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149ª Leva - 04/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Leonardo Bachiega

 

Ilustração: Drika Prates

 

Nua

 

nada sabe esgotar
que este mistério de corpo
em volta de mim
beijado
inicia

um texto
de inseparáveis linguagens

 

 

 

***

 

 

 

Tatuagem

 

nos descosturamos
para fazer a água dos mares
a razão dos lugares
por explorar
e hipnotizar o mundo
dando nossos avisos

eu me divido
entre suas penínsulas desertas
e suas praias
desenhados por sereias

 

 

 

***

 

 

 

pequenas jornadas

 

1.

ninguém sofrerá tanto quanto uma mãe
a separar-se de sua terra

tarde ela busca alfazemas
que ora se desfaz

para desmanchar-se em vida como um dente-de-leão num sopro

2.

deito esperando debruçar-me
como uma criança desajeitada
dormindo numa nuvem improvisada

3.

remendando a túnica
meia-lua
a folhas de bananeira

no que a sua sombra
engolia o deserto
fazia um novo filho
na alba
uma mulher

4.

a palavra ajoelha-se no leito
como fora um amigo
como se um rio passasse no pensamento

5.

nos perguntamos sempre próximos
dos nossos povos o que vocês são
mesmo que nossos povos
não sejam mais que pedra

6.

está o homem parado
pelo agreste que o atravessa
nessa carne sol
nos dias quando celebra a solidão igual a uma amante
as voltas das folhagens são assim as mais nuas

7.

a mulher procurou uma clareira para beber
como se definhasse palavra por palavra
largou o corpo na primeira esquina
deitou-se como numa pintura de schiele
entendia o espaço
como o carinho de um ser amado

8.

vivi em outro tempo longe
acordava com a planura da mulher
e cantigas de uma ave
era outro o que em mim curvava
como a madrugada do itálico de uma letra
hoje ajudo o silêncio
para me desfazer lentamente

9.

o que é a cólera
perguntou certa vez o monge

são as campas oferecidas
que segredam às mães…
separação

10.

um pouco triste
levo meu pensamento
num caminho cercado
por relíquias amorosas

que monge fez da terra crucifixo
para a alma
criar um agricultor
prestes a plantar orações

 

Leonardo Bachiega é arquiteto, urbanista e escritor, nascido em São Paulo, hoje reside na cidade de Carapicuíba. É autor de alguns livros de poesia e um de dramaturgia e no momento se dedica a um livro de contos e mais uma peça. Possui poemas publicados em diversas revistas literárias do Brasil e Portugal, e também possui poemas em diversas antologias, entre elas a antologia da off flip. É criador do podcast “Proximidades do Acaso”, onde recita poemas. Essa leva faz parte do livro “ A cidade é o céu”.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Leonardo Bachiega

 

Foto: Joice Kreiss

 

brincando de equilíbrio

espelhado em ee cummings

 

como se não bastasse olhar
de olhos fechados
as tuas palavras em malvas
o que há dentro do limo
que um mistério não cure…
sob uma locomotiva cuspindo violetas*
o amor está
…onde o desenham
nalgum lugar
em que nunca estive*

 

* Sampler de um poema de ee cummings

 

 

 

***

 

 

 

uma pessoa normal

 

você tem noite nos dedos
rindo ironicamente como uma
esferográfica que borra
nós somos cobrados por nossos resultados
a tua ausência de alguma forma
sempre me fez escrever
um pouco mais sobre o mar
se o céu tivesse uma lua
você se arrependeria naquele momento
até te olhares no espelho… dizer
tu poderias ter sido uma pessoa melhor
mas fostes a ti mesmo

 

 

 

***

 

 

 

sempre

 

um soneto de Shakespeare
amolece um muro
em favos de uma meia – noite
neste apego à letra
o desejo de apertar o céu
de cada dia
um pouco além

 

 

 

***

 

 

 

ao parar

 

há um desfiladeiro nos teus olhos
a que eu chamo eternidade
tua voz seria uma grama que se move
nada mais caberá
do que aprouver em mim cabe em asa
ainda me abre

 

 

 

***

 

 

 

sobre a ternura

 

falo de amor apenas
com os olhos saídos de areias imaginadas
céu de durar poucas violetas
e saúvas no sol da terra
debaixo da noite saudável
sempre repousa uma estrela órfã
como quando se decide habitar na solidão para viver
morar futuros humanos
morrer sob os passos de alguma fera

eu entendo o amor
como um pássaro que sobrevoa
um país extinto
e não consegue nos ver

 

 

 

***

 

 

 

Entreabre

 

a grama é uma trepadeira que ao cair
desajeitada
ficou no chão para sempre
o relento é a folha vestida de seda
transparente cada folha desfalece

 

Leonardo Bachiega é arquiteto, urbanista, poeta e dramaturgo, nascido em São Paulo, hoje reside próximo à capital paulista. É autor de alguns livros de poesia e um de dramaturgia, possui poemas publicados em diversas revistas literárias do Brasil e Portugal. Os poemas desta leva estão no livro “Solfejo de Cores”, publicado em 2021. Fernando Pessoa é seu poeta da vida.

 

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125ª Leva - 03/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Leonardo Bachiega

 

Ilustração: Sadrie

 

construção geométrica

 

resistência
garante o povo
o que a imaginação entrega
ao ventre
depois de atirarem
a pedra
não é a dor
que se vê
mas os círculos
se
ampliarem
no meio
do
riacho

 

 

 

***

 

 

a poeira fragmenta a água

 

o primeiro desafio inclinar a cidade
uma chaminé perfura a casa como a consoante
de um coração que sabe os homens bons
são feitos de pólens
e as bordas ficam mais lentas com
as passarelas de mão
algum limbo decifrou o canto do sol
e as tristezas de uma cesta de cordão
que guarda os ossos da fala
dizendo é mais difícil desfiar
as relações dos homens

 

 

 

***

 

 

você ainda não leu os ossos

 

o chão é sério
formigas rasuram de tanto trabalhar
a cortina parece um fole
se o ar tem uma caixa harmônica
e um tórax
se você desalinhar a métrica
você diminuirá a saudade

 

 

 

***

 

 

 

o primeiro poeta disse não

 

não é de causar estranhamento
ou erosão nos olhos
ou febre no caviar das mãos
a oscilação das calçadas
desde sempre
a poesia foi apenas parte
de uma linguagem cotidiana
mas ela sabe de cor tudo
que existe dentro
isso porque ela diz uma coisa
e faz outra

 

 

 

***

 

 

 

auto relevo

 

entortei um dialeto engenhosamente
de muito inventar máquinas de fazer
planícies e calmarias
entulho suplicando entulho
conduz a água
esfarinhei tantos dedos
e os rochedos são as cartas do tempo
injetei desespero na veia
de uma sujeira cavando uma vala
que uma quase infância
descia a uma depressão

 

 

 

***

 

 

 

as lições das margens

 

não é fácil compreender a pedra
só os rios o fazem e quando
nasce de uma cidade
esquecer músicas quase
nas cidades areias
onde amar é uma pesquisa
arqueológica

 

Leonardo Bachiega é poeta, arquiteto e urbanista, pós – graduado em Barcelona. Nasceu em 1980 na cidade de São Paulo – Brasil, onde mora hoje, é autor de “Poema Número Um” (Chiado Ed. 2016), seu livro de estreia, também publicado em Portugal. O seu segundo livro “A cidade desabotoada”, está previsto para 2018. Tem poemas publicados nas revistas InComunidade e Literatura e Fechadura.