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75ª Leva - 01/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

Qual sopro contínuo e que move a vida, abrimos a janela das publicações para um novo ano. Diante disso, expectativas de outros tantos encontros se fazem reais. Flertar com o vindouro não é negligenciar o presente, mas sim buscar a extensão dos dias para que tudo possa confluir num projeto cada vez mais sólido e maduro. São 75 edições levadas pelo aprendizado e pela evolução, quesitos que nos fazem refletir o quanto trilhamos de efetivo em todo o tempo de existência da revista. De toda a bagagem incorporada até aqui, a mais importante decorre dos laços humanos que foram estabelecidos. Sem sombra de dúvida, estar aqui hoje é resultado direto de trocas, diálogos e interações firmadas por todas as frentes possíveis de um mundo que se desenha multiforme. E como é recompensador depararmo-nos, inclusive, com o diferente e o inusitado, lugares que muitas vezes removem a tão acostumada zona de conforto. A partir de perspectivas como esta, vamos revendo algumas práticas, consolidando outras, tudo para tentar alavancar e manter um modelo de qualidade que represente algo atraente aos leitores e visitantes. Tais perspectivas implicam em considerar que os caminhos estão abertos, pois seguir adiante se faz imperativo. Sendo assim, nada melhor do que abraçarmos novas e coerentes descobertas, como é o caso dos poetas Jorge Vicente, Daniela Delias, Gil T. Sousa, Alexandra Vieira de Almeida, Alvaro Posselt e Lílian Maial. Exalando seu modo poético de conceber mundos no mundo, Luiza Maciel Nogueira partilha conosco os signos de seus desenhos em meio à profusão de palavras presentes nesta recente Leva. Múltiplas visões da existência atravessam os contos de Natércia Pontes, Eleonora Marino Duarte e Bruna Mitrano. Há também o valioso diálogo com a fotógrafa Mercedes Lorenzo, entrevista que pontuou aspectos ligados à concepção da imagem, bem como reflexões sobre a arte em nosso tempo. Bolívar Landi ousou percorrer as rotas de Django Livre, novo e polêmico projeto do intrépido cineasta Quentin Tarantino. No gramofone, Larissa Mendes deixa girar as canções presentes no mais novo álbum da Orquestra Imperial. O mais recente livro de contos do escritor Rodrigo Novaes de Almeida é destaque do Aperitivo da Palavra. Esta, caros leitores, é apenas uma pequena demonstração de que palavras e imagens continuarão fazendo par constante por aqui. Que 2013 seja motivo frequente de saberes e sabores em torno da arte. Boas incursões a todos!

 

Os Leveiros

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Lílian Maial

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

FONTE

 

em algum lugar
não cabe o todo
há muito mais de mim
em cada poro
ainda há o choro

o consolo
.
.
.
ignoro

 

 

***

 

 

DESENCANTAMENTO

 para Antônio Adriano de Medeiros

 

Primeiro é preciso encontrar a fome,
a necessidade. Porque todo poema é
alimento. Os versos são pão e vinho.
O poeta precisa aprender que o seu papel
não é colher a uva, mas se deixar embebedar.
Não é devorar a casca, o miolo,
mas aprender a semear o solo e o verbo.
Ser poeta é saber crescer na miséria
de carne, de pão, de uva.
É descobrir-se sedento e esfomeado
toda vez que um verso lhe ronda a face.
Um poema não sabe nada de Vida e de Morte:
ele é a magia, em si, que, se decifrada,
vira palavra no papel.

 

 

 

***

 

 

EU TENHO UM RIO

 

eu tenho um rio que brota de dentro
e traz à tona o que foi sedimentar

tenho margens estreitas, correnteza furiosa
sem escolhas, apenas desaguar

invado e erodo, aliso cascalhos
até escorregar no limo do verbo

eu tenho um rio que leva as paredes
que se erguem em meio ao lixão da poesia
e soterra a palavra viva

eu tenho um rio de inundadas faces
e chovo poemas de sangue

eu tenho um Rio de Janeiro no peito estiado
e expio a falta da lembrança do teu rosto

 

 

***

 

 

POEMA ESTÉTICO

 

Preciso urgentemente de um poema estético
eliminar a gordura localizada da palavra,
depilar o verbo e limpar a pele da poesia.

Necessito impreterivelmente de uma rima cirúrgica,
da assepsia do olhar sistólico,
laquear o peito lacerado.

Careço remover os resíduos de ossos triturados
na medula da saudade,
suturar a deiscência da canção.

Uma incisão limpa no músculo entremeado de versos,
cujas paredes bombeiam ausências.

Por fim, a cicatriz imóvel e cintilante
com o traço fino da pena.

 

 

(Lílian Maial é carioca, médica, escritora e poeta. Publicou, em 2000, “Enfim, renasci!”, com 135 poemas, e teve participação em dezenas de antologias, desde 1999. Coordenadora Regional no Rio de Janeiro para o MIP (Movimento Internacional Poetrix), teve poetrix publicados em “Antologias Poetrix”, de 2002, 2007, 2009 e 2010, além de ter organizado um e-book com poetrix de 10 participantes do MIP. Filiada à REBRA (Rede de Escritoras Brasileiras), participou de 04 antologias lançadas nas Bienais do Livro de São Paulo)