onda que é quente quente quente. ela dança no fogo, encantada. com os braços abertos, inventa os passos com o cabelo no rosto, voa. estamos no impossível. no nosso circuito fechado: ninguém nos toca. ninguém nos vê e nos divertimos pelos extremos. claro, no mundo tem ioga, homeopatia, hipócritas e suicidas. mas caímos na abundância, no mergulho na brasa rubra. combustão é o nome da coisa. então amanhã a gente discute o medo e o porvir. fala de dinheiro. arma um esquema perfeito. hoje, porém, só o caos selvagem, a boca no pau, língua e lábios em colisão. hoje, agora, só o corpo, o fogo, o que for bom.

 

 

(Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos)

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

doce lâmina

Jorge Mendes

 

Foto: Kenia Vartan
a palavra é o modo mais puro e sensível de morrer e fazer morrer
felix guattar

ocorre o corte. quer dizer, toda palavra primeiro sangra por dentro. depois é o vermelho escorrendo da página em branco. o texto.

– conheço os destilados e as frases do último bar aberto, já posso esquecer.

desnecessário, porém, ressaltar as palavras desespero e cariótica. basta a extensão fria do fio afiado da língua rabiscando a carne (a pele apenas envelhece ao sol. inútil pergaminho. contra-capa), o brilho úmido da ponta do punhal propondo o único ponto final possível ao corpo, porosa esquizoesferografia do desejo.

decerto não se trata de leitura dinâmica com molho rosé para corações voadores & outras miopias dissertativas dos poetinhas com flores no cu. antes é a inapelável solidão dos olhos enclausurados no signo rígido do silêncio. o coração sem explicação nenhuma sussurrando a última estrofe da noite lívida na hora da autópsia semiótica.

como uma vírgula bêbada, quem sabe, haja um olhar mais plano sobre a superfície (isso durante a queda), uma possível desmaterialização gestual no espelho do banheiro. então é a frase noutra forma, concretamente pingando, evaporando e sendo absorvida pelas paredes, criando pedras, descendo pelo ralo, não importa.

ademais, foda-se o foco narrativo. fica o torpor. a pulsação do talho. queima, é vero. arde. mancha o azulejo e o papel. causa pavor aos críticos ligados a higienização e catalogação da frase incendiada.

escorre, todavia.

inútil acrescentar lágrimas monossilábicas e/ou fluidos genitais ao parágrafo. isto é, o amor e outros dejetos não têm nada a ver com a obscura e amarga sentença – escrita com esperma, nuvens e saliva – do estúpido e sempre patético coração. ou seja, a vida – essa puta de refrão fácil e rimas sórdidas, verbo biológico – não ruboriza: aborta azuis. cala infinitos. fecha fluxos. esvai-se, e pronto.

provavelmente algumas imagens maquínicas cruzaram o espaço. rizomas. um sorriso de mulher saindo do mar (como uma interrogação líquida), algumas frases metonímicas talvez ainda dancem em volta da mesa. nenhum futuro-devir, é certo.

de qualquer maneira, não será lírico e nem em forma de meia-lua o traço no pulso. será sim negro e patético e sem retorno o baque. no fim da página, o vácuo.

restará a ruptura. o corpo inerte. o riso de escárnio na metáfora grotesca estendida na sombra. depois é a eternidade (um gosto de alfarrábios no céu da boca), uma sentença azul queimando dentro da cabeça. a bibliografia do medo. a música parada e a inevitável palavra esquecimento sumindo na neblina.

linguagem, é o nome da coisa.

vire a página, irmão.

(Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos)