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82ª Leva - 08/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Milena Palladino

Diante de 82 Levas, a avidez por novas conquistas faz-se cada vez mais presente. E tudo se traduz numa espécie de motor do crescimento, desejo incessante de firmar caminhos através daquilo que se tem de mais especial: o potencial da descoberta. Importante mesmo é constatar que não há nada definitivo nessa busca, principalmente porque as criações que intentam algum reconhecimento, além de não se conformarem a regramentos meramente cartesianos, necessitam de certa dose de ousadia. Carecem sempre de mexer com nossas estruturas e percepções, lembrando-nos que vivemos num mundo onde a inércia e a apatia devem ser combatidas com toda a gana que pudermos. Ao mesmo tempo, cabe lembrar que o universo de coisas que nos rodeia já é, por si só, capaz de nos trazer algumas válidas reflexões e, consequentemente, ações.  Por isso, o inconformismo com ditames vazios. Por isso, vale a luta contra as amarras do pensamento, quiçá o pior dos inimigos de quem se propõe a criar. A quem interessaria, por exemplo, a elitização do saber e dos feitos culturais? Em nome do quê atravancar caminhos e vias de acesso ao ato de experimentar a arte sob suas mais variadas formas? Para um autor, a maturidade é joia rara e, em muitos casos, chega a beirar o inatingível. Haveria, então, uma resposta pronta para a dúvida sobre o momento certo de se executar as coisas? Muito se questiona sobre quando alguém estaria definitivamente pronto para tomar as rédeas de si em matéria de criação literária. Apesar de presenciarmos um momento de múltiplas intervenções em torno da escrita, com toda a sorte de expressões a surgir, nosso refúgio maior e melhor aponta para o deus leitura. Nele, encontramos alimento para pensar, agir e, tendo propriedade para tal, expelirmos algo sob a forma de palavras. Hoje, operemos no campo das escutas, emprestando dotes para a alteridade. Talvez assim encontremos um ponto exato de ajuste, de diálogo. Pensando nisso, podemos desbravar as searas poéticas de gente como Leonardo Chioda, Rosana Banharoli, Pedro Du Bois, Maria Quintans e Carina Carvalho. Do mesmo modo, penetrar na prosa cotidiana e densa de José Geraldo Neres, Ieda Estergilda e Marcus Vinícius Rodrigues. Marcando seu momento inaugural entre nós, o jornalista e professor Fernando Marques promove uma verdadeira viagem pela obra “História Mundial do Teatro”, de Margot Berthold. Numa boa conversa sobre literatura e seus afins, entrevistamos o escritor baiano Rodrigo Melo, que também estreia no caderno Gramofone ao conduzir nossas escutas pelo disco de Jair Naves. O poeta Jorge Elias Neto apresenta-nos o mais novo livro de W. J. Solha. Larissa Mendes reflete sobre o filme “Antes da Meia-Noite”. E para coroar todo o coletivo de expressões aqui disposto, expomos, por entre todos os nossos recantos, os sensíveis registros fotográficos de Milena Palladino, artista que mergulha no universo da simplicidade. Uma nova edição surge inteiramente voltada para celebrar sua presença entre nós, caro leitor. Boas incursões!

 

Os Leveiros

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Leonardo Chioda


Foto: Milena Palladino

 

 

O AUGÚRIO ÁUREO

 

do Tríptico a Sergei Parajanov

 

I

 

apostas sobre
o seio coral

o poeta é lenda
ícone
confessa que é
tua assombração

a suspender
o cobre, os jarros
sobre a tapeçaria | de arranjos

o fogo e os cristais
legendam
o véu – ler o véu, rente
aos olhos alados. Atentamente.

a divindade
emaranhada no fio
das tuas vestes
o cálice
dos livros a terra
o elmo

a papoula do umbráculo
o criptogâmico
a prudência serpentina do espório
feito um gato
próximo às velas

o seio coral
pavão sobre os globos
tua longa barba
suspende o palácio
o reinado é febre. gorjeio

ópera | fluido

sepulta as romãs
nas cinzas

o poema
é um manto

coração
de gládios atravessando
o gárrulo.

 

 

***

 

 

TÚMULO DO POETA

 

há de se ler as pedras.
os dedos na relva, sentindo o mármore — as capas
dos livros. sentir o assombro aberto em tempo.
a circunferência da memória – a árvore está, pois,
sempre na semente. ainda o ninho cujo segredo, minha dívida,
é escutar a flor.

há de se ler as imagens
às pontas. nariz rente ao epitáfio,
quase chuva
escrita a lápide
na contingência das rosas
arredor adubo.

.
não se tem esperança
não se tem medo de nada
é livre
.

a erva do sonho
nos romances repletos de cálices. os cantos.
as magias.

há uma alça de rumor
clamando arranjo às medalhas – sete palmos
alfabetizando as raias do olhar. a voz
se ocupa de artemísias, nos dentes.
as terras. a condição das peles. égide sem expectativas
na superfície o sol. ofício cretense
de mudas.

 

 

***

 

 

POÉTICA DO DESTINO

 

o destino não tem rosto
só um cristal negro de sete pontas perpétuas

sob um casaco tom de sangue
coagulado. rosas antigas nas patas

o destino tem a boca de florilégio  — um mosaico.
La Alhambra em technicolor. e não fala. sibila
feito oráculo. advento de
vagar suspenso na retina.

[o destino
é uma menina

ou

um monstro
ao dobrar a esquina]

destino caminha feito tigre
couraça de cerâmica. carne cobalto.

seduz os velhos e aflitos com suas pernas de agilidade
penas de transitório. é certo. como o percurso da pele,

o destino deveria ter cheiro, mas é poesia.
fragrância de ventre em polpa.

nenhum de nós,
o destino. veste-se no plasma da ardósia

segue senhor dos rastros de futuro.
o todo em jogo: camufla-se em colagens

……………queima de perfume
……………as peças florais.

 

 

***

 

 

O SEXO DE HERBERTO HELDER

 

Dar de beber às rosas. Café perto do sol.
O livro incandesce. A presença de espírito nos felicita.
Há o vento vário quando silêncio é rei.

Perscruta as sementes com o olhar. Os santos sorguem a paisagem na crista. São as imaginações.

Mas o mundo são as patentes. Há de quebrar as patentes
E meter ao fundo dos castelos, entre as vontades.
E ainda assim
Dar de beber às rosas. Fac-símile, a condição de foda e perda a nos continuar. Lavam as soleiras e continua-se.

Na sombra me dispo. E na sombra o que me venta
É o que me define. Taras entre tantas folhagens.

As horas são nossas.
As horas são nossas.
As horas são nossas.

As heras nos transpassam.

 

 

(Leonardo Chioda nasceu em Jaboticabal. É autor do livro ‘Tempestardes’, premiado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura e integrante da Coleção Patuscada (São Paulo: Editora Patuá, 2013). Escritor e leitor de imagens, é graduado em Letras pela UNESP. Mantém o blog de poemas Víscera da Musa e Café Tarot, de ensaios iconográficos)