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150ª Leva - 05/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Julia Bac

 

Foto: Yuri Bittar

 

este poema é sobre uma mala. na verdade, este poema é sobre uma mala que cansei de carregar. talvez este poema seja sobre o peso da mala talvez este poema seja sobre a falta de espaço pra guardar esta mala talvez este poema seja sobre o dono da mala talvez este poema seja sobre as coisas de dentro da mala talvez este poema seja sobre as lembranças que tenho ao ver os objetos de dentro da mala talvez este poema seja sobre as rodinhas da mala que não funcionam talvez este poema seja sobre a minha vontade de não ter mais esta mala. te entrego a mala agora. acabou o poema.

 

 

 

***

 

 

 

como é que eu não vi o espelho quebrado eu não vi o sofá rasgado eu não vi não vi o queixo que se deslocava sem controle eu não vi a euforia não vi as compras exageradas eu não vi não vi a pupila dilatada eu não vi a água do chuveiro que não parava de cair mais um banho eu não vi não vi a nota de dez enrolada eu não vi como é que eu não vi quando esvaziei um papelete cheio na privada eu não vi as ligações fora de hora a voz molhada eu não vi o dinheiro que sumiu alguém me roubou eu não vi a insônia eu não vi como é que eu não vi eu não vi eu não vi eu não vi não sei eu não vi.

 

 

 

***

 

 

 

como Klein
cada poema
é um salto no vazio,
mãe.
cada ano
mais alguns
“o que acharia disso”,
mãe.
há 5 anos
a cada enjambement
celebro o silêncio
como Klein
no seu salto no vazio,
mãe.
continuo sendo aquele
bicho híbrido
meio pato meio pássaro,
mãe.
é isso
por enquanto
é isso,
mãe.

 

 

 

***

 

 

 

a imagem é
de um touro
imenso
nem seu peso
seu porte
ou força
são maiores
que a agilidade
da alcateia
queria ser um
dos lobos
hoje tô mais
pra um touro
sozinho
imenso e frágil.

 

 

 

***

 

 

 

apesar de gostar
de saber o peso
dos alimentos
aqui já não se
compra nada a granel
não vale a pena
também não se
pede porções grandes
nem nada que
dure muito tempo
não levo promoção
2 a preço de 1
aqui é só
pra 1 mesmo.

 

 

 

***

 

 

 

corto um tomate
ao meio fazendo
uma incisão perpendicular
abro a fruta
e vejo que parece
um pulmão
e o que me diferencia
dos tomates
entre outras coisas
é que respiro.

 

Julia Bac (1982) nasceu em São Paulo. É formada em História (PUC/SP, 2004), em Artes Visuais (Centro Universitário Belas Artes/SP, 2009), e mestre em Arte e Patrimônio (Maastricht University, Holanda, 2011). Na área literária, se formou no núcleo de ficção do Curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz (SP/2018) e no CLIPE/Poesia da Casa das Rosas (SP/2017). Publicou o livro “duas mortes” pela editora 7letras (2021).

 

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127ª Leva - 05/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Julia Bac

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

existe um jeito certo
de arrumar a cama:

deve
puxar bem o lençol
nos cantos
deixar o tecido firme
passar a mão
para alisar os vincos
não deixar espaço
ou ar
entre uma superfície e outra

existe um jeito certo
de arrumar a cama:

deve
ser feito com calma
circundando o estrado
logo depois de acordar
para não querer voltar
e depois de pronta
olhar com satisfação
a cama lisa
perfeita

existe um jeito certo
de desarrumar a cama:

e isso depende.

 

 

 

***

 

 

 

a primeira coisa que fiz
quando você saiu pela porta
foi colocar uma pequena toalha
com flores bordadas
– aquela que você não gosta –
na mesinha de cabeceira

troquei os lençóis
para tirar o seu cheiro
varri o chão
para que não sobrasse
nem um fio
de cabelo seu

limpei as portas
as janelas
os azulejos
podei as plantas
tudo
para não sobrar nenhum rastro
nenhuma partícula
que tenha tocado o seu corpo

 

 

 

***

 

 

 

já gastei umas sete páginas
com este poema
este poema que não vem

ontem gastei
cinco horas fazendo faxina
para uma visita
que não veio
e de você
de você eu só
esperava duas linhas
que também não vieram

 

 

 

***

 

 

 

nove e meia da manhã
são nove e meia da manhã e
já fiz o café
já lavei a louça
estendi a roupa no varal
já levei o cachorro pra passear
respondi e-mails
e perdi meu tempo nas redes sociais

são nove e meia da manhã e
terminei de ler o livro do Beckett
varri a garagem
tomei banho
e esqueci propositadamente de secar os cabelos

são nove e meia da manhã de um domingo e
já tive três crises existenciais:
a primeira quando acordei de ressaca
a segunda quando vi o meu reflexo no espelho sujo
e a terceira quando comecei a escrever esses versos

 

 

 

***

 

 

 

marcas de café
na mesa que você construiu
suja com farelos de pão
um livro marcado com lápis
na centésima página
exatamente no número 100
das 585, li ontem essas cem
as mesmas marcas de café
na mesa da cozinha
uma abelha
voava e zunia
batendo na janela fechada
insistia em querer
atravessar o vidro
hoje o corpo dela
caído e deitado
no azulejo da pia

 

 

 

***

 

 

 

[um copo americano
2 cm de cerveja]

uma mosquinha
voava ao redor do copo
assoprei para que fosse embora
mas o inseto caiu
na cerveja
com o indicador tirei
a mosquinha
que boiava no líquido
e a coloquei no guardanapo
ela limpou as patas
como se fosse humana
balançou as asas
com intensidade

 

Julia Bac é formada em História (PUC/2004) e Artes Visuais (Centro Universitário Belas Artes/2009). Fez o CLIPE/Poesia 2017 da Casa das Rosas e estudou no núcleo de ficção do Curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz (2018). Em 2013, publicou o livro “os dias” (Ed. Giostri) e em 2018 o zine “olha aí olha aí a promoção só paga 10 reais senhora é poema a partir de 10 reais” de forma independente.