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111ª Leva - 05/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

E chegamos a 10 anos de publicações. Com 111 edições lançadas, a Diversos Afins está, no formato e conteúdo, já um tanto distante do seu embrião. Em 2006, quando vinha a público a primeira leva, a revista ainda apresentava uma estrutura incipiente, bastante artesanal. Por certo, não se imaginava tamanha longevidade, apenas existia uma investida puramente romântica bem digna de ímpetos iniciais. De lá para cá, não somente o tempo transcorreu assinalando percursos numéricos, mas serviu de impulso para inúmeras possibilidades de aprendizado e experimentação. O propósito nunca foi o de se portar como um veículo autorreferente, do tipo que vangloria os feitos de seus idealizadores. De fato, nascemos em plena era de efervescência dos blogs, verdadeiros cadernos eletrônicos de onde saíram importantes nomes do cenário literário e artístico em geral. Foi também possível testemunharmos o surgimento de portais e tantas outras revistas ligadas aos temas culturais. Alguns se mantiveram, outros, por razões das mais distintas, ficaram pelo caminho. Hoje, não temos dúvida de que a persistência foi nossa melhor aliada, pois sempre acreditamos que seguir adiante sempre fez sentido. E não foi em vão que escolhemos o lema “desengavetar expressões” para capitanear nossa trajetória até aqui. Sabíamos o que representava ser um veículo de comunicação num momento em que as perspectivas editoriais em relação à literatura, por exemplo, apresentavam um cenário de radicais mudanças. A Internet foi uma mola impulsionadora de todo um processo no qual criadores expuseram seus trabalhos de forma independente. E ter contato com muitas dessas expressões foi fundamental para a consolidação dos caminhos da nossa revista. Fez-se necessário estabelecer critérios próprios de seleção, pautados em aspectos de qualidade que não representavam juízos de valor. O mais importante de se completar 10 anos de jornada pelas vias culturais é certamente a ideia de se agregar pessoas. Perdemos a conta de quantos colaboradores deixaram suas marcas impressas em nossas páginas ao longo de todo esse tempo. Também não saberíamos mensurar o quão valiosa é a atenção dos leitores em relação ao nosso trabalho. Cada autor e artista que por aqui passam, com suas distintas vozes, reforçam o nosso desejo original pela diversidade. E assim vamos seguindo. A leva 111 pretende ser a primeira de uma série de cinco edições especiais que celebrarão nossa primeira década de vida. Para inaugurar o momento, destacamos os versos de poetas como Bruna Mitrano, Wesley Peres, L. Rafael Nolli, Micheliny Verunschk e Geraldo Lavigne. No território da prosa, contos de Márcia Denser, Anderson Fonseca e Maria Camargo Freire (heterônimo de Caio Russo). É Larissa Mendes quem rende escutas ao novo disco do rapper brasileiro Criolo. Sérgio Tavares realiza uma especial entrevista com o escritor Ronaldo Cagiano. As atenções cinéfilas de Guilherme Preger desta vez estão voltadas para “Big Jato”, filme do diretor pernambucano Claudio Assis. A volta do caderno de teatro é marcada pela sensível exposição da dramaturga Yara Camillo sobre a peça “Donantônia”, encenada pelo Núcleo Ás de Paus, do Paraná. São muito contundentes as linhas de Sérgio Tavares quando nos convidam à leitura do livro de estreia de Marcela Dantés. Conferindo um brilho especial a todas as expressões contidas na nossa leva atual, os desenhos de Luma Flôres visitam mundos que correm paralelos na experiência humana. Com imensas felicidade e gratidão, dedicamos a nossos leitores a continuidade dos nossos passos. Boas leituras a todos!

 

Os Leveiros

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Panis Et Circencis

Por Sérgio Tavares

sobrepessoasnormais

Corre, pelos contos de “Sobre pessoas normais”, de Marcela Dantés, um tipo de eletricidade nociva. Altos de tensão cujas descargas irão deflagrar inevitáveis tragédias. A esse circuito, a autora mineira condena seus personagens, confrontando-os a situações-limite, a momentos de fraturas em que o abismo provém de uma singela decisão ou da crueza com que se constitui a normalidade da vida.

Marcela parece observar o ordinário por um buraco na parede e, à medida que seu campo de visão se amplia, a cena inicial se desdobra de maneira imprevista, conduzindo a narrativa para um desfecho arrebatador. Uma mulher trancada no banheiro irradia, pelo contato frio dos azulejos, a dor do que foi abortado de si; outra escreve para o ex-amante que o cão deles morreu de saudade; mais um cachorro morre, agora ao ser atropelado pelo carro que leva uma noiva à igreja, e desencadeia a dúvida se é caso de sorte ou de azar.

No excelente “Maré alta temporada”, um homem observa, com desprezo, os dias de uma família em férias na praia, quando é surpreendido por um acontecimento de funda tristeza. O mesmo peso dramático rege “Alencar”, sobre uma mulher que quebra o segredo e vai ao enterro do amante, levando o filho que “não podia exibir o pai que a vida lhe dera”, sem que isso o desabonasse do afeto. “Cada mãe com seu filho na mão, um duelo de lágrimas, quem sentia a maior dor? Alencar, por certo, que nunca desejou isso para ninguém. Se soubesse, não teria morrido. Mas morreu hoje”.

Marcela escreve com contundência, sem se furtar da delicadeza. A violência percorre suas histórias, porém nunca é usada de modo a provocar o choque ou em detalhes explícitos. Está na natureza da circunstância, no acúmulo de sensações que leva o personagem a reagir e, a reboque, faz com que o leitor sinta-se ligado a essa humanidade precária, talvez por também assim o ser. É o caso do conto que dá nome ao livro, no qual um paciente, revidando seu estado terminal, regozija-se ao transitar pelo hospital e presenciar os leitos desocupados pelos que morreram. “Fazia pouco tempo que conseguia controlar o esfíncter, mas preferia continuar mijando nas pessoas, como nos primeiros dias”.

O assalto da maldade também se compraz no exercício da sutileza, e Marcela demonstra talento para articular essa relação em seu processo de escrita e na consistência da forma, adotando um ritmo lento de quem se dispõe a passar o tempo necessário com o conto até entendê-lo lapidado. Desse modo, fica o espanto ao se dar conta de que se trata de uma estreia e, mais ainda, diante da decisão de uma autora que visivelmente esperou estar pronta, madura para finalmente publicar. Isso é raro. Muito, nos dias de hoje.

Tomando emprestado o título de um dos contos, cada um carrega a cruz que pode, pouca gente paga em moeda. “Sobre pessoas normais” não deixa dúvida de seu alto valor.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.