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94ª Leva - 08/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

BANDA DO MAR – BANDA DO MAR

 

Banda do Mar

 

2008: a música une o casal Fabrizio Moretti e Binki Shapiro ao hermano Rodrigo Amarante para formar o Little Joy, uma das “bandas de um álbum só” mais promissoras do universo musical da década.

2014: a música (re)úne o casal Marcelo Camelo e Mallu Magalhães ao baterista português Fred Ferreira para formar a Banda do Mar e lançar seu primeiro álbum, quiçá um dos mais fofos do ano.

Se, na ocasião, afirmei que o Little Joy “parecia perfeito para ser ouvido numa tarde ensolarada na estrada, rumo à praia ou à cachoeira mais próxima”, o mesmo reitero em relação à Banda do Mar.

Semelhanças e coincidências à parte, o grupo apresentou no final de agosto o primeiro registro do encontro, disponível na loja virtual do iTunes. O álbum físico será lançado em setembro pelo selo Zé Pereira (de Camelo) e distribuído pela Sony Music. O trio luso-brasileiro, que tem turnê agendada para os próximos meses nas principais capitais, acaba de lançar o videoclipe oficial da canção Mais Ninguém, cantada por Mallu e “dançada” por Fezinho Patatyy e toda trupe do mar, filmado numa grafitada Lisboa, onde Mallu e Camelo viveram por mais de um ano (para manter as comparações, o vídeo lembra vagamente a sátira brasileira de One Way Trigger, do The Strokes, banda de Moretti, no clipe com os bonecos de festa infantil).

 

Camelo, Fred e Mallu/Foto: Divulgação
Camelo, Fred e Mallu / Foto: divulgação

 

Camelo abre os trabalhos com a faixa Cidade Nova, onde brada “eu não deixo o tempo parar” e enfatiza a proposta de sua nova aventura musical: “eu só trago o mar de algum lugar comigo”. Mais Ninguém (preciso me fazer só/pra me fazer maior), um dos singles pré-divulgados antes do lançamento do álbum, juntamente com o pop-rock Hey Nana – que lembra muito um Camelo nos áureos tempos de Los Hermanos –, têm bateria marcante e suingue suficiente para tornarem-se hits. Se em Muitos Chocolates Mallu avisa que além do doce, precisa de cafuné e massagem no pé, na marchinha Mia, ela conta a história de outra manhosa gata de hábitos peculiares. O folk quase autobiográfico Me Sinto Ótima (cansei de carregar milhões de medos/das pessoas que me cercam e me pesam de agonia/eu já tenho lá os meus anseios, os meus receios/que eu perco com a luz do dia) e a destemida Seja Como For (não tenho medo de rato nem barata/meu bem, você pra mim é privilégio/sorte grande de uma vez na vida) nem lembram a menina tímida que cantava em inglês em 2008, por julgar mais sonoro.

É inegável que as melhores canções do álbum ficam a cargo das sempre inspiradas composições de Camelo, sobretudo nos versos das mansas Pode Ser (pode ser o seu tamanho/ou o jeito que você erra/no momento em que eu te ganho/ou no barco que te leva) e Dia Clarear (se você jurar eu posso até te acostumar/numa vida mais à toa/é só você querer que tudo pode acontecer/no amor de outra pessoa/base de um descanso milenar). Na libertária Faz Tempo, o compositor procura um lugar ‘na cidade ou no litoral’ e termina com um versinho em ritmo de Jovem Guarda. Solar, outro ponto alto do álbum, é uma daquelas canções-hino que se tem vontade de cantarolar na autoestrada, rumo à mesma praia do Little Joy. E a Banda do Mar(celo) despede-se literalmente com Vamo Embora, “que eu tenho meu encontro feito com um mar de pérola” e “o tempo que eu tenho é pra voar”.

Se os músicos não inovam esteticamente nas 12 faixas e soam como continuidade de Sou (2008) e Toque Dela (2011), de Camelo, e Pitanga (2011), de Mallu, ao menos eles trazem o seu melhor – e isso não é pouco. Fred Ferreira completa o trio cedendo toda a experiência percussiva e eletrônica dos coletivos Buraka Som Sistema e Ovelha Negra, num frutífero intercâmbio Brasil-Portugal. A capa do álbum é assinada pela fotógrafa Bruna Valença e traz um negativo vencido da modelo Camilla Baldin. Decididamente, a Banda do Mar não tem prazo de validade. É som que não morre na praia.

 

 

 

Larissa Mendes não sabe nadar, mas se amarra em surf music e Iemanjá.

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Gramofone

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Por Larissa Mendes


WADO – VAZIO TROPICAL

 

 


Não seria exagero afirmar que o cantor e compositor Wado tem o mesmo atrevimento daquele [quase] homônimo falecido que o separava por uma letra ene. O catarinense radicado em Alagoas entrega-se à variedade rítmica e poética com a mesma paixão de um colecionador excêntrico. A voz metálica que já derivou álbuns de sonoridades diversas e títulos criativos, como O Manifesto da Arte Periférica (2001), Cinema Auditivo (2002), A Farsa do Samba Nublado (2004), Terceiro Mundo Festivo (2008), Atlântico Negro (2009) e do elogiado Samba 808 (2011), assume agora um tom delicado, melódico e, por que não, mais acessível. Lançado em junho, Vazio Tropical é fruto do Festival MPTM (Música Para Todo Mundo), promovido em 2012 pela Oi, que premiou quatro artistas com a gravação de um disco físico pelo selo Oi Música (os outros contemplados foram Bárbara Eugênia, com É O Que Temos; Nevilton, com Sacode e Pedro Morais, com Vertigem). Produzido por Marcelo Camelo – que tocou vários instrumentos no álbum e já havia colaborado na faixa Com a Ponta dos Dedos, em Samba 808 – e abarrotado de convidados, o sétimo trabalho de Wado evoca um sentimento bem próximo ao do título sugerido e da ‘doce solidão’ já proposta pelo eterno hermano.

A primeira faixa, a bela Cidade Grande, abre o álbum tecendo uma crítica social à nossa própria trivialidade (e segue os mendigos nas multidões/já são tão normais que nem mais emocionam). A canção seguinte, Rosa, parceria com o músico Cícero, ensina que, como quase tudo na vida, ‘vai doer, mas depois vai passar’. O lirismo fica a cargo de Canto dos Insetos (co-autoria de Cícero e Momo) e Flores do Bem, única canção não-autoral, assinada inteiramente por Momo. Em Carne, Wado faz dueto com o uruguaio Gonzalo Deniz, do projeto Franny Glass e discorre sobre a iguaria em todas as suas acepções (me chamam carne dentro do açougue/me chamam carne, temos açoite).

 

Cícero, Wado, Marcelo Camelo e Momo / Foto: Divulgação

 

A ciranda Quarto Sem Porta, faixa mais ensolarada e suingada do álbum, tem a discreta participação [e a risada] de Mallu Magalhães (pra um casal um quarto sem porta é mais que um tormento/como qualquer visita depois de um certo tempo). Zelo e Tão Feliz são, indiscutivelmente, as melhores canções do disco. Na primeira, o músico divide os vocais com Cícero, amparados por solos de instrumentos de sopro que lembram muito a sonoridade de Los Hermanos; na segunda, é a vez de Marcelo Camelo e Wado revezarem os microfones na faixa que possui certa aura de Radiohead (eu me sinto tão feliz/a ponto de explodir/e divertir um campo inteiro de futebol). Se Primavera Árabe (é que quando você cala/é que mais você me fala) e Cais Abandonado (eu mantenho a língua afiada/mastigando o vidro da ilusão despedaçada) apontam para o melhor da poesia musicada, a instrumental Vazio Tropical, que intitula o trabalho, em menos de um minuto de duração, parece sintetizar a agradável melancolia do álbum, tal qual um passeio por uma praia deserta num entardecer frio e nublado.

Mesmo sendo um disco de inéditas “canções-sobras” de trabalhos anteriores do músico, em nenhum momento isso compromete a atemporalidade e homogeneidade das 11 faixas. Ao contrário, despido de recursos eletrônicos e orgânicos, os versos de Wado soam introspectivos e confessionais, representando uma nova MPB [sub]tropical, porém temperada de sensações.

* Vazio Tropical pode ser ouvido na íntegra aqui

 

 

 

 

 

(Larissa Mendes, atualmente, vive um vazio quase[bi]polar em Santa Catarina)