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111ª Leva - 05/2016 Jogo de Cena

Jogo de Cena

ANTÔNIA E SUA HUMANÍSSIMA TRINDADE

Por Yara Camillo

 

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Donantônia, personagem do mais recente trabalho do Núcleo Ás de Paus, é uma senhora que adora receber visitas para um café, uma Prosa ponteada de um humor que volta e meia traz a Poesia na manga.

Quatro Menestréis abrem o espetáculo, estendendo a ponte entre Donantônia e a plateia – essa entidade que se forma e se recria diante de todos os palcos do mundo –; quatro entes que anunciam, narram, comentam, adivinham, concluem o que se passou, o que se passa ou vai se passar com Donantônia. Quatro energias que luzem, trafegam, estrelas e guias de roupagens várias, ora anjos, ora diabretes, erês, deuses-meninos que sopram aos viventes um sem-fim de sentidos e caminhos.

Donantônia vive só, na companhia das memórias que gosta de despertar, de trazer ao agora, compartilhando-as com as visitas entre um café e um pedaço de bolo. Memórias que ganham vida, ocupam espaços, reacontecem; e por aí vai se desenhando uma eternidade insuspeitada na aparente finitude das coisas.

Entre as memórias, impossível não evocar o amor primeiro: Argeu, argonauta que viaja pelo afeto de Antônia afora, pelo afeto de Antônia adentro e ali faz morada, e numa noite já perdida no tempo propõe o irresistível: a fuga. Antônia em doce apuro se vê: se por um lado diz “sim” e parte, deixando pais e família para trás, por outro se nega, apesar do amor se nega, deixando Argeu sozinho na estação; e dessa noite em diante não se passa um dia sequer sem que ela pense em como seriam as coisas, se tivesse dito “sim” a Argeu. Mas o caminho de Antônia não se bifurca apenas, não é dual. Entre um “sim” e um “não” há outras tantas possibilidades, uma gama quase sem fim de caminhos, de “talvez”… E assim se manifesta uma terceira via de Antônia, aquela que não vai nem fica, que de uma hora para outra vê-se sozinha no mundo, sem paz, sem pais, sem Argeu, sem ninguém, sem nada, sem mais. Assim abrem-se em leque suas cartas-memórias.

Uma lembrança chama outra, um caminho leva a outro, o amor por Argeu remete a histórias tantas da vida de Antônia que se compõe, recompõe, se reinventa, dando ou prestando conta de suas escolhas, sua natureza tripartida, sua Humaníssima Trindade.

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Antônias e os Menestréis / Foto: Edmilson Luiz Perrota

Enquanto isso, Antônia vai encontrando seu lugar no coração da plateia, que vai se encantando com suas graças e manias e venturas e aflições, “Antônia que nem é pouco, nem é muito, mas também não é nada, só Antônia, velha, sozinha, aposentada, vivendo só nesta casa…” Uma senhora, um arquétipo como tantos, Antônia vai se tornando única, assim como todo ser que nos rouba de nós mesmos, por um instante que seja, e nos acolhe e chama para o tempo de um olhar, de alguma atenção, algum afeto. As múltiplas, aparentemente desconexas escolhas de Antônia, que tornam seu pensamento “abilolado”, como a própria Antônia diz, a alentam, acalentam, questionam, tornam feliz e infeliz; e lá vai Antônia de novo se abrindo, dividindo, tripartindo entre um “sim”, um “não”, um “talvez”. E é esta última Antônia quem se rebela e diz: “Se eu pudesse viver duas vidas, se eu pudesse ir e não ir! Nunca vi maldade maior do que dizer que dois proveitos não cabem num peito… Por que não? Por que não pode caber neste peito tudo o que há de mais bonito na Vida? Um, dois, todos os proveitos aqui, aqui dentro, por que não? Tenho tanta gana, tanta garra, tantos dedos, e minha sede de viver me dará quem sabe firmeza para reter, entre eles, umas tantas promessas de felicidade.”

Por aí segue o espetáculo, com Antônia revivendo horas de sutil relevância, que passariam despercebidas a qualquer olhar menos atento; por aí vai Antônia revivendo fatos, hiatos, uma noite, uma fuga, uma presença, uma permanência, uma dúvida… E de novo se depara com seus caminhos fragmentados, suas partições ali incorporadas: as escolhas – ou lá o que sejam –, tão palpáveis que chegam a parecer, cada uma, um ser independente a desconstruir Antônia que já não se vê só, mas na companhia das Antônias que a habitam, que ganham corpo a ponto de assustá-la, de se tornarem tangíveis, visíveis mesmo, embora ela ainda tente recusar o incômodo presente: “Sabe o que vou fazer? Vou contar até três e quando abrir os olhos verei que sou uma e não três… Só eu, só uma, uma única Antônia. As coisas são do jeito que a gente vê e eu não estou vendo ninguém nesta casa, a não ser eu, eu, e eu…”

Sem ter para onde fugir – se assim quisesse, mas nem sabe se quer –, sem ter onde se aninhar, para ordenar as ideias e recobrar o fôlego perdido entre tantas cartas embaralhadas de si mesma, Antônia pede uma pausa, um café, um descanso para a alma. Um café para respirar e pôr em ordem os pensamentos. Sentam-se as Antônias à mesma mesa onde, por anos, cada uma delas esteve ou pensou estar sozinha, para um café, uma reflexão. Olham-se, repetem gestos e palavras que há tanto tempo são ditas em torno de uma mesa – ou de uma fogueira, de qualquer ponto onde seja possível a comunhão –, oferecem xícaras, pires, colheres, açúcar, perguntando-se: “Aceita? Aceito…. Aceita? Aceito. Aceita…?”

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O café das três Antônias / Foto: Leticia Nakadomari

E vão as Antônias se aceitando, se acertando, até se atrevendo a um dedo de prosa:

“Como será que a gente faz para dar um tangolomango nas lembranças, para que elas não venham nunca mais? Mas, pensando bem, melhor deixar que se acheguem e sentem e aceitem um pedaço de bolo e tomem café… Algumas doem, é verdade, principalmente as felizes. Mas que venham as lembranças, mesmo porque, pensando bem, não estou mais na idade de dizer adeus a ninguém. A ninguém.”

O depois é o depois que só o Teatro oferece. Antônia do Sim, Antônia do Não e Antônia do Talvez encontram-se, triangulam-se num ciclo, num círculo que não se fecha, ao contrário: abre-se em outros, numa pulsação contínua, numa roda que gira sem cessar… “Pois tudo o que agora acontece, tudo o que agora está sendo, ou é ou foi ou será.”

É um pouco assim que acontece Donantônia, terceira montagem do Núcleo Ás de Paus, de Londrina, Paraná.

Conheci esses artistas em 2010, por ocasião de seu trabalho de estreia, A Pereira da Tia Miséria, um texto adaptado para o palco por Luan Valero e sua rara sensibilidade, a partir de um conto de uma coletânea que traduzi, Contos Populares Espanhois (Landy Editora, 2005). Era uma criação coletiva e a Arte habitava, plena, aquele trabalho. Meu afeto pelos artistas do Núcleo veio em simultaneidade e sintonia com minha admiração pelo trabalho de cada um e do grupo, como um todo. A Pereira percorreu várias regiões do Brasil, oferecendo seus frutos, em cerca de 190 apresentações. Depois o Núcleo estendeu suas asas, suas águas, rumo a outros territórios e daí nasceu o espetáculo Singra, em 2013. Em 2016, após dois anos de pesquisas, nasce Donantônia, trabalho do qual participo, em parceria com o Núcleo, na construção da Dramaturgia.

Se Donantônia alimenta seus convidados, sua plateia, com café e outras delícias, alimenta também a alma de quem a conhece e acaba por levá-la um pouco para casa, para si, para algum recanto da memória talvez já enamorada dessa velha senhora.

Assim diz a canção de Thunay Tartari, enquanto a plateia se serve dessas doçuras: Permitamos que em nossos corações floresça / A maravilhosa gratidão pelo sustento / Manifestado pelo alimento presente / Em nossa mesa de comunhão.

Permitamo-nos, então, “um café, uma pausa, um pensamento, um descanso para a alma.” Um café sem cerimônia, na companhia de Donantônia.

***

 

 

Ficha Técnica:

 

Direção e produção: Núcleo Ás de Paus
Dramaturgia: Núcleo Ás de Paus e Yara Camillo
Direção musical: Thunay Tartari
Elenco: Adalberto Pereira, André Demarchi, Artur Junges, Camila Feoli, Rebeca Oliveira de Carvalho, Rogério Francisco Costa e Thunay Tartari
Iluminação: Rogério Francisco Costa e Altair de Souza (Borracha)
Cenografia: Rogério Francisco Costa
Marcenaria: Claudiomar Meneguetti
Serralheria: Carlos Miguel da Silva
Figurino: Núcleo Ás de Paus
Costura: Inês Zeidel Grassi
Perucas e máscaras: Daniele Stegmann
Design Gráfico: Arthur Duarte

 

“O Núcleo Ás de Paus surgiu em 2008, em Londrina, Paraná. Trata-se de um coletivo de artistas que se uniram por uma pesquisa teatral pautada no trabalho colaborativo. Em suas produções, instrumentos de equilibrismo, como pernas de pau, muletas e bastões, entre outros, formam os denominados “prolongamentos do ator”, síntese de um entendimento continuamente pesquisado por seus integrantes, em estudo diário.”

 

Yara Camillo nasceu em São Paulo, SP. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. Trabalha com Literatura e Teatro. Na Literatura, como escritora e tradutora. No Teatro, como dramaturga, atriz e diretora. É autora de dois livros de contos, “Volições” (Massao Ohno Editor, 2007) e “Hiatos” (RG-Editores, 2004); participa de várias antologias e sites literários, coordena Oficinas de Teatro e Oficinas de Criação Literária. Contato: yaracamillo@gmail.com

 

 

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Jogo de Cena

SOBRE GRAÇAS E DESGRAÇAS

Por Yara Camillo

 

Há pouco tempo traduzi um conto oriental que fala sobre graça e desgraça, ambas se alternando como se girássemos uma moeda e suas faces opostas se mostrassem quase que simultaneamente, quando talvez o que valesse a pena estivesse justamente no desconsiderado ínterim entre ambas.

O conto fala de um garoto fascinado por cavalos que encontra um potro selvagem, nas montanhas. O animal o segue. Que graça! – diz a família. Que graça ímpar vinda diretamente dos céus! Entre o garoto e o cavalo desenvolve-se um singular afeto. Certo dia, durante uma cavalgada, o garoto cai e quebra a perna. Que desgraça! – diz a família. Pouco tempo depois, todos os jovens do povoado são recrutados para a guerra. O garoto, ainda convalescente, é dispensado. Que graça! – diz a família. Certo dia, o cavalo, que tem o hábito de passear sozinho pelas montanhas, já que seu cavaleiro ainda não se curou de todo, desaparece. Que desgraça! Algum tempo depois, o animal retorna, acompanhado de uma égua já prenhe. Que graça! E por aí segue a estória, alternando graça e desgraça, cara e coroa, frente e verso…

Conheci minha primeira desgraça aos seis anos, quando perdi a avó, em quem depositava minhas esperanças de amor e compreensão, entre os humanos. Perdi, com ela, o espaço e o afeto que me acolhiam durante as tardes, depois da escola. Passei então a ficar com meus tios.

O tio e a tia, João e Maria, tinham seis filhos; quatro deles, bem pequenos. Comigo, o contingente dos pequenos chegava a cinco. Resultado: cinco crianças no exíguo espaço de um apartamento. Resultado do resultado: a saudosa tia Maria enlouquecia diariamente, com aquele bando que ela – filosofica e às vezes desesperadamente – chamava de “uma plantação de capetas”. A tia acabou descobrindo o que ela chamou de pracinha, um quarteirão inteiro, com muito verde, que podíamos avistar da sacada do edifício. E decidiu conhecer o lugar, para ver se poderia soltar os capetas por lá, ao menos durante uma parte do dia.

Certamente a tia não imaginava que seu justo anseio por um pouco de paz seria também o início de um infinito bem, que nos acompanharia por toda a vida.

Foi o início de um longo trecho. Na praça, além dos jardins e das árvores muito antigas, havia a Biblioteca Monteiro Lobato, que oferecia atividades dirigidas ao público de seis a dezesseis anos: Leitura, Pintura, Música, Teatro: meu primeiro amor, na Arte, a primeira forma de expressão que descobri, quase junto com a Literatura.

A desgraça, traduzida na morte da avó, havia dobrado a esquina… Agora, era a vez da graça. A rotina dos capetas mudava consideravelmente: saíamos da escola, almoçávamos e íamos para a biblioteca, onde passávamos a tarde, as tardes de todos aqueles anos.

Muita água correu por baixo da ponte que liga a já longínqua tarde em que Iacov Hillel reuniu alguns frequentadores da Monteiro Lobato para a montagem de um Auto de Natal. Meu personagem, no auto, era um anjo que desafinava e, por isso, fora expulso do coro celestial… Uma simbologia para a estranheza que sentimos, quando tentamos nos enquadrar um pouco na normalidade das coisas?

Ocorre-me agora um conto de autor desconhecido, que se chama “O Macaquinho e a Desgraça”: uma mulher, caminhando pela trilha de um bosque, levando um grande pote de mel na cabeça, tropeça numa raiz e cai. Contemplando o mel espalhado pelo chão, ela se lamenta: “Oh, meu Deus, que desgraça!” Um macaquinho curioso assiste à cena e, quando a mulher se afasta, resolve bulir no mel, que ele até então desconhecia. Experimenta e se deslumbra: “Ah, que delícia! Como a desgraça é gostosa!” E nos dias que se seguem não tem outro pensamento em mente, senão este: “Quero mais desgraça! Não posso viver sem ela!”

O Teatro, cujas reservas de desconhecido mel espalham-se entre graças e desgraças, trafega muito bem por esse aparente paradoxo. Ali, na mágica inexatidão de seu território, pode-se trafegar entre tragédias e comédias, passear pelas esquinas que se dobram após cada limite, prometendo outros que vão além, sempre além. Assim, encontram-se os lados opostos da moeda, um extremo deságua em outro, o que parece morte pode virar vida, o que parece miséria pode prometer riquezas.

Uma estória engendra ou chama outra… Uma forma de expressão pressupõe outras, como na Literatura, por exemplo, quando, como diz Borges, “um livro encontra seu leitor”. E então se dá algo que tem a ver com o Teatro, com o leitor armando seu palco de intimidades para que ali aconteça vividamente o enredo que seus olhos e seu espírito captam do livro e transpõem para esse palco particular.

Todo ser humano deveria praticar uma forma de Arte. Seja qual for a profissão ou caminho escolhido, a criatividade pode e deve fazer parte de sua trajetória. É um modo de exercer a infância, de trilhar o território lúdico, o primeiro, talvez, que todos conhecemos quando crianças. É um modo de não abandonar a criança, de deixá-la respirar livremente no adulto que somos, preservando assim nossas reservas de curiosidade, coragem e alegria.

Caminhando mais por essa ponte, invoco agora uma coletânea de contos populares espanhóis, de José María Guelbenzu, que traduzi há alguns anos. Seguindo um critério de sempre, minha ideia era conhecer a obra inteira, antes de começar a tradução. Mas, quando li um dos contos, A Pereira da Tia Miséria, resolvi iniciar a tradução por ali. Não imaginava, claro, que a pereira daria tantos frutos. Apenas, senti que era um conto que ia muito, muito longe: Tia Miséria é uma velha senhora, mãe da Fome (sua filha que saiu de casa há muito tempo e vive caminhando pelo mundo, espalhando sofrimento). A Tia vive sozinha, sustentando-se de uma velha pereira que tem no quintal – cujos frutos os meninos da vizinhança roubam, antes que amadureçam – e das poucas doações que consegue, de alguns moradores do povoado. Certo dia, recebe a visita de um santo do céu, disfarçado de mendigo. Ajuda-o, e consegue uma graça: todo aquele que subir em sua pereira ali ficará grudado, até que ela o autorize a descer. Com isso, consegue afugentar os meninos, consegue colher e vender suas peras. Sua vida fica mais confortável, até que um dia recebe a visita da Morte. Mas a Miséria não quer morrer. E engana a Morte, fazendo-lhe um último pedido: “Por favor, vá colher alguns frutos da minha pereira, para eu ir saboreando durante minha última viagem.” A Morte concede… E então fica presa à pereira. Assim, desaparece do mundo… E o caos se instala, em vários desdobramentos, até a conclusão do conto.

Cinco anos depois do lançamento dos Contos Populares Espanhóis, pela Landy Editora, em 2005, o Núcleo Ás de Paus, de Londrina, Paraná, fez uma montagem teatral com base na Pereira. Assisti ao espetáculo, que segue em cartaz até hoje, e concluo este texto transcrevendo aqui algumas de minhas impressões sobre o trabalho:

Tia Miséria e Pereira por Natalia Turini

A adaptação e montagem do conto popular espanhol, A Pereira da Tia Miséria, pelo Núcleo Ás de Paus, preserva e honra a tradição desse gênero, desde o texto, trabalho raro da Palavra, até o trabalho de Corpo, com os atores se movimentando muito à vontade, em pernas-de-pau, como se brincassem em cena. Que no Teatro se brinca a sério, se rapta e conduz o espectador até a plataforma de decolagem. E voa o espectador, enquanto os atores engendram novos encantamentos para a próxima cena.

A idade ideal para se assistir à Pereira da Tia Miséria? Todas, porque o espetáculo tampouco tem idade e chega a resvalar no atemporal.

A plateia – essa entidade que se forma e se recria diante de todos os palcos – complementa a magia. Talvez seja este outro mérito do Conto Popular: o de falar a todas as idades, porque os contos vêm de épocas em que as pessoas ouviam, em volta do fogo, da mesa – ou em qualquer cenário onde ocorresse essa comunhão –, as estórias trazidas e levadas pelos contadores, jograis, andarilhos, menestréis, saltimbancos, precursores dessa linha que agora o Ás de Paus leva adiante.

Pereira por Natalia Turini

Outra magia da Arte, e já do Afeto: a de fazer viver o que se evoca. É assim que Tia Miséria, mais viva do que nunca, acontece. O espetáculo tem ritmo, a cenografia e os figurinos são impressionantes. As linhas de interpretação são claras e mergulham fundo; o resultado é Arte. Percebe-se uma linha de direção que, no entanto, é coletiva: criação coletiva, surpreendente e possível porque, além do talento, o grupo consegue uma unicidade – que não ocorreria, sem um reconhecimento recíproco das percepções individuais.

Há um momento no espetáculo em que a música, entoada pelo coro, assim anuncia a entrada de um personagem:

“O que é desprezível não se deve desprezar.

O que é invisível é preciso enxergar.”

Recado precioso, nesse tempo. Em todos os tempos.

Esse trabalho do Ás de Paus precisa cumprir seu destino de ir longe e para muitos, porque leva em si a essência do Teatro, nas cores e no texto, na música e cenografia, nos figurinos e na interpretação, na concepção do cômico e do trágico. Na beleza, enfim.

O Teatro habita a alma e o trabalho do Núcleo Ás de Paus. A Arte se faz. Saímos mais ricos e com as mãos cheias de frutos depois de conhecer A Pereira da Tia Miséria, através da visão desses artistas.

Bruna Stéphanie e Rogério Costa por Natalia Turini

De novo a graça e a desgraça, alternando-se nas faces da moeda… Como se tudo tivesse apenas dois lados! Como se não houvesse, entre um sim e um não, uma quase infinitude de possibilidades.

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)