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135ª Leva - 02/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A Literatura é esse território repleto de vivências, cenários e impressões sobre o mundo. Ao mesmo tempo, é atividade que ultrapassa o real e, algumas vezes, não se rende a necessárias relações com ele. O mister de um autor é também algo que não se digna a maiores explicações, a tentativas exaustivas de classificação. Se definir é limitar, cobrar de um escritor as exatas diretrizes de seu engenho com as palavras não parece ser nem um pouco um gesto razoável.

No panorama das narrativas ficcionais, há quem seja profundamente estimulado a criar tendo como norte a necessidade de contar uma história. Mas não é apenas isso. É construir um texto cuja consistência narrativa confira qualidade ao que se está dizendo, sobretudo através da consciência de que aspectos técnicos também são imprescindíveis para quem pretende dizer algo através dos conteúdos elaborados. E quando encontramos alguém movido pelo intuito de trazer ao mundo uma boa história, supomos de pronto que os primeiros indícios de um trabalho digno de ser apreciado estão se delineando. É o caso de Paulo Bono, escritor cuja obra merece especial atenção em razão dos empenhos exitosos com a construção narrativa.

Baiano de Salvador, Bono é um escritor cujos textos prendem a atenção do leitor pela sua fluidez, ritmo e potencial imagético. Some-se a tais atributos a peculiar capacidade que o autor tem de elaborar diálogos que acabam funcionando como verdadeiros atrativos. Diga-se de passagem, muitos desses diálogos têm por virtude maior dar sustentação às expressões dos personagens. E aqui é preciso mencionar que os tipos humanos engendrados por ele encontram correspondência com personalidades que transitam aos montes no nosso cotidiano. O xis da questão é que o autor os molda com habilidade dentro de um universo de cenários e possibilidades comuns a tantas existências diluídas no conjunto dos dias.

Autor do livro de contos e crônicas “Espalitando” (Ed. Cousa, 2013), dentre participações em antologias e coletâneas, Paulo Bono foi também roteirista do curta-metragem “O Garoto”, lançado em 2014. Mas o seu momento atual está voltado para os desdobramentos tidos a partir de seu primeiro romance, “Sexy Ugly”, lançado em 2019 pela Editora Mondrongo. O livro mostra Bono cada vez mais à vontade em sua lida com as palavras, tecendo uma narrativa que subverte expectativas e que tem como um de seus motes o protagonismo de pessoas costumeiramente não aceitas nos padrões de beleza socialmente impostos. E para falar da experiência com seu novo rebento e de outros temas relacionados às vias literárias e mundanas, Paulo Bono recebeu a Diversos Afins para uma conversa marcada por opiniões diretas e certeiras, prova inconteste de que a objetividade é uma das valiosas ferramentas de expressão do pensamento.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – Seu mais recente livro, “Sexy Ugly”, tem um olhar aguçado sobre cenas contemporâneas, pois há nele também uma crítica sutil sobre o sujeito mergulhado em dilemas pessoais que envolvem a luta pela sobrevivência, os desejos sexuais e os afetos. Como foi arquitetar a construção narrativa nesse território cheio de tensões tão nossas? 

PAULO BONO – Foi uma arquitetura de idas e vindas. Aquela coisa de levantar e derrubar pilastras o tempo todo. Na primeira versão do livro o protagonismo era da Propaganda. A história era sobre os bastidores das agências. Com muito mais casos e entrelinhas desse ambiente. Mas achei que estava se tornando um livro de gueto. Joguei tudo fora e recomecei com uma história tipicamente noir. Com mais peso nos crimes, no sexo e no mistério. Mas veio uma necessidade de conhecer melhor o detetive. Foi então que Deco Ramone virou o mestre de obras dessa construção. Descobri que a história era sobre ele. Os bandidos, a femme fatale, os amigos bizarros, a filha, as agências e o puteiro eram na verdade um espelho de Deco. Assim os crimes perderam peso, o noir virou linguagem e a propaganda passou para pano de fundo. O livro seria sobre um publicitário falido que precisava descobrir como vender um puteiro para pessoas feias enquanto lidava com bandidos, com o futuro incerto e com o distanciamento de sua filha. Uma história sobre sobrevivência, expectativas frustradas, autodecepção, sobre a beleza da feiura e a feiura da beleza. Acredito que desta forma a investigação de Deco se tornou mais universal e ele descobriu que somos todos sexy ugly. Ah, e preferi pintar as paredes com humor. De drama já basta a vida.

 

DA – O personagem Deco Ramone é, assim como você, alguém envolvido com publicidade. Em “Espalitando”, seu livro anterior, as narrativas remontam ao bairro da Lapinha, lugar de Salvador que marcou a sua trajetória pessoal. Não há como não observar, na sua obra, essa recorrência a referências que falam de você em alguma instância. De que modo você reflete sobre isso? 

PAULO BONO – É como disse o Hemingway, você tem que escrever sobre o que conhece. O roteirista Charlie Kaufman também comentou uma vez que só podia escrever sobre ele mesmo, pois era o único assunto que escreveria sem errar. E olha que as histórias do Kaufman são bem loucas e inventivas. Acho que é por aí. O “Espalitando” era uma parada mais pessoal até porque veio de um blog que funcionava quase como um diário. Já o “Sexy Ugly” não é sobre mim, estou longe de ser o Deco Ramone. Mas acrescentei muita coisa do que vivi em 20 anos de propaganda. Fante, Bukowski, Céline e muitos outros também iam por esse caminho. Alguns dizem que é um recurso menor, uma limitação. Foda-se. Não acho que há certo ou errado. O importante é o texto. Se ficar bom e verdadeiro, será universal, alguém vai se identificar e não será mais uma história sobre Bono. Recorrer às nossas referências é como dar um pulo num porto seguro só pra pegar uma arma secreta. Se um dia eu escrever sobre uma guerra intergaláctica, acredite, a Lapinha também estará presente.

 

DA – De fato, ainda há muita controvérsia, inclusive, sobre o próprio conceito de autoficção, algo até subestimado por alguns. Não lhe parece mais genuíno saber aliar o texto ao que vivemos, pois tudo sempre esteve no mundo e apenas transformamos as coisas ao nosso modo?

PAULO BONO – Por aí. Mas nem acho que exista um modo mais ou menos genuíno. Cada um faz o que acredita. Genuíno tem que ser o texto. Pra isso é legal saber o que está escrevendo. Claro que é mais difícil o cara fazer um conto sobre futebol de rua se ele nunca fudeu o joelho num baba no asfalto. As palavras acabam soando artificiais. Isso afeta a qualidade do texto. Mas um autor pode descrever bem uma mãe dando à luz sozinha num quarto escuro, se conheceu de perto e aprendeu alguma coisa sobre medos, dores e angústias das mulheres. Não sei se é questão de aliar o texto ao que vivemos. Mas talvez de usar o que vivemos como recurso. Sobre os que subestimam a autoficção, prefiro subestimar as histórias mal contadas.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – “Sexy Ugly” tem uma narrativa de forte apelo imagético, além de apresentar diálogos muito bem construídos e que prendem a atenção do leitor. São dois elementos constituintes, por exemplo, do cinema. Como é que você percebe essa aproximação?

PAULO BONO – O lance é que até os 20 anos li muito pouco. Minhas primeiras referências vieram do cinema. E antes de pegar em literatura eu já era roteirista de audiovisual. Não sei se isso é bom ou ruim, mas acho que qualquer coisa que eu escreva vai levar certa dose imagética. Apesar de serem linguagens bem diferentes, a depender do gênero, acredito que alguns recursos transitam bem entre a tela e a página. É o caso do universo noir do “Sexy Ugly”. O  noir que levou o Dashiell Hammett pro cinema e equilibrou o Raymond Chandler entre livros e roteiros. Eu queria aquela estética na descrição das cenas, queria aquele ritmo tão específico e queria os diálogos rápidos e cínicos. Os diálogos do Sexy foram minha zona de segurança e meu parque de diversões. Ainda quero um dia ser dialoguista de filmes.

DA – “Sexy Ugly” tem, de fato, uma agilidade narrativa, um modo muito peculiar de contar a história, que muito se aproxima com a instantaneidade da própria vida contemporânea. Nestes tempos de excesso de informações, mídias sociais e tudo o mais, comunicar algo através da literatura é um desafio?

PAULO BONO – Em tempos de radicalismos, dificuldades de interpretação, quando tudo é tudo, e opinião é verdade, eu diria que é um puta desafio. Hoje, por exemplo, é difícil escrever um personagem escroto, machista, mesquinho e com pensamentos assassinos sem aparecer alguém pra achar que aquilo é seu ponto de vista. E se colocam isso nas redes, fudeu, vira a verdade. Tem autor que hoje escreve segurando dicionário, bíblia e constituição. O tempo todo julgando previamente seus personagens para não ser ele o condenado. Acho que o perigo está aí. Quando o autor, para ser aceito e por medo de ser mal interpretado, acaba matando a própria arte. Não deixa de ser também um suicídio. Não sei, é difícil. Ritmo, linguagem, estrutura, construção de personagens. As ferramentas estão aí pra vencer esse desafio. Não vai sair legal algumas vezes. Se a comunicação falha até num “bom dia” de elevador, imagina na literatura. Só não pode desistir.

 

DA – Longe de recursos panfletários, como é que os escritores podem se posicionar diante desse estado de coisas em que vivemos?

PAULO BONO – É complicado dizer como cada um deve se posicionar. Já temos muitos heróis, juízes e vigilantes por aí. Escritor patrulhando escritor é foda. Acho assim, acredita numa bandeira? Vai lá, parceiro. Acha que tal caminho é o melhor pra sua escrita? Jogue duro. Quer escrever tal coisa pra ficar bem na fita? Vale também. Mas faça bem feito, conte uma boa história. Só não venha explanar uma cartilha de posturas. Não venha me dizer que eu deveria colocar uma gravata borboleta no meu texto. Isso complica ainda mais esse estado em que vivemos. Acho que é isso. Fazer o que acredita e deixar o outro em paz.

 

DA – O bom mocismo é um desserviço à Literatura?

PAULO BONO – Para mim desserviço são as regrinhas implícitas, os manuais de bom comportamento da escrita, como se a boa literatura fosse produzida de itens de editais. Não é questão de bom mocismo. Existem milhares de livros sensacionais com histórias transformadoras, personagens grandiosos, mensagens bonitas e temas ligados a causas importantes. Problema é elevar esse bom mocismo ao patamar de pedra fundamental deixando a literatura em segundo plano. Não curto muito esse papo de livro necessário. Necessário é contar bem uma boa história.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – Como é que você avalia o papel das editoras independentes na cena literária brasileira atual?

PAULO BONO – Se fosse no futebol, acho que a editora independente seria como um jogador da lateral. Precisa defender lá atrás sua sobrevivência todos os dias e ainda ter fôlego e agilidade pra chegar na linha de fundo e cruzar bem a bola para os autores tentarem marcar um golzinho. Tudo isso jogando contra uma seleção de impostos, altos custos, comissões extorsivas das livrarias, falta de incentivos e um estádio lotado torcendo contra. Porque estamos falando de um país que não lê. Quando você trabalha com uma editora pequena, claro que terá dificuldades em distribuição, por exemplo. Mas autor e editor independente jogam no mesmo time. Se jogarem limpo com diálogo e honestidade, já é uma boa parceria.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

PAULO BONO – Acho que o último dado que saiu foi que brasileiro lê menos que dois livros por ano. Eu conheço muita gente que afirma com certo orgulho que não gosta de ler. Filmes com legenda? Esquece. Por aqui só se lê manchetes, memes e textos de WhatsApp quando convém. E duvide da interpretação correta dos mesmos. Se somos um país de leitores subestimados? Acho que nem leitores somos. Adoraria que alguém argumentasse o contrário e mostrasse que sou apenas um pessimista falando bobagem.

 

DA – Agora estamos vivendo um período nefasto de pandemia mundial, fato talvez imaginável apenas nos livros de ficção. De que modo você observa esse momento que estamos testemunhando? Estamos em xeque sob vários aspectos?

PAULO BONO – Claro que estamos em xeque. Estou no maior cagaço. Tenho conversado com muitos amigos e todos eles também estão com muito medo. Medo do vírus, medo da morte de pessoas queridas, medo do futuro. Ninguém sabe ao certo o que está por vir. Só não acredito que sairemos dessa pessoas melhores. Existe aí uma pandemia paralela de gente egoísta, mesquinha, exploradora, hipócrita, ignorante, oportunista e cheia de ódio que piora tudo. Com ou sem diminuição de curva, essas pessoas não vão mudar. Pra não achar que sou apenas pessimismo, acho que salvar o dia de hoje já ajuda. Leiam um livro, assistam a séries, escrevam, brinquem com seus filhos, façam suas lives, faça um bolo, ligue prum amigo, ouçam música, durmam até mais tarde. É normal despirocar de vez em quando. Mas não adianta muito pensar no futuro agora. É salvar o dia de hoje.

 

DA – Esse presente perturbador tem te desafiado a desenvolver algo específico em relação à literatura?

PAULO BONO – Não costumo escrever sobre algo recente. As coisas ficam muito embaralhadas, uma mistura de impressões. Não consigo focar em nada. Até porque sempre tento trabalhar com o humor, mas agora não está rolando. Tenho escrito algumas coisas nas redes, mas são apenas arrotos do cotidiano dessa loucura. Talvez no futuro apareça alguma história sobre um gordo apaixonado por uma prostituta em meio a uma pandemia mortal. Mas os planos para o futuro estão temporariamente fechados.

 

DA – Afinal, por que escrever?

PAULO BONO – Acho que não tenho um motivo nobre. Não escrevo para transformar as pessoas, contribuir pra uma sociedade melhor, defender causas ou despertar reflexões. Só sei que na primeira vez que consegui escrever um conto, acho que isso tem uns 18 anos, eu me senti muito bem. Estava na pior, sem grana e sem muitas perspectivas. Mas pensar na história, no que dizer e labutar aquilo no computador fazia eu me sentir vivo. Até hoje é assim. Pode estar tudo certo, pagando as contas, todos com saúde, mas se eu não estiver com um projeto ou texto engatilhado ou dialogando com um personagem, fico mal humorado, criando problema em casa e me sentindo a pior das criaturas. Então é isso. Escrevo pra salvar minha cabeça e não ser um pé no saco.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Paulo Bono

 

Arte: Marcantonio

 

Jaca, os peitinhos e a galinha

 

Noite fria. Eu esperava na padaria da esquina. Olhei as horas. Precisava de um cigarro. Se pelo menos eu fumasse. Passavam das dez quando Jaca apareceu. Entrei no carro.

– E a cachaça? – Jaca disse.
– Tá aqui – eu disse.
– Tranquilo, então. Eu trouxe a galinha.
– Que galinha?
– Roque da Lua foi claro. Uma garrafa de cachaça e uma galinha.
– Porra, acho melhor deixar a galinha de fora.
– E o bode?
– Que bode, caralho?
– O bode que enterram em seu quintal?
– Ok. Cadê a galinha?
– Na mala.
– Na mala?
– Lavei o carro hoje.
– A porra vai morrer sufocada.
– Fique tranquilo. A galinha tá na dela.

Jaca era um amigo dos tempos de escola. Daqueles meninões idiotas que levavam a culpa de tudo. Seu apelido naquele tempo era peitchola, por causa dos seus peitos grandes e pontudos. Ficava puto. Hoje trabalha como segurança de loja. Acontece que eu andava numa fase daquelas. Havia deixado a velha agência, e Regina era coisa do passado. Para os diretores de criação, eu não tinha o menor talento. As mulheres pensavam a mesma coisa. Nada dava certo. Sem dinheiro, sem trabalho, só na punheta. Então eu estava por aí, na merda, quando encontrei Jaca. Contei minha situação. Jaca teimou que aquilo devia ser praga de Regina. Macumba, essas coisas. E disse que esse tal Roque da Lua podia me ajudar.

Quando chegamos, convenci Jaca a pegar leve com a galinha. Primeiro, daríamos uma conferida no terreno. E se fosse necessário, pegaríamos o animal. Parecia um lugar agradável. Só aquele som de tambores que arrepiava os cabelos mais crespos do meu ovo. Havia essa figura no portão de entrada. Negro, alto, jovem. Não sei o que esperava da vida, mas segurava uma vela com as duas mãos.

– Boa noite – disse Jaca – o Roque da Lua está?

O garoto não respondeu. Só olhava para frente. Reto. Ele e a porra da sua vela. Parecia um rapaz determinado. Pelo menos a não dar as boas vindas a Jaca.

– Boa noite, amigo – Jaca insistiu – Eu marquei com Roque da Lua.

Nenhuma resposta. Somente o som dos malditos tambores.

– Esse merda não vai falar nada – eu disse.
– Será que é doente?
– Quero que ele se foda.
– Ô maluco! Tá me ouvindo? EU QUERIA FALAR COM ROQUE DA LUA!
– Vamos sair daqui, caralho!
– Tô quase metendo a porra nesse moleque.
– Cuidado, esses caras manjam de capoeira.

Então surge do nada esse baixinho todo de branco segurando a porra de um cacho de bananas. Pelo jeito que rebolava, eu não tinha mesmo certeza por onde ele ia ingerir aquelas bananas.

– Jaquinha! – disse o mestre das bananas – chegou bem na hora.
– Seu Roque – disse Jaca – o garoto aqui não queria colaborar.
– Ah, esse é Tico-Tico. Tico-Tico tá de castigo. Pra aprender a se comportar.
– Esse é Paulo – disse Jaca – o amigo que lhe falei.
– Ah, o que tá desempregado e não consegue trepar.
– É, tô no cu da cobra – eu disse.
– Vem, vamos entrar, vamos entrar. Tico-Tico, você se comporte.
– Aguente firme, Tico-Tico – eu disse.

Lá dentro, havia esse pátio de terra. Cercado de uma varanda com portas e de algumas árvores. Havia também essa roda de gente. Vestidos de branco. Aquela batucada. “Cadê Roque da Lua?” – Jaca perguntou. O danadinho das bananas desapareceu do nada. Então ficamos por ali como dois imbecis. Volta e meia alguém pulava no meio da roda e arriscava alguns passinhos. Até que veio essa morena. Começou a sambar. Nova, pele escura e os dentes mais brancos da noite. Seu corpo? Bem, digamos que eu saberia o que fazer com seu corpinho num quarto escuro. A moleca dançava. Girava. Levantava a saia, ia até o chão, revelava as pernas e, por milésimos de segundo, sua calcinha. Não é por nada não, mas eu já estava de pau duro.

– Será que ela toca berimbau? – perguntei a Jaca.
– Ham?
– Tá sentindo o quê, porra?
– Calor da porra!

Então aumentaram a batucada e a morena enlouqueceu. Começou a revirar os olhos e a retorcer o corpo. Em um desses solavancos, seus peitinhos saltaram da blusa. Como se gritassem por liberdade e quisessem participar da festa. Eram peitinhos firmes, santos e loucos. Eu pensava, por que essas porras parecem mais gostosas quando estão dando santo? Aliás, o santo devia saber que havia um gordo por perto que estava doido pra cair de boca naqueles peitinhos. Eu estava em pânico. Tentava não pensar em sacanagem. Mas só conseguia pensar naquela xoxota em chamas. Nessa hora, algum escroto que gosta de ver o circo pegar fogo soltou uma galinha no meio da roda. Vou dizer uma coisa. Nunca havia visto nada mais inocente do que aquela galinha. Querendo aparecer. Caminhando para o meio da putaria. Balançando a cabeça. No ritmo dos tambores. Pelos olhinhos, estava drogada. Parecia sorrir. Quando a morena a pegou pelo pescoço e ZAP! Passou a faca no animal.

– Puta que pariu – eu disse a Jaca – esquece a galinha.
– O quê?
– Porra, você tá suando pra caralho.
– É o calor, porra.

Adivinhe quem apareceu do nada. Sim, ele mesmo. Roque da Lua. Dessa vez, sem as bananas. Mas com um charuto que não tinha mais tamanho. Dançando, se remexendo e dizendo coisas que eu não conseguia entender.

– O que é que esse porra tá falando? – perguntei a Jaca.
– Não sei. Entendi, não sei o quê Paca Capim, Paca Capim, Paca Capim…
– Jaca, você tá branco.
– Dor de cabeça…
– Porra, será que você tá dando santo?
– Eu tô tranquilo…

Enquanto isso a roda pegava fogo. A morena, os peitinhos e Roque da Lua. A galinha perdeu o melhor da festa, fazer o quê? E do nada, Roque da Lua largou o charuto e começou a dar saltos. Grandes saltos. Saltava e girava rapidamente para todos os lados, fazendo o Mestre Yoda em ação parecer uma velha tartaruga manca. Roque da Lua pulava sobre as pessoas na roda, dizendo coisas e dando gargalhadas. De repente, esse merda veio em minha direção, com os olhos ardentes. Pensei, fudeu. Só deu tempo de pensar isso mesmo, porque logo depois Roque da Lua me empurrou para o lado, apertou os peitos de Jaca e berrou com uma voz fininha “PEITCHOLA! PEITCHOLA! PEITCHOLA!”. Jaca tentou se defender empurrando Roque da Lua, que saltou para trás, dando um desses golpes de capoeira e raspando o pé no queixo do meu amigo.

Três minutos depois, Roque da Lua seguia seu show, enquanto Jaca e eu nos despedíamos de Tico-Tico e entrávamos no carro.

– FOI VOCÊ QUE DISSE! – Jaca berrava
– Vai tomar no cu, Jaca!
– FOI VOCÊ QUE DISSE!
– Como é que eu ia dizer alguma coisa? Eu nem conhecia aquele viado. Você que me trouxe aqui, porra!
– E como é que ele sabia desse negócio de peitchola?
– Sei lá, esses caras sabem tudo da nossa vida.
– Ele me pegou desprevenido.
– Mas você viu aqueles peitinhos?
– Jesus é mais forte!

Bem, o que resta contar é que passei um bom tempo ainda sem trabalho e sem mulher. Que Jaca segue sua vida como Segurança. E que a galinha na mala do carro sobreviveu.

Paulo Bono é baiano e nasceu na Lapinha, tradicional bairro do centro antigo de Salvador. Formou-se em relações públicas, é pós-graduado como roteirista, trabalha como redator publicitário e escreveu o blog de contos e crônicas Espalitando Dente durante 6 anos. Em 2013, lançou o livro de contos Espalitando (Editora Cousa).