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104ª Leva - 07/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Mário Sérgio Baggio

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Noite de cachorro

Como faz todas as manhãs, o cachorro tira o homem de casa e o leva para passear. Andam pelas ruas ainda vazias, moldura adequada para a caminhada silenciosa de um cachorro e um homem. Toda manhã é o mesmo: o homem, animal treinado, ergue uma das pernas para mijar em cada esquina. É um hábito, coisa de homem que sai todas as manhãs com seu cachorro para passear. Um leva o outro, não se sabe quem conduz quem. Homem leva cachorro, cachorro leva homem.

Caminham evitando as poças d’água que a tempestade da noite anterior deixou como lembrança. Becos pichados, ruas cheias de sombras, avenidas sem viv’alma, ladeiras íngremes, praças desertas – o passeio do cachorro com seu homem não conhece limites nem escolhe atalhos. Caminhar é preciso. O chão molhado reflete a silhueta dos dois, fantasmas silenciosos que avançam e se apoderam do espaço estendido à frente.

O cachorro olha o relógio, o homem late. Ambos bocejam. Um pássaro negro voa baixo, pia de forma agourenta. O homem levanta uma das pernas e mija pela última vez. Hora de fazer o caminho de volta.

Acorda com o latido insistente de um cão na vizinhança. Apoia-se nos cotovelos. O suor escorre, abundante, empapa seu pescoço e peito. Sente o líquido que desce até os lábios, desaparecendo queixo abaixo. Engole uma gota: salgada. Respiração arfante, acende a luz e olha o teto. Estica o braço e alcança o caderninho de notas na mesa de cabeceira. Escreve: “Chamar o encanador, telhado ainda com goteiras. Urgente: pegar mais pesado na terapia”.

Devolve o caderninho à mesa e volta a encostar a cabeça no travesseiro. Olha a goteira no teto e suspira, exausto. Noite de cachorro, outra vez!

 

***

 

 

O pior que podia fazer

O pior que pôde fazer o imigrante foi oferecer resistência à autoridade. Claro, era normal que ele estivesse alterado, pois fora denunciado por abuso sexual pela senhora que morava na parte rica da cidade. Ele passava sempre por ali, voltando para sua casa, e naquele dia estava especialmente angustiado por receber mais uma maldita resposta negativa de trabalho. Nunca se metia com ninguém, cônscio de sua condição de estrangeiro, e sabia que estaria sempre melhor quanto mais se mantivesse longe de problemas. Que tinha mulher e filhos e estava buscando trabalho para sustentá-los.

Era isso que ele devia dizer ao policial que o prendera na rua, antes que ele lhe pusesse as algemas. Antes que o levassem para a delegacia para tomar seu depoimento. Antes que lhe dessem uma surra por abusar de senhoras de respeito. Antes que o jogassem numa cela, à espera de julgamento. Antes que, no dia seguinte, a senhora retirasse a queixa contra ele, dizendo com um sorriso amarelo que não tinha certeza de que aquele sujeito a havia molestado. Antes que ninguém lhe pedisse desculpas pelo engano e o pusesse de novo nas ruas.

Teria sido muito melhor se o imigrante conservasse sua calma e serenidade no momento em que fora detido. E não insultasse todo mundo, inclusive o delegado. E não enfrentasse a força da autoridade. E não tentasse fugir de modo intempestivo. E não caísse de bruços depois de receber um tiro pelas costas. Foi de advertência, disse o policial.

***

 

 

Liturgia

Primeiro a mão vai até o cálice grande e dourado, cheio de hóstias, recolhe uma delas e vai em linha reta até a língua estirada à sua frente. A mão deixa cair a hóstia, corpo de Cristo, a língua a recebe e se recolhe dentro da boca. O dono da língua, um senhor de olhos pequenos perdidos entre tantas rugas, fecha os lábios e os olhos e assume sua culpa católica e sua condição de pecador arrependido, mas apenas por alguns segundos, uns mínimos instantes, o suficiente para que transpareça verdade em sua intenção. Depois, sem nada dizer, com a hóstia derretendo no céu da boca, ele se levanta e volta, de cabeça baixa, para o lugar de onde tinha saído. Agora a mão está imóvel, esperando o próximo pecador.

Ela vem, não tão devagar, para não atrasar o andamento do ritual, nem tão apressada, para não perturbar a devoção do momento. Vem no ritmo certo, as passadas na cadência exata para que, aqueles que desejarem, apreciem o balançar de seus quadris, a pulsação de suas coxas, primeiro uma, depois outra, e os tornozelos finos e fortes na sustentação de toda aquela estrutura óssea que se move. A mão está parada, à espera, já com a hóstia entre os dedos. O dono da mão pigarreia e deixa escapar certo incômodo enquanto espera que ela se aproxime. Ela se abaixa na frente dele e quase roça os joelhos na barra de suas vestes sagradas, mostrando Que descuidada que sou! uma nesga de coxa. A mão treme, corpo de Cristo, ao esticar-se em linha reta conduzindo a hóstia na direção daquela língua esticada na medida certa – não tão fora da boca para não indicar lubricidade, nem tão dentro que o dono da mão precise roçar os dedos em seus lábios e dentes. Ela não fecha os olhos para o dono da mão, antes olha para ele no momento de receber sua porção de farinha e água. Ela recolhe a língua, abaixa a cabeça – culpada, católica culpada assumida! – e inicia o caminho de volta, no mesmo ritmo da vinda, na mesma cadência, sem olhar para trás.

Agora a mão já não consegue manter a mesma firmeza de antes. O que se vê é uma mão insegura, medrosa, cujo dono padece e sofre para fazer seu trabalho. Após a mão vêm o cotovelo, o ombro, o pescoço e o rosto, todos partes de um único ser que nesse exato momento chora. O coroinha não entende o que se passa, e o sacristão levanta as mãos para o alto, Mas o que é que está acontecendo com o padre Fernando?

Mário Sérgio Baggio é jornalista, morador da cidade de São Paulo, atua como Redator freelancer produzindo conteúdo para websites, blogs e redes sociais. Mantém o blog Homem de Palavra, em que publica seus textos de ficção.

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90ª Leva - 04/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ozias Filho

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

nenhuma pedra

(lugar comum
……do poeta)

sufoca a tampa
detém a cavilha
sustenta a pressão

tudo vem à tona

quando os dedos
vão à garganta

 

 

***

 

 

verdade submersa

 

trabalhar incessantemente a mentira da palavra
o discurso viola a abstracção
da boca que o pronuncia
a língua (precoce) permanece hipnotizada no seu túmulo
pelo encantador de serpentes
enquanto a verdade é só saliva no fundo do cesto

 

 

***

 

 

Génesis

 

e no princípio
era o silêncio

e Deus
criou o verbo

e aprisionou para sempre
o silêncio dentro do homem

 

 

***

 

 

as estradas sulcadas na fronte
canais que interrogam
o curso do rio de sal
que não mais turvará o que é cru

enxergar ao longe
remoça a vista
e abre fístulas no peito

 

 

***

 

 

a árvore

 

cai por terra a promessa
de mantermo-nos rijos e inalterados
defronte ao assalto da saudade

cai com a lentidão do frio
quando a roupa é parca para impedir
que a pele queime e estale como as velhas madeiras
na memória das gavetas
casas com prazo de validade

que promessa poder-se-ia manter fiel
diante do perfume suspenso
e que não avisa a hora em que descerá
à memória olfactiva?

que compromisso matemático
podemos assumir com a rectidão dos dias
quando basta uma pedra fora do lugar
uma nota dissonante num trilho de comboio
o ranger dos dentes de alguém a dormir
ou o gosto agreste de um beijo que escrevemos
num argumento
para que se desça do pedestal que nos impusemos?

cai por terra a soberba
a árvore que não tem hipótese
face ao predador

 

 

***

 

 

Liturgia

 

mesmo que seja eu,
no auto-retrato,
à frente do espelho

é no olhar do outro
que determino
a passagem das horas

 

 

***

 

 

o calcanhar na língua

 

a Adriana Calcanhoto

 

eu vou arranhar
o calcanhar direito
de Adriana
tirar o verso da perna

amanhar o verbo da pedra
conjugar o calcanhar
no presente do futuro

eu vou mastigar a palavra
no lado esquerdo da alma:

a cal que desce
o sal que escorre
das palavras
caídas

o calcanhar que fala o silêncio de
Adriana

ela brinca ela brinda
introduz
o verbo que sabe a chão

 

Ozias Filho nasceu no Rio de Janeiro e atualmente reside em Portugal. Sua produção poética contempla obras como “Poemas do Dilúvio” (Ed. Alma Azul), “Páginas Despidas” (Ed. Pasárgada) e “O relógio avariado de Deus” (Ed. Pasárgada), dentre outras. Atua também como editor e fotógrafo.