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139ª Leva - 06/2020 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Nestes tempos de relativo confinamento, muitos de nós percebemos o quanto a arte é fundamental. E ela não é tão somente a preenchedora dos instantes envoltos no ócio, mas a que tende a chacoalhar a rotina dos dias, propondo-nos um sem fim de caminhos. De todo o repertório possível, há mergulhos que nos impactam com mais intensidade do que outros. Seja na literatura, cinema, música, teatro ou artes visuais, para ficar nalguns exemplos, há sempre distintas chances de assimilação dos conteúdos. Mesmo que algumas dessas fruições não representem qualquer tipo de transformação do sujeito ou de sua realidade, ainda assim este pode ser atravessado pelos temas dispostos bem diante de seus sentidos. As obras também são instrumentos de comunicação que nos falam do quanto o estar no mundo significa muito. Quantos de nós não se sentem, em algum momento da vida, representados por determinadas narrativas artísticas? Certamente, há tanto processos naturais de identificação com obras específicas quanto o contrário. Sentir-se parte de algo, ainda que no campo ficcional, já parece nos dizer um pouco sobre o que somos. Pensando desse modo, o artista é também uma espécie de porta-voz de muitos ímpetos inconfessáveis, pois um dia talvez tenha faltado coragem a alguém de exprimi-los. Daí, percebemos o fio tênue entre dois mundos, o interno e o externo, através do qual a arte encontra seus deslizamentos. Dizer o indizível, provocar, balançar as fundações, desacomodar certezas, eis algumas investidas que podem muito bem não corresponder a um mero efeito retórico. E assim as estruturas vão se delineando e movimentando narrativas que nos atraem também por seus apelos inusitados. Nesse sentido, observamos, por exemplo, a capacidade que os poemas de gente como Alexandre Pilati, Helena Arruda, Neuzamaria Kerner, Juliana Sbrito, Vanessa Teodoro Trajano e Jorge Lucio de Campos têm de atrair nossas atenções. Quando o tema é discorrer sobre certas veredas literárias na contemporaneidade, a entrevista com o escritor Rodrigo Melo nos sugere perspectivas e reflexões bastante interessantes. É Vivian Pizzinga quem nos ciceroneia pelos caminhos de “haverá festa com o que restar”, livro de poemas de Francisco Mallmann. E há também espaço para as pulsações intensas nos contos de Adriano B. Espíndola Santos e Enio Jelihovschi. No nosso caderno de cinema, Guilherme Preger traz à tona algumas discussões sobre o instigante filme sueco “Border”.  Rans Spectro relembra o impacto causado por “Sobrevivendo no Inferno”, disco antológico dos Racionais MC’s. Por seu curso, Gustavo Rios nos oferta seus agudos olhares para “Bartolomeu”, romance de Bruno Ribeiro. Por todos os cantos de nossa mais nova edição, fomos brindados com uma exposição dos desenhos de Fernanda Bienhachewski, que tem como um de seus temas centrais as delicadas nuances do corpo. E assim se firma a nossa 139ª Leva, repleta de caminhos e acolhidas. Boas leituras!

Os Leveiros

 

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116ª Leva - 01/2017 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Antonio Paim

 

Nos primeiros movimentos de 2017, os caminhos insinuam possibilidades. Outros tons e cenários se delineiam diante da aproximação de novos criadores. A Revista Diversos Afins aprofunda o interesse por diálogos que representem perspectivas de construção crítica da arte. Tal predileção está associada ao fato de que há de se contemplar o mundo e suas faces através das vias artísticas, isso é inegável, mas deve-se levar em contar o caráter de enfrentamento da condição humana por um prisma também analítico e que seja capaz de promover alguns importantes questionamentos. Autores conferem uma especial dimensão à sua obra quando, ao deixarem de lado as armadilhas do discurso frágil e quiçá panfletário, deslocam suas vozes para um efetivo lugar de representação.  É quando o tempo da inconformidade e da inquietude deixa claras as suas marcas sem que esse processo aconteça de modo gratuito.  Há de se retirar da própria vida o subsídio daquilo que expõe e afirma as identidades de autores e artistas. Nada é em vão. Uma obra é construída notadamente pelas marcas que carregamos, pelo sopro que constantemente atravessa os instantes percorridos. Para entender um pouco tais mergulhos íntimos, individuais e agora aqui compartilhados, servem como referência os versos de Vanessa Dourado, Lucas Rolim, Taís Bravo, Casé Lontra Marques e Myriam de Carvalho. São vozes poéticas que nos convidam a desfrutar dimensões desafiadoras do espírito humano. No contexto da prosa, também os contos de Mariel Reis, Viviane de Santana Paulo e Caio Russo visitam paisagens nada usuais e tampouco confortáveis. Coube a Sérgio Tavares a preciosa tarefa de entrevistar a jornalista e escritora Paula Dip, profunda conhecedora da pessoa e obra de Caio Fernando Abreu. Na entrevista, Paula relembra importantes passagens da trajetória do autor gaúcho e sua relevância para a literatura brasileira. Noutro ponto da nossa edição, Helena Terra apresenta suas leituras para “Bífida e outros poemas”, primeiro livro de Alexandra Lopes da Cunha. Também na esteira dos convites à leitura, Jorge Augusto comenta a estreia de Robson Poeta Du Rap em livro. Quando o assunto é cinema, Guilherme Preger mostra um olhar agudo em torno da delicada temática presente no filme “Eu, Daniel Blake”. É W. J. Solha quem nos indica “Grãos de Esperança”, livro de haikais de Wilson Guerreiro. Por todos os cantos da 116ª Leva está a presença marcante das fotografias de Antonio Paim, cujo trabalho contempla um viés fortemente subjetivo. Com todas essas atuais expressões, abrimos mais um ano de publicações. Desejosos de continuidade, dedicamos essa nova edição a nossos leitores. Que sejam todos bem-vindos!

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