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67ª Leva - 05/2012 Drops da Sétima Arte Outras Levas

Drops da Sétima Arte

 

Por Larissa Mendes

 

Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto (Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo). Argentina. 2011.

 

“A vida é um bolo de merda e cada dia há que se comer um pedaço”.
(Alberto Laiseca)

 

Quem jamais proferiu a melancólica frase “ah, se eu tivesse 20 anos com a cabeça que tenho hoje…” (salvo os que mal saíram de tal faixa etária), que atire a primeira pílula da juventude. A oportunidade de voltar ao passado para reparar um erro ou meramente para se dar bem paira no subconsciente do homem desde que este usa a desculpa de comprar cigarros. Com enredo inspirado no diabólico poema Fausto, de Goethe, e baseado em um conto inédito do escritor Alberto Laiseca, que faz as honras de narrador da película, Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto traça um retrato amargo, porém franco, das frustrações, da mediocridade e da insignificância do ser humano.

Ernesto Zambrana (Emilio Disi) é um corretor de imóveis de 63 anos, que leva uma vidinha pacata em Olavarría, província de Buenos Aires. Com a nítida impressão de que é um fracassado e nunca teve boas oportunidades na vida, um dia, enquanto almoça com a mulher Rosa (Emma Rivera) em um restaurante simplório, é abordado por um homem misterioso e sem nome (interpretado por Eusebio Poncela), que lhe propõe o seguinte acordo: Ernesto pode voltar no tempo e passar 10 anos em qualquer época de sua vida e, quando retornar a 2011, receberá uma recompensa de 1 milhão de dólares.  Para sua mulher, entretanto, não se passarão mais que 5 minutos, tempo que justifica a frase-título do filme. O que se vê a partir daí é uma realidade paralela, com um Ernestito desculpando-se com a mãe enferma, implantando o (até então inédito) formato reality show no Canal 3, em Olavarría, tentando impedir o atentado às Torres Gêmeas, plagiando antecipadamente Imagine, de John Lennon, entre tantas outras passagens jocosas e mal-sucedidas.

Se a temática ‘viagem no tempo’ já foi explorada com exaustão pelo cinema e o próprio título possa parecer repetitivo, o filme ganha em seu argumento e estrutura, a começar pelos poderes conferidos ao anônimo imortal (ou seria ele o demônio?): contrariando o matemático Gauss, ele foi atingido duas vezes por um raio, que o fez morrer e reviver, no Marrocos lugar onde, segundo o narrador, qualquer coisa impossível pode acontecer.  Outro diferencial é a narrativa fragmentada, com inserções do próprio Laiseca justificando algumas passagens do conto/filme. A propósito, o carismático escritor é uma enciclopédia de frases de efeito[-riso]. É interessante observar também que uma tartaruga – animal de estimação de Ernesto – pontua a passagem dos anos, como que advertindo que o tempo tem um caráter de efemeridade relativa.

Com roteiro e direção de Mariano Cohn e Gastón Duprat, os mesmos cineastas de O Homem Ao Lado (2009), Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto é uma comédia non-sense da qual os hermanos parecem ter se tornado especialistas. Abordando a trinca tempo-vida-morte de forma crua e com certo humor negro, é um filme leve e divertido, porém altamente reflexivo, principalmente porque subverte o tom existencial pela pura fatalidade. Queridos, vou comprar pipoca e já volto.

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

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66ª Leva - 04/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Medianeras (Medianeras – Buenos Aires en la era del Amor Virtual). Argentina/Espanha/Alemanha. 2011.

 

“A Internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida”.

Como não soar clichê num drama romântico em tempos de arrobas? Pergunte a Gustavo Taretto. Escrita e dirigida por este argentino estreante em longas-metragens, Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, é o desdobramento de um curta idealizado pelo cineasta em 2005. Apesar do subtítulo provinciano e desnecessário, o filme é de uma universalidade singular. A temática não é o sentido do amor em si e tampouco o revés tecnológico, mas a solidão paralisante de jovens adultos que julgam já ter provado sua cota de desencontros e de ‘para sempre’ via chat ou sms. A mesma geração de amores delivery, velozes e ambulantes, que discam M para matar a fome de amar, vegetam aqui no jejum da sozinhez.

Martin (Javier Drolas) é um metódico e recluso web-designer, aficionado por games e compras virtuais. Sua verdadeira ligação com a vida real é Susú, cachorrinha herdada do relacionamento com a ex-namorada americana que voltou para sua pátria mãe. Mariana (Pilar López de Ayala) é uma arquiteta com fobia de elevadores. Ganha a vida como vitrinista, talvez por identificar-se com o silêncio e inércia dos manequins que produz, sobretudo desde que rompeu uma relação de quatro anos. Martin e Mariana moram na mesma rua, mas sequer se conhecem. Estão separados por suas respectivas medianeras, aquela parede lateral cega do edifício, inútil, destinada à publicidade ou que fica simplesmente esquecida, ‘como a sujeira que escondemos embaixo do tapete’.

O roteiro é altamente sagaz, humano e divertido e atinge seu ápice nas reflexões dos protagonistas sobre os relacionamentos e a vida. Momentos como quando Martin culpa a arquitetura por todos os seus infortúnios, compara um encontro a um lanche do Mc Donald’s ou faz uma análise nerd da atualidade (há algo mais desolador no século XXI que não ter nenhum e-mail na caixa de entrada?); e quando Mariana afirma que a busca de um amor é mais complexa que encontrar Wally, o enigmático personagem de camiseta listrada do ilustrador Martin Handford (‘se, mesmo sabendo quem eu procuro, não consigo achar, como vou achar quem eu procuro se nem sei como é?’).

Tal qual seu hermano O Homem ao Lado (2009), a arquitetura aparece como um terceiro protagonista e elemento fundamental para a trama. Ambos os filmes exploram a diversidade arquitetônica de Buenos Aires para justificar todos nossos males, sejam eles sociais ou pessoais, as irregularidades estéticas e éticas da cidade e do ser humano. E estas pequenas aberturas feitas nas medianeras em busca de “un poquito del sol”, mais que fendas solares ou frestas de ventilação, servem como consolo – ainda que provisório – a nossa própria falta de planejamento emocional. E na prática portenha, em casos mais graves, motivo de disputas judiciais. Afinal, ‘o que se pode esperar de uma cidade que dá as costas para o seu rio?’, critica Martin em determinado ponto.

Reais ou virtuais, o fato é que as ventanas sempre serviram para nos aproximar de algo, seja dos boatos cotidianos do quarteirão, do universo paralelo de Bill Gates ou do chat mais próximo. E cá da janela, eu me pergunto: onde está mesmo Wally?

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)