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80ª Leva - 06/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

Realizações e projeções fazem parte de qualquer trajetória. Não é diferente com o projeto levado a cabo pela Diversos Afins. Hoje, perfazer a marca de 80 Levas é uma conquista que se deve a inúmeros fatores. De todos eles, talvez a persistência, travestida em teimosia, seja um atributo mais adequado. São 7 anos de uma jornada trilhada especialmente pela reunião de desejos e expectativas harmonizadas em torno de um propósito: descobrir e propagar vozes. Durante esse tempo, chegamos à conclusão de que tudo aponta para um exercício de aprendizado constante. Certezas são questionadas e outras visões de mundo se apresentam. Atestar a qualidade desse ou daquele autor, tanto no terreno das palavras quanto no das imagens, não vem necessariamente de pontos de vista cristalizados. Sem deixar de lado os aspectos que robustecem, de fato, uma determinada obra, tentamos privilegiar o modo como ela pode ser interessante aos olhos dos leitores. É algo complexo de conduzir, mas a experiência tem demonstrado que temos conseguido aproximações importantes. Para quem edita, é recompensador, vez ou outra, ser surpreendido por alternativas diferenciadas de criação. O universo de colaboradores que estão dispersos por todas as edições da revista é nosso maior legado. Sem eles, não seria possível falar em continuidade. A Leva de agora é marcada pela reinvenção de territórios trazida pelos olhos do fotógrafo Peterson Azevedo. Em matéria de poesia, juntam-se a nós as expressões de Neuzamaria Kerner, Leonardo B., Ana Peluso, Edson Bueno de Camargo e Maria da Conceição Paranhos. Nossa sabatinada da vez, a poeta, atriz e professora Rita Santana, tem muito a dizer de suas andanças literárias e da sua lúcida condição de mulher. Os contos de Jorge Mendes, Márcia Denser e José Aloise Bahia chacoalham nossa zona de conforto. Em suas pesquisas musicais, Larissa Mendes descobre o disco do cantor e compositor Baia. O escritor Marcos Pasche nos convida a conhecer o novo livro do poeta cearense Assis Lima. Em meio ao panorama teatral de Brasília, Geraldo Lima destaca a trajetória do Grupo Cena. Noutro ponto, uma leitura para o aclamado “O Som ao redor”, filme de Kleber Mendonça Filho. Como todas as outras, essa edição comemorativa de aniversário celebra o desejo de se prolongar caminhos. É com muita alegria e disposição que agradecemos a todos, leitores e colaboradores, por nos ajudarem a construir essa história. Sejam sempre bem-vindos!

 

 

Os Leveiros

 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Fabrício Brandão

 

O Som ao redor. Brasil. 2012.

 

Em que ponto de nossas existências é possível atravessar as situações sem que nelas deixemos vestígios? Como entender a nossa quase incapacidade de ouvirmos genuinamente a nós mesmos? Certamente, são indagações por demais complexas que atendem tanto a demandas externas quanto as que derivam dum processo consciente. O exercício da individualidade frequentemente encontra obstáculos, sobretudo quando o horizonte a ser vislumbrado reflete intervenções paralelas e, ao mesmo tempo, alheias à nossa vontade.

Tal sensação parece também costurar a narrativa de um filme como O Som ao redor. Com um olhar sobre a rotina de um bairro de classe média de Recife, o diretor Kleber Mendonça Filho expõe muito mais do que uma mera sucessão dos dias na vida de seus moradores, fazendo-nos perceber o quanto estamos imersos num fluxo de eventos paralelos com os quais dialogamos impensadamente.  Aos poucos, uma infinidade de sons, que normalmente são pano de fundo da realidade acostumada, aparecem propositalmente evidenciados. Barulhos de construção, de carros, pessoas a gritar, latidos de cachorro, ruídos de eletrodomésticos, dentre outros tantos, configuram uma sinfonia que mais caminha para a dispersão do que qualquer outra coisa.

A incapacidade humana e urbana de concentração, dada a variedade de coisas que nos abraçam incessantemente, aparece elevada à enésima potência. E isso tanto pode estar no plano meramente sonoro como também na forma como interagimos com o outro. Daí, também, pensarmos na questão da alteridade dentro de um mosaico de cenários que permeiam o cotidiano de quem quer que seja.

São muitos os objetos de interferência que passam despercebidos com frequência, banalizados que estão pela força da repetição. Com notória habilidade, o filme pinça os recortes da rotina sem insinuar vanguardismos estéticos. Basta amplificarmos a orquestração dos sons que estão no mundo para percebermos que, involuntariamente, dialogamos com o externo, o alheio. Ao mesmo tempo, o crescimento desordenado da grande cidade deixa claro que a grande presa do progresso continua sendo o próprio homem, na medida em que amarra, em nós bem cegos, a possibilidade de achar-se livre de fato.

Mesmo se tratando de um cenário ambientado em Recife, mais precisamente no bairro onde o diretor mora, o filme abarca sentimentos e características bem peculiares a qualquer cidade do país e quiçá do mundo. A valorização de uma cultura local com seus usos e costumes não aponta para um cinema que mira o próprio umbigo. Ao passo que expõe os efeitos descontrolados da urbanidade, é capaz de redimensionar seu foco para uma gama de assuntos comuns a um país de proporções continentais como o nosso.

Cena de O Som ao redor / Foto: Divulgação

O patriarca Francisco, personagem interpretado por W. J. Solha, é algo contundente quando assinala uma transição de uma sociedade originalmente agrária e que agora demarca seus territórios em pleno panorama desordenado duma metrópole em crescimento. O latifúndio aqui é o do concreto, principalmente porque, em meio a um mercado imobiliário predatório, Francisco detém uma quantidade significativa dos imóveis do bairro em questão. Mesmo assim, as memórias flutuam na trajetória desse personagem, sobretudo quando as lembranças apontam para um ambiente rural que não mais existe em sua magnitude histórica. A passagem dos engenhos para a selva de pedra pernambucana também não apaga a manutenção das relações de poder. Assim, patrões e empregados continuam protagonizando uma secular dissonância de expectativas e desejos.

O contrário de O som ao redor é o silêncio. E este, se pensarmos numa perspectiva de provocação, pode gerar mais incômodos do que supomos, principalmente se levarmos em conta a ausência do alheio e, por conseguinte, a duríssima condição de nos encerrarmos em nós mesmos. Nesse sentido, quem resistiria à presença teimosa de um silêncio pleno, cujos embates propostos fossem apenas os da consciência? Mesmo não tendo a onisciência precisa de tudo o que nos rodeia, é possível imaginar que a inexistência absoluta dos sons externos produziria, por si só, um efeito capaz de dimensionar o quanto somos curiosamente dependentes da tresloucada sinfonia de uma rotina urbana.

Recife é algo recorrente na filmografia de Kleber Mendonça Filho, cineasta cujas marcas apontam para um cinema autoral e orgânico. Ao mesmo tempo em que critica o tecido sócio-econômico que atravessa a cidade, o diretor também deixa entrever a sua paixão por ela. Isso acontece em Recife Frio, por exemplo, filme que, ao submeter a capital pernambucana a um inexplicável e incessante inverno, acaba pondo em xeque toda a forma de pensar de uma sociedade, notadamente gerando reflexos do ponto de vista comportamental.

A quem verdadeiramente interessaria um cinema que se volta para o exercício do senso crítico e dum olhar mais aprofundado da realidade? Parece uma indagação pertinente se considerarmos que, mesmo tendo sido exibido e aclamado em diversos festivais dentro e fora do país, O Som ao redor ficou restrito a parcas salas de exibição no contexto nacional.

Mesmo engendrando discussões complexas, a obra não enaltece posições ideológicas inflamadas. Aos poucos, envolvidos que estamos por ruídos de toda ordem, somos tomados pelo reconhecimento de coisas que, estranhamente e pela via cíclica, são íntimas de todos nós. Se, como diz Chico Buarque numa de suas canções, a dor da gente não sai no jornal, imaginemos só como o turbilhão do cotidiano por vezes aniquila toda e qualquer tentativa de dar sobrevida à pessoalidade. O tempo dirá se soubemos resistir.

 

 

 

 

 

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Destaques Outras Levas Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

W. J. Solha - arquivo pessoal

Saber adentrar com maestria as searas do tempo pode significar um atributo deveras valioso a um autor. Na dinâmica das experiências vividas, a capacidade de reter instantes significativos em matéria de criação e depois lhes emprestar sentido, seja em palavras ou imagens, é tarefa especial. É então que o binômio saber e sabor, com a sua magnitude peculiar, perfaz a incerta estrada da criação para depois consolidar uma obra que se pretende autêntica e consistente. Ao pensar numa característica como esta, logo entendemos porque a trajetória de um alguém como W. J. Solha traduz perfeitamente tudo o que foi dito anteriormente. Esse paulista, radicado na Paraíba há alguns bons anos, lapida, a cada passo dado, uma condição diferenciada frente ao universo da arte. Verdadeiro multimídia, Solha assumiu papéis diversos no palco da vida, notadamente dentro das feições de escritor, artista plástico e ator de teatro e cinema. Em cada um deles, soube extrair do tempo os instrumentos necessários ao seu caminho.

No campo da escrita, o traço de W. J. Solha é inconfundível, sendo que a referência a aspectos importantes do percurso vivo de nossas humanas idades pode ser imediatamente reconhecida por quem se permite percorrer os olhos sobre suas letras. O autor de livros emblemáticos como Israel Rêmora (Romance), A Canga (Romance), História Universal da Angústia (Contos) e Relato de Prócula (Romance), dentre outros, agora nos oferta Marco do Mundo, obra que integra uma trilogia poética iniciada a partir de Trigal com Corvos. Assim como seu antecessor, Marco do Mundo se utiliza da perspectiva do poema longo, concatenando de modo preciso e envolvente uma estrutura de versos dotados de complexidade. A ideia do poeta face à angústia da criação é, sem dúvida alguma, o grande trunfo do livro. Some-se a esse aspecto o vigoroso painel de acontecimentos ligados à história da humanidade e que ajudam, sobremaneira, a erigir uma babel de alicerces poéticos bastante sólidos.  Na conversa que agora segue, Solha fala sobre seu novo rebento literário, a opção por uma certa independência editorial, o porquê de ter deixado a pintura, além de alguns outros assuntos que permeiam suas andanças pelo terreno cultural.

 

DA – Logo em seu princípio,  “Marco do Mundo” prepara o leitor para uma verdadeira incursão na complexa tarefa do fazer poético. A sensação ali é de que o escritor, antes de parir seus versos, se depara com um fosso abismal de proporções gigantescas, qual seja o mistério da criação em carne viva. Quem escreve é, de fato, um atormentado?

W. J. SOLHA – Criar, para mim, é um tormento. Renoir dizia que somente pintaria enquanto isso lhe trouxesse alegria. Feliz dele. Sofri tanto com os pincéis, que acabei por abandoná-los. Deixei de fazer teatro pelo mesmo motivo. E sofri como o diabo para interpretar meus papéis em O Som ao Redor – de Kléber Mendonça Filho – que está fazendo bela carreira no exterior, desde a estreia no começo de fevereiro, no festival de Roterdã, e sofri do mesmo modo no Era uma Vez Verônica, de Marcelo Gomes, ambos rodados no Recife. Não sei se dói mais assumir outra alma,  como ator, ou criar uma nova, escrevendo. Porque é aquilo que diz Fernando Pessoa: Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. A diferença é que a literatura, a poesia, exige isolamento. Com a vantagem de que você é responsável apenas por você mesmo, quanto ao resultado que irá alcançar. No cinema, não: tem-se que pensar coletivamente. Atrás da câmera que faz um close seu, há quarenta pessoas trabalhando. No filme de Marcelo ainda havia um agravante: o apartamento de meu personagem ficava na Conselheiro Aguiar, a segunda  rua  depois da avenida Boa Viagem, com um trânsito enorme. E cada vez que eu e Hermila Guedes tínhamos uma cena em casa, o Detran parava o tráfego lá fora, pense no que significa isso. E o ator não só se arrisca, como arrisca a obra de alguém que é maior que ele, naquele momento: o diretor. Mas você percebeu bem: quando resolvi escrever o Marco do Mundo senti o salto que teria de dar. Tenho um quadro meu, antigo, em que se vê uma paisagem enorme, com um despenhadeiro altíssimo, e, lá em cima, inebriado pela beleza do que vê, um menino dá um salto, completamente nu, no imenso vazio.

DA – Aos poucos, “Marco do Mundo” vai edificando cada andar de uma tresloucada Babel, aglutinado uma profusão de seres das mais distintas eras. Como tecer a trama dos versos face a tais provocantes humanas idades?

W.J. SOLHA – Eu ainda não tinha a ideia de fazer um poema longo tipo marco, na linha de cordelistas como Ataíde e o Leandro Gomes de Barros, quando vi, mentalmente, a cena em que um contêiner se aproxima de uma torre em construção, trazido por um guindaste, e dele sai para ela, a fim de lhe ser um dos andares, uma noturna e esfuziantemente iluminada Quinta Avenida, de Nova Iorque, com todo seu trânsito e arranha-céus, ao som do clarinete da Rhapsody in Blue, do Gershwin. A essa imagem espontânea seguiram-se outras, como a de outro contêiner chegando, este trazendo uma manada de baios “sob uma nuvem que a bombardeia de raios”, outro vindo com o Arthur Bispo do Rosário e suas centenas de obras de arte, ele no Manto da Apresentação que criou para seu encontro com Deus, “que lá vem, Deus, apesar dos ateus, com tutti quanti angeli et archangeli”. Aí foi inevitável fazer vir com Arthur o Poeta do Absurdo, Zé Limeira, e me atrever a uns versos na linha dele. Na verdade, só a fascinação que tenho pela poesia do Limeira (ou dos que a criaram com seu nome) poderia me deflagrar a grande libertação poética que é o Marco do Mundo, como ele acabou se tornando uma espécie de repto aceito para superar os cordelistas, embora sem me servir do cordel, na loucura criativa que foram suas próprias babéis, publicadas em 1915 e 16 – o Marco do Meio do Mundo e Como Derribei o Marco do Meio do Mundo. Evidentemente, isso acarretou uma desenfreada farra de rimas de todos os tipos imagináveis, dentro de um ritmo alucinatório, com a intenção de induzir o leitor a acompanhar tudo como num filme – sem interrupções.

W. J. Solha - arquivo pessoal

DA – Dentro do percurso escolhido por você, é interessante pensar na noção de poema saga, fundada desde “Trigal com Corvos”. De que modo esse raciocínio consolida o propósito da trilogia?

W. J. SOLHA – A ideia é que em Trigal com Corvos centrei o mundo em mim. O poema longo foi gerado por  minha angústia ante a obra a ser feita e que não me saía, de modo algum, satisfatória. O Marco do Mundo é uma visão da História que ocorre mesmo com a minha ausência. E agora estou trabalhando no Homem, daí o Ecce Homo, que é um título provisório. No entanto, assim como o Marco do Mundo não começou com a ideia que dominou depois, nele, não fiz o Trigal já pensando em três poemas longos formando um complexo poético. Como também não fiz as partes que compõem minha História Universal da Angústia (Bertrand Brasil, 2005) pensando numa coletânea. Tinha feito meus romanceamentos do Édipo e do Hamlet, um conto longo sobre o Rei Saul, outro sobre o menino Parsifal, e percebi, de repente, que estava trabalhando apenas com grandes angustiados. Daí a lembrança da História Universal da Infâmia do Borges e o título que enfeixou tudo.

DA – Algo serviu de modelo para “Marco do Mundo”?

W. J. SOLHA – Sempre tive fascínio pelo making of de um grande filme, pela análise como a que Ernest Jones faz do Hamlet, ou da criação de O Corvo, feita pelo próprio Poe, ou das traduções deste poema, feita por Ivo Barroso.  Daí que resolvi que faria parte do Marco do Mundo a própria criação do Marco – fictícia, é claro – com o Poeta aparecendo como seu próprio personagem, que não sou eu, declarando sua poética e a luta para superar os cordelistas autores de marcos anteriores, luta que faz parte, aliás, das características dos marcos.

Muitos disseram que o Marco do Mundo é inanalisável – Ivo Barroso,  Ruy Espinheira, Nilto Maciel – pelo que adianto a informação de que fiz o poema longo motivado pelo surrealismo que sempre existiu, independentemente de Breton-Dali, como no caso de nossos cordelistas Ataíde e Leandro Gomes de Barros com seus marcos, de Bosch e Brueghel com seus quadros no  século XV, de Apuleio com seu Asno de Ouro no século II, e todas as religiões e/ou mitologias, em que Mercúrio voa, Moisés abre o Mar Vermelho, Jesus anda sobre as águas e multiplica pães e peixes, ressuscita os mortos, enquanto em nossas matas pululam sacis, curupiras e mulas sem cabeça. Jung dizia que as artes, religiões e sonhos provêm da mesma região de nossas mentes. Acredito nisso.

DA – Seus dois últimos livros são fruto de uma postura editorial independente, através da qual você mesmo driblou possíveis amarras e bancou a publicação de ambos. Foi melhor assim?

W. J. SOLHA – O que você acha? Estou pagando para escrever. Desde meu romance Relato de Prócula – que só saiu pela editora A Girafa quando me comprometi a comprar, dela, 500 exemplares, isso vem acontecendo. Ganhara a bolsa da Funarte com ele, para produzi-lo, ganhei, depois, um dos prêmios da UBE-Rio, mas nada disso adiantou. O fato é que W. J. Solha somente é ator de cinema, somente foi artista plástico, somente foi dramaturgo, somente é poeta… Porque existe um prosaico Waldemar José Solha, que trabalhou no Banco do Brasil por 28 anos para – como um mecenas – sustentá-lo.

DA – Dada a confissão que você fez agora, o que mais o impele a prosseguir?

W. J. SOLHA – A certeza de que o mecenas – o bancário aposentado Waldemar José Solha – sabe o que está fazendo, ou a Paraíba não teria, até hoje, seu primeiro longa-metragem, nem a UFPB teria um painel de 7,20 m de largura, composto de 36 telas – homenageando Shakespeare, nem o teatro de João Pessoa teria tido, entre os anos 86 e 90, nenhum espetáculo com texto e direção de W. J. Solha. O que pode não ser grande coisa, mas era o que havia para ocupar um vazio enorme enquanto não chegava Luiz Carlos Vasconcelos pra escrever e dirigir “O Vau de Sarapalha”, que repercutiu Brasil afora e nas estranjas.

DA – O cinema tem feito parte especial de sua vida há muito tempo. Muito do que você escreve tem, por sinal, um forte apelo imagético. Que balanço você faz dessa sua íntima relação com a sétima arte?

W. J. SOLHA – Hemingway dizia que frequentava os museus para aprender a escrever. Realmente, como me dediquei à pintura desde menino, a imagem tem sempre uma forte presença em tudo o que escrevo. Muitos, muitos de meus versos provêm de fotos de quadros ou simplesmente de fotos, pois tenho muitos livros sobre Arte e Fotografia. Mas a dinâmica de meus poemas e romances derivam do cinema, sim. Eisenstein dá o texto de Leonardo com o projeto de um quadro sobre o dilúvio (que faz parte do Marco do Mundo) como nada mais nada menos do que um roteiro cinematográfico. Claro, pois a pintura, ao contrário do que se supõe, não é estática. Se você não dá ao espectador o chamado “caminho do ôlho”, ele vai se perder na “leitura”. A vivência do cinema dá ao poeta e ao romancista uma aprendizagem nova: a de panorâmicas, zooms, cortes, closes, slow-motions. Usei a câmera lenta até no teatro. Em minha peça A Bátalha de OL contra o Gígante FERR, ante o problema de uma cena de duelo com espadas enormes, medievais, portanto perigosas, fiz a coisa toda como uma vagarosa dança que culmina com a morte de FERR. As cenas do Marco do Mundo – há uma fuzilaria dela, no poema – são todas como que de cinema. Deu-me muito trabalho, por sinal, o trecho em que chega à torre a cena de E o Vento Levou, em que Scarlet O’Hara vai à estação de estrada de ferro de Atlanta, atrás de socorro médico para a cunhada, e dá com aquela multidão de agonizantes e feridos da Guerra da Secessão.

DA – Há alguma razão em especial para você ter deixado de se dedicar à pintura?

W. J. SOLHA – Há duas: desde adolescente, vejo a rejeição que se faz ao figurativismo, que sempre me foi muito caro. Em 89,  pintei meu painel A Ceia, no Sindicato dos Bancários, de cuja diretoria eu fazia parte, com Marx ,o lugar de Cristo, dizendo Um de vós me trairá, provocando aquela comoção leonardesca nos “discípulos” Mao, Allende, Che, Stálin, Trótski, Lênin, Fidel, Ho Chi Minh e Gorbatchev. Pois bem: lembro-me disso porque alguém, ao me ver pintando a tela de 3 metros e 60 de largo, mostrou-me uma reportagem da Folha de São Paulo dando conta de que uma exposição das obras de Lucian Freud – figurativista – estava com uma fila de virar quarteirão, em torno do Moma de Nova Iorque. Foi o último espasmo de “minha época”, que se esvaía entre meus dedos. Claro, fui a uma mostra de esculturas de Rodin no Recife, mas aquilo já encarado como coisa do passado, como uma  sinfonia de Brahms. A outra razão foi essa angústia de que falamos no começo da entrevista. Passei seis meses trabalhando numa tela de dois metros e tanto de altura, em que atualizava o Jardim das Delícias, de Bosch. Passei nove meses fazendo um painel de sete metros e vinte de largura, que está na reitoria da UFPB, homenageando Shakespeare, mas… a insatisfação sempre enorme, sufocante. Van Eyck escrevia sempre, abaixo da assinatura, nas telas dele: “Faço o que posso”. Eu também fazia. Mas não era o suficiente. Aí, em 2004, fiz uma exposição com cerca de duzentos quadros e, sozinho no salão imenso, entre aquele mundo de esforço inútil, tomei a decisão: “Não pinto mais”.

DA – Voltando a “Marco do Mundo”, é possível perceber que o poeta, diante de um mundo eivado de informações, busca lapidar ao máximo o que pode lhe servir de instrumento criativo. Chama atenção nesse momento uma certa obsessão pela perfeição, pelo algo supremo. Para um escritor, de modo geral, tentar erguer uma obra monumental não constitui tarefa árdua demais e quiçá algo desnecessária?

W. J. SOLHA – Árdua, sim. Desnecessária, de modo algum. Pelo contrário, somos carentes de obras monumentais. Em todos os campos. E de perfeição em pequenas coisas, também. Foi o que Ariano Suassuna fez com o grandioso romance A Pedra do Reino e com a comédia nordestina Auto da Compadecida. A Itália se orgulha da Sistina, da Divina Comédia, como do Ladrões de Bicicletas e Amarcord. A busca da perfeição me incomoda, sim, mas porque é preciso ser gênio para consegui-la: trabalho, só, não resolve. E, evidentemente, de gênio não tenho nada. Por isso deixei de fazer teatro e de pintar. Continuo com a literatura porque é onde me sinto  menos limitado. Havia jurado, também, não mais me meter em cinema. Houve insistência para que fizesse os testes para os filmes do Kleber e do Marcelo, já tive o alívio de ver que O Som ao Redor está se dando muito bem no exterior, apesar de minha presença. Sofro o suspense de como vai se sair o Era uma vez Verônica… e trabalho na terceira parte da trilogia de poemas longos. Como estou mandando de graça o Marco do Mundo a quem se interessar por ele, pelo menos ninguém poderá reclamar que perdeu dinheiro com o que escrevi.

W. J. Solha - arquivo pessoal

DA- A certa altura de “Marco do Mundo”, o poeta manipula o tempo, atravessa-lhe as entranhas para ver fluir o incorrigível espírito humano. Você acredita que o imediatismo é nosso equívoco maior?

W. J. SOLHA – Tenho a maior admiração pelos repentistas paraibanos. Oliveira de Panelas é assombroso, nisso. Em cima do ponteio da viola faz um discurso rimado em que menciona as flores do vestido de uma senhora presente, os olhos verdes de fulana de tal, também ali, ousando servir-se até do martelo agalopado, que são estrofes em dez versos com dez sílabas cada, todos acentuados na terceira, sexta e décima sílabas, com rimas obrigatórias do primeiro com o quarto e quinto versos, do segundo com o terceiro, do sexto com o sétimo, e do oitavo com o nono. Pense na cabeça desse cara enquanto ao mesmo tempo procura graça e beleza na composição. E isso tudo é … efêmero. Quem viu, viu, quem não viu… – rime você. Os autores de novelas de TV também têm de ser imediatistas, pois a crítica que recebem vem do IBOPE. Já os impressionistas foram, todos, mestres do vapt-vupt, mas Cèzanne dizia querer a arte dos museus. E a conseguiu, o que é juntar a fome com a vontade de comer. O perigoso é o imediatismo que vive embarcando em “ondas”. Portinari sai do Brasil acadêmico, volta da França cubista. O Cícero Dias, daqui do Recife,  chagallizando. O que acredito é naquilo que você SENTE que tem de fazer. Meus dois últimos romances – Relato de Prócula e Arkáditch – foram os primeiros,  suponho,  a abordar a classe média urbana, nordestina, contemporânea. E o que me levou a participar dos dois longas pernambucanos – O Som ao Redor e Era uma vez Verônica, de Kleber Mendonça e Marcelo Gomes – foi justamente o fato de que foram os dois primeiros filmes a tomar o mesmo tema: classe média urbana nordestina, contemporânea. Há, em todas  as gerações, tônicas dominantes. Como os ciclos do cacau e da cana de açúcar. A arte tem de se sintonizar ao seu espaço e ao seu tempo, para deixar, deles e neles, a sua marca d´água. Ou não terá feito nada.

DA – Com que olhos você acompanha a produção literária na contemporaneidade? Costuma manter um diálogo aproximado com novos autores?

W. J. SOLHA – Vivo alguma dificuldade para encontrar tempo suficiente para acompanhar o que se faz no Brasil e no mundo. Escrevo praticamente o dia todo, com a urgência a que a idade me obriga, pois não tenho a menor ideia de quanto tempo, ainda, disponho, com tanto que ainda tenho para  dizer. Além do mais, escreve-se muito na Paraíba. Leio muita coisa inédita. Há pouco escrevi textos para orelhas e quartas capas de três autores premiados em concurso do Estado. Há um excelente romance de Tarcísio Pereira, O Autor da Novela, que obteve Bolsa de Incentivo à Literatura da Funarte há dois anos, ainda sem editor. Também li os originais de um bom livro de Marilia Arnaud, contista que se aventurou com sucesso no romance. Tirei um atraso, recentemente, comprando um lote de obras do Affonso Romano de Sant´Anna, a quem admiro muito. Fiz a quarta capa, também, há pouco tempo, de um belo romance do Carlos Trigueiro – Libido aos Pedaços – que saiu pela Record. Fiz uma resenha alentada do último romance do Esdras do Nascimento, A Rainha do Calçadão. Li os originais de um romance de primeira, do Hugo Almeida, mineiro lá de São Paulo, com título ainda provisório. Acabo de ler o maravilhoso O Corvo e suas traduções, do Ivo Barroso.  Fiz uma entusiástica resenha da recente coletânea de poemas de Ruy Espinheira Filho, que saiu pela Global, etc, etc. Além do mais, meu modo de escrever exige muita pesquisa, e é no que dedico mais tempo, além da escrita propriamente dita.

DA – O mundo está mesmo dividido entre os que leem e os que não leem? Não acha que, nesse aspecto, subestimamos em demasia potencialidades humanas de apreensão da realidade?

W. J. SOLHA – Nunca dividi o mundo assim. Vivi oito anos no alto sertão paraibano, quatro dos quais como chefe da Carteira de Crédito Agrícola, quando tive a oportunidade de conhecer de perto matutos altamente “intiligentes”. Fiz, inclusive, uma comédia – Curicaca – a partir de vinte livros de José Cavalcanti, em que o grande personagem era, sempre, o cabra tremendamente esperto, como o João Grilo do Auto da Compadecida. Por outro lado, conheci muita gente culta, lá e em toda parte, que não criava absolutamente nada e era um eterno enrolado. Eu mesmo adoro deixar de lado minha face “intelectual”, de “escritor”, pra representar, quando me entrego completamente ao instinto. Jamais fiz escola de arte dramática e não lamento isso. Melhor ainda é que nunca fiz papel de nenhum “intelectual”, de “escritor”. Meu trabalho mais marcante no cinema, até agora, tinha sido o de um velho camponês embrutecido pela miséria – em A Canga, um curta de Marcus Vilar, baseado num trecho de minha novela homônima. Agora, aí está O Som ao Redor, o primeiro longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho, bombando em Roterdã, Nova Iorque, São Francisco, já com presença em mais vinte e tantos festivais internacionais, incluindo o de Washington, Londres e Jerusalém, em que faço um velho ricaço afoito, em cujo apartamento não se vê nenhum livro. Acho ótimo sair de mim. Deixar, pelo menos temporariamente, de ser o que sou. Qual foi o livro que o Lula já leu, mesmo?

DA – Afinal, por que escrever?

W. J. SOLHA – Veja bem: trabalhei a maior parte de meu primeiro poema longo – Trigal com Corvos, lançado em 2004 – quando ainda era obrigado a meus expedientes no Banco do Brasil. Incluídas aí, também, várias retomadas, desistências ou trabalhos em outras áreas, o livro me tomou doze anos. Para o Marco do Mundo -aposentado – precisei de apenas quase quatro, incluídas aventuras no cinema e retoques finais em meus romances Relato de Prócula e Arkáditch. O que acontece, então, na fatura de um Trigal, na de um  Marco? Você produz uma leitura que consome por volta de uma hora de um bom leitor. Uma leitura que custou a seu autor anos de esforço, uma concentração enorme de  camadas e camadas e camadas de escrita. O resultado é que nunca me sinto à vontade quando alguém diz que quer me conhecer pessoalmente, porque nessa hora em que a pessoa estará comigo não terá absolutamente nada do que ela encontrou nesta ou naquela obra. Sou um sujeito sem carisma, sem nada de especial. E isso, evidentemente, vale também para a relação que tenho com meu livro pronto: reduzi a montanha de pedra bruta que foi esse eu-no-tempo, a um quilate ou dez de diamante ou de ouro. A enorme quantidade gestou uma minúscula qualidade que passa não só a me dar sentido à existência, como a me fornecer… respostas com a profundidade máxima, com a beleza máxima que me foi possível alcançar, a respeito de mim mesmo,  pois, como dizia o oráculo de Delfos, Conhece-te a ti mesmo, e conhecerás os deuses e o universo.

 

* Quem se interessar pela leitura de Marco do Mundo, poderá receber gratuitamente, pelo correio, um exemplar do livro.  Basta entrar em contato com o autor, fornecendo nome e endereço, através do e-mail wjsolha@superig.com.br