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107ª Leva - 01/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

O ano de 2016 começa aqui na Diversos Afins com um repertório de possibilidades. A primeira delas é a de celebrar a continuidade dos caminhos, empreendendo esforços para que outros renovados encontros continuem a alimentar nosso trabalho. É também o ano em que completaremos dez anos de estrada. De fato, um marco temporal se assinala, mas o verdadeiro lado especial disso é constatar que alcançamos um patamar de trajetos através dos quais pudemos consolidar ainda mais o projeto. A revista tem servido como uma plataforma de potencialização de discursos, olhares e distintas formas de percepção da vida. E mesmo com as múltiplas individualidades mescladas num só caldeirão de expressões, o arranjo de textos e imagens consegue trilhar uma estrada harmônica e equilibrada. Somos um organismo vivo por natureza, tendo em vista as marcas humanas essenciais a tudo o que fazemos. Nesse início de ano, nada melhor do que elencarmos as vozes que agora chegam e que compõem uma nova investida editorial. Uma delas está diluída em toda a 107ª Leva. Trata-se de Deborah Dornellas, que com seus desenhos desperta por aqui reflexões em torno de sua valiosa capacidade de abstração. Em matéria de contos, há o atravessar de pungentes territórios por parte de autores do quilate de Kátia Borges, Claudio Parreira e Cristiano Silva Rato. Apresentando-nos uma recente experiência de leitura, Orlando Lopes compartilha suas sensações sobre o mais novo livro do poeta Jorge Elias Neto. Percorrendo um instigante caminho de indagações, Sérgio Tavares entrevista o escritor Julián Fuks. As vias da poesia são contempladas com versos de Alex Simões, Fernando Naporano, Ellen Maria Vasconcellos, Marcus Vinícius Rodrigues e Tanussi Cardoso. As linhas de Marcos Pasche estão voltadas para a obra poética de Alexei Bueno. No caderno de cinema, Guilherme Preger escreve sobre as sensíveis abordagens do filme brasileiro “Boi Neon”. Há também espaço para considerações acerca do disco de estreia do cantor e compositor Liniker. Tudo isso posto, caros leitores, sejam bem-vindos ao nosso novo painel de expressões!

Os Leveiros

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107ª Leva - 01/2016 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LINIKER – CRU

 

LINIKER-EP-CRU

 

Verdade é uma palavra que, de tão aborrecida, muitos têm medo de pronunciar. Há quem relativize seu conceito por temor ou respeito a opiniões contrárias. Por seu curso, tem também quem faça uso dela por vias deterministas, rio que desemboca no pantanoso terreno do absoluto. Afirmar que uma verdade é universal, por exemplo, é assinar um papel em branco, convite a se perder no labirinto da insensatez.

Falemos, pois, da capacidade que uma pessoa tem de delinear sua própria identidade com uma noção de verdade que é essencial à sua sobrevivência. Assim o é quando testemunhamos a expressão de um artista como Liniker. Quem o vê pela primeira vez pode tentar imaginar que a apresentação visual com a qual ele se reveste é um mero arranjo cênico de possibilidades. No entanto, há muito mais por trás disso tudo.

Vindo das paragens interioranas paulistas, mais precisamente de Araraquara, Liniker aparece para o mundo tal como gostaria de ser visto, um sujeito sem definições de gênero. Nos palcos, veste-se com trajes femininos, usa batom e deixa brotar solto todo o vigor e precisão que emanam de sua voz.  Dentro dessa representação estética, não compõe um personagem, pois, do mesmo modo que se traja nos shows, assim também é seu cotidiano.

Sua aparência não deixa de ser um importante fator de discurso e de afirmação, mas, em se tratando de música, é relevante destacar que Liniker possui um talento tanto voltado para o canto quanto para a composição. A voz é marcante, com uma colocação discretamente rouca, e vem apoiada por letras autorais que orbitam em temas como o amor e por perspectivas de identidade e gênero.

Liniker Fotodivulgação
Liniker / Foto: divulgação

O caminho escolhido pelo artista em Cru, seu EP de estreia, é o da black music, com pitadas clássicas de funk e soul. São três faixas que ficam como um grande prenúncio para o que poderá ser a carreira dele, verdadeiro aperitivo. Assim sendo, Liniker não é promessa, e sim realidade. E, pelo visto, ainda tem uma gama de coisas a nos oferecer nessa estrada que se mostra longeva e fértil.

Carro-chefe do disco, Zero é uma canção que nos toma de assalto. Vem com uma suavidade soul ao mesmo tempo em que perpassa as alamedas do desejo avassalador. O saldo do amor ali cantado é crer que o coração é uma espécie de cofre com memória, onde o que é belo pode ser devidamente acolhido e guardado.

Em Louise Du Brésil, uma pegada funk setentista toma conta dos espaços. É uma celebração de vida muito bem arranjada com elementos de nossa brasilidade. Já Caeu, a outra faixa do disco, atravessa os cenários das relações numa perspectiva imagética bem interessante, desenrolando um enredo plausível de sensações.

O trabalho tem um cuidado especial com os arranjos, sobretudo no que se refere ao uso de sopros. Reunindo a atmosfera vocal com as potencialidades sonoras dos instrumentos, Cru é um disco que pontua um universo todo marcado pela delicadeza.

Num momento em que as discussões sobre questões de gênero andam a boiar num grosso caldo fervente, a arte sempre aponta caminhos de libertação. Segui-los é imperativo porque a verdade de cada um confere sentidos às coisas. Tudo aquilo que nos envolve em aparência pode ser uma fabulosa ferramenta de comunicação, não apenas uma banal casca.

 

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.