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129ª Leva - 01/2019 Ciceroneando

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Ilustração: Joana Velozo

 

Um ano se inicia. Com ele, sempre depositamos esperanças de mudanças em relação ao movimento das coisas que buscamos. Parece haver a ideia permanente de que outra contagem temporal, por si só, é capaz de encerrar a renovação. Desse modo, pensamos teimosamente que um ano nascente demanda a intenção da novidade. 2019 pode ser muito mais do que índice cronológico de um estado de coisas e situações. Compartimenta um tempo de vivências que ganha significativa importância na medida em que estas remetem ao pensamento humano. No caso específico de um projeto como o da Diversos Afins, as expectativas são movidas pela dinâmica que aflora entre palavras, ideias e imagens. Assim, o ano agora por desbravar não significará muita coisa se não pudermos, através dos comandos da Arte e da Literatura, fomentar expressões daqueles que pensam muito além de seu entorno. O compromisso com o mundo e suas mais variadas questões é algo que perpassa naturalmente as manifestações de muitos criadores. Estes últimos são vetores de um fluxo comunicativo que requer uma lúcida e aguçada observação sobre a vida, delineando temáticas que ultrapassam as fronteiras da mera contemplação estética. Há quem tencione que o fazer artístico deva guardar uma necessária correlação com o tempo no qual se vive, representando tal ato uma incessante vigília sobre o curso da história humana. Nessa mesma linha, evoca-se a noção de que somos todos seres políticos por natureza e, portanto, passíveis da assunção do comportamento crítico dentro do imenso painel que é o exercício democrático do livre pensar. O curioso é perceber aqui que até mesmo quem se recusa a se caracterizar como sendo alguém político já pratica uma espécie de política, mesmo que na via da negação. Discussões à parte, as veredas literárias, por exemplo, são um importante instrumento de exposição de opiniões advindas do universo sócio-político. Além disso, posicionar-se pode ser muito mais do que encampar uma determinada ideologia, ou seja, significa também deixar mais consistente o caldo da participação na sociedade, ainda que surjam correntes antagônicas de ação, o que nos “protegeria” das garras nocivas do pensamento único. Quando a arte movimenta essas nuances do múltiplo que se abrigam em nós, somos convocados ao debate e à reflexão. Movidos pela pluralidade, nosso caminho editorial de então encontra respaldo na expressão poética de Ricardo Escudeiro, Wanda Monteiro, Luísa Gadelha, Elizabeth Hazin e Tito Leite. Somos também embalados pelos contos de Kátia Borges, Zuca Sardan e Floriano Martins. É Geraldo Lima quem nos apresenta o mais novo livro de Claudio Parreira, o romance “A lua é um grande queijo suspenso no céu”. Guilherme Preger analisa as delicadas tramas do filme japonês “Assuntos de família”. No texto de Pérola Mathias, toda a inventividade presente em “Contraduzindo”, disco de Tuzé de Abreu. Elis Matos entrevista a poeta, fotógrafa e performer Ana Mendes. A pesquisadora Maria Lúcia Lepecki celebra a memória do escritor português António Vera. O rock da banda Game Over Riverside é alvo de Emanuel Moreno Pinho e suas impressões sobre o disco “Empty”. Durante toda a edição, somos atravessados pelo impacto das ilustrações de Joana Velozo. Adentrando seu novo ciclo de atuações, a Diversos Afins apresenta a 129ª Leva. Seja muito bem-vindo(a), caro leitor(a)!

 

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124ª Leva - 02/2018 Ciceroneando

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Foto: Tati Motta

 

Afinal, de que é feita uma nação? De um mero aglomerado de pessoas marcadas pelos laços comuns e historicamente institucionalizados pela ocupação de um mesmo território geopolítico? Ou seria pela reunião de interesses difusos pautados por uma exposição das diferenças? Num país de proporções continentais como o Brasil, talvez seja árdua tarefa vislumbrar tudo como se fosse o resultado direto de uma uniformização de pensamento. E de fato esta última, para nosso bem, não deve existir. Pensando a partir do viés cultural, por exemplo, somos levados a concordar que a pluralidade de expressões é quem dá as cartas. Basta notarmos a multiplicidade de manifestações que, alocadas em seus espaços regionais, exprimem a força individual e personalizada dos mais distintos grupos sociais. Há razões históricas para isso, bem sabemos, mas a valorização das tradições de cada povo pode também dialogar com as mudanças trazidas por eventos como a globalização. Há, evidentemente, críticas a processos como este, mas, por outro lado, é saudável pensar no modo como determinadas culturas podem expandir suas epifanias além das fronteiras demarcadas usualmente. O saldo é deveras positivo quando tomamos contato com a arte de pessoas e coletivos dos mais profundos rincões do país. E há uma sensação semelhante de permanente descoberta quando, através de um projeto como a Diversos Afins, podemos conhecer os mais variados atores que, com a verdade de sua arte, ofertam sempre algo de relevante para nossos olhares. A marca principal disso é justamente o reconhecimento da diferença, da capacidade que cada autor ou artista tem de revelar o potencial de suas singularidades. Partindo dessa premissa, o presente nos leva ao encontro de poetas como Flavio Caamaña, Isabela Rossi, Luiz Frazon, Flávia Péret e Verónica Aranda. É ponto de destaque dos nossos caminhos a entrevista feita por Elis Matos com a escritora JeisiEkê de Lundu, artista multifacetada que nos expõe a força e a beleza de seu pensamento. Vivian Pizzinga promove mergulhos pessoais na provocativa peça “Insetos”. No caderno de música, temos a estreia de Pérola Mathias num texto sobre o primeiro disco do grupo de hip hop pernambucano Arrete, inteiramente formado por mulheres. São de Daguito Rodrigues, Carla Kinzo e Fernando Rocha os contos que por aqui povoam os espaços em prosa. O “Exercício da Distração”, mais recente livro de poemas de Kátia Borges, é tema das leituras de Saulo Dourado.  Em seus percursos pela sétima arte, Guilherme Preger nos brinda com olhares para o documentário francês “Visages, Villages”, que traz a parceria entre a cineasta Agnes Varda e o fotógrafo JR. Cada recanto desta nova edição é contemplado com uma exposição fotográfica da mineira Tati Motta, artista que enxerga no mundo detalhes que nos escapam teimosamente. Eis a nossa 124ª Leva. Boas leituras!

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99ª Leva - 02/2015 Ciceroneando

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Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

 

Novos desdobramentos nos espreitam por aqui. Imagens, diálogos, lampejos, análises, ficções, versos, escutas, tudo o que sugere uma ponte entre um universo íntimo de observação dos criadores e uma dimensão externa das coisas. Até imaginamos o quanto uma obra pode incorporar de sentidos e signos do seu nascedouro até a recepção de um apreciador, mas a questão é que o corpo final terá uma conformação imprevisível. Talvez esteja aí o caráter transformador da arte, tanto para imagens quanto para palavras. Quem mergulha na degustação e leitura do universo artístico, recria mundos a partir do seu. Há limites para isso? Uma criação pode, de fato, sofrer uma profunda alteração em razão de seus múltiplos e possíveis níveis interpretativos? Esse fluxo de indagações também parece se aproximar de outros mais, sobretudo aqueles que se referem ao quesito direcionamento das obras. Assim, perguntaríamos, por exemplo, para quem um autor produz, se para si ou no afã de encontrar abrigo no seio de quem recepciona seus feitos. Parece-nos mais razoável permitir que tudo caminhe no seu curso mais natural possível, evidenciando que as experiências individuais assinalem seu próprio caminho. No nosso terreno atual de expressões, questionamos o poeta Geraldo Lavigne de Lemos a respeito desse assunto. As impressões dele estão contidas numa entrevista, bem como epifanias que povoam seus caminhos de escritor. Quem faz par com os textos publicados por aqui é a arte multifacetada de Alessandra Bufe Baruque. Nos caminhos da prosa, vemos desfilar as linhas de Marieli Becker, Dênisson Padilha Filho e Tere Tavares. Na seara teatral, Geraldo Lima oferta percursos ao livro , do dramaturgo Fernando Marques, uma adaptação em versos da peça Woyzeck de Büchner. As janelas poéticas de agora se abrem para as vozes de Ana Farrah Baunilha, Luciane Lopes, Geraldo Lavigne, Márcia Barbieri e Marcelo Benini. O complexo filme Birdman recebe as percepções de Larissa Mendes. O coletivo de expressões poéticas e fotográficas abrigados no livro Profundanças é acolhido pelas sensíveis leituras de Neuzamaria Kerner. Na agulha do caderno Gramofone, giram as canções do disco solo do cantor e compositor Russo Passapusso.  Bem-vindos aos mergulhos da 99ª Leva, caros leitores!

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66ª Leva - 04/2012 Ciceroneando

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Foto: Kenia Vartan

Depois de um longo caminho trilhado, a Revista Diversos Afins volta suas atenções para a concepção de um novo espaço de publicações. Se é certo que, através dos tempos, a perspectiva de mudança ergue-se como companheira inseparável de muitas iniciativas desse porte, não seria diferente com o trabalho contemplado por nós. A vontade de ofertar aos leitores possibilidades, cada vez mais profundas de experimentar os signos aqui sempre exalados, fez-nos arrumar a casa em direção a novos rumos. Uma outra estrutura afigura-se agora bem diante de nossa trajetória, reportando-nos ao incessante desafio de mantermos a tônica viva de nossos propósitos. E esse é um caminho que nunca encerra bases definitivas, pois, a cada edição erguida, lidamos com a complexa tarefa do aprendizado. Seja em critérios formais ou subjetivos, a busca pela qualidade segue como sendo nosso objetivo principal. Dentro dela, a oportunidade de estabelecer uma conexão entre as expressões dos autores e artistas e os leitores constitui verdadeira missão, muitas vezes calcada em valiosas revelações criativas. A nova etapa de vida da revista contempla um vasto panorama visual, reforçando ainda mais o diálogo entre imagens e palavras expostas. Como forma necessária e inalienável de preservação de nossa memória editorial, nossas Levas anteriores permanecem vivas dentro do antigo site, proporcionando aos visitantes um autêntico percurso histórico pelo que já publicamos. Sendo o marco de um nascente tempo, a 66ª Leva aponta descobertas valiosas. Exemplo disso está na exposição fotográfica da amazonense Kenia Vartan, que traz um olhar especial sobre pessoas e lugares.  Nossas janelas poéticas abrem-se aos versos de Wesley Peres, Ana Vieira, Roberta Tostes, Felipe Stefani, Alice Macedo e Anna Apolinário. Falando sobre improvisação, o ator e diretor Rafael Morais promove a estreia do Jogo de Cena, caderno que aborda reflexões sobre teatro. Numa entrevista, o fotógrafo Márcio Vasconcelos fala sobre sua trajetória em torno da fotografia documental. Larissa Mendes apresenta sua mais nova dica cinéfila, o longa Medianeras. A pungência dos contos de Gerusa Leal e Jorge Mendes atravessa recortes de vida. O escritor Jorge Elias Neto traduz o poeta espanhol Ángel González. Por aqui, também as escutas do mais novo disco da banda Mundo Livre S.A. Com ânimo redobrado e brilho nos olhos, seguimos adiante. Agradecemos a todos os leitores e colaboradores por tudo o que trilhamos até hoje, em especial a Ana Peluso e Antonio Paim, parceiros responsáveis pela materialização deste novo ambiente.

Saudações sempre culturais,

Os Leveiros