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114ª Leva - 08/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

As dexistências em Victor Prado

Por Lisa Alves

 

capa-bastardo

 

”Bastardo” é uma obra poética desmembrada em três capítulos, “Voçoroca”, “Passeio” e “Caleidoscópio”, e possui cerca de 57 poemas dentro de 124 páginas. O livro foi lançado recentemente pela Editora Urutau (que já chama atenção pelo design e qualidade de seus livros e a acertada escalação do corpo de autores). Victor Prado (1995) reside em Franca/SP, publicou dois livretos digitais Mamute (2014) e Onde Eu Poderia Estar (2016). Tem poemas publicados na revista Mallarmargens, Diversos Afins, Enfermaria 6, Jornal RelevO, entre outras revistas e sites literários.

 

“Mas dizer sempre é pior do que ouvir.”

 

Clarões, pequenas interrupções, movimentos e a linguagem arriscando explicar os desentendimentos que nos cercam em torno da palavra. Tenho a sensação que estou assistindo um filme, mas é um poema, o primeiro, talvez o principal – aquele que batizou a obra de Bastardo“.  Lembrei de Blanchot em “Espaço literário”, quando diz que ler não é obter comunicação da obra e sim fazer com que a obra se comunique. Sou leitora, escritora e não tenho condições de criticar qualquer obra literária, mas posso comunicá-la tal como ela se comunicou comigo. Mas advirto: a obra poética de Victor Prado não é explicável, não é uma composição química que podemos separar os elementos envolvidos. Sendo assim, é preciso ler “Bastardo” e degustar uma, duas, três ou infinitas vezes. Vamos lá?

Um dos pontos que mais me atraiu durante a leitura do livro foi a reprodução de títulos seguidos por números, indicando uma sequência ou uma série – confesso que inicialmente fiquei incomodada, afinal de contas o 5 não pode vir antes do 2. “Não mesmo? Quem disse? Quem determinou?” – me questiono. Então lembro à leitora (aqui dentro) que na arte a ordem temporal linear é inútil (ou no mínimo desnecessária) e então afogo meu suposto incômodo e volto a imergir na obra de Victor. Lembrando que vários outros poemas de “Bastardo” seguem também a sequência numérica, tal como os poemas “Arquitetura de Percepção”, “Sábado”, “Domingo”, “Confissão” e “Mal-Estar”, porém comentarei apenas duas séries, pois não pretendo dissecar a obra de ninguém (não acredito em roteiro para leitor), tal como não desejo que façam com a minha, é irresponsável e pretensioso. Acredito que cada leitor é capaz de procurar o próprio caminho durante a comunicação com uma obra (independente do gênero). Sendo assim, destacarei então as sequências “Não-Sei-Onde” e “Domingo”.

A série “Não-Sei-Onde” me trouxe a percepção de uma constante fragilidade na voz do eu poético – uma voz brotada das profundezas, uma voz que assessorou na montagem de um mosaico recheado de quedas, naufrágios e soterramentos. O primeiro poema da série se encontra no primeiro capítulo, “Voçoroca”, é intitulado por “Não-Sei-Onde 5″ e discorre acerca do desmoronamento do ser ao lidar com sentimentos (próprios ou de outros):

(…)

Tua saudade me engole
e eu murcho e sou engolido

 

Não saindo para muito longe, no mesmo capítulo, encontro “Não-Sei-Onde” (agora sem número), que versa o autoconhecimento (nem sempre bem-sucedido) e fatidicamente tem o afogamento como resultado. Paro para digerir o poema e percebo o amplo dedo na ferida que Victor decidiu empregar. De fato, quando nos analisamos de forma profunda não somos capazes (no primeiro minuto) de mergulhar e ter a dimensão da profundidade que estamos nos lançando e tampouco temos a ideia das armadilhas que nos esperam. Mergulhar pode ser um caminho sem volta:

(…)

Mergulho
e desapareço

 

Já lá no segundo capítulo, “Passeio”, dou de cara novamente com outro “Não-Sei-Onde 2” – mais uma vez a série aborda o encobrimento, a ocultação, só que, diferente do primeiro capítulo, o poema atravessa antes pelos escombros materiais do que psicológicos. Victor nos lembra de Mariana – a cidade soterrada pela lama (a lama não metafórica “é a lama, é a lama”) e a lama não para por aqui, outra vez ressurge no poema “Não-Sei-Onde 4“:

(…)

De outros mangues
e critério
e achismos
Me afundo nesta lama
de não-sei-o-quê.

 

E a série é finalizada no capítulo com “Não-Sei-Onde 3”:

(…)

Dexistimos em períodos iguais
Rexistimos com frequências diferentes.

 

Na série “Domingo”, há dois grandes poemas, duas pérolas comoventes e que convidam o leitor a desvestir da própria carne e se lançar no outro, no diferente, no estrangeiro. Leiam os dois poemas na íntegra:

Domingo (cap. Voçoroca, pág. 37):

 

Entro no mercado
e vou ao açougue
E lá está ele:
um japonês-brasileiro
E aquele rosto
me lembra outro mundo

/

me bate uma vontade
de ir pro Japão
de abraçar o japonês
De deixar a fila
sair do mercado
de recomeçar tudo
em outro lugar
em outro tempo
de novo.

 

Domingo 2 (cap. Passeio, pág. 60):

 

O japonês vai embora,
continuo na fila
Um senhor de idade
fura fila e conversa
com o homem na minha frente
Eles sorriem
eu sorrio junto
como se fizesse parte da conversa
O senhor pesa suas batatas
e vai embora
(a fila aumenta)
Eu sou o próximo.

 

“Bastardo” de Victor Prado é um convite poético para um quebra-cabeça sem figura definida. Quer sentir? Então siga além e não se deixe levar apenas por minhas limitadas percepções.

 

Lisa Alves nasceu em 1981, é mineira (Araxá/MG) e radicada em Brasília. É curadora da revista Mallarmargens. A autora tem textos publicados em diversas revistas e páginas literárias (nacionais/internacionais), e poemas publicados em sete antologias lançadas no Brasil, Argentina e País Basco. Lançou em agosto de 2015 seu primeiro livro de poesia, Arame Farpado, pela editora carioca Lug em parceria com o Coletivo Púcaro.

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90ª Leva - 04/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

E pensar que o silêncio é sempre o misterioso senhor a preceder o verbo. Há, por certo, uma carga emblemática nesse intervalo que sugere a criação. Muitas revoluções se processam no interior de quem gesta tanto palavras quanto imagens. Antes que tudo venha à tona, um primeiro estado das coisas emerge enquanto matéria bruta a ser lapidada. Para um autor, nunca é demais fazer operar estágios revisionais de seu pensamento, sobretudo quando está envolto pelo manto da chamada angústia da criação. Nela, ele descobre que deve tentar extrair o máximo de sua possibilidade de visualizar cenários. É algo que se assemelha também a um estado de alerta, no qual aquele mesmo criador tenta, ao máximo, afugentar certezas traiçoeiras. Sendo assim, aquele que se julga pronto é fatalmente trapaceado pelo falsear do tempo. Do mesmo modo, a tentativa, até certo ponto exasperada, de se erguer uma obra monumental também retira de muita gente a capacidade de trilhar os caminhos da naturalidade. E tanto as vias literárias como as da arte necessitam de uma entrega espontânea e pouco projetada das rotas a seguir. Isso não significa suprimir o desejo de se imaginar numa esfera futura da criação, mas apenas conter o ímpeto limitador de alguns devaneios que furtam a mínima noção da existência complexa de um mundo circundante. Tanto no que diz respeito à poesia quanto à fotografia, a obra de um autor como Ozias Filho vem retomar a noção do silêncio à qual nos referimos na introdução destas breves reflexões. E são dois os momentos em que Ozias nos oferta caminhos de compreensão sobre o tema: numa entrevista e nas leituras de alguns de seus poemas agora aqui publicados. Seguindo os novos ventos poéticos instaurados, lemos também Rosane Carneiro, Seh M. Pereira, Fernanda Fatureto, Márcia Abath e Susana Szwarc. No caderno de cinema, Guilherme Preger assume a complexa tarefa de expelir suas impressões a respeito de “Ninfomaníaca”, novo filme do polêmico cineasta dinamarquês Lars von Trier. Múltiplos recortes da existência também vêm se juntar aos contos de Nelson Alexandre, Lisa Alves e Maria Balé. Num convite à leitura, Sérgio Tavares demarca suas impressões sobre “Não Muito”, primeiro romance de Bolívar Torres. O mais recente disco do cantor e compositor SILVA é alvo das pormenorizadas escutas de Larissa Mendes. Pontuando todos os espaços dessa nova edição, o caráter sublime das fotografias de Nathalia Bertazi fala de amplitudes e convergências. Que o produto da criação seja sempre um revelador de espantos e descobertas, caros leitores! A todos, uma 90ª experiência de percepções.

 

Os Leveiros

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90ª Leva - 04/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Lisa Alves

 

Foto: Nathalia Bertazi


Amnésia com Chemtrails

 

“Saber que resistes.  Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.  Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.  Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena. “
 Carta a Stalingrado – Carlos Drummond de Andrade

Eu jazia lá e o perfume da pólvora era tão banal quanto os gases poluidores de qualquer cidade grande. O local era escuro-cinza e a tonalidade aos poucos alcançou tudo de forma acelerada. A poeira de uma cidade sem luz adormecia sobre os outdoors e letreiros advertindo que ao pó tudo e todos um dia retornarão.  Até o sol decidiu abandonar aquela guerra estúpida, já a espécie humana não tinha tamanho poder de decisão.

Não demorou muito tempo para eu descobrir o meu papel no meio daquelas explosões, eu era uma prostituta. Prostituída como todas as senhoras, senhores, filhas e filhos que um dia desfrutaram de uma vida digna e feliz naquele território que não recordo o nome. Apenas sei que eu completava o lugar, mas somente o lugar. Possuía uma estrangeira confiança que eu não passava de um cão sem dono, um cão sem recordações, um animal domesticado nas ruas e nos olhares famintos da população. Fome – era isso que eu sentia e por ela fazíamos qualquer negócio sujo (naquela atmosfera já não existiam negócios oferecidos em tempos de paz). Éramos a mercadoria exposta na rua, éramos a alimentação voluptuosa dos soldados. E eles exigiam variedades: senhoras, homens de qualquer faixa etária e meninas que não tiveram tempo de brincar. Ali foi constituído um campo de concentração de prazeres sádicos. “Levante seu cacete moleque!” – e o menino não tinha escolha, aquele ato poderia render-lhe uns bons restos de comida.

Tornei-me uma mulher forte, a frieza dos dias contribuiu para uma força inimaginável. Quando ouvia os três disparos que alertavam para a chegada dos consumidores, preparava-me para a labuta. Cortava os dedos e com o líquido rubro maquiava o rosto para obter uma aparência saudável. Os soldados eram exigentes, depois de deliciarem-se sobre nossos cadáveres ainda podiam negar o pagamento com argumentos incongruentes: “E ai, Raul! Alguma múmia já te calibrou antes?”.

Os dias eram fétidos, sem água, sem uma possível higiene, aos poucos a distância de um ser humano para outro foi se tornando imperativa. As doenças de pele eram as maiores oponentes dos sobreviventes. Éramos cães com uma sarna crônica e ainda assim não nos poupavam do péssimo paladar dos homens das artilharias. O verdadeiro sentido de sexo selvagem foi abrangido naquelas ruas cinzas e vermelhas. Éramos uma vitrine violada por milhares de saqueadores: nos ventres das mulheres cresciam fetos indesejáveis, nas garagens escuras homens suicidavam e eu continuava em pé. Uma múmia, não deixavam de ter razão.

Quando percebia algum indício de fraqueza escondia-me dentro das ruínas de um edifício habitado por ratos. Dali de dentro tentava táticas de recuperação, alimentava-me dos pequenos e assim seguia forte para a guerra. A primeira vez que entrei no local estava fugindo de um general mal agradecido que durante um boquete levou uma leve mordida no membro. Fiquei três dias ali, até ser esquecida ou se tivesse sorte o homem já teria seus pedaços espalhados no front – conseqüência comum da guerra, todos os dias os devoradores mudavam de cara, mas permaneciam com as mesmas intenções canibais. Naquele mesmo prédio descobri que não estava sozinha, assustadoramente deparei-me com um espectro pequeno e faminto. Dei-lhe algumas patas de ratazanas e ele as devorou rapidamente. Perguntei-lhe o seu nome “José” e quantos anos tinha “Não me lembro, dona! Tem mais carne?” Menti, disse que não, se eu dissesse sobre a fonte de alimentação, daqui alguns dias os ratos seriam uma mera reminiscência. Eu precisava viver, não sei para quem além de mim mesma, mas se a guerra terminasse poderia recuperar um pouco da memória e descobrir se em algum lugar alguém me esperava. Naqueles dias ser cruel era uma opção de sobrevivência.

Naquele mesmo prédio conseguia assistir as pessoas nas ruas, era funesto testemunhar a humilhação coletiva. Os soldados tomaram posse de todos os mantimentos doados por outros povos e utilizavam-se desse poder para por em prática as veleidades mais primitivas e maliciosas. O povo não tinha alternativa, precisavam daquela ração, necessitavam de mais um dia de vida. Mesmo que a vida fosse dentro daquela jaula de torturas. Eu também não tinha escolha, disseram que os soldados inimigos cercaram toda a redondeza e quem se aventurasse a fugir teria um pior destino. Sinceramente não sei o que é pior: levar um tiro na cabeça ou ver cada pedaço meu sendo explorado por aqueles que deveriam me resguardar. Mais tarde descobri que os jornais falaram sobre nossa situação: “Em plena guerra cidade vira bordel atrapalhando o trabalho de nossos soldados.” “Famílias vendem a inocência de suas crianças em troca de tabaco e álcool.” Provavelmente a fonte dessas informações veio de dentro do exército ou daqueles poucos cineastas (com entrada livre para o espetáculo) que vez por outra se deliciavam com as torturas sexuais. Éramos mercadoria ali dentro e lá fora o lixo execrável da humanidade. E eu continuava sem passado, ninguém me reconhecia, apenas passei a existir de uma hora para outra e fui logo me adaptando a viver como eles. Sem passado, foi mais simples permanecer.

 

 

***

 

 

Línguas Estrangeiras

 

“(…) o uivo coletivo é a única maneira de dignificação de nossa espécie. porém (…),  à diferença dos cães, que gemem em espaço aberto, para a lua, o nosso uivo deve ser confinado, para que, amplificado pela engenhosa arquitetura das catedrais, ultrapasse nosso satélite natural e atinja o centro da galáxia, redimindo-nos aos olhos do criador, que infelizmente é surdo-mudo e não compreende sequer a linguagem de sinais.”
Campos de Carvalho

Nós imploramos paciência, senhor mediador – precisamos aparecer nos papéis, no canto da massa e nas cartilhas da igreja e do legislativo. Carecemos compor notas inaudíveis através dessa sua imagem apagada, através dessa sua cabeça caduca e de suas mãos (já não tão suas desde a época da alfabetização).

Necessitamos, senhor mediador, publicar prognósticos sobre o futuro dos ecossistemas terrestres e quem sabe oferecer-lhe também algumas dicas amorosas – mas para isso basta tão somente manter todas as portas abertas, pois somos muitos e não somos espécime de fileira ou senhas.

Não adianta chorar, senhor mediador – choraremos juntos, você e nós significamos concordância do verbo, desde o primeiro (aquele que disse o que disse e tornou-se o que é). Falaremos juntos das injustiças do mundo e sobre as coisas que não podemos alterar, até que chegue o dia em que seremos assistidos.

Não acredita, não é mesmo, senhor mediador? Prefere abafar nossas vozes com o seu adequado anestésico social, com sua medíocre interpretação psicológica e sua schizophrenie espiritual. Somos muitos em você e fora de você somos meras manifestações. Deixe-nos guiá-lo para o caminho refletido em onze espelhos, onze esferas e onze retratações de sua vida.

Sentado esperando respostas, senhor mediador? Já lhe convidamos a fazer perguntas e usá-las como contragolpes. Perguntaremos: o que é a verdade? Responderemos: a verdade?

A chave oferecida não é uma klischee interpretação enigmática e sim o singelo ato de querer abrir a porta, senhor mediador. “Toc, Toc, Toc”, adoramos as onomatopéias – o poder real de interpretação dos sons… Decifre o poder das vibrações das cordas, senhor mediador!

V r u m,
z h a p,
c h u a.

 

 

***

 

 

Orun Burúkú

 

Copacabana é um bairro onde se pode viver tranquilamente, desde que se seja louco.
 Campos de Carvalho

 

Movimentou os dedos no passeio público, reparou as laterais e não descobriu testemunha – ninguém que pudesse apontá-lo mais tarde ou por efeito do nascer do sol reconhecê-lo. Agarrou a prenda em suas mãos e avistou um lugar – um beco onde pudesse se encostar e sorver o resíduo daquilo que já fora um íntegro cigarro.  Buscou nos bolsos sua caixa de fósforos e antes mesmo de abri-la notou a marca rosa na guimba – era de um rosa lírico, um sinal de batom de alguém que não ama cores cáusticas, um tom não muito habitual nas ruas, um colorido imaculado.  Quem seria a dona de tal boca? Quem seria a boca senhora de meio tabaco fumado ou meio tabaco rejeitado? Percebeu que a boca deixara falhas, examinou o traço e sustentou a reflexão de que a dona-da-boca-dona-do-cigarro era uma boca craterada, um lábio sobrecarregado de celulites, um lábio antigo que provavelmente roçara muitas bocas.  Sentiu-se felicitado, percebeu-se recompensado em uma noite despovoada, em uma escuridão sem amores, sem colos ardentes e sem grana. Depositou então a memória de um lábio sentimental e remoto dentro das calças, cravou a imagem de uma boca antiga em seu sexo e antes mesmo de ser saciado pela fantasia o fogo se animou e fez daquele homem pó – um pó rosado, um pó avelhantado, um pó que o arrastara para Orun Burúkú.

 

 

Lisa Alves nasceu na cidade de Araxá/MG e vive há mais de dez anos em Brasília/DF. Trabalha com arte digital e projetos ambientais. Possui poemas publicados em três antologias poéticas: Trilhas (CBJE, Rio de Janeiro, 2007), Poema Capital (Eloisa Cartonera, Buenos Aires, 2011) e Cumplicidade das Letras (Perse, 2012). Divulga sua arte em vários sítios culturais e é colunista na Revista Ellenismos.

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Rosa De Luca

 

O eternal movimento das águas nos conclama a desabitar as zonas de conforto. A impermanência, sugestão maior desse fluxo, é uma das crias mais valiosas do tempo, um avanço sorrateiro pelas trincheiras da toda poderosa senhora incerteza. De modo imponente, essa majestosa companheira parece muito mais afugentar corações e mentes do que qualquer outra coisa. Teimosamente, escritores e artistas cumprem o ritual das indagações, trazendo à baila dimensões possíveis para a ciranda da vida. Expressar-se, por si só, já pode se prestar a um indício de rompimento com o conformismo. E isso apenas não basta. Indo além, é preciso atirar verbos ao vento, submeter as imagens ao crivo dos olhares, extrair da abstração das horas o sumo das linguagens. Quando tentamos erguer uma edição da revista, é sempre desafiador refletir sobre os caminhos que nos impulsionam. Perceber, por exemplo, a grande metáfora que nos motiva a transcorrer sobre o ciclo das águas, agora, é um deixar-se guiar pelo convite de uma artista como Rosa De Luca, que, com suas fotografias, provoca em nós uma apreensão dos deslocamentos os quais a existência não se cansa de nos apresentar. É essa liquidez de sentimentos dispersos que também nos leva a abraçar a verve poética de pessoas como Rita Santana, Tristan Guimet, Tatiana Druck, Wender Montenegro, Floriano Martins e Vítor Nascimento Sá. Seguindo a corrente dos signos, entrevistamos o escritor e jornalista Sérgio Tavares, que dividiu conosco um pouco da sua trajetória literária, sobretudo no que se refere ao seu novo livro, ”Queda da própria altura”, obra que se presta a um digno mergulho de cunho intimista. No ato de construir histórias, Lisa Alves, Anderson Fonseca e Vera Helena Rossi demarcam, através de seus contos, universos peculiares para os desatinos humanos. A memória do poeta cearense Francisco Carvalho é celebrada no texto de Clarissa Macedo. O instigante “Dentro da Casa”, filme do diretor francês François Ozon, ganha espaço na resenha de Larissa Mendes. Das paragens mineiras para o nosso caderno musical, vem o belo trabalho de Luiza Brina e O Liquidificador. Numa alusão ao curso interminável das águas, deixamos fluir uma nova Leva, com toda a vontade de que os caminhos materializem cada vez mais o ideal de continuidade.

 

Os Leveiros

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Lisa Alves

 

 

Foto: Rosa De Luca

 

 

 

Corações de Silício

 

“Se  metade do meu coração
está    aqui,   Doutor, a outra
metade  está na  China  com
o   exército   que   flui     em
direção   ao    Rio  Amarelo.”

Angina  Pectoris   –     Nazim
Hikmet

 

Corações de Silício – pulsam nessa percepção para além de Bits e Quarks baterias de Volts impessoais. Tragamos com a retina fontes que pulsam em HD`s e nuvens abrangidas de  paradigmas de programação. Crias frankstenianas escoradas por mesas inertes e contraditoriamente giratórias. A comunicação visual é acelerada por meio de janelas cravadas em caixas quadradas ou slim.  Redes sociais velam a vigília de uma Legião – superação das elites humanas à parábola do Nazareno (expansão universal dentro do buraco da agulha).

Corações  de   Silício   –     conservar a
humanidade. é questão relativa e anexa às
HQs e  heróis 3D ou de poliuretano. Anos
de ..petições e .exercícios de altruísmo de
calendário .  Afinidades  com  Karmas  e
Dharmas  e expansão  mental editada pela
engenhariagenética.   Arte adaptada aos
pixels,    ..  ferramentas      comprimidas
no winrar. .–  ..foice e martelo in Botons e
Cartões de Crédito.……………………………….

 

Corações de Silício – coletivo iluminado por telas de signos édenizados – biblioteca de Alexandria abrigada no cisco de uma nano-unha e frequentada diariamente por cyberbactérias. A promoção do eu-anódino em seus quinze minutos de infâmia. Estímulos assexuados e eunucos – precipita a ação e condena o corpo à condição uniforme.

Corações de Silício  –  nata do Oriente
navegando  em    mares       ocidentais.
Feminino   e  Masculino   habitando  o
andrógino  e    as   universais    idades.
Sais  antidepressivos,     antimaníacos,
antikarmicos.   Ornitóptero   de  pedra
colado,      limitado    pelo    seu  pulso
potencial  e   temível. Crianças-fuhrer
cortejando bestas apocalípticas.  Deus
Capital  venerado  em   seus templos-
shoppings        (na     santa    missa  de
domingo).

Corações de Silício – carcaça altíssima na piramide vida-matéria – conduz fluxos aos retos orifícios e vias chupadas pela yankeeannélide. Arranca a estrutura Animaanimal e libera a energia nas cavidades interiores. Pneuma despertada ao campo fonte – voltagem exata e evoluente em software original.

Corações   de    Silício       –      autogestão
bakuniana  e  desmistificação  do criador e
do    patriota.    Bomba      e      bombeador
detectados   no    silêncio    que  medita   a
clarividência     e    os    intentos    de  uma
humanidade  criativa    e     com     License
Commons  –  capaz   de compartilhar o seu
melhor sem apontar seus cielos ou cercas.

Cor e ações em uma orbe policristalina tingida de silíca e mitos.

 

 

 

 ***

 

 

A Queda

 

Embrutecida pela solidão não consegue retribuir as rosas deixadas no seu caminho. Alguém surge de mansinho e perfura o seu coração com notícias trêmulas e catastróficas. Caída afasta a única corda de esperança – não anseia elevação e muito menos últimas chances.  Abraçada ao chão sorri expondo os dentes maltratados de tanto roer ossos. Imagina um 3×4 tirado ali e se envaidece “experiência de fundo do poço deveria constar em qualquer curriculum vitae”.

 

 

***

 

 

Angelus Blasé

 

Frito reminiscências temperadas com sais de tortura. Cavei as mãos para despejar sucos de minha filantropia. Deguste e sorva nossa carne sem essa face acinzentada por transes, escute os ditados, escreva-os e depois os guarde em um arquivo antes que a espada de significações recorte sua imaginação e a ofereça aos pássaros carniceiros da Manufatura. Representamos uma espécie sem roupagem: demônios doces e poliglotas, leitores de clássicos e amantes de uma audaciosa revolução. Caçamos qualquer um que se maquia de vítima ou simplesmente se apropria da sombra alheia – caçamos para formar alianças e não para ao ato de eliminação (que fique claro antes mesmo de mantermos um grau de compreensão mútua entre o leitor e o que se lê). Existem tantas metáforas que nos colorem como o lado sombrio da humanidade que já não podemos nos abrigar na nossa naturalidade blasé – agora somos luminosos homens de branco, esboçadores de alegres fisionomias e praticantes do altruísmo de calendário (com hora e data marcada).

Observação: É só assinar na última linha e depois chuviscar um pouco do seu vermelho.

 

 

(Lisa Alves nasceu na cidade de Araxá/MG e vive há mais de dez anos em Brasília/DF. Trabalha com arte digital e projetos ambientais. Possui poemas publicados em três antologias poéticas: Trilhas (CBJE, Rio de Janeiro, 2007), Poema Capital (Eloisa Cartonera, Buenos Aires, 2011) e Cumplicidade das Letras (Perse, 2012). Divulga sua arte em vários sítios culturais e atualmente é colunista na Revista Ellenismos)