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120ª Leva - 05/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Leandro Rodrigues

 

Foto: Angelik Kasalia

 

4 CENAS DO CÃO ANDALUZ

 

I

por que um cão sangrento
atravessa-nos à noite
e reduz a lua com
seu brilho no esgoto
numa parca brancura
disforme moldada
ou uivo do mal agouro
encarcerado/ sombra des-
fragmentada num osso
de nossa própria (in) existência
as vísceras repugnantes
à mostra para consumo
da matilha e suas fartas mandíbulas.

 

II

O ventre exaurido do parir eterno
constante:
………………….palavras, palavras, versos
desarticulados/ disformes
………………….e tão orgânicos.

III

costumeiramente rasgados
no cordão arrancado
com navalha fria, afiada
…………………bem trabalhada.

 

IV

no rescaldo de tudo
o cão – o grito
se deita – carne viva
………………..restos da pelagem
moldura mórbida estática
da sala de jantar imponente
com seus móveis discretamente apoiados
em calços vermelhos e
nas sombras tortas desfocadas
de todos aqueles animais mortos
da família – empalhados
o sangue que ainda respinga
pisado.

 

 

 

***

 

 

 

AFIAÇÕES DA LÂMINA

 

I

É rápido o golpe
O fracasso
A simetria fria
da dor
O novelo desfeito
O relógio que ousa
girar seus ponteiros
ao contrário
A nuvem que paira
cinza cor de chumbo
e encobre a paisagem
………….bucólica – anônima

É solitária a agonia
a chuva, a ausência da palavra
…………… …………………….. [ precisa
a intraduzível morbidez
do todo
……………..um jardim e seus canteiros
……………..em cores vivas.

 

 

II

É solitário o golpe
a imprecisão
da dor fria
cinza – do todo
O relógio desfeito
O novelo que ousa
desfiar-se ao contrário
– intraduzível morbidez
………………………………….[ que paira

palavra de chumbo,
paisagem precisa
que encobre um jardim
………………….anônimo – bucólico

É rápido o fracasso
em cores vivas,
a ausência da simetria
fria – chuva e agonia
…………………como a girar
…………………seus ponteiros
…………………de nuvem.

 

 

 

***

 

 

 

ARESTAS

 

a noite pontuou
seus versos certeiros
pontiagudas arestas
farpas afiadas
no peito.

 

 

 

***

 

 

 

FARPAS

 

uivo de sangue
a matilha estanca
a lua corada.

entre cortes e recortes
no farpado arame
dos dias
costuravas noites
com palavras despidas.

 

Leandro Rodrigues nasceu em Osasco–SP. Graduado em Letras, Pós-Graduado em Literatura Contemporânea, é Professor de Literatura e Língua Portuguesa. Lançou em 2016 o seu 1º livro: Aprendizagem Cinza pela Editora Patuá. Em 2017, participou do Jornal de Literatura  O Casulo Nº 11 e 12 e do livro Hiperconexões, organizado por Luiz Braz para a Patuá com 5 poemas. É um dos autores da Revista Zona Da Palavra. Já esteve em Incomunidade com alguns poemas em Abril de 2016.

 

 

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108ª Leva - 02/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

A todo o tempo, flertamos com histórias possíveis. São relatos impregnados do algo real, dum processar de cenários atravessados. Quiçá nosso antigo hábito remonte à memória, esse casulo de ressonâncias vividas e também inventadas. Haveria uma linha a dividir realidade e invenção? Ou será que ambas vertentes não estariam mescladas naturalmente? De todo modo, é muito difícil criar algo de caráter ficcional sem trazer à baila referências que nos constituem em vida. Seria então impossível um deslocamento absoluto daquilo que somos se o intuito é criar outra dimensão a ser apresentada? Quanto mais aprofundamos a questão, as interrogações parecem se multiplicar. Mas é salutar não ter respostas para tudo, principalmente quando o tema é conceber aquilo que se materializa pelo lume do nosso olhar. Quem cria naturalmente estabelece filtros de acordo com suas vivências. Pressupõe-se algo inalienável. Do contrário, pareceria estranho estar fora de tudo e, desse modo, aceitar uma presença criativa de algo que está além de nós e que, ao menos nos domínios mais plausíveis, não nos pertence como referência direta e tangível. E não está aqui a se falar na capacidade de transcendência, recurso de muitos criadores, mas da assunção de energias meramente geradas ao acaso. Talvez a melhor resposta esteja na manutenção da dúvida. Daí, cada autor fica responsável por conduzir métodos que nos ofertem resultados a serem apreciados em forma e conteúdo. E assim vai girando a roda viva das produções em matéria de arte e literatura. Repercutindo identificações e sugestões, desfilamos agora através dos versos de Cazzo Fontoura, Carol de Bonis, Leandro Rodrigues, Israel Azevedo e Lelita Oliveira Benoit. Apresentando suas impressões sobre o romance de estreia de Maurício de Almeida, “A instrução da noite”, Rafael Gallo edifica algumas atentas linhas. Clarissa Macedo entrevista o poeta piauiense Nathan Sousa. Recortes de vida entremeiam as narrativas de autores como Cinthia Kriemler, Thiago Mourão e Natalia Borges Polesso. Descortinando paisagens urbanas, o fotógrafo Ricardo Laf expõe um variado painel de seu trabalho. Ainda a descoberta do novo disco do poeta, cantor e compositor Sylvio Fraga. Em mais uma sugestão de leitura, Sérgio Tavares aponta para “Julho é um bom mês pra morrer”, livro de Reinaldo Azevedo. Na sua cinéfila resenha, Bolívar Landi escreve sobre a delicada temática presente no filme “O Quarto de Jack”. E assim ergue-se uma nova edição da Diversos Afins, com outros caminhos a serem atravessados. Seja bem-vindo à 108ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

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108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Leandro Rodrigues

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

1915

 

desconheço cada resistência/ os golpes em vão
o grito amargo dos cavalos ao meio-dia
a impressão inexata do que é cáustico
louco
a inexpressiva exatidão do que é risco
sombra/ espasmo
livre ressonância do espelho fragmentado
opressivo/ esfacelado
mil cacos pontiagudos na face do nada
na face do nada

e em frente ao rever os cavalos & seus gritos
o meio-dia fragmentado exposto cru entrelaçado
corte recorte sombras opressivas
gritos despojados em arestas.

 

 
***

 

 
ESPECTRAL XV

 

Poucos espelhos se mantêm intactos
e em cada rosto que se quebra
a marca fria da cicatriz disforme
caleidoscópio antigo em que outras faces
se cruzam como espectros soturnos

Apunhalei girassóis com minhas palavras trincadas
e os dentes servis degustaram ódios e crimes
com pompas de quem salpica a noite com versos do mais impuro sangue

mas estive mesmo pleno – em vôo e concisão
nessa lua avulsa e desmedida:

traga teu punhal para desferirmos juntos os golpes precisos
nessa poça avermelhada em que todo sangue derramado
encarna a luminosidade branca do satélite rústico
que paira inútil sobre nossas ocas cabeças tristes
como a demarcar as imaginárias fronteiras.

 

 
***

 

 

RAÍZES

 

Escrevo torto em desmedida decomposição
Não tarda abreviarmos tudo
Reinvento desenhos com simetrias descentralizadas
Não descendo de nada
Agora apenas traduzo as formigas e o que mais arrastam
Ciprestes imóveis em horas mudas
Descascados túmulos em que os insetos adentram
Para criar raiz nos mortos.

 

 
***

 

 
MORDAÇA

 

Sem cor, sem tez, sem pulso
Rareiam as palavras
Mas não os golpes/ a tortura
Receio
Cada outro porto que não se atraca
Cordilheiras de um fauno intacto
Despojados de sua carne e vísceras,
Como outras requentadas agonias fúnebres
Homens chegam sedentos, cuspindo fuligens-terçãs
Em San José um mártir recita versos e se cala subitamente
frente ao muro caiado
Em San Martín uma camponesa estende a sopa rala
para quem puder pagar
Depois recolhe a toalha, pois a noite já vem.

 

 
***

 

 
METODOLOGIA DO NADA

 
estendo as palavras no curtume
as que ainda respingam sangue
servem para o poema.

 

 
***

 

 
ESTETINO (OU NO CAMINHO COM BUKOWSKI)

 
Anoiteço
Com longos versos de bukowski
Num caminho aberto
de chumbo e cipreste,

Com a boca turva/ calada
mortalha desfiada
pelo uivo da matilha,

Nos golpes precisos/
aniquilada-
matéria finda.

Todos sabem quem são os ladrões
desse inverno.

Quem furta a noite, o soco
E vomita seu limbo
na fresta da lua às mínguas/
lua restrita/ dura,
exilada no porão.

Todos sabem.
Ou fingem saber
dessa tragédia monótona/ manchada
desprovida de carne/ esfacelada
pelo antepassado açoite de metal,
ranhuras profundas/ espirais de aço
jardins de fuligens.

dos galhos secos enfeitados
o grito aflito-presente/ ressente
poema torto – em alto-relevo,
desdobrada agonia/
………….. ..corrosivo-desprezo,

………………………..nas obscuras pétalas de óleo
………………………..improváveis marcas de sangue
………………………..da cidade muda/ disforme.

 

Leandro Rodrigues nasceu em Osasco, São Paulo, onde reside. Formado em Letras – Pós-Graduado em Literatura Contemporânea. Professor de Literatura Brasileira. Sua poesia busca traduzir parte da fragmentação e fuligem de uma São Paulo sombria, opressora, mas efervescente. Também é autor do blog poético nauseaconcreta, e um dos autores da Revista Zona Da Palavra. Possui poemas publicados em diversos sites e revistas literárias.