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97ª Leva - 11/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Claudio Parreira é um destemido. Ele acaba de lançar um livro influenciado pelo realismo fantástico num país que subestima a literatura de Murilo Rubião e de J. J. Veiga. Um livro de contos, gênero que causa arrepios nas grandes editoras, pois não vende, “salvo se você for um Rubem Fonseca ou um Dalton Trevisan”, como, certa vez, desastrosamente declarou a representante de um selo. Contos estes, em grande maioria, brevíssimos, quando acaba de ser laureado com o Pullitzer um calhamaço de 800 páginas.

Claudio Parreira é, de fato, um artesão. Percorridas as primeiras páginas de “Delirium” (Editora Penalux/2014), é possível reconhecer o lapidar das frases, o tempo gasto para o encontro da consonância entre as palavras, a cultura paciente de um bonsai. Tal processo acaba por cobrir seus contos com um verniz poético que suaviza o estranhamento inerente ao terreno do insólito, porém não o destitui da capacidade de impacto. Há uma fronteira muito estreita entre sonho e pesadelo, entre o cotidiano que nos acomoda e a realidade que dele se mimetiza, na qual prevalece a absurdeza. Parreira a conhece bem e prepara a armadilha para o leitor. A linguagem é a isca.

Nessa entrevista, o escritor e jornalista experiente, com colaborações na Revista Bundas, Caros Amigos Online e O Pasquim 21, aceita o convite de transitar por caminhos dentro e fora do universo literário, mas que se relacionam diretamente à sua ficção. Rotina criativa, formato digital, autores contemporâneos, mercado editorial, o papel do leitor; uma estamparia de temas analisados com destreza e segurança, que ratificam o poder de encarar a vida e a arte, mesmo que de viés. “Não consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contramão. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colisão. Sei disso, e sigo. Não aprendi a voltar”. Venham, caminhem junto.

 

Claudio Parreira / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – “Delirium”, seu recém-lançado volume de contos, tem influência direta do realismo fantástico, cujos expoentes na literatura brasileira são o mineiro Murilo Rubião e o goiano J. J. Veiga. Na condição de leitor, qual a sua relação com esses autores e por que decidiu transitar por esse gênero ao tecer sua ficção?

CLAUDIO PARREIRA – Só fui conhecer Murilo Rubião e J. J. Veiga lá pela metade dos anos 80, depois de ter lido muito Cortázar, Borges e Gabriel Garcia Márquez. Eu simplesmente não sabia que se produzia realismo fantástico no Brasil. Li pouco de Rubião, apenas “O Pirotécnico Zacarias”, mas esse pequeno livro, por uma razão misteriosa – ou seria fantástica? – ainda se faz presente na minha experiência como leitor. Já o Veiga, esse eu li mais. “Os Cavalinhos de Platiplanto” e “A Estranha Máquina Extraviada”, mas pouco perdura na minha memória afetiva. Quanto ao gênero que pratico na minha ficção, creio que, depois de ler tantos autores nacionais e hispano-americanos de literatura fantástica – ou realismo fantástico, que seja -, sem contar um punhado de europeus e norte-americanos, esse acabaria sendo mesmo o caminho natural. “Delirium” nada mais é que o resultado dessa mistura louca e prazerosa, uma maneira de devolver ao mundo dos livros aquilo que os livros trouxeram pra mim.

 

DA – Curioso mencionar Cortázar e Borges antecedendo Rubião e Veiga na sua escala de leitura, pois essa parece ser uma via de mão única. Aliás, há muitos leitores e autores que ainda desconhecem o quilate literário desse gênero no Brasil, dando conta de que o realismo fantástico cabe unicamente aos hispo-americanos. Por que acha que o gênero é tão subestimado no Brasil? Por que Rubião e Veiga não detêm a mesma exaltação cultivada por autores cujo extrato, por exemplo, provém do regionalismo?

CLAUDIO PARREIRA – Acho que o gênero ainda não atingiu a popularidade que merecia no Brasil, mas creio que isso está mudando; basta ver a quantidade de autores contemporâneos que de certa forma estão resgatando o realismo fantástico e acrescentando ao gênero curiosas misturas e experiências que vêm sendo muito bem recebidas pelo leitor.

Murilo Rubião e J.J. Veiga deixaram uma literatura que causava — e ainda causa, de certa forma — estranhamento. O leitor brasileiro não conseguia se ver refletido nela. Isso, com certeza, impediu que suas obras fossem apreendidas na devida profundidade e intenção. Mas elas ainda estão aí, cada vez mais, no meio do caminho, do nosso caminho. Acredito que o devido reconhecimento é só uma questão de tempo.

 

DA – Diante das narrativas de “Delirium”, podemos dizer que “seu caminho” é uma vertente que Italo Calvino, organizador da coletânea “Contos fantásticos do século XIX”, classificou de “fantástico cotidiano”. Perceber por trás da aparência corriqueira um outro mundo, colher do processo criativo o poder de conformar figuras. Empenho semelhante é atribuído à busca por reificar sentimentos, materializar sentidos que deveriam povoar unicamente o plano das abstrações. E isso, penso, só é possível mediante uma forma muito sensível e diferente de observar o que está a nossa volta. Essa percepção, no seu caso, é o mais próximo que se pode chamar de inspiração? Como um jornalista, que trabalha com fatos, quebra essa fronteira e transita por esse universo?

CLAUDIO PARREIRA – Não gosto muito da palavra inspiração. Isso me parece algo bem próximo do clichê do escritor que sofre, sofre e finalmente se redime com um presente da Musa. Eu trabalho com ideias e as transformo em texto, ficção. É um processo bem objetivo. Acredito no fazer literário, na disciplina. Talvez aí esteja a experiência do jornalismo: objetividade, prazos, metas a cumprir. Sou bem isso. A grande diferença é que os fatos com os quais trabalho são de natureza poética.

DA – Por falar em poesia, um dos contos mais singelos e com um verniz retinto de lirismo é o brevíssimo ‘A Flor’. Perceber todas as nuances que o compõem é justamente trazer à tona essa perícia, essa habilidade incansável e quase cirúrgica que significa o exercício da escrita. Como isso funciona para você? Nem sempre o texto mais curto é o mais fácil de se escrever?

 

CLAUDIO PARREIRA – Como muitos outros autores, comecei escrevendo poemas. Ou algo que eu achava ser isso. Tive a sorte de conhecer Leminski e, por intermédio dele, os haicais de Matsuó Bashô. Achei que aquela forma poética era tudo o que eu queria: dar o meu recado da maneira mais breve possível. E tentei, mas logo percebi que o gênero poesia não era bem a minha praia. Já a forma do poema japonês, a sua concisão, isso ficou presente em mim, tanto que passei a aplicar o que aprendi no microconto — numa época anterior à internet, que acabou por popularizar o gênero no Brasil. Praticando esse formato, foi que aprendi a força de cada palavra, o seu peso, o arranjo harmônico do qual surgem pequenos contos como “A Flor”. E sim, concordo: o texto curto não é o mais fácil de se escrever. Requer, no mínimo, paciência. E um bom conhecimento dos elementos que o compõem.

 

DA – Esse olhar, que é íntimo e mundano ao mesmo tempo, de certa forma evoca o embate entre a crônica e o conto. Alguns textos de “Delirium” parecem se localizar exatamente nessa fronteira, revelando-se para o leitor uma sala de multiformes espelhos, algo passível de ser concreto e de ser subjetivo. Essa possibilidade de abalar o leitor é uma busca na sua literatura? O quanto a preocupação com aqueles que lerão o seu livro influencia seu processo criativo?

CLAUDIO PARREIRA – Sim, sempre. É ótimo quando um texto causa impacto em quem lê. Significa que a intenção dele alcançou o seu objetivo, que é encantar, ou até mesmo indignar o leitor. Mas a preocupação com quem lê, quando escrevo, só vem depois. No princípio do conto é tudo nublado, uma estrada escorregadia, bifurcada. Esse período de névoa dura horas, dias até. Quando finalmente assumo o controle do conto, aí sim entra a figura do leitor: tudo é feito para ele e por ele. Mesmo que seja uma elaborada armadilha.

 

DA – O leitor brasileiro é mal formado, mal informado ou mal influenciado?

CLAUDIO PARREIRA – Pergunta complicada essa. E sou levado a crer que é um pouco de tudo isso. O bom é que estatísticas provam que o número de leitores está crescendo. Mas qual tipo de leitores? Creio que o mal influenciado é o que mais se destaca nessa história: simplesmente consome aquilo que a mídia e o mercado lhes enfia goela abaixo. E aí voltamos aos dois primeiros, que são mal informados porque foram mal formados. Mas isso é uma generalização, e toda generalização é perigosa. De qualquer maneira, já podemos falar de leitor brasileiro com mais certezas do que há dez, vinte anos. Já é um progresso.

 

DA – Digo isso por conta da percepção de que, apesar de termos hoje um número maior de novos autores, não contamos com leitores suficientes para absorver toda essa produção. O que me parece é que são os autores que acabam lendo os autores, e esse rejuvenescimento da literatura contemporânea brasileira passa a ser confinado a um grupo mínimo, algo com uma enxurrada que desemboca num funil. Qual a análise que faz dessa observação? Há livros sendo escritos para nenhum leitor?

CLAUDIO PARREIRA – Eu acredito que temos leitores suficientes, sim, para absorver essa nova produção. Mas tudo isso é um processo, um trabalho que ainda não alcançou o leitor. Como dito na pergunta anterior, diversos são os tipos de leitores. O quanto essa nova produção chega até eles, de qual maneira chega? Esse fenômeno, se é que pode ser chamado assim, de autores lendo autores, já é um fato um tanto antigo que continua aí. Errado? Acho que não, uma vez que se pretende que todo autor seja também ele um leitor. Mas é insuficiente. O que falta mesmo, e acho que esse é o grande nó que deve ser desfeito, é a distribuição dessa nova produção. Como ela tem sido feita, por quem, quais são as estratégias? As redes sociais têm facilitado muito esse trabalho, eu mesmo coloco meus livros nas mãos dos leitores através delas – mas isso, só isso, não é o suficiente. Não basta publicar o livro, é preciso fazê-lo circular, chegar às mãos dos verdadeiros leitores e não apenas dos nossos pares. Com raríssimas exceções, somos autores pregando no deserto – escrevendo para ninguém, como você diz. É muito mais fácil publicar hoje do que tempos atrás, mas e daí? Via de regra, as editoras colocam o material no mercado e deixam os autores entregues à própria sorte. Acho que também é papel das editoras divulgar e investir nos seus autores, torná-los visíveis nesse mercado cada vez mais competitivo. Uma parceria mais abrangente. Caso contrário, os livros continuarão sendo escritos para nenhum leitor – e assim perdemos todos nós, hoje e no futuro.

 

Claudio Parreira
Claudio Parreira / Foto: Mariana Parreira

 

DA – Esse é um ponto interessante, pois hoje temos uma geração perfeitamente adaptada ao formato digital. Leitores de blogs, e-books, cuja extensão da biblioteca é medida pela capacidade da memória interna do dispositivo eletrônico. Você, embora da geração dos livros físicos, relaciona-se bem com esse universo, disponibilizando seus livros em arquivos digitais e divulgando-os nas redes sociais. De que forma essas mídias têm sido producentes para sua literatura? Lançar livros em formato digital, no Brasil, é uma opção ou a falta dela?

CLAUDIO PARREIRA – Sempre me relacionei bem com os meios de divulgação digital. Uma parte significativa do que escrevo e já escrevi passou por blogs, sites, redes sociais e afins. As redes sociais, por exemplo, são ferramentas que considero fundamentais para a divulgação do que produzo — sejam e-books ou livros físicos. Não tenho nenhum tipo de problema com essas plataformas. Lançar livros digitais é uma opção, sim, no meu entender. Gosto do formato, porque ampliam a visibilidade e não me obrigam a fechar necessariamente um volume de contos ou um romance: costumo lançar contos avulsos, volumes com dois ou mais contos, trechos de romances inacabados. E livros digitais trazem vantagens que eu considero muito importantes: relatórios detalhados nos quais você sabe quanto vendeu, o destino das vendas e o melhor: a remuneração é clara e certa!

 

DA – Falando em remuneração, o que é mais difícil ser no Brasil: jornalista ou escritor?

CLAUDIO PARREIRA – Os dois. Mas os jornalistas, pelo menos, conseguem encontrar trabalho fixo e, na falta disso, os frilas livram um pouco a cara. Conheço muitos que vivem exclusivamente do seu trabalho. Já escritores, eu não conheço nenhum.

 

DA – O que acaba por nos levar a uma questão que, a um só tempo, tem inúmeras respostas e nenhuma: por que seguir escrevendo? Cortázar afirmou que escrevia para suprimir seus medos. E você, o que ainda lhe motiva?

CLAUDIO PARREIRA – Costumo dizer que escrever é um ofício de trevas. Sou um cego em busca de luz.

 

DA – Essa busca, inclusive, é reprisada pelas vozes que comandam alguns dos contos de “Delirium”; personagens que tentam lançar luz sobre um dilema circundado por uma desclaridade multifária. Em ‘A Terceira’, em que um homem inventa mulheres, essa escuridão é o próprio processo de criação, uma metáfora para a incapacidade de transferir integralmente a ideia para o papel. Fale um pouco da tarefa de composição da antologia, da escolha dos contos.

CLAUDIO PARREIRA – “Delirium” é mesmo o que se pode chamar de coletânea de contos, pinçados aqui e ali, cobrindo diversas épocas e formas de escrever. Um inventário, digamos assim, da minha produção recente e mais antiga. “Z”, o conto que abre o livro, por exemplo, é o mais antigo de todos eles: foi escrito em 1989, durante uma dolorosa oficina de texto que fiz com João Silvério Trevisan. Quanto à composição da coletânea, quis que ela contivesse contos escritos num registro diferente dos quais estamos acostumados a ver e ler por aí. Fiz questão mesmo do estranhamento — mas só como superfície. O que me interessava na composição de “Delirium” era a linguagem, a forma de fazer, a maneira como a maioria dos textos foi escrita. Não era a minha intenção juntar apenas continhos bem escritos. Longe disso. Reuni, portanto, uns 40 contos tortos, dos quais escolhi os 29 que integram o volume. Essa tem sido a minha pegada desde sempre. Deixo a literatura bonitinha e bem comportada para os outros.

 

DA – O estranhamento, que você cita, é uma das nuances mais retintas do gênero fantástico, cujo poder de criar uma nova realidade, a partir da realidade que povoamos, foi a saída encontrada por muitos escritores para canalizar suas críticas. No ápice do movimento, nas décadas de 60 e 70, este tipo de literatura bateu duramente em governos ditatoriais, valendo-se de seus aspectos metafóricos. Hoje a que propósito serve a literatura fantástica? Contra quem ou o que novos escritores podem utilizá-la?

CLAUDIO PARREIRA – Eis aqui uma pergunta curiosa: pra que serve a literatura fantástica, hoje, já que o cotidiano social e político nos surpreende cada vez mais com fatos e comportamentos gritantemente absurdos? Digo que ela serve para gritar e abrir os nossos olhos e sentidos para outra realidade que não esta, insuportável, à qual estamos submetidos. A literatura fantástica continua servindo para dizer Não! E os novos escritores devem utilizar o gênero contra tudo o que ameaçar esse direito.

 

DA – Diante dessa observação, o que ameaça sua literatura?

CLAUDIO PARREIRA – Não gosto desses tempos que estamos vivendo, e sinto que paira no ar uma ameaça muito perigosa, uma ameaça de silêncio, de pensamento único, um retrocesso em todos os sentidos, diante dos quais os avanços tecnológicos nada significam. Não consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contramão. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colisão. Sei disso, e sigo. Não aprendi a voltar.

 

DA – E para onde seguirá sua literatura depois de “Delirium”? Há caminhos que apontam para narrativas de longo fôlego?

CLAUDIO PARREIRA – Sim, venho desenvolvendo um romance já há algum tempo. Mais uma vez, não é apenas literatura fantástica: é um grande exercício com diversas vozes, vários focos narrativos, camadas sobre camadas que buscam um resultado surpreendente. Isso, pelo menos, é o que espero.

 

DA – Na literatura de hoje, ainda existe a possibilidade de resultados surpreendentes?

CLAUDIO PARREIRA – Sim. Acho que é por isso, em busca disso, que escrevemos todos nós.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

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94ª Leva - 08/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Pedro Reis

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

Capítulo Ósseo

O travesseiro estofado de carpos e metacarpos tiritava ao movimento do crânio, me obrigando a levantar o tronco, insone. Como que por costume, viro os olhos, esperando que o breu me oferecesse alguma luz que fosse para ver o relógio a minha esquerda. O ponteiro menor permanecia entre os números 4 e 5, enquanto o maior, algo como no 36. O dos segundos, não havia, ou me despistava em sua velocidade. Esse dia haveria de ser uma segunda-feira, nada antes, nada após.

Sem olhar para o chão, evitando a vertigem, pouso os pés nas ossadas que encarpeteavam meu aposento. Ouço o estalar dos mais frágeis enquanto sacudia-os, cavando o chão por debaixo das mandíbulas a mordiscar meus tornozelos. Dou passadas firmes e lentas para não me ferir, e alcanço por fim a mesa. O relógio agora se atraiçoava atrás da nuca, e, como se não houvesse mesmo o ponteiro dos segundos, a engrenagem – podia jurar – não se ouvia.

O sono ainda ofuscava a fome daquele dia ainda não nascido, mas, sem acender as luzes, tateio as tíbias e rádios amontoados na altura de minhas canelas, à procura de algo com que ocupar os dentes. Encontro um fêmur levemente poroso e chupo um restante de cartilagem que se desprendia de sua extremidade.

Abri a primeira gaveta à direita e iniciei a checagem dos relatórios da noite anterior. Era um sem número de casualidades, anulações, aniquilações, espancamentos, mutilações, depredações e mais um tanto de hipotermias, náuseas, vômitos, tremores, cefaleias, mal estar, cansaços, dores musculares, diarreias e outros sintomas inespecíficos a preencher páginas e páginas lidas com um desconforto causado por aquela restolhada que assomava à minha cintura, me perfurando o tecido das calças, beliscando as coxas.

No intuito de libertar minhas pernas do acúmulo de escápulas, quase derrubo minha caneca de leite deitada à mesa. Era uma caneca longa, resistente e impecável, feita com um tipo de cerâmica incomum. Naquela segunda-feira, ela me era perfeita.

Já não sinto mais meus pés. Afogados naqueles restos extintos, não consegui movê-los e nem imaginar-lhes a situação. Minha cama certamente foi tomada pelo ajuntamento que me anavalhava as axilas, tilintando entre si ao mais leve movimento. Salvei os arquivos dentro das gavetas antes que estes fossem também engolidos, e levantei da mesa a inseparável caneca, prontificado a dar o último gole.

Com muita dificuldade sacrifiquei meu queixo e orelhas aos arranhões dos xifoides e sacros que me feriam o pescoço, e olhei novamente para o relógio escondido na bruma. O ponteiro menor, o das horas, se encontrava entre o 4º e o 5º número, enquanto o dos minutos era afogado por fíbulas, talos e mediais. Tive de cuspir alguns trapezoides para libertar minha boca ao derradeiro gole que me descia aos lábios. Com um rápido movimento dos dedos, pude ao menos limpar meus bigodes. A cor do leite se camuflava na cerração, enquanto me queimava a língua. Era negra, e tinha gosto de cinzas.

***

 

Matéria Assombrada

Acordo sem abrir os olhos. Aquela mão que me sobrevoa a testa e os cabelos tenta desviar-me do sonho anterior. Há como resgatá-lo, mantendo os olhos fechados. De uma carícia tão leve acima das sobrancelhas, não poderia sequer culpá-la, pois há anos não sonho, ou não lembro. Sigo a contar. Tenho uma vantagem em relação a minutos atrás, enquanto dormia. Meio desperto, acalentado por mãos pacientes, atento com clareza à história que se passava em minha cabeça, e posso controlá-la, controlar-me, com cuidado mover cada cor e gesto.

Havia uma ilha, cuja sinuosidade da costa se esticava de um lado a outro sem ceder à sua curvatura de contornos marítimos comuns às ilhas. E mesmo eu, ali pela primeira vez, a sabia ilha, talvez mais que ela. Sabia de sua cabeleira de folhas imitando com o vento o sussurro do mar, desajeitada, e que de seu topo pendiam pessoas, de lá nativos milenares. E olhando em direção a ela, com sua folhagem, com seus galhos colidindo entre si no balanço constante, guerreando espaço no universo acima da areia, tão úteis contra as chuvas, vejo que não rebatem a luz. Uma floresta espessa, mas tão clara quanto o litoral, refratava perfeitamente o sol. Sobre as árvores, não havia sombra.

Lembro-me intruso nesta ilha. Sim, mas não hostil, nem hostilizado pelos nativos. Quando, há cinquent’anos, cheguei aqui, vi do alto, despencando aos mil, os moradores daquele lugar. Aproximaram-se amigáveis, e de seus corpos, como que libertos do arco solar que acima clareava o dia em que cheguei, não possuíam também sombra alguma.

Mas talvez o mais interessante seja o modo como me olharam pela primeira vez. Seus olhos tinham uma cor chamuscada, não a cor baça dos cegos, mas uma queimada, fogueira morta, pela exposição perene durante o dia. Começavam a passear-me em volta, e contornavam cuidadosos a minha sombra indiferente. Uns mais corajosos chegavam muito perto dela, com os pés e as mãos e os olhos e as crianças, mas por medo não a tocavam. Alguns começaram a brincar com ela, pulavam de um lado a outro, enquanto eu ria. Vi alguns mais velhos reprimirem as brincadeiras, e seus olhos sem expressão se abriam inseguros. Minha sombra doía naqueles olhares.

Diferente das aventuras que li quando criança, não fui feito prisioneiro e muito menos fizeram festa pela minha presença. Puxado pelas duas mãos pelos nativos mais jovens, fui acolhido, sim, mas como um amigo mudado pelos anos, suficientemente distante para que qualquer tipo de rancor ou confiança se tivesse dissolvido no tempo. Para eles eu era um ser virgem, de natureza intocada. Eles me levaram por trilhas entrecruzadas na floresta, necessárias apesar da claridade que tonalizava de esmeralda reluzente o teto sobre nós.

Não havia palavras de agradecimento. Havia descoberto muito cedo que não havia palavra sequer por ali. Tive que adequar meus pensamentos aos gestos com os quais eles me envolviam durante os dias e as noites, enquanto as horas passavam, e eles passeavam a minha volta, numa ciranda lenta, comandada pelo sol, girando a minha sombra e consequentemente, eles. Queria falar para eles sobre o tempo, mas não pude.

Assustavam-se quando ela mudava de tamanho, se afinava e esticava quando o sol nascia ou se punha, e enfraquecia nas noites de lua. Pude jurar uma saudade naqueles olhos, olhando para ela. Via os mais velhos apontando os dedos para a sombra, explicando segredos para os mais novos de olhos curiosos. Perguntas curiosas sobre aqueles assuntos eram constantes, mas não conseguia tradução para os gestos que se seguiam, e permaneci ignorante àquelas histórias. Eu não tinha permissão de entrar nas moradas construídas nas alturas. Eles tinham medo de que minha sombra tocasse seus pertences, e pela primeira vez em vida tive de andar guiando minha sombra pelo tempo e pelo espaço da ilha.

Até o dia em que os mais velhos começaram a ficar sérios. Não frequentavam as histórias que eu gesticulava durante o dia, e começaram a acordar no meio da noite, sobressaltados por visões bizarras e escuras e incômodas. Não durou muito até eles chegarem a alguma resolução em relação a mim, e isto eu já esperava, dada a franqueza daquele povo.

Era final de tarde quando o grupo, representado pelo ancião de nome ingesticulável, iniciou diante de mim um complexo de movimentos, me explicando da forma mais clara e alentadora possível que eu precisava me desfazer da minha sombra. Dei um passo para trás, olhei para ela, para eles, para além das fronteiras de contornos marítimos. E com minhas mãos incipientes à comunicação dos assombrados, perguntei como poderia fazer o que eles me pediam.

Naquele mesmo instante, todos me guiaram até o litoral, de forma que minha sombra me seguia fina e enorme a minha frente, devido ao sol poente às nossas costas. Eles começaram um coro agudo e dissonante que se dissolveu em segundos nos meus ouvidos. O medo me ensurdeceu, meus pés se enterravam na areia, sem querer seguir em frente, a ponta da minha sombra quase a tocar a espuma branca daquele que a engoliria.

Eles colocaram a mão em meus ombros, me olharam enquanto cantavam e minhas lágrimas rolavam e meu peito doía e minhas pernas não mais me obedeciam, automáticas que estavam em direção ao mar. Minha sombra tocou as ondas fracas e calmas que forravam a areia molhada, dispersando os seus limites escuros no abismo. A metade dela já tinha seu destino para além das minhas reflexões, mas não sentia nada senão amor.

Quando senti a água fria nos calcanhares, já era noite, e afora o sopro das ondas e do coro eterno de meus companheiros, um coro que me espantava as memórias, vi centenas de olhos pálidos reluzirem em direção a mim. Todos eles me sorriam com os olhos, em círculo em volta do novo membro.

Mas em incertas manhãs, quando durmo com as marés, distante das árvores, tenho sonhos revestidos de saudade, e chego a sentir uma mão a me acariciar os cabelos, num gesto de calma e segurança. Se esta mão pertence a minha sombra antiga, nunca saberei. Sempre preferi manter os olhos fechados e a dúvida.

 

Pedro Reis (1987) mora atualmente em São Paulo. Lançou os contos Gorilas e As borboletas de meu pai pelo portal Cronópios, tendo participado também da Contologia, lançada pelo portal em 2012. Os contos Trancelim, Mosca Diuturna e Desejo você encontrará no periódico Diversos Afins. Com o conto Midas, entrou na Antologia de Literatura Fantástica, lançada pela Fliporto no final de 2012.

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Foto: Bruno Kepper

 

Trancelim

Pedro Costa Reis  

     

Canções. As canções de pequeno. O trancelim dourado no qual me pendurava pelos dedos, deslizando e rodando suavemente pelo pulso da mãe. Real ou não. Às vezes era só trancelim. Quando não, era melhor, com as canções, que passeavam detalhadamente por cada assobio meu quando maior, entre os trabalhos na horta e no curral atrás da casa, com Noite, Lobisomem e os outros bichos, padres de minhas confissões. Se falava dentro da casa, era chibata, por isso penso, mais que falo. E ouço. E guardo essa lembrança dentre as meias e panos do meu quarto. O bater das agulhas da minha mãe à janela. Desta vez eu saio, pra não ouvir mais.

“estes xales e colchas eternos que faço. Motivo que seja, pra esquecer-me das horas. Somos somente três nesse fim de mundo pra onde Aurênio me arrastou, puxou e fincou com mais força do que as folhas que ele planta e arranca todo dia atrás de casa, com aquele menino burro. Arranca e liberta. Menino, não serve nem pra modelo das meias que faço pro pai dele, mas mesmo assim divide e gasta pra eu ter que fazer mais, todo dia. Perdi as contas. Tanto faz, sou mais ele que eu mesma.”

Luarina entoa discretamente uma das canções antigas enquanto tricota. Tensiona as bochechas com força pra não chorar, pois era sexta, e Noite já estava pronto pra levar Aurênio. O canto sai rouco e forçado.

Meu pai sai sem falar com ninguém. Entra em meu quarto, talvez para procurar meias. Relógio invisível de ponteiros iguais com os quais meço o tempo lento. Mãe tece a vida eterna entre sonos ocos da madrugada de sexta, entre a revolta e a resignação, espadas de horas, constantemente a estalar. Meu pai deu a volta na casa, ainda dentro da névoa. Só lembro-me da cidade, longe, de dia, quando novo, depois nunca mais ela precisou de mim. Antes era uma infinidade de pernas, lixo, vozes, gritos, pombos e muitos brinquedos. Pendurava-me nas tábuas e via difícil os bonecos que olhavam assustados ao redor, os cavalos olhando assustados para frente. Brisa quente. Olhava para a mãe de olhar sério e queixo forte, como o do pai. Será que sempre foi assim? Nem dava trela para a curiosidade, e não era doido de falar coisa que fosse. Voltava aos pés levando os sacos verdes fedidos, pesados.

Otávio persegue atento a intervalos de janelas os cascos de Noite névoa afora.

Por um momento esqueço dos sons dos ponteiros da mãe atrás de mim. Esqueço da sua presença, por pouco, sei bem. Mas sem acalanto hoje, deixa ela sozinha dormir em paz o sono vazio de canções. Dá saudade. Dava. Pensa bem, Tavito, olha a chibata ali atrás, é doido é? Medo de tudo, pavor de nada. Antes eu ia mais, de dia, até com meu pai. Agora meus amigos sumiram. Antes era correria. Agora também, mas sem sorriso ou gritaria.

Afasta-se da janela, ouve o distanciamento de Aurênio, cujo som dos cascos possantes de Noite emudece a canção que Luarina discretamente entoa.

O estalar novamente. Ela mal me olha de frente, muito menos na sexta. Se esquece no meio desses panos, as bochechas tesas. Sempre novas linhas no sábado, costurando as semanas em meses e anos. Mas essa sexta eu saio. Sete anos costurado nesse meio de nada. O silêncio é dono deles por aqui, mas hoje não. Vou-me em Lobisomem.

Sai da casa por detrás, pega a sela, a chibata e a rédea tateando pelas paredes e usando do costume apronta Lobisomem velho pra seguir. Luarina cochicha a melodia enquanto ouve Otávio por detrás da casa.

“Devia ter levado algo pra agradar as raparigas filhas da puta de sexta-feira, e agora o menino grande quer putariar também. Só pode, de fora tem tudo do pai, o demente. Meia é não era que foi procurar no quarto do menino. Só quero que volte. Essa música sempre, sempre”

Tricota com mais força, estalando forte as agulhas, uma na outra.

Agora não quero saber o porquê de ela nunca sair com meu pai toda sexta. Que fique. Aqui, as pegadas, mas longe, como vou ver? Luz. Sim, pela luz. Não ouvi sequer o som das cobras debaixo dos cascos do velho Lobisomem, perdi a noção e cheguei aos portais da cidade. Um vazio, e suspeitei que fosse o inferno, só dos gritos ao longe que vinham me receber. Das almas loucas ao longe passando bruxuleavam silhuetas na névoa corrente. Um vazio, e os balcões não estavam lá, na rua que senti nos pés ser a dos dias, antigos. Puxei com força Lobisomem e avancei. Segui a música alta, animada, e vi umas pessoas passando cheirando forte. Uma lâmpada fortíssima cobria de verde os passantes e a entrada do bar era ensurdecedora. Mar de gente se debatendo por dentro. Conhecia aqueles rostos velhos e desconhecia os novos. Havia um balcão úmido à frente, onde as pessoas se penduravam esticando as mãos e gritando um não-sei-o-que-de-mel-limão-tangerina-canela-pimenta-troco, e virei de lado numa entrada sem porta com uns dizeres obscenos em volta. Fui empurrado para dentro, olhei para trás e não vi alma que pudesse culpar. Me viro e de um susto pensei ter visto minha mãe sentada com uma puta no colo. Trancelim em pulso falso. Era meu pai que a sentava no colo, dourada com as memórias de criança. Acordei sem lembranças, caído na esquina do bar, entre gritos e o crocitar das sirenes. “Foge, foge, pirralho!”, um mendigo gritava. Corri tropeçando em poças, com o trancelim vermelho no bolso.

De uma das janelas, enquanto não entrava, ela se levantava de um susto, observou-a cruzar a sala até olhar para trás antes de entrar no quarto. Olhou para trás e foi deitar-se. Estava, ouviu? Mas ele não está dançando. Estava. Vai pro quarto, velha, que ele não volta mais. Cadeira de frente à janela e o xale meio acabado com as agulhas no chão. Foi pro quarto, limpou com os dedos o trancelim. Ela se virou, apertando o xale contra o corpo, a outra apoiada no rosto do menino dentro do quarto, que cheirava a velhice, a brisa gelava o suor debaixo dos lençóis. Não dormiu. De um susto levantou, sob a luz: viu o pai no rosto velho da mãe. Tirou a mão da corrente gasta em pulso seco. Virou a cabeça e o riso demente, desaparecendo à medida que calava o riso, desaparecendo de cabeça até embaixo como se subisse a cabeça primeiro e calava para algo que o suprimia como um desenho de giz sendo apagado da lousa.

(Pedro Costa Reis, nascido em 1987 em Recife, formou suas leituras no interior do estado e quando voltou, em 2003, à capital, iniciou sua produção com pequenos poemas escritos em cadernos escolares. Em 2005, lançou seu primeiro conto em uma revista mineira, e depois o mesmo conto foi para o portal Cronópios, bem como a prosa A borboletas do pai (Meu pai e as borboletas). Entrou na Contologia, organizada pela Cronópios e lançada em 2012, e seu conto Midas fez parte de uma antologia de narrativa fantástica da Fliporto de 2012. Enquanto isso, segue escrevendo)

 

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Aperitivo da Palavra Destaques Outras Levas

Aperitivo da Palavra

UNIVERSO MENTAL POVOADO POR SERES MINÚSCULOS

Por Geraldo Lima

 

O que se pode esperar de uma obra literária é que ela provoque, no mínimo, o estranhamento no leitor, arrancando-o do automatismo da vida ordinária. O leitor que se aventurar na leitura de ‘Notas de Pensamentos Incomuns’, de Anderson Fonseca (Editora Multifoco, 2011), será, com certeza, tocado por esse estranhamento. O livro é composto de minicontos, sem título, e quase sempre narrados em primeira pessoa, ou fragmentos que se articulam como se fizessem parte de uma única história, mas que, ao mesmo tempo, mantêm uma independência em relação ao todo. E esse já é um dado do estranhamento que o livro provoca, pois, ao final, sabemos tratar-se de uma obra cuja tessitura só se completa com a junção de todos esses fragmentos aparentemente autônomos.

E o estranhamento se aprofunda com a presença dos seres minúsculos, bizarros, fantásticos, que povoam o universo ficcional criado por Anderson Fonseca. Tamagotchi, Delírios, Gloeb, Jhungols, Flopers, Dabie-Dabie e Móbile são alguns dos estranhos personagens com os quais o leitor irá se deparar durante a leitura de ‘Notas de pensamentos incomuns’.

Alguns desses seres minúsculos habitam a cabeça (e às vezes dela brotam) ou outras partes do corpo de um quase sempre atormentado narrador-personagem. É o caso de Apple, um “bichano muito interessante, redondo, peludo, amarelo e saboroso” que um dia escapa da cabeça do narrador-personagem: “E para que eu não me esqueça do propósito inevitável da vida, evoluir, Apple agarra-se a certas partes do meu corpo iconoclastas da evolução humana: uma hora está numa das pernas, outra na nuca para que me lembre da coluna vertebral, e noutra sobre a cabeça” (pág. 51). Às vezes esse processo de coabitação é mais radical, e o ser intruso penetra o corpo do narrador-personagem ou interfere na sua capacidade de articular o pensamento. Imagine uma mosca que pousa certo dia na mão do sujeito e, depois de algum tempo, já se encontra morando embaixo da sua pele. Ou seja, ele se torna o seu hospedeiro. Noutro miniconto, uma bactéria começa a interferir nos pensamentos do narrador-personagem. Diz ele: “Faz um tempo que meus pensamentos estão sob a regência de uma bactéria” (pág.85). E para que o leitor não ache que isso seja inverossímil, improvável, o narrador-personagem cita como argumento de apoio a matéria publicada na Scientific American confirmando a existência de uma bactéria capaz de “alterar o estado cognitivo do ser humano”. Mas nem precisava usar esse argumento, pois, desde o início, o leitor terá notado que a narrativa de Anderson Fonseca, nesse ‘Notas de pensamentos incomuns’, dá-se fora dos limites do realismo. O que se vê aí é a mais viva manifestação do fantástico e do absurdo.

E é nesse sentido, dessa forte presença do fantástico e do absurdo, que podemos falar das influências que permeiam essa obra de Anderson Fonseca. É visível o diálogo dessas suas narrativas curtas com a obra de Jorge Luís Borges (estão lá os espelhos que simulam outras realidades ou imagens, os corredores formando labirintos, o espírito de fábula), a de Julio Cortázar (o seres minúsculos e fabulosos lembrando cronópios, famas e esperanças), a de Kafka (a metamorfose, a sujeição do personagem a uma realidade que escapa à sua vontade) e, também, o universo mágico da obra de Escher. Esse, aliás, é citado literalmente numa das narrativas: “É embaraçoso viver numa casa desenhada por Escher, e muito mais embaraçoso saber que ela existe numa folha de papel…” (pág. 73). De tudo isso surge um texto de feições próprias, mas que mantém suas raízes fincadas na tradição que subverte o real.

Mais que qualquer outro mecanismo de forjar realidades, é a imaginação que prevalece nesses textos ficcionais de Anderson Fonseca. É da imaginação do narrador-personagem, do seu pensamento incomum, atormentado, que brotam todas essas notas e todos esses seres e universos perturbadores. E, aqui, o leitor irá se deparar com outro elemento que destoa do normal: o narrador-personagem e o autor fundem-se, aparentemente, numa só pessoa. O autor Anderson Fonseca, à maneira de Borges, se coloca na narrativa. (E os limites entre realidade e fantasia quase que se dissolvem.) Todo esse universo de perturbações e estranhamentos situa-se na sua mente. E diante da sugestão do médico para extirpá-lo (a cura mataria a capacidade criativa do autor), ele escolhe permanecer coabitando com os seres que, muitas das vezes, sugam a sua energia e a sua paz de espírito: “Vendo hoje o meu estado, tenho vontade de esmurrá-lo, lançá-lo para longe dos meus olhos; (…) me apeguei de tal modo a essa pequena criatura inocente, que sacrificá-la seria o mesmo que me destruir”, diz ele sobre Gloeb (pág. 18).  Criador e criatura estão, nesse caso, unidos de maneira indissociável. Criar é, de certa maneira, deixar-se habitar pela existência do ser criado. E o leitor que se aventurou por esses estranhos mundos criados por Anderson Fonseca não escapará ileso: os minúsculos seres que pululam na mente do autor, ou do narrador-personagem, passam a habitar também agora a sua imaginação.

 

(Geraldo Lima nasceu em Planaltina, GO, em 1959. Mora, atualmente, em Sobradinho, DF. É professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, escritor e dramaturgo. Já publicou seis livros, entre eles: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF), UM (romance, LGE Editora/FAC) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). É colunista dos sites: O BULE, Dona Zica tá braba e Portal EntretextosColabora com o Jornal Opção, em Goiânia, o Jornal de Sobradinho e a Revista TriploV. Contato: gera.lima@brturbo.com.br)