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141ª Leva - 01/2021 Destaques Olhares

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O legado das linhas de Vinha Oliveira

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Há um universo de coisas que se abrigam na tessitura dos dias. É dizer de formas que compõem mínimas partes de tudo o que pode ser representando pelas mãos de quem se dedica a mostrar o mundo pelas vias da arte. Nesse sentido, cada contorno e traçado se movimentam em favor da aparição de seres e objetos dos mais diversos aspectos, tendo em vista retratarem porções imaginadas da existência.

Na cabeça de uma artista como Vinha Oliveira, podemos supor resgates de memória, flagrantes cotidianos, delicadezas do ser, constelações de afetos e outros tantos sintomas da vida. Seus desenhos anunciam, de modo especial, uma miríade de mergulhos místicos que reverenciam a contemplação de mistérios inerentes à trajetória humana. Sobre este último aspecto, notamos que a criadora entrega seu ofício à sondagem do nosso âmago, trajetos internos que sugerem um diálogo com aquilo que transcende a materialidade das coisas.

Basta um percurso mais detido pelos desenhos da artista em questão e logo percebemos o efeito marcante que se inicia no engenho das linhas. A partir destas, Vinha desenrola os fios de cada gesto, face, objeto ou cenário apresentado. E tudo gira de modo impactante em tal perspectiva, pois é como se uma espiral de manifestações produzisse um resultado perene de possibilidades. Percebe-se, por exemplo, uma roda vida de expressões das personagens mostradas no enleio dos dias, na pulsação de hábitos, crenças e recortes íntimos.

 

Desenho: Geometria da palavra

 

A desenhista, que nasceu no Rio de Janeiro e mora na Bolívia há cinco anos, também é antropóloga e poeta. E foi no que chama de “exílio andino” que Vinha Oliveira, num modo de reencontrar elementos da cultura carioca que mais aprecia e tem saudade, se enveredou por caminhos autônomos do desenho. Estão marcados na memória dela, em especial, o mar, o samba, a música e as festas populares. Como a artista confessa, seus desenhos procuram a essência geométrica das palavras, percorrendo letras de músicas e também os poemas que escreve. Diga-se de passagem, tudo isso foi impulsionado no contexto da pandemia, sendo que o isolamento social levou-a a criar, no Instagram, o perfil Geometria da Palavra, espaço no qual divulga seus trabalhos.

A confissão de Vinha nos põe a pensar também que tudo principia no poder das palavras, pois estas geram a vontade das imagens. Mas é interessante notar que palavra aqui é matéria-prima, alicerce, estrutura sobre a qual se constroem as dimensões da vida representada em linhas, contornos, cores e contrastes. A palavra pensada em sua gênese primeira, que é dentro da mente de quem cria, estimula, projeta, engendra a materialização das formas no produto artístico. Palavra-faísca que dinamiza sensações, observações dos instantes e se constitui também como testemunho dos cenários experimentados na tênue linha entre saberes e sabores.

É de se imaginar porque Vinha Oliveira sustenta que na arte estão todas as respostas. E talvez a artista esteja querendo nos dizer que viver pela Arte é também se lançar num caminho permanente de descobertas, resgates, libertações e outras tantas epifanias íntimas. É renovar o impulso da vida, criar sensações, habitar dimensões outras, ver florescerem os enigmas e emblemas da condição humana. Mais ainda, pode ser forjar um outro indivíduo em nós, aquele que pende mais para as levezas do que para os abismos da realidade.

 

Desenho: Geometria da palavra

 

* Os desenhos de Vinha Oliveira são parte integrante da galeria e dos textos da 141ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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O destino das linhas

Por Fabrício Brandão

 

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

Pensar a vida como uma rota imprecisa, longe de perfeições ou viciosos determinismos. Seres, recantos, o concreto e o abstrato, tudo amalgamado por um sentido essencial. O substrato de uma existência flerta com um estrangeiro desejo de eternidade. O tempo estanca boa parte dos equívocos tão nossos. A arte liberta na medida em que expande nossa consciência, nossa apreensão do pertencimento a um universo de coisas passíveis de imersão e, porque não dizer, catarse.

Ante os mergulhos, a conclusão: a vida é verdadeiro labirinto. E a obra de gente como Alessandra Bufe Baruque nos comprova isso. É como se um gigantesco novelo, sem começo e fim, desenrolasse suas tramas e nos envolvesse sorrateiramente. É necessário tomarmos cada ponto desse tecido como parte de uma trajetória que pode muito bem representar a de qualquer mortal. Quais pistas, então, a artista nos propõe?

Tal qual o mitológico fio libertador de Ariadne, a arte de Alessandra Bufe vai construindo um caminho criativo cuja expressão maior reside na perspectiva de sugerir vias alternativas de apreensão dos sentimentos. Sua intenção não é a indicação de rotas de fuga, tampouco determinar soluções para dilemas ou enigmas, mas desfilar diante de nós as múltiplas e possíveis representações das epifanias humanas. À medida que avançamos nesse território, identificações podem surgir.

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

O novelo de Alessandra transborda por todas as frentes de sua obra. E é no uso especial das linhas que ele encontra morada, seja para introduzir acessos ou simplesmente continuá-los. Essa característica se expande através de gravuras em metal, desenhos a lápis, monotipia, pintura a dedo, xilogravuras, esculturas e, especialmente, na linóleogravura.

Conforme confessa a própria artista, há um claro encantamento seu pela forma das coisas. De nuvens a megaconstruções, tudo pode ser motivo de registro e concepção. Formada em Artes Plásticas e Desenho Industrial, ela desenvolve um trabalho que prima fundamentalmente pela liberdade de expressão. Assim, sem amarras predeterminadas, o resultado aponta para um convergente fluxo de intuição e observação.

No universo de perspectivas abrigadas em sua obra, Alessandra firmou a ponta do seu longevo fio num lugar inimaginável. Entre investidas e vislumbres, cada um de nós pode intentar algum caminho de volta.

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

* A arte de Alessandra Bufe é parte integrante da galeria e dos textos da 99ª Leva