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72ª Leva - 10/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

Elefante Branco (Elefante Blanco). Argentina. 2012.

 

 

 

‘Sonho em morrer por eles. Ajuda-me a viver para eles’.
(Pe. Carlos Mugica)

Como bradaram os Titãs, no final da década de 80, em uma de suas músicas mais emblemáticas do álbum Õ Blésq Blom: ‘miséria é miséria em qualquer canto’. Ainda que tal problema atinja dimensões universais, o cinema lírico-realista do portenho Pablo Trapero – um dos diretores sul-americanos mais renomados no exterior – explora o tema de um modo peculiar. Em Elefante Branco, seu sétimo longa-metragem, ele desconstrói o que poderia se tornar mais um abrasileirado favela-movie para questionar o papel do estado, das milícias e principalmente da igreja no conturbado ambiente das periferias. Há uma humanização simbólica por parte dos sacerdotes: eles vestem jeans, falam palavrão, bebem e fumam. E isso não só os aproxima dos habitantes da favela onde pregam como conquista a simpatia dos espectadores. A película dialoga com a floresta e o subúrbio, a brutalidade e o altruísmo, a caridade e a (in)justiça. Sim, riquezas são diferenças.

Sobrevivente de um massacre, enquanto estava em missão na selva amazônica, o padre belga Nicolás (Jeremie Renier) foi resgatado por Julián (Ricardo Darín) para ser seu sucessor no trabalho religioso-social da Villa 31, uma das maiores favelas dos arredores de Buenos Aires, onde vivem mais de 30 mil pessoas. Ali, Julián comanda uma paróquia e, com o apoio da assistente social Luciana (Martina Gusman, esposa do cineasta e atriz de quase todos seus filmes), supervisiona a construção de casas populares no terreno onde seria instalado o maior hospital da América Latina – projeto idealizado pelo socialista Alfredo Palacios, em 1937, e inacabado durante diversos governos – ou seja, o elefante branco que dá título ao filme. Mediadores entre traficantes, moradores e policiais, os três voluntários dividem o hospital abandonado com cerca de 300 famílias e o utilizam como QG para administrar seus projetos sociais, conflitos internos e dramas pessoais, sobretudo quanto à contribuição real de seus esforços e à vocação celibatária.

O sucessor de Carancho (2010) – denúncia sobre a máfia dos seguros de automóveis na Argentina, também protagonizado por Martina Gusman e pelo sempre intenso Darín, que empresta mais uma vez todo seu talento e carisma ao roteiro de Trapero (novamente em parceria com Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre) – tece, simultaneamente, uma crítica social, política e religiosa acerca do processo de favelização e da violência gerada pelo narcotráfico. Se no filme anterior os personagens eram parasitas uns dos outros com o intuito de enriquecer, aqui eles doam seu tempo e sua própria vida unicamente na tentativa de salvar o próximo. Mesmo que a situação seja dura, fica subtendida a mensagem esperançosa de fé, seja de forma prática ou espiritual.

Com uma temática visceral, porém de muito apuro estético, o filme abusa dos planos-sequência desde cenas prosaicas até as mais violentas, conferindo um caráter coadjuvante e quase documental à trama. Exibido no Brasil de forma inédita durante o Festival do Rio 2012 (27 de setembro a 11 de outubro), Elefante Branco é inspirado e dedicado ao Padre Carlos Mugica, mártir ligado ao Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo (MSTMU) – espécie de ‘socialismo religioso’ originário na Argentina nos anos 60 – assassinado em 11 de maio de 1974. Em escala local e contemporânea, estendamos a homenagem a todas as vítimas do massacre do Pinheirinho e aos desabrigados das comunidades de São Paulo, atingidos por mais de 30 misteriosos incêndios. É, a morte não causa mais espanto.

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Pintura: Sylvana Lobo

Imprimir ritmo ao tempo, extraindo dele a noção de liquidez necessária às palavras e imagens elaboradas pelo olhar. Eis um ponto de convergência impulsionador dos percursos da arte como um todo. Pensar assim é fazer com que o substrato das coisas sirva de norte para as criações como um todo. Aquele que escreve, por exemplo, leva a cabo um processo particular de buscas tanto pessoais quanto coletivas. Diante disso, a questão é pensar sobre a importância de se fazer convergir tais universos, colocando em eventos paralelos a perspectiva da alteridade. Indo mais a fundo, é atraente imaginar que a arte evoca um desafio permanente de externar os papéis do ser e do não-ser. Nossa ambiguidade sugere uma inquietação permanente frente a tais estados de atuação no mundo, mobilizando-nos ao nível de um sadio inconformismo. Então, como pensar um motor que move o pensamento artístico sem sentir correndo nas veias a fluidez do estranhamento? De certo, parece impossível conviver com a criação apenas no aspecto da estética ou de uma mera representação do real. Mesmo o gosto pelos mistérios que nos atravessam não serve como pretexto para uma profusão de elaborações sem sentido. É como nos diz nosso entrevistado da vez, o poeta José Geraldo Neres: como inventarmos a roda sem beber na tradição? Nesta conversa, o escritor pontua aspectos que fazem parte de uma concepção bastante especial do ato de criar, qual seja o fato de entender a obra que está por nascer como sendo um grande deserto a se cruzar, sabendo-se a todo instante passível à queda. Aqui, um ato de cair que pode significar um mergulho noutra dimensão útil da consciência. Há, por sinal, incursões dessa natureza nos versos de autores como Mariana Ianelli, Jorge Elias Neto, Ian Lucena, Bruno Gaudêncio, José Carlos Souza, Floriano Martins e Viviane de Santana Paulo. Entre as linhas tecidas pelas mais distintas expressões de agora, temos o arremate sensível da pintura de Sylvana Lobo a integrar os espaços. E quem nos guia pelos olhares em torno da artista plástica é Renata Azambuja. Seguindo em frente, o lado existencialista das palavras impera nos contos de Marcia Barbieri, Fábio de Souza e Frederico Latrão. O escritor W. J. Solha prenuncia o novo, e ainda inédito, “O Autor da Novela”, romance do paraibano Tarcísio Pereira. Nosso gramofone reproduz a qualidade do novo disco do saxofonista Leo Gandelman. A paixão de Larissa Mendes pela sétima arte traz à tona reflexões sobre o longa francês “Intocáveis”. No terreno da arte, caro leitor, há sempre muito por trilhar. A 71ª Leva mantém aceso o desejo desse pacto.

 

Os Leveiros

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Intocáveis (Intouchables). França. 2011.  

 

 

 

 

Os portadores de deficiência ou doenças crônicas retratados pelo cinema costumam viver dramas mórbidos e penosos, como nos densos (e excepcionais) Mar Adentro (2004) e O Escafandro e a Borboleta (2007). Ao contrário do suposto e previsível viés trágico, o longa-metragem francês Intocáveis (não confundir com o clássico policial Os Intocáveis, de Brian de Palma, Al Capone e cia) assume uma postura mordaz e até mesmo politicamente incorreta da situação. Em vários momentos o filme faz com que ignoremos as condições limitadas do protagonista para focarmos em outras questões não menos delicadas. Até porque, como ele mesmo diz em determinado ponto, sua deficiência não é física, e sim viver sem o amor de sua falecida esposa.

Philippe (François Cluzet, cuja fisionomia lembra muito o ator Dustin Hoffman) é um milionário colecionador de arte que ficou tetraplégico após um salto de parapente. Para seu enfermeiro, ele contrata o candidato mais improvável de todos: Driss (Omar Sy), um robusto senegalês sem nenhuma experiência como cuidador e com antecedentes criminais por assaltar uma joalheria. Escolha justificada pelo tom arredio, debochado e sem nenhum sentimento de piedade do ex-presidiário tratar o aristocrata na entrevista de emprego. A propósito, Driss nem sequer aspirava à vaga, estava interessado apenas que assinassem um documento para que continuasse recebendo seu seguro-desemprego do governo. A aproximação gradativa desses dois homens de mundos opostos faz com que Philippe reavalie sua autocompaixão e recobre o bom humor, qualidade intrínseca do novo amigo, enquanto um Driss em processo de lapidação encontra uma válvula de escape para fugir do seu drama pessoal de morador de subúrbio às voltas com os problemas familiares.

A brilhante atuação de François Cluzet, que mesmo mexendo só o pescoço transmite toda a carga emocional do cadeirante, o carisma do personagem Driss (não por acaso Omar Sy tornou-se o primeiro negro a ganhar um César, o Oscar do cinema francês, superando Jean Dujardin, de O Artista) e a química entre os atores talvez expliquem o sucesso do longa escrito e dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache. A comicidade atinge seu ápice nas cenas em que o cuidador flerta com sua colega Magalie, tece uma análise sobre música clássica e experimenta diversos cortes para a barba do patrão. Philippe também tira proveito da situação, enquanto simula um ataque para despistar a polícia na sequência inicial, quando tenta convencer um colecionador a adquirir um quadro pintado por Driss por alguns milhares de euros ou mesmo quando sente os efeitos da maconha. De forma simples e sem digressões, Intocáveis questiona o preconceito, as diferenças raciais e sócio-econômicas, alfinetando a França quanto ao problema da imigração. Em escala universal, contempla o valor da amizade, da arte e a complexidade da própria existência.

Baseado na história real de Philippe Pozzo Di Borgo e Abdel Sellou – que inclusive aparecem nos créditos finais do filme –, e em seus respectivos livros lançados recentemente no Brasil sob os títulos de O Segundo Suspiro (Editora Intrínseca) e Você Mudou Minha Vida (Editora Record), Intocáveis é uma celebração positiva do que podemos fazer com os percalços impostos pela vida. Exibido durante o Festival Varilux de Cinema Francês (mostra realizada na segunda quinzena de agosto simultaneamente em mais de 30 cidades brasileiras), e atualmente em cartaz nas salas nacionais, o filme obteve a segunda maior bilheteria da história da França, com cerca de 20 milhões de espectadores no país, atrás apenas de A Riviera Não É Aqui (2010). Definitivamente, Intocáveis é uma comédia tocante e imperdível.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

 

Por Larissa Mendes

 

Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim (Late Bloomers). França/Bélgica/Reino Unido. 2011.

 

 

“Não somos bebês enrugados!”.

No livro Homem Comum, o escritor Philip Roth afirma que ‘a velhice é uma batalha em que não há chance de vitória’. Diante de tal prenúncio, nos questionamos de modo cada vez mais recorrente se o aumento da expectativa de vida e a segmentação do mercado consumidor na terceira idade são suficientes para que estejamos de fato preparados para o envelhecimento. O cinema também se deu conta de tal filão e o enredo que poderia facilmente cair na dramática armadilha Mal de Alzheimer, ganha um novo sopro de inspiração na comédia agridoce Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim (traduzido em alguns países como 3 Vezes 20 Anos). Os Bloomers que dão título ao segundo longa-metragem de Julie Gavras são Adam (William Hurt), consagrado arquiteto que revolucionou o sistema de aeroportos há 3 décadas e hoje atua como sócio de um modesto escritório de design, e sua esposa Mary (Isabella Rossellini), professora aposentada em busca de trabalhos voluntários que preencham seu dia-a-dia. Casados há 30 anos e com 3 filhos adultos, Adam e Mary passaram mais da metade de suas vidas juntos, o que hoje, diante de tantas divergências, já não parece fazer tanto sentido, desencadeando assim uma crise conjugal que afeta seus respectivos afazeres, seus familiares e amigos próximos.

Ambientado na Inglaterra, quase nada caricato e muito cativante, Late Bloomers (trocadilho, suponho eu, com a expressão baby boomer) faz uma bela reflexão sobre o amor e a vida de forma atemporal. Aliás, de modo bastante autoral, Julie Gavras (sim, filha do cultuado cineasta grego Costa-Gavras, hoje com quase 80 anos) parece ter o dom de transformar assuntos delicados em substantiva delicadeza. Se em A Culpa é do Fidel (2006) Julie apontava para a revolução socialista sob uma ótica infantil, em seu segundo longa ela se vale da outra extremidade da vida justamente para não transformar a “melhor” idade (afinal, melhor pra quem?) em discurso de experiência e sabedoria. Não que o roteiro da cineasta em parceria com Olivier Dazat e David H. Pickering escape ileso de alguns lugares-comuns próprios da idade, como as síndromes de Peter Pan e do ninho vazio, mas, se o faz, compensa na dose de humor e ironia, caracterizada, sobretudo, pela inversão de papéis de seus personagens. Enquanto Adam resiste até mesmo em participar de um projeto para a construção de asilos de luxo, a personagem de Isabella Rossellini aceita com um pouco mais de naturalidade o fato de envelhecer – o que seria bastante doloroso para uma mulher considerada ícone de beleza –, desistindo da clichê hidroginástica e adaptando sua casa com um telefone de teclas enormes, barras de apoio no banheiro e mesmo com uma cama hospitalar de controle remoto. A tradição e moralismo, quem diria, ficam por conta da reação dos filhos diante da provável separação dos pais sexagenários. Vale destacar também o papel de Charlotte (Joanna Lumley) na trama, como amiga de Mary e líder das Panteras Grises, exercendo uma função essencial na epifania dos protagonistas.

Com diálogos refinados, belas sequências – sobretudo a cena inicial e final – e ancorados por uma dupla de atores de qualidade e renome (com destaque para o charme e elegância da filha de Ingrid Bergman e Roberto Rossellini), que baseados, ironicamente, apenas em sua experiência, talvez já valesse o ingresso, Late Bloomers traça um retrato bastante franco e desmistificado sobre a velhice. O filme adverte ainda que nem mesmo o amor pode deter a individualidade, a passagem do tempo e a iminência da morte. Vida longa à Julie Gavras e ao seu cinema de livre [e sensível] faixa etária, que finalizará sua trilogia autobiográfica de protagonistas femininas de várias gerações com The Chocolate War (título provisório da película), sobre o papel de uma mulher na faixa dos 40 anos (idade da cineasta) na sociedade contemporânea.

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Destaques Gramofone

Gramofone

 

Por Larissa Mendes

 

O TERNO – 66

 

 

“(…) E hoje faz sucesso quem faz plágio diferente”.
(O Terno, 66) 

 

Terno: grupo de três coisas ou pessoas; vestimenta clássica composta por três peças (paletó, colete e calça); sentimento de doçura ou suavidade. Seja qual for a vertente interpretativa adotada, ela dará pistas sobre as singularidades desta banda paulista formada por Martim Bernardes (voz e guitarra), Guilherme Peixe (baixo) e Victor Chaves (bateria). Fundada em 2006 pelos então colegas de colégio Tim e Peixe (Chaves completou o trio em 2009), 66 é o primeiro registro de estúdio da banda. Com um rock de roupagem retrô, letras inteligentes e bem humoradas, o videoclipe de seu single possui mais de 60 mil visualizações no youtube e a banda foi indicada ao prêmio Aposta VMB 2012, da MTV. Influenciados por Mutantes, Caetano Veloso, Beatles e The Kinks e apadrinhados pelo músico – e pai do vocalista Tim Bernardes – Maurício Pereira (Os Mulheres Negras, duo com André Abujamra), O Terno contou ainda com a presença ilustre do cantor Marcelo Jeneci tocando órgão hammond no álbum.

Como nos antigos vinis, as 10 faixas são divididas em lados A e B. Enquanto o primeiro lado é totalmente autoral, com composições de Tim, o segundo é formado por releituras de canções de Maurício Pereira. O single 66 abre o disco e dá o tom das inevitáveis comparações que qualquer banda nova sofre: ‘Me diz, meu Deus, o que é que eu vou cantar/Se até cantar sobre ‘me diz meu Deus o que é que eu vou cantar’/Já foi cantado por alguém/E além do mais, tudo o que é novo hoje em dia falam mal’. A melancólica Morto tem uma pegada blues, enquanto a divertida (e sádica) Zé, Assassino Compulsivo conta a história de um serial-killer deveras passional. Completam o lado A, Eu Não Preciso de Ninguém e Enterrei Vivo, talvez as mais expressivas canções do álbum. No lado B, pai e filho dividem os vocais e Pereira assume o saxofone. A inspiradíssima Quem é Quem (‘quem é quem pra dizer quem é o quê’) parece advertir os novatos contra eventuais rótulos. A graciosa (e quase sertaneja) Modão de Pinheiros faz um passeio pelas ruas do bairro da zona oeste paulistana e adjacências, enquanto Purquá Mecê, do disco Música e Ciência, d’ Os Mulheres Negras, de 1988, fala de pássaros e ganha arranjos mais melódicos que o original. Se Compromisso carrega nas guitarras para embalar a poesia de ‘um beijo terno/um abraço gravata’ de Pereira, Tudo Por Ti encerra o álbum em ritmo de ska.

Por razões óbvias, é natural a [boa] influência que Maurício Pereira exerça sob Tim Bernardes e O Terno, visto que a parceria entre compositor e banda data de 2009, quando os músicos foram convidados para elaborar novas versões para o padrinho, culminando no show O Terno & Mauricio Pereira. Além disso, sob o codinome “Pereirinha & Pereirão”, Maurício pai e Martim filho também tocam ao lado de convidados como Wander Wildner, Theo Werneck e do próprio Abujamra. Talvez Maurício Pereira tenha até seu terço de parcela no bom resultado final do cd, mas nada que comprometa os méritos musicais desses rapazes de 20 e poucos anos que, com letras elaboradamente irônicas, fazem um rock nostálgico, meso sessentista, meso anos 2000 e trazem um tom sépio às coloridas (porém, desbotadas) sonoridades atuais. Bem estruturado e com a classe que o modelito impõe, O Terno está devidamente repaginado e tem tudo para ser tendência na(s) próxima(s) temporada(s).

 

* 66 pode ser ouvido, na íntegra, aqui

 

(Larissa Mendes não usa tailleur nem black-tie, mas aprecia música de alta-costura)

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Desenho: Rui Cavaleiro

Seis anos nos separam dos primeiros passos dados por aqui. Nossa primeira infância revelava, mesmo que timidamente, um desejo de alcançar e fomentar espaços em torno das palavras e imagens. Erguer cada edição sempre foi algo visto por nós como uma tarefa deveras especial, agregando expectativas e uma salutar ansiedade pelo modo como o coletivo de expressões mensais pudesse vir a ganhar corpo e alma. Com o passar do tempo, aprendemos que os passos editoriais, por mais que sejam minuciosa e previamente arquitetados, acabam por revelar gratas conformações ao jogo dinâmico do presente. É recompensador saber que existe sempre uma vastidão de leituras há serem feitas, todas elas atraídas pela jornada que conseguimos construir até então. Congregar manifestações dos mais diversos tipos de colaboradores nunca deixou de ser nosso lema maior. Para que tudo isso ocorresse sem gerar uma falsa ideia de incorporação aleatória de expressões, nosso perfil editorial sempre norteou as escolhas com critérios coerentes de seleção, pontuando aspectos que julgamos vitais em termos de publicação. Durante todos os anos de existência da revista, as trocas humanas foram o mote de nossas ações, permitindo-nos não apenas conhecer um pouco mais das obras de inúmeros criadores, mas também perceber neles uma necessária fonte de aprendizado. Os instantes passaram e o melhor de tudo é saber que solidificamos um caminho no qual atraímos, sobretudo, o respeito e a adesão de muita gente verdadeiramente interessada nos feitos culturais. Completar mais um ano de realizações significa louvar o nome de cada pessoa que, sem exceção alguma, por aqui um dia passou. Mais do que celebrar um rito novo de passagem, interessa-nos reafirmar a missão, chamando atenção para aquilo que hoje implica na continuação dos caminhos. E seguimos, contemplando agora os traços marcantes dos desenhos do artista português Rui Cavaleiro, muito bem apresentados por Hilton Valeriano. Nas veredas da poesia, deparamo-nos com Mercedes Lorenzo, Clarissa Macedo, Marra Signoreli, Raquel Gaio e Helena Barbagelata. É deveras especial perceber que gente como a poetisa Daniela Galdino, nossa entrevistada de agora, sabe dotar a vida de uma inquietude criativa vigorosa. Larissa Mendes, com suas precisas escolhas cinematográficas, aponta atrativos em torno do filme “God Bless America”. Intensos percursos da existência resvalam dos contos de José Geraldo Neres, Roberta Simoni e Teofilo Tostes Daniel. O personagem Sinvaldo Júnior, espécie de heterônimo do escritor Rogers Silva, revisita parte significativa da obra de Álvares de Azevedo. A atriz Ivana Luckesi testemunha sobre a sua vivência na arte de contar histórias. A Leva de agora é erguida e dedicada a todos os nossos leitores e colaboradores, em especial a Neuzamaria Kerner, Héber Sales e Valéria Freitas, importantes precursores de nossas andanças editoriais.

 

Os Leveiros.

 

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

God Bless America. EUA. 2011.

 

 

“Por que ter uma civilização se não queremos ser civilizados?”

 

Programas sensacionalistas, fofocas sobre o mundo das celebridades, reality shows de todas as espécies. Quem nunca sentiu sua inteligência subestimada pela TV aberta (e por que não, a cabo), com vergonha alheia da exploração consensual numa tarde de domingo (ou num dia qualquer), exceto os que desligaram o televisor e foram ler o tal livro sugerido pela campanha da MTV? A banalização da liberdade de expressão reduzida aos meros 15 minutos de fama, de Andy Warhol, e demais lixo midiático é tema de God Bless America, filme de humor-negro escrito e dirigido pelo comediante e ator Bobcat Goldthwait (o Zed, de Loucademia de Polícia). Trata-se de uma crítica feroz e politicamente incorreta justamente ao culto do politicamente incorreto, através de um filme tipicamente americano, em sua linguagem e formato.

Frank Murdoch (Joel Murray) é um cinquentão divorciado, aterrorizado pela imbecilidade humana. As paredes de sua casa em Syracuse são tão finas (não por acaso, tem o número de 5773 ½), que ouve todos os estúpidos comentários de seus vizinhos. Após perder o emprego e ser diagnosticado com um tumor cerebral letal, extremamente deprimido, Frank pensa em suicídio. É interrompido de tal pensamento enquanto assiste um reality show estrelado por Chloe (Maddie Hanson), adolescente rica e mimada que fica inconsolável por ter sido presenteada pelos pais com o modelo errado do Cadillac que queria. Inconformado com tamanha futilidade e temendo que sua filha Ava (Mackenzie Brooke Smith) cresça da mesma forma, Frank decide matar Chloe. Roxy Harmon (Tara Lynne Barr), testemunha ocular do crime e colega da garota morta, aprova sua atitude e juntos, tornam-se parceiros de crime, viajando pelo país exterminando sub-celebridades [de]formadoras de opinião e demais anônimos sem ética contrários as suas convicções. Ou seja, a famosa “escória da sociedade”.

Misto de Um Dia de Fúria (1993) com Beleza Americana (1999), God Bless America satiriza e critica severamente a indústria do entretenimento e o “american way of life”, bem como o consumismo e a superficialidade sócio-cultural em escala mundial. Como enfatiza Frank num excelente diálogo travado com um colega de trabalho: “Já ninguém diz nada. Apenas regurgitam o que assistem na TV, ouvem no rádio ou veem na internet”. Esquerdista, violento e avesso a sutilezas, God Bless America tem a seu favor as inúmeras cenas de carnificina e a verborragia dos carismáticos matadores, sobretudo em suas divertidas análises sobre Diablo Cody, Alice Cooper e demais personagens da cultura pop americana. Aliás, o contraponto entre o entusiasmo da cativante Roxy e a aparente apatia de Frank torna a dupla de anti-heróis ainda mais inusitada. É memorável a cena em que Roxy – com uma pistola em punho – afirma ser contra o armamento da população, justificando que assim “qualquer idiota teria uma arma”. Destaque ainda para a excelente trilha sonora, principalmente nas cenas de morte. Não esqueçamos, contudo, que a grande discussão do filme é a inversão de valores da sociedade contemporânea e não uma reles apologia à violência como solução imediata ao processo de emburrecimento de uma ou várias nações. A propósito, God Bless Brazil.

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Juh Moraes

 

 

 

No ofício de travar o combate pelos terrenos culturais, quiçá o imprevisível seja o que de melhor possa acontecer. No caso específico da Diversos Afins, pensamos em tal perspectiva, sobretudo quando temos de fazer convergir signos oriundos de imagens e palavras. Nunca há uma fórmula exata para promover a harmonia entre estas duas linguagens. A ciranda das colaborações gira alheia a critérios herméticos de classificação das perspectivas, e o melhor de tudo é podermos aproveitar cada autor e artista num processo de “cumplicidade involuntária”. Tentar perceber o que criadores trazem em si enquanto elemento fomentador de diálogo com outras expressões é, certamente, o que mais perseguimos em termos de conjunto. E é só depois de entrever os horizontes vislumbrados pela obra de cada colaborador que é possível consolidar um desejável caminho de unidade na diversidade. Hoje, a 68ª Leva é regida pelos arremates delicados contidos nas fotografias de Juh Moraes. Através delas, um bailar de signos convida os textos para a composição de um cenário no qual viver é mais do que urgente. E assim, tomados por tal ânimo, vamos descortinando sabores pelos versos de Fabiana Turci, Aline Aimeé, Vitor Nascimento Sá, Viviane de Santana Paulo e Helena Figueiredo. Numa entrevista, o poeta José Inácio Vieira de Melo fala sobre seus sensíveis percursos literários. Os dedos de prosa da vida andam intensos nas linhas de Daniel Faria e Regina M. A. Machado. Depois de alguns anos de espera, a banda OQuadro lança seu primeiro disco, e os efeitos disso giram nas agulhas do nosso Gramofone. Com propriedade, o escritor Jorge de Souza Araújo enreda caminhos em torno do novo livro de Antonio Nahud Júnior. Noutro ponto, os poemas de “Sísifo desce a montanha”, a mais recente obra de Affonso Romano de Sant’Anna, são tema das densas observações de W. J. Solha. A percepção cada vez mais aguçada de Larissa Mendes nos conduz até a produção cinematográfica “O Futuro”. O ator e diretor Rafael Morais relata os desafios envolvidos na montagem de um espetáculo teatral, enaltecendo a arte do encontro com o público. Munidos pelos imperativos da diversidade, abrimos as veredas de uma nova edição. Seja bem-vindo, caro leitor!

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68ª Leva - 06/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

O Futuro (The Future). Alemanha/Estados Unidos. 2011.

 

 “(…) – a espera é o que se faz dela”.
(J.P. Cuenca, A Última Madrugada)

“Quanto tempo será que demora um mês pra passar?”. O verso da banda carioca Biquini Cavadão parece ilustrar com precisão O Futuro, segundo longa-metragem da escritora, artista plástica, videomaker, atriz e cineasta norte-americana Miranda July. O quanto um momento de espera – seja ela qual for – e a relatividade do tempo são capazes de provocar sentimentos diversos, que beiram da impaciência à angústia? O quanto um hiato, ainda que “terceirizado”, pode desencadear a ruína de uma relação de amor? Seria a tal maldição do stand-by, a iminência do fim para a pausa do que quer que seja?

Sophie (Miranda July) e Jason (Hamish Linklater, de The New Adventures of Old Christine) estão juntos há 4 anos e dividem um pequeno apartamento em Los Angeles. Ela, professora de dança para crianças; ele, técnico de suporte em internet. Um dia eles encontram um gato de rua, que sofreu uma fratura na pata (não por acaso, o batizam de Patinha) e decidem adotá-lo. Entretanto, Patinha tem uma sobrevida de no máximo um semestre (porém, se bem cuidado poderá viver até 5 anos) e precisará ficar 1 mês no abrigo até que possa recuperar-se e ir para casa. Quando tais notícias são dadas pela veterinária, o casal entra em colapso por se dar conta da responsabilidade que estão assumindo e resolvem, assim, utilizar seus 30 dias restantes “de liberdade plena” para dar um sentido às suas vidas. Jason abandona os computadores e passa a vender árvores para a associação Tree by Tree, numa tentativa de salvar o planeta do aquecimento global, enquanto Sophie sai da academia em que trabalha para produzir vídeos de dança bizarros que possam bombar no youtube.

Ainda que muito mais experimental que seu precursor, o gracioso Eu, Você e Todos Nós (2005), é possível observar certa conexão entre os filmes. Enquanto o primeiro aborda o colorido das relações e transita entre vários personagens, o elenco enxuto de O Futuro parece prever seu desbotar. Inclusive o diálogo final de Eu, Você e Todos Nós pode ser compreendido como uma espécie de pretexto para o argumento deste último:

– O que você está fazendo?

– Passando o tempo.

Surreal e provocador, O Futuro promete dividir paladares. Repleto de elementos performáticos e fantásticos, reflete toda a excentricidade artística de Miranda July, bem como a constante melancolia e descompasso de seus personagens perante o mundo. Como se não bastasse, Patinha, ele mesmo, o gato coxo (manipulado como um fantoche, o expectador vê apenas suas patas dianteiras) ser o narrador ocasional da história (com uma voz infantil cedida pela própria diretora), relatando impressões de sua vida e de seus donos, o personagem Jason “tem poderes” de parar o tempo e tecer uma longa conversa com a lua. A velada “crise dos 30”, a ansiedade demandada por uma espera, o papel da internet na sociedade moderna e a própria superficialidade do ser humano são questões que permeiam o filme, num misto criativo de estranheza, vazio e solidão. Tragados pelo presente enquanto aguardamos o emprego ideal, o amor eterno ou mesmo o gato ficar curado –, vivemos em suspenso para um futuro que eventualmente nem existirá.

 
(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

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67ª Leva - 05/2012 Ciceroneando Outras Levas

Ciceroneando

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Criar é estar diante de um espelho e mirar detidamente nossos próprios mistérios. Mesmo o plano da imaginação, gênese de um tudo, por vezes se defronta com aquilo que podemos chamar de angústia da criação. A sensação é a de se estar diante de um marco divisor de tempos: um da inquietação pelo algo a dizer; o outro, da efetiva e consistente materialização do objeto pretendido. O desafio inicial do autor parece ser o de atravessar precipícios sem se deixar intimidar pelas profundezas contornadas.  Em boa medida, a obstinação serve de virtude ao criador, sobretudo porque instaura um salutar estado de alerta em torno dos rumos a serem percorridos. E foi pensando em questões como esta que travamos uma conversa com o escritor W. J. Solha, cujo novo rebento literário, intitulado “Marco do Mundo”, pontua precisamente as legiões de desafios que se agigantam diante da missão de um autor. Entrecortando as expressões de agora, está o traço sensível dos desenhos de Felipe Stefani, alvo preciso das reflexões de Hilton Valeriano. Em matéria de poesia, somos conduzidos pelos densos signos de Edson Bueno de Camargo, Elizabeth Hazin, Ronaldo Cagiano, Mar Becker e Wender Montenegro. No quadro Jogo de Cena, o ator Rafael Morais mergulha com propriedade no fascinante universo dos palhaços.  O escritor Geraldo Lima nos convida à leitura do novo livro de minicontos de Anderson Fonseca. As linhas de Marcus Vinícius Rodrigues, Homero Gomes e Priscila Miraz tecem as tramas contistas dos Dedos de Prosa. O cinema argentino é, novamente, tema da devoção cinéfila de Larissa Mendes. No Gramofone, reproduzimos em alto e bom som alguns percursos sobre o primeiro disco solo de Gui Amabis. Através das trilhas da 67ª Leva, uma nova lavra de publicações se anuncia. Evoé, caro leitor!

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