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152ª Leva - 02/2023 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

CRÔNICAS DE VIDA E OBRA

 

Por Sandro Ornellas

 

 

O chileno Benjamín Labatut, em Quando deixamos de entender o mundo (2022), é um escritor borgeano que abandonou o misticismo gnóstico presente no argentino para se dedicar a tratar literariamente da ciência moderna em narrativas igualmente desconcertantes e de gênero incerto. Algo entre biografia geracional, poesia cosmológica e ensaio especulativo. Mas o que me chamou a atenção num primeiro momento foi o esforço de caracterização de cientistas como aquele tipo de herói que parece decalcado do que eram os poetas românticos do século XIX: obcecados por suas ideias brilhantes, excêntricos, doentios, gênios incompreendidos, místicos, competitivos, trágicos e apaixonados. Muito do que marca o estilo dessas caracterizações é uma adjetivação implacável, seja através dos próprios adjetivos – como os que usei acima para seus personagens –, seja por orações adjetivas. Além de caracterizar sujeitos que o senso comum toma por alheados do mundo, tal procedimento dá sabor e riqueza literária aos textos.

Um outro traço das histórias de Labatut – mais sofisticado do que essas representações romantizadas – é sua capacidade de articular narrativamente enredos, o que dá aos seus textos certo caráter de crônicas da vida e da obra de uma geração de cientistas. Um dos elementos de que lança mão são as datas, o que possui lá sua objetividade histórica, embora a articulação não seja verídica, e sim verossímil. Isso é reforçado por aspas retiradas de cartas e diários como fontes comprobatórias do que narra. Mas é a especulação o que mais me chama a atenção, e o que pode nos levar a nomear suas narrativas como ensaios especulativos. Encontramo-la às vezes como um tipo de poesia cosmológica, que são as tentativas de Labatut em verbalizar as brilhantes equações matemáticas que os obcecados cientistas formulam para fenômenos de existência puramente teórica.

Há uma passagem do conto “Quando deixamos de entender o mundo” em que Werner Heisenberg ouve de Niels Bohr que “o físico – como o poeta – não devia descobrir os fatos do mundo, mas apenas criar metáforas e conexões mentais. […] Esse aspecto da natureza requeria um novo idioma”. É como se essa passagem, que Labatut reputa como de Bohr, referendasse as próprias descrições de Labatut das equações de Heisenberg e seus rivais. Falando do matemático Alexander Grothendieck em “O coração do coração”, Labatut escreve que “adorava escolher le mot juste para os conceitos que descobria, como uma forma de amansá-los e torná-los familiares antes de que fossem compreendidos sem uma totalidade. Suas étales, por exemplo, evocam as ondas tranquilas e dóceis da maré baixa, o mar como um espelho imóvel, a superfície de uma asa esticada ao máximo ou os lençóis com os quais se cobre um recém-nascido”.

Se, então, essa poesia descritiva da cosmologia científica dá às narrativas seu traço de ensaio especulativo, há também algo dessa especulação ligada a uma outra cosmologia, talvez o principal arcabouço do livro, amarrando textos autônomos. Refiro-me ao contraste estabelecido entre a última das narrativas e o “Epílogo”. Ela ocupa metade das páginas e com o mesmo título da tradução brasileira, é a que trata da história de alguns dos principais físicos teóricos que depois se reuniriam na Bélgica no ano de 1927 para de alguma forma fundar a física quântica. Trata-se de uma geração dourada de cientistas europeus nobelizados que pareciam, com suas formulações brilhantes e rivalidades teóricas, alheios ao mundo de ascensão do nazifascismo no período entreguerras, bem como às arriscadas consequências de suas invenções.

Não é uma história nova essa contemporaneidade entre a criação de uma ciência teórica, distante anos-luz do mundo cotidiano, a ascensão do nazismo, a guerra daí decorrente e a bomba que pôs fim ao conflito no Japão. No livro, também encontramos essa contemporaneidade logo na primeira narrativa, “Azul da Prússia”, sobre a origem, como pigmento azul para pinturas, e os usos do cianureto para suicídio por oficiais nazistas. “Azul da Prússia” é um exemplo da habilidade de Labatut em amarrar histórias aparentemente díspares. Essa especulação narrativa, encontramos, por exemplo, no enredo que entrelaça de modo misterioso as histórias do matemático japonês Shinichi Mochizuki, admirador de Alexander Grothendieck, cuja vida e obra são contadas até seu voluntário isolamento nos Pirineus. Na hora de sua morte, em 2014, lemos a sugestiva hipótese de o japonês estar ao seu lado do leito hospitalar. Pura ficção entrelaçando vidas de dois matemáticos brilhantes e desconfiados das instituições responsáveis por financiar pesquisas avançadas.

Já o Epílogo, todavia, intitulado “O jardineiro noturno”, aponta para o título original do volume, Un verdor terrible, e explicita um contraponto a todas essas histórias trágicas: um narrador (o próprio Labatut?), entre reflexões sobre a vida junto à natureza, descreve a exuberante paisagem andina encontrada no Chile, em especial junto de uma pequena cidade onde se depara com um ex-matemático que abandonou a profissão para se tornar jardineiro e aprender a lidar com plantas. Teria abandonado a matemática inspirado justamente pelo desaparecimento voluntário de Grothendieck. O jardineiro lhe conta saber como árvores cítricas morrem: “sucumbem por superabundância”. Então o narrador lhe pergunta quanto tempo de vida teria seu limoeiro, ao que o jardineiro lhe responde que “não havia como saber, pelo menos não sem antes cortá-lo e olhar dentro do tronco. Mas quem iria querer fazer isso?”. Assim, o livro se encerra e deixa para o leitor a tarefa de comparar esse limite de curiosidade do jardineiro com a hybris trágica que brilhantes cientistas legaram à humanidade.

Concluí a leitura notando que Einstein pouco aparece em suas páginas, sendo esses momentos preciosos contrapontos ao brilho científico dos demais, como quando ele acusa Bohr e Heisenberg de, com seu princípio da incerteza, desmaterializar a realidade física, afirmando que “Deus não joga dados com o universo”. Inspirado pela presença sibilina de Einstein nas narrativas, lembrei de outro livro, No tempo das catástrofes, da filósofa da ciência belga Isabelle Stengers. Nele, ela faz invectivas para que os cientistas politizem suas pesquisas, diante da catástrofe ambiental instalada e crescente, a que chama “Intrusão de Gaia”. Stengers sugere a ciência e os cientistas passaram a ser hoje cultuados, como se tivessem

muito a ver com a ideia de que o pensamento “é algo que se conquista’” [que] pede renúncia e solidão. Por isso muitas daquelas “cabeças pensantes” poderão, por outro lado, se curvar com respeito diante da paixão de Antonin Artaud, que berrava e vociferava que o pensamento não estava “na cabeça’” Mas o que é importante para eles é que berros e vociferação traduzam uma experiência radical, na vizinhança mais próxima possível da loucura. Artaud, promovido a herói cultural, nos oferece então a confirmação de que o Homem é capaz de afrontar, ainda que se perca nele, o caos abissal que é preciso manter a distância para pensar.

Há algo nessa passagem de Stengers que liga Artaud aos cientistas de Labatut que propiciaram, com seus ímpetos de conquista científica, a criação da bomba atômica e, daí, a crise ambiental que proporções planetárias e que apenas começamos a adentrar. Esses “heróis culturais” do século XX afrontaram “o caos abissal” e, se nos legaram orgulhosas fórmulas de enorme conhecimento abstrato, também nos puseram na rota de um risco iminente. Mas isso não é Labatut quem diz – sou eu, leitor, que concluí com o fim dessa leitura fascinante.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a questão dos fins (Villa Olívia, 2022), Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), dentre outros.

 

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144ª Leva - 04/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Lupeu corre, Lupeu em crise,

Lupeu cresce, Lupeu envelhece

Por Sidney Rocha

 

 

Aprendi recentemente um conceito novo, na minha vadiagem de leituras: “paraexcitação”. Embora não esteja nos dois dicionários de psicanálise de casa, é termo criado por Freud. Eu buscava algo novo para começar a escrever sobre Todo suicídio é um homicídio, o recente livro de Lupeu Lacerda, ele o escreve assim, a meu ver, sob paraexcitações. São defesas, são escudos. São escusas. Para-raios. Para-brisas. Paralamas. Paralemas. São paralupeus.

E assim entendo melhor esse livro: na verdade uma carta, menos ao modo ridículo das cartas suicidas e de amor, e mais ao modo dos mapas, das cartografias, das batalhas navais, como está ali na página 96.

 

1.

Cada investida sua no mundo editorial é um tipo de suicídio, porque depois de publicar um livro ele se cala, fica puto por qualquer coisa, os vizinhos o chateiam, os amigos antigos também, os mais novos não lhe interessam para nada, pois ele está de novo em xeque. Não comparece para corridas, não vai aos hipódromos dos autógrafos, foge das baias e das bahias dos mise en scenes. Sua melhor atuação é para dentro de seus livros, ele sabe disso, e não está interessado em nenhuma teoria mais, nem poesia, nem literatura, nem música. Ele está no melhor e no auge de sua máxima forma: está de novo só.

Lupeu Lacerda escreve sobre Lupeu Lacerda a partir da leitura que Lupeu Lacerda faz de si e contra si. Muitos anos na literatura e na música fizeram dele seu leitorouvinte mais radical.

Ele não busca pontuar em concursos e fortunas críticas, senão escrever como o cara que conheci aos quinze anos. Temos 55, eu e ele. De lá para cá, Lupeu é um fenômeno. Ele emula todos os bons e maus modos da contracultura, anuncia certo descrédito pela leitura sistemática dos críticos e evoca para si o papel de leitor de si mesmo. Sua persona pública vive sob a aura da performance de sobrevivência, bem narrados nos seus poemas-coisas ou prosoemas e tocam os leitores mais jovens, os velhos e os mais velhos ainda como eu.

E por que nos tocam? Porque morremos, os mais velhos. Porque querem morrer, os mais novos. Porém, no caminho, resta isso, a morte destinada a quem não quer morrer: a velhice. Precisamos falar sobre ela, Kevin. Em breve. Na página 77?

 

2.

 

Tolstoi caminha por sua propriedade rural:
messianismo sem fé, mas esperança

 

Cada investida sua no mundo editorial é um tipo de homicídio. Esse seu Todo suicídio… já tem o título todo na contramão comercial. Paira algo de messiânico nele, de domesticável, e pode não agradar a alguns, mas Lupeu não parece estar muito aí para isso. E inaugura sua ironia, seu ‘tolstoismo’ particular. Como Lupeu sabe, Tolstoi, já velho, aos 50 anos, vivia atordoado por pensamentos suicidas ou pela na morte, mas sempre esperava algo a mais da vida. Um místico para além da mística, eu diria. Um escritor atormentado pela filosofia na sua potência máxima. Também serve. Dadas as proporções certas, Lacerda sempre foi alguém assim. Mas a ele se acrescente a ironia trazida pelo narrador de Todo suicídio…, livro de auto-leitura numa transleitura.

A palavra “leitura” vem de eleição, de escolha. E o autor faz muitas, boas e más, nesse novo trabalho. São sensações, parasensações; estesias, parestesias; paraexcitações, como eu disse. Seus leitores gostam. Escreve para os confins e os confinados do século da Peste.

 

3.

Desde 2019 foi retirado outro mal do jarro de Pandora. A Covid. Neste maio de 2021, já somos mais de 400 mil mortos, cuja paisagem mais fiel está na página 59, à espera do Deus anunciado dez páginas antes.

Mas o deus da pandemia, de Lupeu, é Pã, chamado de Lupércio, pelos latinos.

A divindade nesse seu novo livro é esse Pã e não aquele Tânatos, de Entre o alho e o sal, (2007), por exemplo. Mesmo quando esse deus festeiro namore Senectus (de onde vem a palavra geração, essa velhice). O narrador de Todo suicídio… é um Titônio moderno, transformado em imortal, mas sem o privilégio da eterna juventude.

Deixe-me provocar lembrança mais recente a quem lê esta resenha: se Alex, o personagem central do romance A laranja mecânica (1962), de Anthony Burgess, envelhecesse, seria ele o narrador de Todo suicídio… A aproximação não é deslocada. Lacerda aponta de forma consciente para o leitor ou leitora algo distópicos, descrentes, amantes de Cioran mesmo sem conhecê-lo para além das epígrafes ou aforismos, para quem os clichês da linguagem precisam ser reconhecidos de imediato. E seus leitores são fisgados justo por essa familiaridade. Somente depois seu poema ou narrativa vão se inovando. Lupeu é um escritor que poderíamos chamar de cult. De seguidores. E acerta bem na lata: o público interessado na rebeldia em relação às convenções sociais e literárias. Sua única novidade é garantir vitória sobre o desafio violento de se manter o mesmo. E isso não é fácil no mundo como o nosso, sobretudo o submundo literário. Esse compromisso mantém o autor vivo, me parece. Certa irregularidade, comum a todo autor, faz parte da verossimilhança, dessa atmosfera criada por Lacerda, onde se inclui persona & obra que, com exceção de um livro, Caos Tecnicolor (Virtual books, poemas, 2012), mantém escalada bastante visível.

 

4.

Todo suicídio… está entre a realidade da lobotomia e as sensações e emoções sem filtros, isso inclui a inteligência; entre o mundo mecânico e o digital, um reino de linguagem pessimista/realista que define bem o personagem-narrador do livro. Suspenso na dupla impossibilidade de dois mundos, o personagem percorre o livro, viaja pelo mundo idealizado buscando a Beleza das coisas e como já não acreditasse tanto nela. Isso me lembrou Rimbaud. Não era o poeta Rimbaud quem disse ter sentado a Beleza no colo para injuriá-la? O leitor ou a leitora desta resenha devem dar uma olhada nos livros para ver se não estou confundindo Rimbaud com Baudelaire, mas acho ter sido Rimbaud: “Sentei o Beleza no colo e a injuriei”. Algo assim. Esse sentimento me arrastou para dentro do livro de Lupeu, ou seja: “Tá, tudo bem, há a Beleza nas coisas, o.k. mas e aí, o quanto mesmo isso muda lá em casa?”

É esse o narrador que marca encontro conosco no livro, alguém encurralado nessa dupla tentativa, a ambi-existência. Alguém disposto a dar ao mundano a beleza sem dar tanta ênfase aos seus efeitos e eloquências. Por isso o livro se aproxima mais do poema e menos da prosa, na busca do registro, da palavra certa e vã. Ali está um dos pontos bons do livro. Esse paralelismo.

Mas a senhora aqui não é a Morte nem a Beleza. É mesmo a Velhice.

Por isso não soa mal a lembrança do personagem Coelho, o Harry da trilogia de John Updike, no começo desta resenha.

Logo, não é tão à toa aparecer o fóssil na capa. Ele está dentro da pedra. Contudo, é preciso quebrá-la lhe adivinhando seu sentido ou longitude, se se quer mesmo encontrar a esqueletaria, o peixe antes jovem e buliçoso; agora, só fantasmagoria, representação somente.

Eternamente morto e velho.

Não é em vão o intertítulo: “prosoemas para ninar dinossauros.”

Assim é assim o narrador que Lupeu retira da pedra, desse livro novovelho: alguém condenado à velhice, mas sem lamentar a vida nem pedir para morrer nem para lhe matarem, mas que, de alguma forma, toquem a flauta do fauno.

 

 

5.

Há 14 anos, escrevi sobre o recém-lançado Entre o alho e o sal, publicado pelo selo Outsider, da Kabalah Editora:

“Tiro do bolso a última bala. Ela tem um brilho estranho, daqui, contra o Sol do Recife. A pólvora rescende a um último verso, talvez. Fi-la dormir no tambor da arma. É uma criança linda. Use-a você, meu amigo. Talvez você queira acertar o autor com ela, ou usá-la em benefício próprio, sabe-se lá.”

Essa escolha serve ainda para a leitura de Todo suicídio… que, diferentemente, não se curva sobre o “eu”, como é o caso de Entre o alho e o sal. Já Todo suicídio… trata mais do Ele, o Louco, o Homem, o Palhaço, o Cujo, o Cospe-Bula, o Caga-Regras, o Indivíduo, o Dito, o Idiota. Este livro é sobre o Você.

 

6.

 

Lucha libre, religião mexicana.

 

No nosso último encontro, eu e Lupeu nos desencontramos e quebramos tudo em torno de nós, nada ficou de pé nem vivo, e terminamos humilhados pelo cansaço e a asma e a velhice, nos esmurrando com golpes que eram mais velhas carícias, porque inúteis e inofensivas. Só nos unimos por um instante: para esmurrar quem tentava apartar nossas mágoas. E voltamos para nossas tesouras-voadoras, nossa religião, nossa “lucha libre”. Olhos roxos, descobrimos de nossa amizade aceitar sermos ao mesmo tempo velhacos e velhos, dois grandiosíssimos filhos da puta, desses wrestlers mascarados que não precisamos mais das cordas, por sabermos de nossa velhice ser agora o ringue mais verdadeiro, a parte mais revolucionária de nossas vidas. E seguimos intrigados um do outro, intrigados um com o outro, mas não a ponto de não nos reconhecermos: dois escritores-pedras da mesma montanha. Pedras inencontráveis.

É sobre aquela revolução, romântica, a anunciação do seu novo e mais velho livro, Todo suicídio é um homicídio, que vocês precisam ler. Ler, não: praticar.

Uns contra os outros.

 

Sidney Rocha é escritor.

 

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141ª Leva - 01/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

NOTAS SOBRE UM POVOADO MÁGICO

Por Gustavo Rios


 

São evidentes os elementos que vinculam o livro Rio das Almas, do escritor baiano Pawlo Cidade, à tradição do Realismo Fantástico. Das famílias que atravessam o tempo da narrativa com suas histórias e idiossincrasias, às situações inusitadas envolvendo determinado rol de personagens, Pawlo nos traz uma obra interessante. E parece bem à vontade nesse universo.

Publicado pela portuguesa Chiado Editora, o romance Rio das Almas conta a trajetória de um povoado de mesmo nome que viveu seu apogeu com a extração de carvão (fato importante na trama) e com as ferrovias. Em suas 304 páginas, somos convidados a conhecer esse lugar mágico, que aos poucos vai se mostrando a alegoria perfeita para as ambições do seu criador.

No primeiro capítulo nos deparamos com o hidrólogo Pedro Parigot. Pedro, movido por uma espécie de milagre (uma cura que o personagem tenta entender com o olhar da ciência), viaja até o povoado na busca de respostas. O ano é 1968, período marcante para a história brasileira – e não é raro encontramos laços entre o mundo proposto pelo autor e o real, historicamente falando.

Dentro desse enredo inicial e aparentemente simples, e entre observações precisas e competentes do ambiente e da situação em si (o encontro entre dois desconhecidos, Pedro e o andarilho de nome Miguel Cervantes, num cenário que tenta fugir do trivial tão comum nos livros “regionais”), Pawlo dá início à sua jornada. E o que poderia ser o “núcleo duro” do livro, no caso a busca de Pedro Parigot por respostas, acaba por se converter numa parte. Fundamental no todo, mas nunca limitadora do muito.

E não demora nada para que outros personagens, com suas histórias inusitadas e bem construídas, surjam, ampliando o escopo do autor e nos mostrando o tamanho exato de suas ambições.

A mudança de cenário, por assim dizer, já começa no segundo capítulo. Nele, embarcamos com Pawlo Cidade, enxergando cada vez mais seus propósitos e a força de sua escrita.

 

O “povoado dos Santos”    

Seguindo a linha de trabalho escolhida pelo artista ilheense, é importante destacar algo que prende o leitor e terá certamente a capacidade de mantê-lo no prumo: a história dos Santos.

Em minha opinião, as páginas em que ele descreve as peculiaridades dessa família (para usar um termo bem comportado) são umas das melhores partes do romance – talvez pela lembrança que me trouxe dos tipos que habitam Macondo.

Da família que “(…) todos os sábados, no lombo de burros, iam à feira de Rio das Almas negociar os alimentos que produziam na fazenda: leite, batatas, alface, mandioca, inhame, gabiroba e algumas peças artesanais como embornais (…)”, avançamos entre belas representações (lembro que a crueldade apresentada é parte do jogo; parte da necessária construção literária: aqui, então, justifico o termo “belo”), envolvidos por um ambiente mítico.

Para exemplificar parte dessa ideia inicial, e mostrar como Cidade trabalha tais questões, cito o trecho abaixo:

“A cada meia hora, Jairo Santos, arrastando os pés nas tábuas aparelhadas do piso da sala, saía na varanda e olhava para o céu, anunciando a chegada de uma chuva que nunca vinha. Com o dedo em riste, dava ordens à mulher e às filhas, apontando a direção, sem precisar dar uma palavra. De tanto apontar o dedo na direção das coisas e dos acontecimentos, o indicador da mão direita endureceu. A mulher, que era espichada, achou engraçado. Disse que o dedo duro foi castigo de Deus pelas vezes que ele a fez crescer, forçada, mas ‘por amor’, até ficar do tamanho dele. Dona Santaninha dos Santos cedera ao desejo desvairado e esdrúxulo do marido de fazê-la se esticar até ficar de sua estatura, para que os filhos, quando nascessem, tivessem o mesmo tamanho dos pais”.

Então, usando o “amor” como justificativa, “(…) antes mesmo do sol cobrir todo o Vale dos Absurdos, Jairo Santos deitava a mulher sobre o ‘estirador’, um instrumento que inventou para alongar a estatura do corpo, embora um aparelho similar tenha estado em uso durante toda a Idade Média, sobretudo por padres inquisidores que o utilizavam para extrair confissões e que ficara conhecido com a alcunha de ‘cavalete’”.

Pawlo Cidade, pseudônimo do escritor João Paulo Couto Santos, prossegue com firmeza no uso dos ingredientes comuns a essa literatura chamada de fantástica: a família que “conversa animadamente” com os animais do pasto; a família que cria gatos selvagens em coleiras para torná-los mais mansos; os Santos, que devem aprender a viver como raposas e corujas que se escondem em buracos no chão, pois “(…) lá será o destino de toda vida na face da Terra.”, já que, segundo o velho Jairo Santos, “um dia o sol cresceria tanto que queimaria quase toda a terra e só depois de tanto crescer ele explodiria. ‘Toda a luz se tornará em trevas para sempre’”.

Ainda que eu destaque o uso de tais elementos, que vão muito além da família Santos no decorrer das páginas, devo lembrar que essa escolha não restringe as ideias do autor. Ou seja: não existe cópia, apenas inspirações certamente assumidas (a citação do livro Incidente em Antares, por exemplo), e outras talvez mais sutis (o cheiro dos grãos de mamona num copo de metal me lembrou das amêndoas amargas que deram fim às “inquietações da memória” de um tal refugiado antilhano; mas isso é pura especulação de minha parte). Para fechar a questão, digo que nada é deliberado nem confuso, apesar de nos parecer muitas vezes que a cronologia e o enredo se perdem.

A verdade é que Pawlo também joga com isso, e joga bem. Ele nos traz novos personagens, novas vidas que se mostram ao longo da obra. Em seu romance, o tempo pode dar um salto entre um capítulo e o outro (anos, às vezes décadas), mas essa escolha tem o efeito de nos manter interessados em seus desfechos, na promessa de algo mais.

E essa diversidade de personagens, de casos, de tempos que saltam e de vidas distintas, acaba sendo a grandeza do livro. E o enredo ganha com isso.

 

Ressurreição e Bíblia

Deocleciano, um velho que após perder o grande amor de sua vida está “determinado a morrer”, sem conseguir finalizar o ato, é o primeiro a perceber que a morte talvez tenha abandonado o povoado. E para um livro que tem como epígrafe um trecho da Bíblia (“’E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles’”), não à toa do famoso Apocalipse (que também significa Revelação), é interessante analisar o romance na tentativa de ligar os pontos. Tentar associar uma ideia bíblica com a vida da localidade em si.

O livro sagrado (ao menos para algumas religiões) vez por outra é citado na história, seja pelos personagens ou mesmo pelo autor-narrador. Quando Deocleciano grita na página 35 que “A morte morreu, Céo!”, ou mesmo quando ele escuta sua amiga, Céo, repetir o mesmo trecho da epígrafe, “(…) meio absorta, olhando através da janela, os malditos redemoinhos que se formavam no Vale dos Absurdos”, podemos inferir a ideia de Pawlo em colocar na obra uma ideia comum, mas bastante aceitável e apropriada: a religiosidade característica em diversas regiões do país. Na literatura brasileira os exemplos são fartos. E, para não ficar no vazio, cito Dias Gomes e Hermilo B. Filho, entre tantos outros.

O cotidiano do povoado merece destaque, visto que é o arcabouço do romance, obviamente. Todavia, aqui a gente também enxerga o fabuloso na medida certa, no detalhe e no comezinho, não somente no evento que pode mudar de alguma forma o destino da trama.

Além disso, suspeito que nesse fabuloso “miúdo” exista um pouco de cinematográfico, do tipo cinema-que-devaneia-e-amplia: parte do trecho citado acima (“malditos redemoinhos que se formavam no Vale dos Absurdos”) deve me ajudar a explicar a ideia, na medida em que surge como algo trivial. Como se “malditos redemoinhos” não fossem acontecimentos tão incomuns para aquela gente.

Do Conselho de Anciãos que “(…) se reunia para tratar dos assuntos mais complexos do povoado.”, podendo ser convocado por qualquer cidadão, à uma rotina que envolvia um Deocleciano que às “(…) 15h, lia sobre os grandes filósofos da humanidade: Sócrates, Descartes, Aristóteles, Platão; às 16h, compartilhava o que havia lido com os jovens que o esperavam na praça do Chafariz, induzindo-os à busca de si mesmos e à solução dos problemas mais simples da humanidade, sempre com base na filosofia e nos seus questionamentos pertinentes (…)”, o leitor vai construindo em sua mente Rio das Almas. Suas ruas, seus habitantes, os acontecimentos e a magia que cabe dentro dele. Assim, esse mesmo leitor vai se tornando algo além de um mero espectador. Seu olhar vai se igualando em essência aos dos moradores do lugar.

Também a forma escolhida pelo escritor para pôr no livro tamanha variedade de situações se mostra acertada, na proporção em que ele resolve os dilemas propostos, e faz as devidas ligações ao longo do texto: a falsa impressão de que, em parte da obra, estamos diante de cenas descontinuadas, não impede de vermos a beleza do conjunto (o capítulo 17 pode ser um bom exemplo, e não só pela questão da cronologia, mas pela inventividade). No final das contas, esse método valoriza o trabalho, na justaposição de situações curiosas, belíssimas, engraçadas, incríveis e literárias, no sentido lato da palavra.

Usando como base o Realismo Fantástico, Cidade nos agrada com os mais diferentes acontecimentos, tendo como pano de fundo aquilo que chamamos realidade. Mas que podem muito bem subverter essa mesma realidade amuada e sem graça, extraindo dela o encantamento, o pomposo, a picardia e o mundano. Tudo que esperamos para combater essa vida que insiste num cinza duradouro e sufocante.

 

O protagonista que interessa: o ser humano

É um erro pensar, todavia, que Rio das Almas não passa de um amontoado de histórias absurdas, com personagens marcantes e loucuras no atacado e no varejo. Ainda que Pawlo tenha optado por uma narrativa não linear em parte do livro – como já dito e recontado acima, às vezes um detalhe só é explicado alguns capítulos depois (vide o momento em que Chico Rola ressuscita “sem mastro e sem bandeira”, fato explicado várias páginas depois) -, o que prevalece mesmo é a história do humano em si. O verdadeiro eixo de tudo. Para o autor, o que importa é o que cada indivíduo sente e como ele age diante do mundo que se apresenta, ainda que esse mundo seja do tipo que acolhe, sem sustos, uma Mulher Pisadeira que esmagava o peito das pessoas que dormiam de barriga cheia.

Rio das Almas, povoado, é uma potente metáfora sobre as tais idiossincrasias do ser humano. Tornando-se uma espécie de síntese criativa e instigante que coloca o homem no protagonismo, à frente e acima.

Em Rio das Almas, livro, o que salta aos olhos de verdade são as pessoas. Os amores, as amizades, as crenças e os rancores. O que releva nas 304 páginas são as fronteiras e as nuances. As buscas e as perdas. Tudo bem estruturado num cenário fascinante, que não confunde o leitor com enganações.

Não é a ressurreição ocorrida na história que se destaca no final das contas, mas os motivos e as causas da morte que não acontece. Da traição nunca perdoada, à velhice que deixa o Chico Rola impotente (“deixou de ser cavalo para ser égua”), passando pela dor da viuvez, onde Deocleciano vê a interrupção dolorosa de uma rotina em que ele “(…) às 17h, voltava correndo para casa, pegava a esposa, e regressava outra vez para a praça, onde podiam contemplar, às 17h45, carinhosamente abraçados, o pôr do sol, a hora mais espetacular do povoado, em que o céu tingia-se de tons azul-violáceos, rosa choque, roxo, tons alaranjados e uma infinidade de tons vermelhos que se distribuíam em degradê pelo Monte Marrom.”, o que enxergamos é o personagem no centro de tudo.

A injustiça social causada pelo lucro e pela ganância também é assunto presente no livro, tendo como mote a existência da Betânia and San Francisco Railway Company, empresa de mineração de carvão. Desse modo, além de conter os tais elementos fantásticos (forma, labor e estilo), o livro traz também a lembrança de quanto os humanos são absorvidos e devorados pela ganância, pela desumanização e pela fome de lucro (realidade e conteúdo).

 

A voz narrativa e as escolhas

Um ponto que talvez incomode a quem vai ler a obra é o jeitão por vezes empolado com que o artista prossegue no romance. Mesmo em cenas engraçadas, provavelmente ao se deparar com trechos tais como “(…) inalar, involuntariamente, os odores nada agradáveis de suas flatulências” o leitor vai achar algo exagerado.

Outros exemplos reforçam tal impressão: “chorou copiosamente”; “Cria nisso. Como creu naquela noite”; “nitidamente absorto”; “assaz eufóricos”; “desmesuradamente perplexos”, entre outros.

Todavia, diante do que li (a obra em seu conjunto), consigo entrar em defesa do Cidade com alguns argumentos que talvez consigam explicar o caso: para mim, é outra voz que nos narra Rio das Almas; além disso, Pawlo trabalha no livro com um tipo de narrador que conversa diretamente com quem o lê.

Sobre a primeira hipótese, posso resumir da seguinte forma: a voz do livro pode não ser a do João Paulo ou mesmo a do Pawlo Cidade. Mas a de alguém criado por ele (ou eles) para tal.

Deixando de lado a questão do pseudônimo para não confundir, e sendo o autor do livro um dramaturgo, acredito na capacidade dele em “dar voz” a outros – como um “item de série”, digamos, para um bom homem de teatro. Com isso, e considerando sua experiência, acho que Cidade optou por criar uma persona que deve falar desse jeito “assaz” presunçoso.

Um narrador que precisa explicar o que é bronha (“o ato de se masturbar”), por exemplo, é o mesmo que pode nos deixar um pouco confusos quando fala sobre os telômeros que não conseguem mais se dividir (outros trechos me fazem suspeitar que a voz do livro seria a de um médico aposentado, meio sábio, bom de copo e de prato, chegado numa picardia e um grande observador; mas isso é especulação minha, um jogo interessante para o Gustavo leitor).

Sobre a voz ser a do tipo narrador que conversa com o leitor, diferentes momentos podem comprovar essa ideia. Na medida em que ele opina e compartilha experiências.

Como exemplo, cito os trechos a seguir (com grifos meus):

“Se fôssemos enumerar as coisas absurdas (e incríveis!) que povoavam o Vale, como o fato de uma vez por ano o sol brilhar em plena meia-noite, seria preciso escrever outro livro.

Vamos ver se consigo explicar. Quando completou sete décadas de vida, o filósofo professor leigo e funcionário da Estação de Tratamento de Água de Rio das Almas (…)”

Enfim, Rio das Almas é um livro que merece ser lido. Com atenção e prazer, se permitindo entrar no jogo proposto por seu criador.

E entre coveiros gêmeos bivitelinos de pais diferentes, burros alados, olhos violetas e assombrações, acredito valer muito a pena entrar, sim, no jogo. Na deliciosa leitura desse mundo-povoado. Lá, onde bar se chama taverna. E onde “A fragrância das gardênias só era abandonada quando as flores da Praça da Matriz desabrochavam com grande intensidade e magnificência”. Um lugar que eu gostaria muito de passar uns dias. Ou mesmo passar uma vida inteira, quem sabe.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), entre outros.

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118ª Leva - 03/2017 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

A busca de si e as formas fixas, a Mecânica Aplicada de Nuno Rau

Por Roberto Dutra Jr.

 

Veio o pós-modernismo e nós nos fragmentamos em tantos pedaços quanto uma tela cubista comporta. Surgiu a world wide web e nos fragmentamos mais ainda em avatares e perfis, redes sociais, raves cibernéticas e encontros virtuais. Uma nova realidade abraça a todos nós e a cidade em que circulamos circula em cada dispositivo móvel em níveis que nos viciam sugando o nosso tempo como vampiros instalados nos chips.

Estas imagens e outras povoam irremediavelmente a minha mente quando carrego as páginas de Mecânica aplicada, o novo livro de Nuno Rau, que saiu recentemente pela Editora Patuá. Façamos o reload.

Nuno Rau faz uma mescla de imagens e narrativas versificadas, surgindo rápidas como flashes entre um fluxo de consciência que também engloba samplers de outros poetas e compositores. A desapropriação de um verso alheio é a identidade de um novo poema. O indivíduo entre estas páginas, que vaga numa polis cyber-punk perdeu as ilusões e dialoga ora com um outro, que pode ser ele mesmo ou um sampler de um poeta (ele mesmo se constrói? Ou uma voz do cânone?). Não temos certeza de quem está lá, à solta; quem é este observador do fluxo de informações, desolado em reflexos de si mesmo que não reconhece. É preciso quebrar os espelhos: “… erradicar / os artefatos / da ilusão”. Fica no ar sempre a pergunta se o indivíduo é o sintoma ou a doença de si.

Uma máquina do mundo revisitada não seria uma leitura extrapolada de Mecânica aplicada. Entretanto, os poemas de Nuno Rau, com um ritmo ainda mais fragmentado, comunicam-se com suas referências drummondianas e haroldianas (de Campos) e revelam uma profunda angústia de ser no século XXI um homem (poético) sampleado.

Ora com modos de graphic novel, algum desvio surrealista e certamente impregnado de distopia, os poemas de Mecânica aplicada não encontram caminhos nessa cyber-cidade, a única fuga é a para dentro de si, como nos versos de “por dentro, por fora”: “vivendo pela margem, neste exílio / de uma pátria que não existe, a não / ser na mais absurda alucinação, / nenhum dia me abre o seu sentido; / … / além do corpo, / … / as coisas seguem normais / … / sob a pele das coisas arde um tal incêndio”.

Mecânica aplicada tem uma unidade conceitual dividida em cinco partes, sendo Subversio machine, Imago mundi, Fenomenologia dos materiais, Opera mundi e Mecânica aplicada. Os poemas “Fragmentação”, “Romantismo mode on mode off” e “Ars poetica” são o ponto de convergência deste eu fragmentado do poeta (sua consciência dentro da máquina do mundo) e dividem o livro em uma tomada de estilo e de forma.  As duas seções finais são compostas de sonetos. O caminho para dentro de si é o encontro de uma forma fixa tradicional da literatura. Seria um retorno à infância ou à infância cultural de um ser poético desiludido num mar de informações e referências, impossível de ser filtrado?

Nuno Rau não reinventa o soneto, mas utiliza o recurso como uma oposição à fragmentação. Se havia uma busca, esta deveria ser por concisão e a aplicação da mecânica surge no verso e sua prática. Versos como: “a forma fixa: o conteúdo, não. / A mente é livre, o pensamento inquieto, / e exposto a mais esta contradição / cometo – extemporâneo – outro soneto”, demonstram o jogo metalinguístico montado.  Tendo a língua como referência na busca de uma possível identidade, este indivíduo, que pode não se perceber na polis cibernética e sampleada, encontra dentro de si uma sample anterior e nela tenta se elaborar, reconhecer-se como tal. A reflexão seria um questionamento constante de muitos autores: existimos apenas enquanto linguagem?

O emprego do soneto dá um frescor no texto, embora fique também outra pergunta latente na leitura dos poemas de Mecânica aplicada: o pós-pós da linguagem literária é a forma fixa? Ainda: a resposta da fragmentação de si na linguagem é o retorno ao cânone? Incluso das alegorias da infância, do amor, do encontro do outro e demais temas que podemos considerar como universais. Creio que faço perguntas demais nessa resenha, isso me intriga, mas também elucida algo muito claramente: uma das funções da arte é nos compelir ao questionamento, além de conformismos, certezas e confortos. Tendo isto em mente quero finalizar dizendo que Mecânica aplicada, de Nuno Rau, acima de tudo, deixa claro que: reload>code = poesia.

Boas leituras.

Roberto Dutra Jr. é um carioca, suburbano e deslocado. Escritor em resistência, mestre em Letras; foi editor da Revista Escrita e contribuiu para o jornal Panorama da Palavra, e escreveu artigos acadêmicos. Atualmente oferece consultorias literárias, e leciona quase na clandestinidade. É colunista regular do blog literário Zonadapalavra, resenhista da revista de artes Mallarmargens e usa o Instagram para experimentos fotopoéticos. Foi recentemente publicado na antologia Escriptonita (Patuá).

 

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94ª Leva - 08/2014 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Pícaro

Por Pedro Reis

 

 

Manter sob controle a impossibilidade de controlar a vida. Umas das falas do Dr. Fiss, personagem misterioso que guarda uma estreita e não menos misteriosa relação identitária com Ahab, pai do narrador do livro intitulado Pequod, do escritor gaúcho Vitor Ramil, cujo título é também o nome da embarcação do capitão Ahab do livro Moby Dick, de Herman Melville.

Este primeiro emaranhado de relações que pus de início delimita somente algumas das muitas conexões que constroem o emaranhado da pequena novela, guardando uma significação que extrapola suas pouco mais de cem páginas.

A história ocorre de forma fragmentada, em vários episódios que separam o tempo atual – a relação de Ahab e seu filho – do tempo passado, onde se narra a infância de Ahab e a mudança de sua família para o Brasil, saindo do Uruguai. Há outros personagens na trama: os avós, a mãe e os irmãos, o estranho Dr. Fiss e alguns amigos de Ahab. Não há uma separação clara entre os dois tempos, e a descoberta da situação de cada capítulo deve se dar no decorrer da leitura.

Dois intertextos principais têm de ser destacados para o leitor deste livro. O primeiro é sua relação com o livro de Melville citado acima. Não é por coincidência que o nome de um dos principais personagens seja o mesmo do capitão do Pequod, Ahab. Os dois guardam uma obsessão monomaníaca: um, pela baleia branca monstruosa que dá nome ao clássico americano; outro, pela perfeição metafórica que vê nas teias das minúsculas aranhas encontradas em sua casa e sua relação com a linguagem poética.

O Ahab latino-americano tem um comportamento habitual de ajustar sempre um grande relógio em sua casa. Esse hábito, exato como o próprio funcionamento do relógio, por vezes perde o tino quando ele se tranca em um quarto, negligenciando o hábito de dar corda, esquecendo-se do tempo na reclusão do aposento. Ninguém de sua família sabe o que ele faz nessas ocasiões, mas o menino, investigando a relação de seu pai com o Dr. Fiss, entra escondido na casa daquele homem, mas é flagrado, passando pelo momento mais delirante do romance: a noite das oportunidades.

É neste momento que o doutor explica as motivações mais profundas de seu pai, e também um dos momentos mais interessantes do livro. Semelhante às temáticas borgeanas, Dr. Fiss, de posse dos poemas que Ahab escrevia, explica ao pequeno “espião” como cortava cada palavra dos escritos de seu pai, abria um livro qualquer de sua extensa biblioteca, procurava a palavra que havia recortado, e quando a encontrava, no livro, colava a mesma palavra por cima da palavra do livro, anotando de forma cifrada a localização daquela palavra do poema em sua biblioteca. Podemos encontrar uma dessas cifras em meados do livro.

O outro intertexto é com o pintor florentino renascentista Paolo Uccelo. Sua pintura, Relógio com Cabeças de Profetas, ou pelo menos seu esboço, serve de imagem inicial de cada capítulo, tendo no centro a fotografia que, descobre-se durante a leitura, é de seu pai quando pequeno.

A relação do livro com o pintor se colocaria na obsessão que Uccelo teve em vida com a perspectiva, técnica plástica inovadora na época. A novela de Ramil tem relação com esta técnica, pois também é estruturada em perspectiva, tendo como ponto de fuga o conflito entre o pai e o filho, e os acontecimentos que fazem a narrativa ocorrem em constante resgate do passado, que serve de centralização do presente, representado pelo filho.

A narração, apesar de posta na mente da criança, cria cenas ou situações líricas, em uma escrita onde prevalece o cotidiano simples, mas pincelado de visões poéticas. Ramil se arma da inocência infantil para adensar o lirismo das narrações, construindo cenas poéticas belíssimas, como quando ouve seu pai falar espanhol:

“O espanhol era então o idioma da sabedoria e da obscuridade. O espanhol era o idioma do silêncio. Ouvir Ahab falando espanhol era escutá-lo por dentro. Eu não precisava observar seus lábios, suas inflexões de rosto e voz. Não precisava escutá-lo. No fundo daquela poltrona, naquele saguão sombrio, eu estava no fundo dele, no fundo de Ahab em sua poltrona sob o relógio. O espanhol era então o idioma do pensamento e do tempo. Eu estava no fundo do tempo.”

Ou quando, em sonho, o menino chama ao pai, mas este não o ouve, e ocorre a pergunta fundamental:

“’Não ouviste eu te chamar?’ ‘Não. Talvez o ruído das ondas não tenha me deixado ouvir’, responde. Eu paro. E pergunto então como nunca em tempo algum: ‘Por que não gostas que eu te chame de pai?’ Ele para, me olha e diz: ‘Porque eu não quero que haja distância entre nós.”

Os dois personagens fisgam o leitor, por sua relação de poder, cumplicidade e fantasia. O narrador se vê como satélite de Ahab, mas também se vê como um semelhante, e vai carregar o legado vazio construído pelo seu pai para o futuro. Como dá por si ao final do livro: tratava-se, agora, de seu tempo.

Pequod é um livro sobre revelações, sobre descobertas. A descoberta da fotografia de seu pai, escondida pela avó. A descoberta da semelhança entre aquele ser enorme e admirável que é seu pai. A descoberta dos mistérios que cercam seu pai e o Dr. Fiss. O passado de sua família em Montevideo. Todas essas descobertas formam a narração do livro, bem como são parte importante da formação do pequeno narrador.

Pícaro é um dos termos que mais se repete no início do livro, quase um xingamento atirado pelos familiares ao infante narrador. Não pude deixar de notar que o adjetivo, que significa matreiro, malicioso e astuto, tem uma importância exemplar na história da literatura. Desde Homero, criando o Ulisses de mil ardis, costurando sua narrativa épica por meio das façanhas ladinas deste herói, nesta novela, Vitor Ramil, no papel do pequeno pícaro, trava sua batalha contra o caos incontrolável da vida, tecendo as palavras de seu passado, mantendo-as sob controle, sob a forma de literatura.

 

Pedro Reis (1987) mora atualmente em São Paulo. Lançou os contos Gorilas e As borboletas de meu pai pelo portal Cronópios, tendo participado também da Contologia, lançada pelo portal em 2012. Os contos Trancelim, Mosca Diuturna e Desejo você encontrará no periódico Diversos Afins. Com o conto Midas, entrou na Antologia de Literatura Fantástica, lançada pela Fliporto no final de 2012.