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98ª Leva - 01/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alexandre Guarnieri

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

o átomo de carbono (i)

 
toda a vida contida numa exígua partícula,
– desdobrável de si própria –, equilibrada
sobre a mesma progressão desenfreada;
deuses ferveram-na numa caldeira aquecida
ante o clarão do big bang / cozendo-a por milênios,
lenta, nas tripas da mais velha estrela / e lá, aprisionada,
como o maior espetáculo da via láctea, além do limbo
centígrado dos organismos bioquímicos,
replicou-se a enzima de sua fina
(e elástica) matematicidade
// até que […]

 

 

***

 

 

|( os órgãos internos )|

 
\ ( persegue as vértebras a massa
dos sangues coligidos / ( dentre os quais
há indício, de que alguns ( mais ou menos
líquidos ) \ cada qual a seu tempo, distintos,
consolidem sacos do caldo biológico,
coagulados \ ( carnes que existem da diferença
entre si de seus tecidos / ( se especializaram
as células, em aparelhos e sistemas ) /
delas monta-se um puzzle cujas lacunas
se completam ) \ o corpo expande,
tanto quanto se destrói ( por escasso o cálcio )
no rígido osso que esfacela / ( conforme
a vida lhe habita, o conjunto luta
sob o mesmo pulso \ ( o mesmo insumo bruto
lhe insufla a labuta / ( plantada já
na samambaia dos nervos \ ( enclausura-lhe
a elástica amarra dos músculos / ( a obstrução
sob medida de uma única fornalha viva
) \ trocam fluidos entre si tantas partes
aparentemente separadas \ ( interno
o mar hemorrágico, apenas visitável numa
viagem fantástica / ( mas quando lhe autopsiam
a frio \ ( sangria & bisturis / ( se mostra,
um monstro sob as próprias ataduras \ (
o frankenstein exposto, que, apenas por medo
do escuro, só morto poderiam demonstrá-lo ) \

 

 

***

 

 

(| o crânio humano |)

 
compósito ósseo por sobre cujos orifícios inteiramente
desobstruídos, encaixam-se os módulos dos olhos,
narinas, da boca, e ouvidos; a tampa de louça calcinada
pelo couro (marfim fissurado sob cabelo) um trono
ocupa o topo desta cúpula; uma armadura de juntas,
parcialmente recoberta por ranhuras em cruz, pelas quais,
de sua furna interna (o antro intracraniano), escapam-lhe
tantos juízos – são pássaros em fuga deste recep
táculo craquelado; lacrado sob a caixa manchada do
crânio humano, jaz, moldado aos miolos, à forma de uma
noz que alucina e racionaliza, o gerador unigênito – razão
pela qual congelam o cérebro de um gênio –, de cada
inédita eureka, e de todas as idéias velhas, de séculos,
de décadas, guardadas em antiquíssimas bibliotecas; sob
o palato, escondida, esteve a língua quase retilínea (um
único músculo infatigável para modular todos os dialetos),
a dentição se encaixava, cobrindo-a, esta fila de lanças
fincadas, abaixo das maxilas, e na base da mandíbula.

 

 

***

 

 

[| a pele |]

 
homem-bomba vestindo roupa de escafandrista, seu
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pêlos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor vigiados de uma
torre de comando, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto)
como a máxima peça, de uma alfaiataria das mais
complexas: seria tão errado reduzi-la ao tato costurando
ao tecido apenas um, dos cinco sentidos?

 

 

***

 

 

mecânica dos fluidos

/ o suor

 

c a d a   p o r o
u m       e s c o a d o u r o
p e l o   q u a l
c a d a     g l â n d u l a
s u d o   r í p a r a
………….r e s p i r a

s e    r e   p e l e
s e u      l í q u i d o
s e    r e     m o v e
s e u           v i s g o

é     o   q u e
…….p e r         m i t e
q u e      a
……..e p i d e r m e
s e     l i m        p e
e       t r a n s p i r e

 

 

Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Atualmente pertence ao corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens e integra (desde 2012), com o artista plástico, músico, ator e poeta, Alexandre Dacosta, o espetáculo mutante [versos alexandrinos]. Casa das Máquinas (Editora da Palavra, 2011) é seu livro de estreia e está disponível online (no issuu.com). Publicou poemas em revistas e jornais. Em 2014, participou das antologias “Essas águas” (Org. Vagner Muniz, 2014 [ebook]) e “Hiperconexões: realidade expandida, volume 2” (poemas sobre o pós-humano; Org. Luiz Bras, Patuá). Seu mais recente livro, “Corpo de Festim” (Confraria do Vento) será lançado em breve. Email: alex.guarni@gmail.com.

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79ª Leva - 05/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Andréia Carvalho

 

Desenho: Bárbara Damas

 

heliose

 

6:00 am. o dia a encontra. com um martelo de feiticeiras. o vapor do café é a fogueira que decide ativar. poderia poupá-la do fotoenvelhecimento interior, com seu rosto abstrato: nenhuma lua, nenhum quadrúpede. esfenoides imóveis, asas absortas. apenas o cálculo, criteriosamente revelado, em expressionismo facial de espécime taxonômica. Ela, zoomorfa como quadriga apocalíptica em autoestrada planejada, o sonda com o neurocrânio odonata, preparado para os aparatos curiosos do laboratório solar. com uma esferográfica mental, rabisca sobre sua testa simétrica: uso externo.

12:00 pm. Semáfora, a libélula fêmea deposita seus ovos em estacionamentos lotados. A luz refletida pela lataria dos automóveis imita espelhos d`água.

6:00 pm. festins, repugnâncias, minas de carvão. exauridas. e as mãos de querosene, com um incêndio astuto a escorrer sobre a gravitação das almas devastadas. pelas instalações mais infernais: onde os opositores ancestrais são envernizados em corpos de gigantes cogumelos polimorfos. inocentes e jovens, frente à barbárie dos querubins em santuários de fast-food. banalizados  pela melancolia industrial de madonas dopadas. lógicas e fálicas. Ela pressente suas mortes cifradas. quando desconecta o interruptor. carbonizam em alegoria de betume, políticos, no fermento escuro. stercus diaboli.

12:00 am. se as lâmpadas fossem navalhas, cerraria as pestanas de lobo-guará sobre o córtex dos corredores mortiços desta massa cinzenta que impede o símbolo da faísca selvagem pelas escadarias. mas os olhos de tungstênio não se fecham.

 

 

***

 

 

A curandeira do império solar

 

Em meu tratado particular de esquizoanálise, a alma chocalho canta teus mortos e artefatos.

E, xamã de ti, canibal de ti, índio de ti, espalhando barbáries mínimas em teu dorso iluminado, entorpecida de síndrome luciferina, aguardo a noite e a visto como um hábito de monge. Por pura exaustão pirofágica. O lodo no escalpo dos pés, queimando nas estrelas, com a baba de teus anjos: os viscosos generais, empalados em cerveja e tintura vermelha.

Até que tu, mal amado, desperte-me de um sono de eras selvagens e puras, e tiquetateie minha sombra mais uma vez, esquartejando-me com as engrenagens desligadas de meus ancestrais.

Meu proceder escambo me pesa os nervos. A pele escalpelo cicatriza fácil demais.

Olíbano libidinoso, tu és. É preciso, sol do império, ferver teus exóticos  inimigos, em óleo quente.

 

 

***

 

 

poesia para bruxas órfãs

 

Meu livro das sombras, todos os livros. Meu oceano monocromático. Os livros enchem o refrigerador. O guardião das linhas efervesce sua sombra líquida pelas almofadas. Em minha crueza, mastigo os fantoches que dormem nas forminhas para gelo. São de vários formatos, gatos, rinocerontes, cabides vazios, hexágonos. Seus olhos lendo minha laringe lacrada. Seu sal escuro pelo apartamento, seus braços infantis, agitando a parafernália marinha com moinhos de abracadabra. A sombra efervesce. Como uma vitamina em mutação. Invoco raios, primeiro os pequenos, a esquizofrenia de tesla, o curador de pássaros obcecados. Depois os maiores, de alturas extintas, os que caem cheios de deuses empalhados pelo pó dos homens. Em minha jaula inventada, fabrico uma densa população prensada contra as cortinas, a coleção de vagalumes. Ainda sorrindo para mim. Tão elétrica quanto o vapor de uma pavorosa respiração. Não há médico-monstro que supere os impropérios luminosos que lanço para ti, carbonífera existência.

O tinteiro está lotado com o sangue azul-petróleo de meus pais.

 

 

***

 

 

Um corpo herege no cemitério de néon

 

A terra roxa, a bisavó benzedeira. Sodalita, nunca quis teu azul. O slogan portfólio. A aura escarlate, o passo amarelo, cuidado atenção.
Enquanto escrevo abraxas, nos terreiros degolam o bode e o galo. E a fogueira, acesa só para mim, seiscentos e sessenta e seis micro-ondas.

Vivo a escrita dos grimórios. Meu tempo caça às bruxas ainda fresco nas praças de alimentação. Babalon sadia nos rótulos de uma barra de cereais. O tridente de fiat lux espeta a carne frigorífica de uma maçã domesticada.

Tenho um punhal medieval, colorizado e intacto, para algum ritual cibernético. Cultivando à sombra, livros e mais livros, transgênicos. E gado marcado, com alguma dócil indolência, apresento formal (por fora) o desgastado erregê. Limpo a seco.

Sodalita, nunca quis teu azul.

Mantenha-me longe do alcance dos iluministas de celofane.

 

(Andréia Carvalho (Curitiba/PR) é autora dos livros A Cortesã do Infinito Transparente (Lumme Editor, 2011) e Camafeu Escarlate (Lumme Editor, 2012). Participa do corpo editorial de Mallarmargens – revista de poesia e arte contemporânea)