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130ª Leva - 02/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Extemporâneo e hermético (?)

 Por Krishnamurti Góes dos Anjos

 

 

O cenário cultural brasileiro é mesmo cheio de surpresas.  Em que pese nosso antológico marasmo, nossa visão curta e imediatista voltada para os imperativos do bolso e do estômago, essa carga tremenda de depressão de valores, de crises éticas, de estagnação de iniciativas que somem à nossa Cultura, e a paralisação criativa em que vamos afundando, aqui e ali surgem centelhas de genuíno talento, inventividade e perseverança. No Litoral Norte do Rio Grande do Sul (cerca de 100 km de Porto Alegre), há uma pequena cidade chamada Osório, onde vive o poeta e professor de português, literatura e texto técnico da rede pública de ensino chamado Anderson Alves Costa ou, como é mais conhecido, Delalves Costa. Muito bem, o senhor Costa tem já 7 livros de poesia publicados (ele tem 37 anos), e estará em breve lançando o oitavo, que se chama Extemporâneo. Uma coletânea de 50 poemas, alguns deles já publicados em livros anteriores.

E republicar alguns poemas tem mesmo o seu valor, expliquemos por que. Novamente, em que pese essa nossa amalucada sede de ineditismo, vamos deixando de esculpir a linguagem, aprimorar a expressão da técnica literária (isto é imprescindível para todos, sobretudo para os iniciantes), para, finalmente, refinar as criações. O poeta, como declarou em entrevista, é adepto do exercício da reescrita, o qual, em geral, é o mais exaustivo processo, momento em que intensamente se trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! Antes de irmos mais adiante na apreciação crítica da obra, vejamos o que ele reponde quando perguntado, na mesma entrevista, quanto a temas e estilo: “As nuances do mundo me fascinam, para cada época um olhar sob a ótica das vivências e experiências de leitura. Escrevo poesia puramente descritiva, hermética (grifo nosso) e/ou memorialista, ou experimento a mistura dessas. Verso sobre o cotidiano, e tudo que o cerca e o que nele habita. Contudo, algumas temáticas aparecem com mais frequência, como já apontaram os críticos e leitores mais atentos. A reflexão sobre existência/condição humana e seus disfarces, a natureza e suas nuances, o universo urbano e suas transformações, a infância/tempo/velhice, o descaso social e o erotismo são os temas mais relevantes, isso quando comecei a me dedicar à produção literária mais intensamente. Não cultivo hábitos, minha poesia vem da vida. Simples assim!”

Volvendo ao livro. Como se sabe, o adjetivo “extemporâneo” significa o que ocorre fora do período ideal; que se manifesta numa época inapropriada ou que acontece inoportunamente; fora do momento oportuno; impróprio para o tempo ou circunstância em que ocorre. E aí temos uma das preocupações centrais da obra desse autor. O tempo, esse senhor dos destinos, é objeto de vários poemas. Interessante notar que esse tema aparece hoje em inúmeros poetas. Há, em nosso tempo do “aqui e agora” e paralela a essa carreira desabalada em que vivemos, uma preocupação terrível com o escoar do tempo em nossas vidas. É que nos damos conta – porque estamos presos a essa variável existencial – que afinal não tiramos tudo ou mesmo nada, como queiram, do desfrute da existência que o próprio tempo de EXISTIR nos proporcionaria. Mais uma de nossas frustrações elementares. E ninguém pense que estamos a nos referir às fases naturais da vida. Infância, idade adulta, maturidade, velhice e etc… Vamos queimando etapas e já nem sabemos viver cada uma delas. Esse nosso sombrio tempo. Veja-se o poema:

 

Tempos de solidão

A enviar distâncias, / O descartável e-mail / Que afasta as vozes / Que isola os afagos / E amarra os relógios / Sequestram o tempo / E as vigas de metal. / O castelo é de areia / Já não tarda, o mar / À deriva, o alicerce / À deriva pessoas partem / Seguem e chegam / Como postam cópias / Sem tato sem fogo. / Solitárias, obstinadas / Passam pelos dias, / Vagam pelas noites, / Passam pelas ruas, / Vagam pelos fatos / E negam a si mesmas. / Fronteiras já não há… / O que há são curvas / E distâncias: solidão / Sem direita, esquerda / Sobre a linha tênue / Solidão enunciativa / Num virtual percurso / Entre o lá e o só! / Descartável, est(a)rte / De viver morrendo / Qual metal sem flor… / E poema sem dor… / E carnaval sem cor… / A enviar distâncias / A projeção, o eco / Da sombra curva / Sem rua, sem teto / Nem caverna pelas paredes!

 

O poema abaixo dá a exata medida de como o poeta pensa o Extemporâneo:

 

Palarvas – o Extemporâneo

 

I

Pra libertar, esterco. Lavras / e larvas no inconcluso / caos! Se não devora / germina-se no recluso / extemporâneo afora, / das g(est(ações às palarvas

 

II

pretenso por versos brancos / a tensionar decolonial / de Abaporu a Boitatá / gesta-se arte, ou será / terra esquartejada tal/ Bruzundanga aos trancos…

 

III

Fecundamo-nos outonais / agora e subversivos / ou é caos, pleno luto / pela página! Inculto, ocultam-nos outrora / para dializar os carnavais.

 

IV

Homemporâneo de lavras / em palarvas extrai arte / e a reparte! Destarte / ora canibal ora mito, / ver-se não circunscrito / a estercar-se de palavras.

Os poemas desse livro realmente versam sobre a vida, o amor, o tempo, as ausências, um nítido engajamento social e a própria poesia. Abordam o homem em suas questões existenciais em busca da compreensão metafísica desses temas. Há na obra textos não somente verdadeiramente bem trabalhados, como de uma profundidade existencial digna de nota. São exemplos: “Maria e José e a Família”, “Quixote – leitor de amanhãs”, “Epifania – a flor politizada”, “Vividez – iguais perante a lei”, “O Trágico de Os – o rio pelas veias”, “Ao rio, gozo de Oceano”, “O Homem sono em claro”, “O Efêmero coadjuvante”, “Antropofagia”, “Linguardente”, “Na praça, cão e ninguém” e “Inconcluso – o Homendereço”.

Uma das vertentes que o poeta envereda é também das mais curiosas e criativas. Referimo-nos à reelaboração ou redimensionamento ou, ainda, uma atualização de questões formuladas por outros poetas que, sem dúvida, contribuíram para sua formação literária. Por vezes, ele apropria-se somente do mote de um poema. Identificamos dois momentos nos quais aparecem referências, embora que indiretas, a Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.  Não há como deixar de recordar de Bandeira ante a leitura de “Vou-me embora pro Asteroide 329”. No poema de Bandeira – “Vou-me embora pra Pasárgada” -, há aquele desejo de evasão ante as impossibilidades de uma vida prestes a findar-se pela doença que o atormentava e pelas restrições de uma vida acanhada e sem perspectivas de felicidade. De toda uma vida que podia ter sido e não foi. Já em “Vou-me embora pro Asteroide 329”, o desejo de evasão está, a nosso ver, diretamente ligado ao fazer literário do próprio autor em um meio extremamente desfavorável. Fica a pergunta a propósito do livro: Quem ou o quê é extemporâneo? O poeta ou o mundo que insiste em não enxergar verdades?

 

Vou-me embora pro Asteroide 329

 

I

Velam a morte sem corpo / ao falar a língua dos contrastes, / a língua dos estupef(atos). / Divago explícito e tolo / entre tortos poliglotas, / sem a estes pertencer; / de minuto em minuto / acendo os lampiões / pra iluminar Josés e Marias / e seus íntimos países.

II

Mas em tempos de fogos / de ruas e fogo, de mãos / e brasas, sobrará país? / Embora lhes faltem pão, / assistem ao circo / nos bares e lares / os vio(lados opostos).

 

III

Embora eu sofra de mudança, / eu clamo por metáforas! / Prefiro isso a feias verdades: / ócio a divagar. Portanto, / vou pro Asteroide 329, lá / eu falo a língua dos lampiões, / liberto silêncio das ruas.

Sob outra visada podemos ler dois poemas. “JOSSEU – o herói estrangeiro” e “Enigma, o Claro”, que nos remetem respectivamente ao poema “E agora José” e ao livro “Claro enigma”, ambos de Carlos Drummond de Andrade. Quanto a este último, é preciso que acrescentemos um detalhe: enquanto Drummond demonstra naqueles poemas de Claro Enigma um foco mais centrado nos sentimentos e nas transformações sociais da primeira metade do século XX, Delalves Costa parece abandonar o desejo de encontrar respostas e soluções para os problemas sociais e passa a buscar as perguntas que precisam ser feitas, e com o bom auxilio da Literatura que permite que o universo filosófico e metafísico mergulhe no íntimo do ser humano.

 

Enigma, o Claro

É caminho incerto: longe/perto, / visceral aventura; é procura / que se faz realidade, elasticidade / que se reinventa. É tormenta / pelas veias: relâmpago instigante / às escuras, luz nas procuras / a revelar o mistério. É revertério / o verso reverso e universo / quando às escuras sob procuras / o claro enigma, paradigma: / o novo de novo que deixa de ser / para ser outra coisa. É coisa / outra que estimula, que anula / o óbvio de será, de seria / pelo curso, percurso que se leva / que se faz treva e se trava / aos olhos, à mente; e de repente / do nada o mundo obscuro / se torna pleonástico. O elástico / de ponta a ponta se estica / e edifica a vasta aventura e apura / que a pura verdade habita / não erudita, bendita pela criança / sem os relevos do mundo.

Alguns leitores devem ter observado a utilização de palavras, formada por neologismos, aglutinações de outras palavras e/ou sentidos conferidos pela homofonia e por sons que assumem  sentidos próprios. Claro que são artifícios de construção que o autor emprega. Realmente, uma poética incomum. Estamos diante de construções formais (em boa parte dos poemas) bastante peculiares e que têm gerado uma caracterização de sua poética como “hermética”. Ora, sabemos que o conceito de hermetismo, em literatura, é análogo ao utilizado em filosofia, no que toca a algo cujo sentido é muitas vezes fechado, secreto, impenetrável, oculto e até mesmo indecifrável para o leitor/receptor que não dispõe de ferramentas necessárias para uma apreensão mínima. Essa espécie de incompreensão que ronda um texto considerado hermético, no mais das vezes, está ligada a uma intencionalidade que apela ao leitor um duplo movimento de decifração e recifração. Acreditamos serem pertinentes tais observações, porque desfazem preconceitos e julgamentos equivocados. Preconceitos que partem, inclusive, de uma certa parcela da crítica literária “pré-histórica” que ainda, e anacronicamente, não relativiza os parâmetros de análises fundadas exclusivamente sobre bases de cunho efetivamente mimético. Não é demais referir que a base da linguagem poética é a metáfora que, na sua forma radical, é uma afirmação de identidade: “isto é aquilo”. Em toda a nossa experiência comum, a metáfora é não-literal: ninguém, a não ser um retardado mental, pode tomar a metáfora literalmente.

Já não se busca a mimese em primeiro grau. Aliás, já há muito tempo o poema fala por si. Desde William Blake, demiurgo de todo um universo imagético pessoal, tem se buscado (e conseguido), a renovação da linguagem poética. É inclusive vasta a galeria dos ditos “herméticos” que construíram obra de elevada condensação poética. Ocorre-nos, de memória, Nerval, Mallarmé, Rimbaud, Valéry, Rilke, Salvatore Quasimodo, João Cabral e Murilo Mendes, dentre outros. O próprio Rimbaud, em suas “Cartas do vidente”, já não propunha ao poeta a tarefa de descobrir territórios desconhecidos, que ele desbravaria na frente e de onde traria notícias, muitas vezes informes, ao leitor? Muito bem, o senhor Delalves Costa pratica uma poesia de intensa elaboração formal, com maestria técnica e o uso de uma metalinguagem cortante. Sim pode parecer opaco, de uma opaca tessitura atravessada por sombras e silêncios. Mas é precisamente daí que advém o equilíbrio entre silêncio e palavra, entre o individual e o coletivo, entre a tradição e a renovação. É preciso que se entenda que nos é proposto um hábil jogo dialógico no qual o poeta cria entre o mundo real e o universo do imaginário, a partir de uma consciência linguística que dinamiza o estático e humaniza o desumanizado ao tensionar a linguagem ao extremo, desafiando o dizível. Pensemos nisto antes de afirmar: Ah, o sujeito é um hermético!

E, finalmente, há também em “Extemporâneo”, uma busca de caminhos, de soluções, de saídas para uma nova vida, enfim, porque ninguém mais hoje, em sã consciência, pode admitir que a humanidade siga trilhando esse caminho de insensatez. Os três últimos poemas do livro são testemunhos vívidos dessa busca. Transcrevemos o poema “A Reinvenção”:

É preciso rasgar o modelo hipócrita / deste sistema talhado maquiavélico. / Deste sistema retalhado de costuras / de consequências ardilosas… Aliás,

é preciso rasgar o que não edifica, / amputar punho tirano. Rasgar-se. / É preciso morder pelo alicerce / a morta política dos canetaços. / É precisa rein(ventar fórmulas) / sim, para desentortar bengalas / é preciso, sim, reformas / e significados concretos / sim, remontar conceitos / e desobstruir mundos coagulados.

Sim. É preciso repensar sobras / o vigente modelo remendado. / Vamos atear fogo no resultado / renascer das cinzas não basta, / é preciso remodelar as chamas.

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é escritor, pesquisador e crítico literário. Autor de Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos,  Embriagado Intelecto e outros contos e  Doze Contos & meio Poema. Tem participação em 27 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro, publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional –  Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Krishnamurti Goes dos Anjos

 

Arte: Juca Oliveira

 

GANGRENA

 

“Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem.”
(Adriana Calcanhoto – Senhas)

 

A dor e a sensação de intumescimento aumentando, uma sede horrível queimando-lhe a garganta. Tateou no chão, perto da cama, o copo plástico e a moringa com água. Bebeu o resto da água que havia e deixou cair pesadamente a cabeça no travesseiro. Depois de serenada a sede, recordou-se do alívio que sentira quando interromperam a música do trio elétrico em frente ao palanque dos homens do governo. “Não sei de onde o Genésio saiu. Eu naquele desespero, sem saber o que fazer, para quem apelar. Contei a ele. Ele me disse: toma um gole. Liga não, corrente. Ó, se tu quiser, tu pode entrar num lance comigo e mais dois bróder. Ó, vai rolar a maior grana, tá ligado? Na quarta de cinza vamo estourar um caixa vinte e quatro horas na Pituba… Mas, ih, cara! É nenhuma para você, deixa, esquece, eu só falei por falar, só porque cê tá nessa de horror aí com o tal do isopor. Você é moral, eu sei. Teu negócio é ficar lá enfurnado com a tua nega no barraco. A Sussuarana toda sabe. Tô ligado, só ali ralando na empreiteira que corta os gatos de luz, né? Toma, bebe um gole dessa onda aí, vai te fazer bem….” O zunido da guitarra do trio, sendo afinada, entrando nos ouvidos como o voo rasante de um mosquito gigantesco. Genésio falante, falando alto e suando, a pele negra brilhante. “Eu sei, mano, que a maré não tá boa pra ninguém, só para eles – fez um gesto para cima com o polegar – sempre os mesmos. E os tiras não tão brincando não. Se você vacila, pegam, apagam e desovam o corpo na primeira pirambeira. Depois abafam e não se fala mais nisso. Tá afim de um baseado? Não? Tá limpo. Comigo eu não vacilo, viu? Tá aqui, vê só o cabinho do três oitão aqui no meu abadá. Polícia se mete comigo, meto bala no meio dos peitos desses putos”.

O barulho de música de carnaval recomeça estrondoso, e uma morena, lá no alto, canta berrando: – E tá um empurra-empurra aqui / mas tá gostoso / Ô, ô, ôooo… – Genésio deixou-lhe a garrafa plástica, cheia da bebida liquorosa à base de álcool. Multidão enlouquecida, dentro do bloco aquelas meninas minas do Itaigara, tudo linda, tudo loura, tudo cabelo liso, solto, escorrido, molhado, tudo mamãe-sacode. No apertume chegou a roçar no braço de uma loirinha do bloco, calçada com tênis importado e tornozelo enfeitado com correntinha de ouro. O empurra-empurra invadindo os domínios do bloco, até que a turba recuou na ação encapelada e firme da corda grossa de amarrar navio, jogando longe os do lado de fora da tribo.

“Não sei onde foi para o pé esquerdo do meu tênis velho, o que já estava com o cadarço partido, e aí senti aquela pontada, a dor fina na planta do pé. Primeiro não liguei muito não, e depois que aquela bebida bateu na cabeça, a minha raiva, o cansaço virou uma alegria besta, deu uma zoeira que esqueci até da fome, do isopor; queria mesmo era sacudir os braços, beber da garrafa plástica, me misturar no meio da multidão, daquela zoada maluca até madrugada alta, pra botar pra fora de mim esse mar de amargura, essa rotina de dificuldades, esse cabresto de miséria o ano inteiro. Como é? Tanta gente rica e eu fodido? Aquela bebida tonteia o cabra até os ossos!”

Uma dor de pontadas elétricas partia daquele rasgo e começava a invadir todo o pé esquerdo, o tornozelo, a batata da perna, subindo com força pelo joelho.

“Maria lá na terra dela vendo se o irmão empresta algum pra a gente ir tocando enquanto eu não arranjo um trampo. Eu não queria, mas ela só ficou falando naquilo… Deixei ela ir porque queria pegar o dinheiro do seguro desemprego, sem que ela soubesse. Me deu na ideia ver se eu não fazia o mesmo que muita gente faz aqui: vender de ambulante no carnaval. Comprei a caixa de isopor, comprei as caixas de copinhos de água mineral. As latinhas de cerveja, já não dava o dinheiro, tive que pegar fiado no depósito do Jorge. O que sobrou foi a conta de comprar as barras de gelo. Eu queria dobrar o dinheiro do seguro, fazer uma baita surpresa pra Maria quando ela voltasse. Por que a Maria ainda não voltou? Eu já tô aqui assim faz quanto tempo? Dois dias… ou três?… Maria na estação da Lapa. Olha daqui, olha dali, todo dia enquanto o ônibus dela não vinha, eu trepado no andaimezinho trocando lâmpada da estação, Maria trabalhando em casa de família, gostei dela logo, jeitosinha mesmo. Maria magrinha, fraquinha, ficou tão minha amiga… Ficamos de lá para cá. Só não deu para parir. Não é mulher parideira não.”

A secura na garganta voltou a incomodar-lhe  a goela seca, a sede, a seca.

“Sempre a seca matando, a eterna história miserável da seca. Só mandacaru para suportar. A minha sede é tanta agora que estou enxergando a cortina da porta do quarto igual a quando o sol abrasa a terra já ressequida, e sobe aquela ondulação de calor de miragem… Que agonia meu Deus. Até quando isso vai durar? Valei-me nossa Senhora… Foi isso… Isso mesmo que mãe disse quando contei que vinha para Salvador tentar vida melhor. Valei-me, Nossa Senhora! José, você num vá, Zé. A capitá num tá prestando mais não, diz que não tem mais emprego, Zé. Fica aqui, Zé. A gente tem pouco, mas tem com que passe. Zé, ô Zé! Cê é que sabe… É, mãe, a senhora acertou mais uma vez… Eu preciso suportar mais um pouco. Se tivesse um talo de bananeira aqui pra botar o leite na ferida… Também, se não tivesse vindo, não tinha encontrado a Maria, a minha Mariazinha… Ai que dor desgraçada, não gosto de médico, e quede dinheiro?  Nada! Sempre tive boa saúde.”

Entretanto, naquela altura, uma aflição começou a morder-lhe o íntimo como uma advertência. Aquelas dores faiscantes que não paravam eram um sinal que o ameaçava. Quis gritar, chamar por alguém, chamar por Maria, mas o grito saiu como um murmúrio arrastado da garganta ressequida. Procurou ver o pé, aquela coisa disforme em que se transformara toda a sua perna, supurando e sangrando. O sangue novo em cima do coagulado, tingindo o lençol, escorregando da cama, pingando no cimentado do chão. Já não conseguia distingui-lo precisamente. Um nevoeiro impedia-lhe a visão e, pela primeira vez, frágil, desprotegido contra o que podia acontecer, teve medo, tremeu de medo.

“Mãe nunca demonstrou ter medo de nada, nem nunca chorou. Ficava triste às vezes, ficava com o olhar distante, perdido na barra da serra, sempre ali na janela, calada, olhando, matutando. Nunca. Desde que nasci sem pai, e que me alembro, sempre ali. Forte. Só quando já tava sentado no ônibus que vinha para cá, quando dei o último adeus pra mãe, foi que vi aquelas duas lágrimas escorrerem por seu rosto comprido, sulcado de rugas. Mãe ficou ali com Guardião ao lado, sentado sobre as patas traseiras, os dois me olhando… me olhando”.

O mal-estar aumentava, febre e suor, mal-estar aumentando e trazendo com ele uma sonolência cheia de delírios.

“O cabo de alta tensão energizado, treze mil volts explodindo o caixa eletrônico, incendiando o dinheiro, ele subindo em poste, descendo de poste em turnos de trabalho de doze horas, descascando fios e calos da mão também, folgando lâmpada em poste sim, racionando, poste não, racionando, todo mundo embolado, fio descascado, gente descascada, descarnada, cobre exposto, demissão, bala de trinta e oito no peito do empreiteiro da companhia de energia elétrica que usava uma bota roubada de eletricista e que parecia protegê-lo do des/emprego de corte de lata de cerveja lascada, derramada no chão impermeável do asfalto da avenida carnavalesca, na blitz da fiscalização da prefeitura, o peso enorme do isopor, a cantora gritando sai de baixo meu irmão que lá vai a zorra! Dois dias na base do acarajé, emendas de licenças para ser ambulante, emendas de fios de agarra, tudo embolado, toda hora dando descarga, faíscas, curtos, choques imensos carbonizando o pé calçado numa bota, uma explosão elétrica! A velha casinha no mesmo lugar ao pé da serra, agora reformada. Em volta, um bosque irrigado, com muitas árvores, tudo verdinho, verdinho. A luz dourada filtrando-se por entre a folhagem das árvores. Um cheiro de terra úmida misturado a exalações de flores silvestres. Porteira nova que ele mandara fazer, as ripas e caibros do telhado novinho que ele mandara substituir, mãezinha pitando o cigarrinho de palha, passando o café cheiroso, fartura na mesa. No pátio a bicharada solta, flores e crianças brincando de roda. Quem seriam aquelas crianças? Seriam seus filhos? Brincavam de roda. Guardião de um lado para outro correndo, latindo, perseguindo galinhas histéricas, sob o olhar omisso de vacas leiteiras, uma arruaça engraçada de se ver. Sua atenção se fixa nas crianças brincando. Sentiu-se participando da antiga ciranda de sua infância, cantando a débil canção infantil: Eu sou pobre, pobre, pobre, de marré-de-si”.

Um violento calafrio percorreu-lhe o corpo. Minutos depois, com surpresa, conseguiu erguer devagar a cabeça. Alívio de suave vertigem. Sentia-se agora pairando alguns centímetros acima do próprio corpo dormente. Incomoda-lhe menos a perna, a sede quase que cessara, e o peito, como que liberto, abre-se para uma calma inspiração.

Em meio à tontura de ambiência nevoenta, ressoou mais uma vez o coro infantil… E seu rosto assumiu uma expressão de deslumbramento, porque, girando na ciranda, divisou nitidamente o semblante de Maria a sorrir-lhe docemente.

Quando cerrou vagarosamente as pálpebras, tinha nos lábios o esboço de um sorriso de secreta alegria.

 

Krishnamurti Goes dos Anjos é escritor e pesquisador. Autor de “Il Crime dei Caminho Novo” (Romance), “Gato de Telhado”, “Um Novo Século”, “Embriagado Intelecto e outros contos” e “Doze Contos e meio Poema”. Tem participação em várias coletâneas e antologias, algumas resultantes de prêmios literários. Possui textos publicados em revistas literárias na Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro, “O Touro do rebanho”, publicado pela editora portuguesa Chiado, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional de Literatura da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.