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80ª Leva - 06/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

Realizações e projeções fazem parte de qualquer trajetória. Não é diferente com o projeto levado a cabo pela Diversos Afins. Hoje, perfazer a marca de 80 Levas é uma conquista que se deve a inúmeros fatores. De todos eles, talvez a persistência, travestida em teimosia, seja um atributo mais adequado. São 7 anos de uma jornada trilhada especialmente pela reunião de desejos e expectativas harmonizadas em torno de um propósito: descobrir e propagar vozes. Durante esse tempo, chegamos à conclusão de que tudo aponta para um exercício de aprendizado constante. Certezas são questionadas e outras visões de mundo se apresentam. Atestar a qualidade desse ou daquele autor, tanto no terreno das palavras quanto no das imagens, não vem necessariamente de pontos de vista cristalizados. Sem deixar de lado os aspectos que robustecem, de fato, uma determinada obra, tentamos privilegiar o modo como ela pode ser interessante aos olhos dos leitores. É algo complexo de conduzir, mas a experiência tem demonstrado que temos conseguido aproximações importantes. Para quem edita, é recompensador, vez ou outra, ser surpreendido por alternativas diferenciadas de criação. O universo de colaboradores que estão dispersos por todas as edições da revista é nosso maior legado. Sem eles, não seria possível falar em continuidade. A Leva de agora é marcada pela reinvenção de territórios trazida pelos olhos do fotógrafo Peterson Azevedo. Em matéria de poesia, juntam-se a nós as expressões de Neuzamaria Kerner, Leonardo B., Ana Peluso, Edson Bueno de Camargo e Maria da Conceição Paranhos. Nossa sabatinada da vez, a poeta, atriz e professora Rita Santana, tem muito a dizer de suas andanças literárias e da sua lúcida condição de mulher. Os contos de Jorge Mendes, Márcia Denser e José Aloise Bahia chacoalham nossa zona de conforto. Em suas pesquisas musicais, Larissa Mendes descobre o disco do cantor e compositor Baia. O escritor Marcos Pasche nos convida a conhecer o novo livro do poeta cearense Assis Lima. Em meio ao panorama teatral de Brasília, Geraldo Lima destaca a trajetória do Grupo Cena. Noutro ponto, uma leitura para o aclamado “O Som ao redor”, filme de Kleber Mendonça Filho. Como todas as outras, essa edição comemorativa de aniversário celebra o desejo de se prolongar caminhos. É com muita alegria e disposição que agradecemos a todos, leitores e colaboradores, por nos ajudarem a construir essa história. Sejam sempre bem-vindos!

 

 

Os Leveiros

 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Leonardo B.

 

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

Du Coeur (incompleto)

 

Disseste ou escreveste milhões ou muitos milhares de palavras.
E deve haver nessa nebulosa uma estrela que seja a tua. Não a saberás nunca.
Vergilio Ferreira

 

Vai e diz
do quanto sopro morno dito em vão
[e de acordo com a ciência houve
por breve sopro no peito astro!],
da parte, da cor
dos quantos quatro cantos do dia
que não te inventam já
não combinam,
como à dor do dente sem raiz
como à ilha que te represa
ao sol posto sobre a mesa, envenenado
sem país, sem sul norte, vai
antes que seja interminável a manhã,
vai, parte
parte a parte que te condena
já veneno do sabor
da cor do coração,
já tremor
da terra que te atrapalha, e parte
o passo onde o pé te tropeça,
antes que seja dia de mais, a mais.
Deixa para trás
o dia, voa, cai
vai e diz, e

faz do traço do giz o tronco
da voz, a quase fronteira
quase pressentimento
dum eu inteiro, corpo presente
estranho equinócio de ninguém,
vai, vem, diz ou

como quem diz,
parte!

 

 

***

 

 

Já fui astro sem abrigo

 

Para Helena Terra

 

Sabem-me a mar as mãos que em mim derramam
o traço de giz, o fecho do circulo que me abriga
repousado na terra, o corpo do corpo recolhido no chão

[e que não se faça dia, ainda não!]
que cuidam-me da luz que se adentra em astro que já fui
pela porta no sol alinhada, bordada raiz onde também se envelhece o coração.
Sabem-me a manto, as emendas provisórias na linha da vida
essas rugas mãos de tecido frágil e fugaz,
que apesar do silêncio, quase murmúrio, quase espinho
do eu que em desalinho, não finjo, não sou capaz.

Já silêncio, ao primeiro canto da terra, às raízes do chão em giz derramado
no círculo que me adormece,
[talvez luz, talvez dia o dia que acontece]
sabem-me a mar essas mãos, eu não.

 

 

***

 

 

Instante

 

Ainda há tempo,
ainda há barro e pedra,
grão da negra terra feita chuva,
para construir,
a tão urgente, a grande nuvem
de papel vegetal,
agora
que ainda há vento
e aprendizagem do caminho
que invento, devagar.

Ainda há tempo,
ainda há por cosmo um lugar
um peito adivinho e teimoso
na pegada do primeiro chão
que invento
devagar,
nas formas do céu em linho
o corpo da ave, o movimento
do rio que na nascente se demora
em água anis,
e também
o que no mundo se faz ventre,
a nuvem dum céu que não erra,
que havemos ainda
por tábua, por vidro, por pedra,
aqui e todo o lugar, o mais além
onde ainda há tempo

para construir, a tão urgente
a pedra mole
que bate dentro,
desigual
e para tal, haja a vontade
porque ainda há tempo.

 

 

***

 

 

Um Anjo Nasce

 

Para André Mehmari, com admiração

 

Em certas manhãs que na medula
dum espinho
na água e no sal,
no linho
remendado no sopro das cinzas

revolvo do chão
como se fosse corpo,
o canto da terra
e então um anjo nasce.

Em certas manhãs
e apesar das águas abruptas, tão calmas
como palavras
da palavra, da raiz o saliente silêncio
primeira comunhão

antes que se faça azul
o dia coração
branco ou negro, cinza rosa velho baço,
devolvo insignificante, o corpo
ao nome que me já não sei

e ao mundo, e no mundo
quer eu queira, quer não
um anjo nasce.

 

 

***

 

 

Como quem diz um homem, por vezes poeira frágil

 

Em cada homem
há uma viagem para um planeta longínquo…
(Para os pobres é a Terra.)
Em cada homem, José Gomes Ferreira

 

 

o que haverá de prender o homem ao chão que pisa, quase nada
ou como quem diz um passo de passo, já da brisa vento breve sobre a terra, quase

fronteira, quase fronteira, quase nada
ou como quem diz da viagem, a poeira frágil quase pegada

do astro que no homem se teima, chão momento, vão finito
como quem diz corpo urgente, corpo do dia madrugada, quase

tinta clara na página breve do mundo, diria, esboço primeiro
ou como quem diz, um homem por vezes poeira frágil
guardador de infinitos, margens e ventos, como quem diz
se há outro eu, eu sou a viagem.

 

 

(Aquele que se assina como Leonardo B., nasceu em Lisboa. Sem “linhas mestras” bem definidas, construiu parte da obra poética sob o apelido de Ricardo S. Desse período constam colaborações irregulares com o DN Jovem. Mais tarde colaborou no das artes e das letras, suplemento cultural de O Primeiro de Janeiro, até à reformulação daquele suplemento. Só em 2009, com a criação do seu primeiro blog, Na Linha das Fronteiras, e mais tarde a Barca dos Amantes, chega a uma mais ampla divulgação, e por opção, não editou até esta data em formato de livro… o que crê que possa acontecer no próximo ano)