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128ª Leva - 06/2018 Destaques

Janela Poética II

Marcelo Ariel

 

Foto: Adelmo Santos

 

COSMOGRAMA 8

 

Eles eram como nuvens
de sangue
dentro do sonho
Havia uma tela no início
e ele estava perto de desertar
do sonho para o infinito efêmero
das imagens fixas
que escondiam algo
ele havia sonhado
que era uma bala perdida
e acertaria seu próprio coração
dez anos depois
como num conto
argentino
ou tcheco
havia um padrão
dentro do sonho
criado pela impossibilidade
de ver a si mesmo
ele era
como um pássaro
transparente
voando
na direção
de um céu
de carne
com ossos
no lugar
de estrelas
a bala havia
perfurado
seu tórax
ele ouviu
o enfermeiro
cantar
essa ária
para o médico
de plantão
na medida
em que a morte
se aproximava
ele ia se esquecendo
do seu próprio nome
e desertando de dentro
do sonho
o fundo branco
das paredes
mudava
para prateado
de acordo
com a intensidade
do som
de um oceano
cada vez mais perto
perfurando seu pulmão
ele ouviu sua voz
misturada
com a voz de
seu avô
dizer a fumaça
oceânica
haviam
duas águas-vivas
grudadas nos seus braços
e uma arraia
no teto
flutuando
por cima
de seu corpo
dela
saiam
orquídeas
vermelhas
que ficavam
paradas no ar
estas flores
são o tempo
ele se ouviu dizer
e depois
acordou novamente
dentro da água.

 

 

***

 

 

PARA MARIELLE FRANCO E ANDERSON PEDRO GOMES

 

O sangue
não pode voltar no tempo

como o orvalho
seca e avança
até o Sol

O grito
não pode parar a rajada
de uma metralhadora

como a água
dentro da onda
avança
e retorna sempre

 

 

 

***

 

 

 

ANTÍFONA *

ANTÍFONA

 

 

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

E aí, branquitudes, purezas, certezas

De luares, de neves, de neblinas!…

De clareiras, nuvens, névoas

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…

E aí, branquíssimas peles lapidadas

Incensos dos turíbulos das aras…

nuvens brancas atravessando avenidas cercadas

 

Formas do Amor, constelarmente puras,

Modos de se matar, celestiais estáticos

De Virgens e de Santas vaporosas…

Em estados líquidos, enevoados

Brilhos errantes, mádidas frescuras

Fosforescências efêmeras

E dolências de lírios e de rosas…

e melancólicas orquídeas vaporosas

Indefiníveis músicas supremas,

Inefáveis  mixtapes esquecidas

Harmonias da Cor e do Perfume…

perfeitas mas sem cheiros e sem lume

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,

vindo em ondas de  sangue  que o Sol queima

 

Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…

Velórios da luz no vidro que o projétil quebra

Visões, salmos e cânticos serenos,

Delírios, funks,  risos, celas

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…

Ecos de toques de celulares nas biqueiras

Dormências de volúpicos venenos

Sonabulismos do beck com doce batendo na viela

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes..

vagos e violentos, santos rostos faíscantes

Infinitos espíritos dispersos,

Duplos vetorizados, capturados  logo adiante

Inefáveis, edênicos, aéreos,

encurralados ao revés por  ancestrais , mortos, indigentes

Fecundai o Mistério destes versos

florescendo em galáxias distantes

Com a chama ideal de todos os mistérios.

na parte azul do sangue, nenhuma verdade

Do Sonho as mais azuis diafaneidades

alucinações em vermelho, nos olhos que se fecham

Que fuljam, que na Estrofe se levantem

que se dissolvam no refrão gritando não

E as emoções, sodas as castidades

com o sentimento sonoro, vertendo em espuma a interdição

Da alma do Verso, pelos versos cantem.

nas ruas as almas dos internos, crianças-onças-pardas

Que o pólen de ouro dos mais finos astros

germinando o sonho do mais fino grão do ser

Fecunde e inflame a rime clara e ardente…

sejam  flores, os que desabrochando debaixo do  chão e

Que brilhe a correção dos alabastros

como baleias  nadando no mar de esgoto , em sua amplidão

Sonoramente, luminosamente.

entoando para a luz , a ultima canção evocando

Forças originais, essência, graça

forças de dentro que jamais avançam em vão

De carnes de mulher, delicadezas…

através da pele mestiça e negra , docemente

Todo esse eflúvio que por ondas passe

dos rios soterrados,  subindo em ondas quentes

Do Éter nas róseas e áureas correntezas…

sobem, crescem, todos sentem

Cristais diluídos de clarões alacres,

tudo se refletindo em tudo, sem alarde

Desejos, vibrações, ânsias, alentos,

Eros regendo o ritmo das carnes

Fulvas vitórias, triunfamentos acres,

E aí, Branquitudes, a hora é agora!

 

Os mais estranhos estremecimentos…

a mais feroz doçura

Flores negras do tédio e flores vagas

desce até a piscina a matéria escura

De amores vãos, tantálicos, doentios…

de tristezas cósmicas, sem vagueza

Fundas vermelhidões de velhas chagas

fendas, falésias, fios, chamas, feras são

Em sangue, abertas, escorrendo em rios…..

sangram , fluem, pela água , antes represada

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,

cristalina fome de ser que vem do fundo, como a morte

Nos turbilhões quiméricos do Sonho,

vórtices, espirais de outra realidade

Passe, cantando, ante o perfil medonho

engolem vossos corpos, como  o  sono

E o tropel cabalístico da Morte…

chega para reger a manhã da insurreição

 

 

 

***

 

 

 

SIDERAÇÕES

GRAVITAÇÕES

 

 

Para as Estrelas de cristais gelados

Para os oceanos que vagam na matéria escura

As ânsias e os desejos vão subindo,

os sentimentos  vastos são atraídos

Galgando azuis e siderais noivados

como no casamento do Sol e da Lua

De nuvens brancas a amplidão vestindo…

a anterioridade de contrários se fundindo

Num cortejo de cânticos alados

num ritmo , pulsação e vibração contínuos

Os arcanjos, as cítaras ferindo,

crianças na ocupação cantam esse hino

Passam, das vestes nos troféus prateados,

dançando com seus corpos negros azuis e cabelos prateados

 

As asas de ouro finamente abrindo…

de uma revoada de pássaros no peito tatuado

Dos etéreos turíbulos de neve

fortes em porosidade etérea

Claro incenso aromal, límpido e leve,

doçuras moventes , risos firmes permanentes

Ondas nevoentas de Visões levanta…

atravessam o sereno

E as ânsias e os desejos infinitos

agem derrubando muros, tropas, policias, fascistas

Vão com os arcanjos formulando ritos

da insurreição dos proscritos

Da Eternidade que nos Astros canta…

ecoando a força infinita de um grito

 

 

* Poemas do livro inédito ESCUDOS BROQUEIS onde dialogo linha a linha com o livro de Cruz e Souza, criando através desse diálogo um novo poema formado pela união de dois poemas. É minha homenagem ao legado do poeta negro Cruz e Souza, que considero meu Mestre maior.

 

Marcelo Ariel é poeta e performer, autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados” (LetraSelvagem, esgotado), “Retornaremos das Cinzas para sonhar com o silêncio” (Editora Patuá, esgotado), “Jaha Ñande Ñañombovy’a”(Editora Penalux), entre outros. Em breve será lançado “Ou o Silêncio contínuo” – Poesia reunida 2007-2017 que está no prelo pela Kotter/Patuá.

 

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122ª Leva - 07/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marcelo Ariel

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Em A CRIAÇÃO DO MUNDO SEGUNDO O ESQUECIMENTO

 

O significante aqui é a sombra da árvore com sua música silenciosa quase tocando seus olhos, árvore ininteligível e silêncio amado com força suficiente para desintegrar a mistificação da linguagem poética, mas isto apenas no final, quando a sombra de um outro silêncio incancelável atravessar o espaço

 

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E se tudo for uma metáfora dos nossos sonhos? E se a realidade for um emaranhado de poemas e problemas tão misturados entre si que é quase impossível distinguir uns dos outros? E se o amor for no fundo a única maneira de distinguir uns dos outros?

Talvez as metáforas sejam ‘a droga do século’ mas na falta delas o amor pode se converter em mais uma droga anestésica, uma geração inteira viciada em ‘anestesia da vida interior’ não é melhor do que outra viciada em ‘fuga interior’, olhar para fora pode ser um ato revolucionário se nossa vida interior acompanhar o nosso olhar, vou reler o seu livro como se ele fosse um filme em estado puro ou seja, como se ele fosse ‘ algo vivo’ como os nossos sonhos, esse lugar onde o amor nasce ou se confirma como mais uma metáfora, a mais poderosa delas.

 

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Como acender uma paisagem para libertar os gritos?

 

Inesperadamente os sentidos mais profundos de um termo nos escapam se estamos no início de uma paixão por uma ideia vaga e errática como essa ideia do ao vivo (inexistente segundo a microfísica pois tudo é gravado) ou a ideia do encantamento como fundador do amor (impossível segundo a lógica mais abstrata e por isso mesmo uma longa sinfonia que toca muito baixa por dentro) como um pássaro que se apaga.

 

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Todas as tentativas de controlar, limitar ou destruir o caos formam a essência do nazismo psíquico, o caos é indestrutível e se multiplica através das galáxias, das palavras e dos silêncios.

O nazismo psíquico tem cheiro de menta.

Nós em nome do poema contínuo nos colocamos contra o nazismo psíquico neo-positivista dos livros de autoajuda e contra o nazismo psíquico pseudo-niilista e semi-hedonista da cultura das drogas.

o nazismo psíquico se alimenta da diluição da angústia em um pragmatismo ou utilitarismo disfarçado de ética-estética do vazio que por sua vez se alimenta da lógica do possível imediato da ditadura das coisas.

ora o caos já provou através da história que a vida se move dentro do impossível

e dissolve as coisas no ácido do tempo-morte. No ácido do tempo-êxtase

o caos é ambíguo como um elétron, ora é uma partícula de caos visível, ora é uma onda invisível de hipercaos.

o caos não é um teatro.

o nazismo psíquico é um cenário interior construído pela ditadura das coisas-conceito.

o hipercaos não é um poema.

nenhuma palavra jamais tocou na realidade, isso explica porque os escritores sempre fracassam quando tentam vencer o nazismo psíquico com palavras.

mas em verdade vos digo que a poesia fora das palavras é infinitamente mais poderosa do que a ditadura das coisas e ela virá como uma onda viva de dentro do hipercaos tudo o que chamamos de realidade será consumido por essa devastadora onda de sonho.

 

 

 

***

 

 

 

Em O REI DAS VOZES ENTERRADAS

Manifesto Sabiá

 

 

18 de setembro de 2013 às 15:20

Conversando com um amigo sabiá, rimos muito das reclamações que fizeram de seus cantos. Ele disse que os cantos que mais incomodam são os quânticos desatrofiantes, que interiorizados oniricamente na cidade geram como primeira reação uma imediata indignação com os véus cegantes da pseudo exterioridade, e tem como consequência um acordar-revolta contra o próprio canto-reza (ele nomeou esse processo como ornitoclash anticósmico). Disse ainda que repelimos os cantos dos sabiás e dos sábios com a mesma ignorância que destruímos as abelhas humanas, atordoados e anulados pela pluriesquizofonia congelante e assassina do irreal. Tive de concordar, e rimos ainda mais. Quando lhe perguntei sobre os limites da desrazão, ele voou.

Depois me deitei no sofá e sonhei  que ele não havia voado e havia começado uma convenção telepática de Pássaros do mundo inteiro e  o Sabiá pousou em cima da lâmpada da sala e começou um canto-diálogo com o ‘Ele’ que é o eu dos sonhos:

Sabiá: – Nós somos o mesmo pássaro, mas de todas as formas de asa o seu olho é a mais bonita, a asa fechada no círculo, com todos estes fios finos

Ele: – Supercordas para receber as imagens do cosmos disfarçadas

Sabiá:- O canto do olho cria todos os sóis, você é um Sabiá diferente dos outros

Ele:- Eu sou um Sabiá, porque é o que todos nós dizemos quando encontramos vocês, definição é o assassinato pela nomeação

Sabiá:- Sim, vocês cantam isso com o olho-boca, mas a porta, o que vocês chamam de bico em mim, é em outro lugar na cabeça e é também um ovo que vocês quebram por dentro

Ele:- O cérebro, o nome do nosso bico é cérebro

Sabiá:- Então a flutuação dos raios é para dentro dos fios, aqui o ar é delicado e podemos conversar, mas meus eus estão chamando e tenho de voar para fora do seu dentro.

Eu acordo e não consigo mais pensar em outra coisa a não ser na origem da palavra ‘ Sábio’ e na ligação entre o canto dos Sabiás e o canto quântico dos Pré-Socráticos.

 

Escrito com Kleber Nigro

 

 

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Voltando para a floresta-sem-floresta que a película de Berkeley sempre confundida erroneamente com o véu de Maya continua escondendo. Nesse lençol de luz e gravidade que chamamos de VISÕES a ‘Une rose seule,c’est toutes les roses’ continua cantando :

” Ó imenso mar das formas coberto por este manto de olhares imensamente fechados…Logo mais TUDO estará flutuando como o sonho

Para acabar de uma vez por todas com o amor, basta chamá-lo de amor e esperar que a palavra dissolva A COISA… Que morre dentro do pote de vidro fechado de um nome ou passa como essas nuvens clonadas na superfície desse mar emprestado por um filme onde elas se deitam como putas ou dentes-de-leão filtrando um ex-poema dentro do pó. O amor é o esqueleto de um inseto.

 

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A Love Supreme

 

Cruz e Souza: Existe uma rutilância sublime nas auroras em contraste com o tempo que nos assombrava que tornava pálida a luz destas chamas que fomos e que hoje é musical se a este sonho for comparada.

John Coltrane: Talvez venha do Senhor todo esse resplendor, a luz invisível que era a música que hoje não podemos mais separar de nada, até da nossa carne, este pó de luz  que volta a ser luz e de novo pó da luz

Cruz e Souza: Sim, entendo teu discernimento da música e dentro da arquitetura da etérea leveza das experiências, eras músico…

John Coltrane: Não, tentei não ser isto, eu tocava para o altíssimo e tudo o que eu fazia era orar e receber os sinais, Ele só desce pela escada das harmonias celestiais e a música e a oração são a mesma coisa, como degraus dessa escada

Cruz e Souza: Já que falaste em escada, vamos subir…

 

Marcelo Ariel é poeta, performer e dramaturgo. Nasceu em Santos, em 1968, e reside em Cubatão-SP. Autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados”, “Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio”, “Com o daimon no contrafluxo”, “Potestade e pássaro”, entre outros. Os textos aqui publicados integram o livroA névoa dentro da nuvem – Prosa reunida”,recentemente publicado pela Lumme Editor.

 

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89ª Leva - 03/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Leonardo Mathias

 

De quantas faces é feito um coletivo de expressões? Eis um questionamento sempre complexo de se responder. Tendo em vista o universo particular e significativo que brota de cada indivíduo, poderíamos dizer que uma edição de uma revista como a Diversos Afins é, na verdade, um inventário de vestígios. Nesse processo todo, talvez o que seja mais difícil de projetar é o corpo definitivo das criações, ou seja, a maneira pela qual as vozes se orquestrarão rumo a um sentido final e amalgamado. Como a arte é uma eterna equação sem soluções exatas, cabe-nos sempre a tentativa de harmonizar as diversidades de pensamento que permeiam o mosaico de autores publicados. Assim, pesquisamos, pensamos, idealizamos e, sobretudo, acolhemos aquilo que vislumbramos ser o componente imprescindível de um organismo vivo que é a cultura. O estímulo necessário para a continuidade vem do entendimento tanto de autores quanto dos leitores. Aqui, entendimento significa compreensão dos caminhos e propósitos que norteiam nosso trabalho, isto é, um conjunto de características que consolidam cada vez mais uma identidade para a revista. E mais gente vem se juntar a esse solo comum de andanças. É o caso de Leonardo Mathias que, com o vigor significante de suas entrelinhas poéticas, compartilha conosco uma exposição de seus desenhos e ilustrações. No compasso do mistério que permeia a vida, nossas janelas de versos abrem seus compartimentos para que ecoem as palavras de Leandro Rafael Perez, Marcelo Ariel, Vanessa Carvalho, Luiz Brener, Adriana Aleixo e Luís Filipe Marinheiro. Numa conversa sobre poesia, a escritora Clarissa Macedo entrevista a poeta peruana May Rivas de la Vega.  Num resgate sonoro, Rogério Coutinho escreve sobre um dos discos solo do ex-mutante Arnaldo Baptista. Nos Dedos de Prosa, toda a particularidade narrativa dos contos de Maurício de Almeida, Tere Tavares e Abilio Pacheco. O escritor Luis Benítez esboça um breve panorama da poesia argentina contemporânea. No território da sétima arte, Larissa Mendes anota suas impressões sobre a mais recente produção dos irmãos Coen. Conduzida por novos ímpetos, a 89ª Leva movimenta outros tantos verbos, sentidos e imagens. Mais uma vez, seja bem-vindo, caro leitor!

 

Os Leveiros

 

 

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89ª Leva - 03/2014 90ª Leva - 04/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Marcelo Ariel

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcelo Ariel nasceu em Santos, em 1968, e vive em Cubatão. É poeta e pensador. Autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados’ (LetraSelvagem), ‘Conversas com Emily Dickinson e outros poemas’ (Multifoco), ‘Cosmogramas’ (Rubra Cartoneira), ‘A Segunda Morte de Herberto Helder’ (21 Gramas), entre outros. Lança em breve seu décimo livro de poesia, ‘Retornaremos das Cinzas para sonhar com o silêncio’, pela Editora Patuá. É colunista dos sites Cinezen e Musa Rara, e um dos editores da Revista Mallarmargens.

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Foto: Juh Moraes

CEMITÉRIO SÃO PAULO

Daniel Faria

Para o Marcelo Ariel

Sou uma coisa meio azulada. E não é porque não sou sua, nem de quem quer que seja (inclusive aquele que escreve), que não trago comigo uma emoção autêntica. Passo levemente minhas mãos translúcidas pelo seu rosto e você pensa que se trata do seu jeito único e pessoal de ver as mazelas ou os encantamentos do mundo. Mas tudo bem. Chamo isso de “minha generosidade”: apagar-me em benefício alheio.

Não me escondo nas sombras que vazaram dos seus olhos. Pense na sombra como um contorno que dá textura real ao Inferno leve e melancólico que te consome. É que pra conversar no inferno, fazer-se entender sobre o inferno, o cachorro e a criança se lambem, resmungam, olham-se fixamente nos olhos. Pra falar no inferno, o cascudo às vezes é a palavra necessária.

Estou aqui muito antes de você nascer, e sobreviverei às suas pálidas ilusões de “marcar presença” no mundo. Pense numa espiral azulada que se concentra num turbilhão. Pense na força, voracidade e violência de um turbilhão faminto, cheio de dentes afiados, que se desfaz aos poucos ou que desaparece inesperadamente. Um turbilhão com todos os nomes possíveis, o seu, que me lê, e também o daquele que neste momento me escreve. Trata-se, você bem vê, de uma leveza estranha: capaz de operar um deslocamento nas coisas com sua palidez azulada (a professora de história explicou um dia: as letras Ordem e Progresso são azuis, como azuis são as ruínas de um hospício abandonado). É uma leveza capaz de ferir, de conhecer seus ínfimos êxtases e de manter-se em perplexidades passageiras. Uma leveza atravessada pela multidão assombrosa de anônimos, apaixonados, caçadores e visionários. E você (te ensinaram este nome) chama o turbilhão de “meu íntimo eu”.

Agora, se você não está entendendo aonde quero chegar, pense na bandeira de uma nação qualquer, manchada com sangue de ketchup, formando uma espécie de tapete vermelho de boas vindas na entrada de um cemitério.

 

(Daniel Faria é historiador e poeta. Autor do livro O Mito Modernista, publicado pela EdUFU em 2006. Publicou Matéria-Prima, pelo projeto Dulcinéia Catadora em 2007. Acaba de ser incluído na Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel e editado pela Caiçaras. Seu Livro de Orações está no prelo, pela série Caixa Preta, da Lumme. Participa da Revista Mallamargens)