Assim começava minha autobiografia: Eu gosto das aves de rapina. Eu herdei da minha mãe esse gosto um tanto funesto. Mas, só há pouco tempo descobri que corujas são aves de rapina. Às vezes, na infância, durante a catástrofe, e naquele tempo quase tudo era catástrofe, frequentemente me pegava observando o voo das corujas. Não me lembro das coisas que passavam naquele corpo de criança, sem músculos e com tetas invisíveis, porque não sabia nomear e sentimento sem nome perde o rumo, os adultos se referiam àquelas horas como a época das tragédias. Não sabia o que aquilo significava até o meu corpo espichar e eu soar tão trágica quanto todos os adultos da minha infância. De repente me dei conta que os relógios não contavam horas, contavam desastres.
Mãe quando voltou de uma de suas internações recorrentes sentou ao meu lado e disse: eu também gosto do voo silencioso das corujas. Nesse dia tive minha primeira epifania (o nome descobri muito depois), percebi que não eram as corujas que me fascinavam, mas o silêncio das suas asas. Mais tarde percebi que não eram os homens que me despertavam paixões, era a escassez de suas bocas e uma certa convicção que saia delas. Mais tarde ainda percebi que o amor também chegava silencioso antes de abocanhar suas presas… Embora, de fato, talvez nunca tenha encontrado o amor. Contudo, um dia quase trombei com ele…
– Quando te vi chegar fui assaltada por um espanto.
– Eu gosto da palavra espanto, pode ser tanta coisa e não sendo nada ainda nos faz boquiabertos.
– Sim, essa palavra parece nome de animal selvagem.
– Quer uma carona? Talvez possamos fazer desaparecer o espanto, conversaríamos e nada mais nos espantaria.
– Vai em qual sentido?
– Para o norte e você?
– Para o sul.
– Sendo assim, já que iremos em direções opostas, podemos ir juntos.
– Não nos perderemos ou desviaremos do nosso caminho?
– Acredito que não.
– Tem certeza?
– Como poderia?
– Você fala com um tanto de firmeza.
– Na vida precisamos certa entonação, fingir alguma convicção, mesmo que nunca tenhamos esbarrado com ela.
– Não te parece muita arrogância seguirmos juntos se procuramos lados opostos?
– Nascer já não é uma arrogância?
– Quem sabe? Há um fantasma encarnado no ventre de cada mulher, por vezes, nos assombra.
– Se desenvolver dentro da segurança do ventre da mãe não te parece pura arrogância?
– Talvez um espanto…
– Os pássaros não te soam bem menos pretensiosos? Afinal, eles se desenvolvem na fragilidade do ovo…
– Também não há alguma arrogância no prenúncio do voo?
– Estamos numa bifurcação, acho que agora não é mais possível seguirmos juntos…
– Tem certeza? Não há nada a fazer?
– O que acha de dobrarmos o mapa?
– Dobremos o mapa.
Márcia Barbieri nasceu em Indaiatuba, São Paulo, em 1979. Formou-se em Letras pela Unesp e é mestra em Filosofia pela Unifesp. Foi uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro, do canal Pílulas Contemporâneas e do projeto Pinot Noir Literatura. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” (ed. independente, 2009), “As mãos mirradas de Deus” (Multifoco, 2011) e “O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas” (Appaloosa, 2018). Entre os romances figuram “Mosaico de rancores” (Terracota, 2013) lançado no Brasil e na Alemanha (Clandestino Publikationen, 2016), “A Puta” (Terracota, 2014/Reformatório, 2020), “O enterro do lobo branco” (Patuá, 2017), finalista como melhor romance de 2017 pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e “A casa das aranhas” (Reformatório, 2019), finalista do Prêmio Guarulhos e semifinalista do Prêmio Oceanos.
O livro Vaga queda de Caio Russo se apresenta como uma fusão de gêneros. O próprio subtítulo: peça para piano de afogados op.27 sugere um objeto musical, o que de certa forma é o gênero que mais se adequa ao texto, já que a sonoridade e o ritmo são os pontos mais altos do livro. Como poderíamos classificá-lo? Um romance? Um poema? Uma epopeia? Uma prosa poética? Não cheguei a uma conclusão precisa e definitiva, me parece um romance que suga a estrutura, o imagético e a linguagem do poema, porém sem desprezar a essencialidade do prosaico. Por trás da melodia, existe uma grande narrativa, encontramos pequenos tratados sobre morte, vida, loucura, tempo e identidade.
O texto flui tanto no ritmo quanto na estrutura como um corpo líquido. Caio inventa durante o percurso uma originalíssima partitura e uma nova coreografia. De repente, percebemos uma leveza trágica na duplicidade dos loucos e na dureza dos manicômios: “o hospício de mim era um xadrez sem peças, tabuleiro ou parceiro a arquitetura de um labirinto sem paredes”.
O livro também discute a questão de gênero: José Laura ou Laura José? Em um mundo em que homens e mulheres estão constantemente em cabo de guerra, nada mais pertinente que essa con-fusão de identidades. Aqui, o que mais importa são a estranheza e o estrangeirismo que habita todo corpo consciente do absurdo da natureza humana independente do seu sexo: “a escuridão tamanha que não divisava paredes, eu era o único muro intangível entre Eu, e o quarto, e Eu…”.
Outro questionamento importante é sobre a arquitetura da escrita, sobre as picuinhas literárias, sobre as nomenclaturas que camuflam a verdade do texto: “pensei que podia escrever um livro/autobiográfico/autoficção que é moda pelo que sei/eu e Francis e podia matar alguém e colocar/mais um personagem escritor e parecia vaga…”.
Vaga queda: peça para piano de afogados op. 27 é um texto imprescindível para os homens que apreciam uma sinfonia do holocausto.
Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestre em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas contemporâneas. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” e “As mãos mirradas de Deus”, os romances “Mosaico de rancores” (no Brasil pela Terracota e na Alemanha pela Clandestino Publikationen), e “A Puta”. O romance “O enterro do lobo branco” será lançado esse ano pela editora Patuá.
Não, não te escrevo do silêncio incômodo das madrugadas, embora tenha certo apreço pelos guinchados dos ratos domésticos, escrevo com o barulho imperceptível dos automóveis, o barulho das velhas máquinas de ponto, os ruídos dos estômagos de crianças famintas e com o sol se pondo em algum beco que não posso prever. Quando nos habituamos à loucura das cidades, os rumores deixam de ser ensurdecedores. Pensei muito sobre tudo que me disse, agora tento me organizar e respondo um pouco das suas indagações, contudo nunca tive o dom da clareza, não herdei o cérebro sistemático de certos predadores. Me pergunto, como poderíamos manter uma encenação amorosa dentro desses hotéis baratos com ambientação minimalista e objetos impessoais, com toalhas e lençóis mal higienizados e com espelhos embaçados duplicando o trágico-cômico de nossos corpos? Não sei se já te disse o quanto ando cansada de ter um corpo, preferia ser feita desses materiais sintéticos e impermeáveis, que se lava de quinze em quinze dias.
Como poderia te oferecer a ilusão de um amor se tenho consciência que tudo não passa de uma mentira burguesa bem contada? Nos ludibriaram feio, pode crer. Como posso dormir sossegada nos braços de um estranho se o amor não passa de um disfarce para negar nossa íntima semelhança com os primatas? Sim, sinto decepcioná-lo, embora saiba que você não é ingênuo, apenas se recusa a acreditar que animais são seres fatigados e não se procuram além da carne, não passamos de macacos com terno, gravata e emprego fixo.
Como te enganar se o desejo apodrece rente aos latões de lixo e a rua mal iluminada? Se a morte também estraga os cadáveres jovens? Se a vontade se desvanece perto dos cachorros sarnentos e abandonados pelos seus donos, que procuram bichos menos trabalhosos e mais ornamentais? Como ainda querer se há muito me perdi entre as compotas vermelhas, a pia abarrotada de louça e as faturas exorbitantes do cartão de crédito?
Não posso deixar esse espaço quase claustrofóbico, mesmo por poucas horas, apenas na invalidez desses cômodos eu suponho o significado da palavra imensurável, aqui eu já conheço o hábito das formigas, sei onde devo espalhar o inseticida, já experimentei a fúria dos marimbondos, conheço os pardais entediados que batem com frequência nas vidraças fechadas, sei onde as rachaduras deram lugar a infiltrações impossíveis de conter, sei onde as aranhas tecem suas teias e esperam compassivas para devorarem suas presas, sei em quais buracos as minhocas se escondem, sei o trajeto suicida dos pernilongos, sei da fome mediana dos peixes de aquário, sei como os cupins foram desaparecendo quando trocamos os móveis de madeira maciça pelos de MDF, sei que as abelhas sumiram há algum tempo e muitos afirmam que isso é uma das piores catástrofes ambientais e trará danos irreversíveis, mas nos calamos, agoniados pela cumplicidade do mesmo assassinato, a verdade é que a polinização das abelhas nos parecia afrontosa.
Como posso te vender um engodo? Se ao menos eu tivesse o corpo bonito, apetecível… se pudesse subtraí-lo ou doá-lo… No entanto, meu corpo é pesado, insosso, sem querer me recordo da anatomia intrigante dos elefantes, sinto a flacidez se instalando no meu ventre, as pernas perdendo os músculos, a gordura se acumulando e me proporcionando o aspecto de um ser dócil e inofensivo como as toupeiras. Invisível sim, não entendo como pode reparar na minha existência transparente, depois de certa idade as mulheres deixam de ser enxergadas, nos tornamos fantasmas gordos, cansados e sonolentos e quase sempre atrapalhamos a felicidade inconsequente dos adolescentes, porque fazemos questão de explicar antes de sermos interrogados sobre as necroses das paixões.
Entretanto, se apesar de tudo isso ainda me quiser, venha, eu te espero, mas venha rápido, pois está entrando dezembro e as baratas voadoras costumam romper os ferrolhos e se instalar nas frestas poeirentas da veneziana.
Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestre em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas contemporâneas. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” e “As mãos mirradas de Deus”, os romances “Mosaico de rancores” (no Brasil pela Terracota e na Alemanha pela Clandestino Publikationen), e “A Puta”. O romance “O enterro do lobo branco” será lançado esse ano pela editora Patuá.
Novos desdobramentos nos espreitam por aqui. Imagens, diálogos, lampejos, análises, ficções, versos, escutas, tudo o que sugere uma ponte entre um universo íntimo de observação dos criadores e uma dimensão externa das coisas. Até imaginamos o quanto uma obra pode incorporar de sentidos e signos do seu nascedouro até a recepção de um apreciador, mas a questão é que o corpo final terá uma conformação imprevisível. Talvez esteja aí o caráter transformador da arte, tanto para imagens quanto para palavras. Quem mergulha na degustação e leitura do universo artístico, recria mundos a partir do seu. Há limites para isso? Uma criação pode, de fato, sofrer uma profunda alteração em razão de seus múltiplos e possíveis níveis interpretativos? Esse fluxo de indagações também parece se aproximar de outros mais, sobretudo aqueles que se referem ao quesito direcionamento das obras. Assim, perguntaríamos, por exemplo, para quem um autor produz, se para si ou no afã de encontrar abrigo no seio de quem recepciona seus feitos. Parece-nos mais razoável permitir que tudo caminhe no seu curso mais natural possível, evidenciando que as experiências individuais assinalem seu próprio caminho. No nosso terreno atual de expressões, questionamos o poeta Geraldo Lavigne de Lemos a respeito desse assunto. As impressões dele estão contidas numa entrevista, bem como epifanias que povoam seus caminhos de escritor. Quem faz par com os textos publicados por aqui é a arte multifacetada de Alessandra Bufe Baruque. Nos caminhos da prosa, vemos desfilar as linhas de Marieli Becker, Dênisson Padilha Filho e Tere Tavares. Na seara teatral, Geraldo Lima oferta percursos ao livro Zé, do dramaturgo Fernando Marques, uma adaptação em versos da peça Woyzeck de Büchner. As janelas poéticas de agora se abrem para as vozes de Ana Farrah Baunilha, Luciane Lopes, Geraldo Lavigne, Márcia Barbieri e Marcelo Benini. O complexo filme Birdman recebe as percepções de Larissa Mendes. O coletivo de expressões poéticas e fotográficas abrigados no livro Profundanças é acolhido pelas sensíveis leituras de Neuzamaria Kerner. Na agulha do caderno Gramofone, giram as canções do disco solo do cantor e compositor Russo Passapusso. Bem-vindos aos mergulhos da 99ª Leva, caros leitores!
Há milênios a pedra descansava embaixo do seu nariz
sem desgaste, sem musgo, sem vinco,
uma memória esquecediça
Mas Estela estava ocupada demais
desacoplando seus membros
Desencaixava pacientemente peça por peça
Levantava e abaixava as pernas
Escutava atenta os ruídos da rótula
Escondia os olhos das luzes da tarde
Eu a observava da janela verde e seu corpo não passava
de uma carcaça adormecida pelo tempo
Ela repetia esse ritual todo domingo
O crânio era deixado em cima do ventre vazio
As bifurcações do cérebro eram confundidas
com os pensamentos
Ela continuava lindamente viva
Tentei alcançar sua mão, no entanto, eu era só um velho
Pelancas despencavam das minhas extremidades
E a carne de Estela não possuía nem riscos
nem linhas nem ranhuras
Sobre a cabeça de Estela repousavam nuvens,
Sobre a minha, pássaros moribundos de origami
Há milênios a pedra descansava embaixo do seu nariz,
Sem desgaste, sem musgo, sem vinco,
uma memória esquecediça
Estela sussurrava para seu crânio
Haverá um tempo em que a pedra será irmã do homem
E toda substância disputará um sol sobre a mesma pele
E eu gaguejo para Ninguém:
Não creio na onipotência da pedra
não creio em neutrinos
não creio em quarks
não creio no bóson de Higgs
não creio na nanomemória das coisas
E ainda assim a existência enferruja
igual a um parafuso espanado.
***
Não sou homem
sou uma matilha
dividindo-destroçando o mesmo fêmur
Não sou nem esse lobo
que crava os dentes no osso
nem esse osso perfurado
estou entre um e outro
sou essa membrana, essa baba branca, esse órgão acoplado,
essa partitura de mandíbulas desencaixadas
– caótica e ruidosa.
***
Escamas
Ressoa a pele verde e incrustada de mágoas – clave de sol –
um verme se espreme entre as circunvoluções do meu cérebro
Respiro aliviada porque meus pelos têm a cor dos cachorros magros
Respiro aliviada porque minha alma tem a candura das tardes longas de solstício
Respiro aliviada porque minha boca perdeu o fel de antigamente.
A língua salivante de lagarto passeia abstrata nas minhas gretas
Geme meu quadril curva desalinhada
Quero desentristecer
mas olho de soslaio as venezianas
e vejo-me encarando seu sorriso entre muralhas.
***
Manhãs em migalhas
Só por hoje
Rasgarei meu peito
E arrancarei flores de vidro,
pássaros de origami e velhas mágoas
Picaretas dançam entre minhas vértebras
E eu toco calma a flauta de MAIAKÓVSKI
Nunca acreditei que gangrenas devorariam meu corpo
Pedaços de sorrisos caem desconexos da minha boca
E eu que imaginei morrer um dia de cada vez – Morte Súbita.Sair
Caminho sobre os muros e observo pipas
Losangos e ilusões em perfeita sintonia
O sol explode amarelo em minha mente
E eu penso: deixa-me tocar os lírios – Só por hoje…
Márcia Barbierié paulista, mestranda em Filosofia (Unifesp) e formada em Letras (Unesp). Publicou os livros de contos Anéis de Saturno, As mãos mirradas de Deus, e os romances Mosaico de rancores (no Brasil pela editora Terracota, e na Alemanha pela editora Clandestino Publikationen) e A Puta. Participou de várias antologias e tem textos publicados nas principais revistas literárias.
Cantar porque o mistério existe. Assim pode ser também representada a sina de um criador. Quanto mais simples as suas vestes, alijadas do fogo da vaidade inútil, mais próxima e quiçá autêntica será a sua epifania. O sentido de verdade também pode ser tomado como uma expressão honesta daquilo que se sente, algo que, materializado sob a forma de um texto, imagem ou som, ganha autonomia para fundar mundos no mundo. O autor cria personas e as atira aos quatro ventos, sugerindo-nos que também façamos o mesmo a partir do que engendra a nossa imprevisível percepção das coisas. É gozosa a possibilidade de sermos outros, rompendo amarras sedimentadas pela rotina. É fora de série a ideia de que a arte nos propõe um exercício contínuo de libertação. Nesse movimento, consumir a obra de um determinado autor é, possivelmente, amalgamar-se a ele. Essa espécie de pangeia humana, outrora ligada por sentimentos entrelaçados, passa a alimentar uma multiplicidade de expressões que harmonizam tanto o individual quanto o coletivo. Assim, os caminhos da liberdade não significam imposição nem tampouco a pronta concordância com o todo sugerido, mas a mais pura perspectiva de nos edificarmos enquanto sujeitos conscientes e condutores de nossas míopes trajetórias. Tudo isso para dizer que o mistério existe e que por ele somos atraídos pelas razões das mais imponderáveis. Mesmo tendo inclinações prévias a algum tipo de abordagem ou vertente criativa, a sensação é outra quando somos tomados de surpresa por alguma obra. Do mesmo modo, viver à cata disso desavisadamente por ser um bom indicativo. Sinal de que nos desarmamos um pouco para permitir que um outro alguém seja escutado. Como parte dessa despojada atitude, deixamos o canto sensível de poetas como Luciana Marinho, Guilherme Gontijo, Marilia Kubota, Stefanni Marion e Nuno Rau ecoar suas singularidades. No trajeto entre o visível e o invisível, as fotografias do argentino Tomás Casares instauram uma sublime acepção para a existência. Para falar um pouco sobre sua lida com as vias literárias, o escritor Anderson Fonseca responde a uma pequena sabatina de ideias. No Gramofone de Larissa Mendes, toca o mais novo disco da cantora e compositora Tiê. A leitura atenta de Sérgio Tavares nos convida a um deleite sobre o mais novo romance de Marcia Barbieri. Há difusas perspectivas de olhar o mundo nos contos de Marina Ruivo, Vássia Silveira e Caio Russo. O texto de Mayrant Gallo exalta a importância do escritor Patrick Modiano, recentemente agraciado como o Prêmio Nobel de Literatura. O mais novo filme do diretor Jim Jamursch é o centro das anotações de Guilherme Preger. Cá estamos, caro leitor, a sugerir um caminho que consolida sua etapa de número 96. Seja bem-vindo!
“No princípio era o Verbo (…) E o Verbo se fez carne”.
Os fragmentos copiados do capítulo primeiro do Evangelho de João remontam ao Gênesis. A criação do mundo dos homens, a corporificação a partir do léxico. ‘A puta’, romance-nocaute da paulista Marcia Barbieri, igualmente se vale da plenitude vocabular para compor seu núcleo seminal, uma engenharia onde as palavras têm a insaciedade de organismos, reproduzindo-se, proliferando-se, compondo um corpo febril, um ser multiforme cujo nome é Verbo.
O processo de gestação que, por conseguinte é o de criação, é a que se dedica a trama. A voz que narra, a fala, o dom que nos distingue das bestas. Não obstante um fluxo incontido, uma loquacidade voraz que, ao invés de verter sentido, causa o caos. Parece não haver racionalidade, somente o instinto. Portanto tudo é mobilizado por um mecanismo primitivo. “Não tente me tornar menos animalesca”, repreende a narradora. O Verbo é um impulso natural.
Continuamos todos feras, não evoluímos. Somos prole de “uma simples partenogênese”. Os símios nos rodeiam e nos escudamos com a lógica e a razão, enquanto escorre pelos trilhos das costelas um suor “tão escuro e fétido quanto a urina”. Temos de invejá-los, incita a puta, a voz reinante nesse curso paginado, “seus sexos à mostra, a facilidade como fodem e parem sem prestar contas a ninguém”. Afinal, existimos ao pagamento de nossas necessidades fisiológicas, da parturição. “O prazer e a dor são frutos do mesmo escarro”. A puta expulsa seus fetos pela glote, vocábulos encarnados que exibem minúsculos rins, pulmões, genitálias úmidas e intumescidas.
Mas o que é o romance, de fato? Uma tempestade de consciência, um solilóquio vazado por vozes incidentais, a um só tempo um réquiem e uma ode à literatura. Tachá-lo a um gênero seria unidimensioná-lo. Para constar, talvez, aparenta-se com o erotismo, o relevo pornográfico, a reificação da libido. Um discurso que é explícito, porém não gratuito. Com força imagética capaz de firmar paralelos com ‘A história do olho’, de Bataille, e a O., de Anne Desclos, narrativas cujo eixo aciona um confessionário de vivências sexuais.
Num bloco único de texto, Barbieri esquadrinha essa vida multívaga. Ou melhor, escava a fundura dos segredos mais escusos, dos rancores, das perdas e das depravações. A memória são os vestígios deixados pelo corpo, a soma dos pesos dos “homens refratários” que sujaram sua pele na busca por orifícios. Parecem gritos rasgados das entranhas, uma história contada aos murros.
Passado e presente se alternam ao salto de uma vírgula, de um ponto final. A puta recorda a infância, o pai nulo, a estadia da mãe no sanatório, a defloração, a ciranda de parceiros, pessoas boas, pessoas ruins, o filho não quisto que depois não a quis. Durante esse trânsito desenfreado, algumas contravozes tomam às rédeas da narração, deslocando o olhar e revelando outros aspectos do trecho em foco. A autora recorre a uma polifonia que também é uma orgia linguística.
A essas conjugações somam-se camadas que impregnam a estrutura; vislumbres, passagens, viagens oníricas e maquinações delirantes. Uma guerra num país latino-americano, um território nevoso, os efeitos do uso da cocaína, o sexo servindo ao culto ao profano e ao sacro. Com uma prosa que sustenta um verniz poético ainda que deslinde “os dias que nascem na vulva”, o romance se alicerça em metáforas para transcender a matéria e acessar questões metafísicas; o cosmo e a autoridade divina, o panteísmo versus os mitos cotidianos, o livre-alvedrio e a condição de bípedes (onde vale uma menção ao ‘Cock & Bull’, de Will Self). “Amanhece apesar de Deus”, dispara.
O mesmo tom ácido é conferido ao papel da escrita sobre a existência humana. O escritor, esse ser arbitrário e tirânico, que se apodera dos vocábulos, explora-os, corrompe suas naturezas, e mesmo assim fracassa ao traduzir a realidade em ficção. “A escrita não passa de uma tentativa idiota de dar vida a marionetes, a criação não é capaz de suprimir a representação e a representação é uma banalização do real”. O principio sempre será o Verbo, a autora parece nos atentar, porém todos nós vivemos sob o signo do Caos.
Na abertura da ficha técnica do livro está a seguinte informação: “Todo conteúdo do texto aqui apresentado é de inteira responsabilidade do autor”. Algo posto como alerta, mas que, de fato, lança luz sobre a prosa pujante e bem elaborada de Barbieri, capaz de causar espanto e maravilhamento na mesma medida.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.
Um tempo que gira sem parar. E cada instante desfrutado tem a capacidade de se manter perene quando as experiências vividas são assimiladas com certa dose de leveza. Mesmo sabendo que frequentemente somos tomados por visões que nos desafiam, ainda assim cabe perceber tudo com serenidade. São bons combates aqueles que travamos na busca pelas palavras. São dignos combates os que mantemos na construção de imagens que representam o mundo em que vivemos. Nos últimos anos, autores e artistas variados fizeram da nossa revista um espaço de convergência de sentimentos de mundo. É como se precisássemos de suas vozes para atestarmos que todos estamos amalgamados pelas mesmas razões. E quando a revelação vem, entendemos que a arte é, sobretudo, uma forma de ultrapassarmos as barreiras dos mistérios. Talvez por isso o ato de criar seja um duradouro processo de reconhecimento não somente daquilo que vislumbramos alcançar, mas também do que nunca dissemos conscientemente a nós mesmos. Há um casamento de particularidades do ponto de vista de quem cria e quem recepciona as obras produzidas. Nesse movimento de dupla via, o grande efeito é supor o que o outro não pensou. É transpor barreiras de interpretação até mesmo como se uma nova obra surgisse a partir do que originalmente nos foi apresentado. Enquanto a tradição nos dá referências, a intuição, somada a nossas revoluções internas, redimensiona nossas percepções sobre as coisas. Assim, vamos tecendo um longo e imprevisível caminho de descobertas, cuja marca maior está sustentada no desejo de conceber a arte como um verdadeiro movimento de autoconhecimento. Hoje, ao celebrarmos oito anos da Diversos Afins, sentimos que permanece bem vivo o propósito de fazer da revista um território efetivo de aproximações. Seguindo esse fluxo, novos criadores fazem da 92ª Leva seu habitat natural. Gente como o amazonense Luiz Navarro, que com suas fotografias põe em evidência as faces ignoradas de um mundo. Dentro das janelas poéticas aqui apresentadas, vigoram os versos de Regina Azevedo, Paulo Sérgio Lima, Carla Diacov, Inês Monguilhott e Carlos Barbarito. Compartilhando as marcas de sua vivência literária, o editor e poeta Gustavo Felicíssimo é o nosso entrevistado de então. No Aperitivo da Palavra, o livro de Lima Trindade é objeto da leitura sensível e atenta de Sérgio Tavares. O escritor Geraldo Lima celebra o teatro de Ariano Suassuna. Com sua devoção à sétima arte, Larissa Mendes nos conduz até o mais novo filme do diretor espanhol David Trueba. Nos ambientes da prosa, Andréia Carvalho, Lima Trindade e Márcia Barbieri desfilam as densas narrativas de seus contos ante nossos sentidos. Das paragens goianas, o rock lisérgico da banda Boogarins exibe seus acordes em nosso Gramofone. Aos nossos leitores e colaboradores de todas as eras, dedicamos mais uma especial edição. Boas leituras!
Eram coisas minúsculas que me faziam não entender o mundo, como dois interruptores para apagar a mesma luz ou o som vindo da Ásia e saindo de uma caixa negra ou morangos mofarem tão rápido ou o gosto das pitangas serem tão parecidos com os das cerejas ou as flores que terminam em um falo ou a teta alimentar o universo ou um espelho esférico invertendo meu pânico ou dois homens se amando com o desespero que nunca conheci ou o amor ser um criadouro de moscas estéreis zunindo zunindo zunindo dó ré mi fá sol lá si cataclismas no meu cérebro larvas obesas ruindo a carne vespas negras no fundo do quintal ou o tédio enferrujado esburacando a manhã ou buchada ser uma iguaria ou crianças comendo testículos de bois ou um escorpião amarelo atravessando o deserto comendo a própria cria ou a diáspora das nossas mãos durante as masturbações ou bonecas infláveis serem tão perfeitas ou o ódio insano dos homens pelos touros ou a beleza dos chifres espiralados dos antílopes negros ou mulheres clonando-parindo como animais ou a disputa selvagem dos homens pela buceta das fêmeas. O pensamento da aranha tecia absurdos sobre minha tíbia rótula patela minha vizinhança meus membros eram uma máquina de encaixes arruinados e eu era um ser obtuso e ter o crânio de um animal era o menor dos meus problemas. Coma logo a aranha antes que suas ideias se tornem matéria coma logo a aranha antes que ela teça a revolução coma logo a aranha antes que cem luas despenquem de suas patas peguem a faca e cortem o verbo ao meio só sobrará a ação. E nossa cópula fosse a união de mil garras, armistício, campo minado, fratura de invertebrados. Não entendi quando percebi que essas coisas pequenas entre as pernas num ângulo diálogo monólogo obscuro não fosse capaz de provocar asco, não entendi quando percebi que existiam idiossincrasias em todas as genitálias, eram todas tão diferentes uma das outras… Olhei de novo para minha e tive vergonha. De que espécie eu era¿ Por que meus buracos e seus contornos eram tão pavorosos¿ Ela era rosada e grande, uma membrana pesada e com bainhas desproporcionais os pelos cresciam em direções variadas perdidos entre uma ordem e outra. As estrias formavam ramificações difíceis de entender. Desviei o olhar não gostava de encará-la por muito tempo. Eu jamais deixaria que ele me visse, não assim, onde eu não era normal, onde a duração do tempo se distendia nos meus pequenos-lábios, pensei na solidão dos ornitorrincos… na feiúra incompreensível dos peixes abissais… nas dobraduras se desdobrando na minha pele fina. De novo os ornitorrincos e os peixes abissais. Eles como eu não eram daqui e eu pensei: é bem estranho ser estrangeira no próprio corpo é bem estranho ser estrangeira no seu país é bem estranho estar sitiada nas escórias da própria carne é bem estranho conhecer apenas as superfícies das coisas inanimadas.
Olhei para seus olhos castanhos e clamei, você que não me conhece não me deixe nunca sair da minha terra não me deixe pisar em outros solos áridos não quero conhecer outros países não quero conhecer outros dementes não quero lamber a falência de outro corpo não quero sentar na rigidez de outro pau não quero enrolar minha língua em outras línguas não quero ter certeza que a felicidade não existe em parte alguma, quero ter essa esperança rasa de que em alguma parte o ar é rarefeito, as palavras são todas francesas e a lama é branca…
Você me olha com um olhar idiotizado, o olhar de todo homem que já passou dos trinta e eu desfaleço. Você podia me fazer parar, agarrar meus pulsos, amarrar minhas mãos nas grades da cama. Você não faz nada, só me olha, um gato paralisando sua presa. Retiro a armadura do eu penduro na parede texturizada grandes rosas secas arabescos que não existem mais a arquitetura falida nostalgia rococó retiro as carrancas retiro as máscaras japonesas enfio o dedo na sujeira do umbigo retiro os caranguejos da minha última morte retiro a penugem do buço agora sou não eu essa cor opaca massa mole matéria quase morta parecendo o abdômen de um inseto ou um incesto de dois irmãos.
Você sussurra no meu ouvido surdo labirinto bigorna eu eu eu eu o eco ensurdecedor de todas as suas ideias olho seu palato em decomposição e você continua agora num grito sufocado eu eu eu e eu coloco a corda frouxa e suicida em torno do seu pescoço vejo a língua enrolada e a baba grossa de um epilético.
Você sopra no meu olho sem cílios eu eu eu e recorda um velho refrão cavalos cavalgam na cartografia do seu dorso–cavalos negros selvagens cavalgam no seu leito– mas isso não é importante–o eu está morto. Sou uma massa amorfa e coalhada e o sol apodrece minhas vértebras e o líquido que me tirou das penúltimas meninges explode na minha garganta há um pêndulo enferrujado entre minha laringe e minha traqueia falar não é tão indolor quanto parece ainda mais nesse lugar suspenso onde cada palavra cai um rifle ainda mais nesse campo de marionetas onde não perdura a consciência íntima do tempo.
***
Gênese
Ela estava há milênios ajoelhada naquele cubículo e expunha com certa vaidade uma fratura no fêmur esquerdo. Brincava com uma Matrioshka. Tirava e recolocava as várias bonecas russas, enfiava o dedo no miolo, encontrava a menor de todas, rasgava com uma faca, duvidando da sua entranha oca, do seu corpo sem órgãos, como se através dessa manobra pudesse resolver sua demência ou seus problemas de ancestralidade.
Olhando-a assim, acreditei que ela jamais morreria, estava enganado, ela era uma barata branca e logo seria esmagada.
Não foi fácil ver seu corpo estendido na pedra. Aqueles seres estranhos, vermelhos e mascarados (sempre considerei a máscara uma repetição desnecessária), falando línguas estrangeiras, dançando e urrando, imitando o som gutural dos animais. Ofereceram-me um cálice de sangue, eu deveria celebrar a morte, sacralizar o útero que foi meu abrigo, minha origem. A caverna era escura, úmida. Havia na parede da rocha, atrás do seu corpo, o desenho de uma vulva aberta e gigante, em volta caçadores com seus membros em ereção, em outra gravura um antílope estava montado em uma mulher nua e grávida, aos seus pés demiurgos ejaculavam.
Colocaram em minhas mãos um instrumento pontiagudo, fizeram gestos que indicavam que eu deveria retirar as vísceras do cadáver e fazer uma trepanação. Hesitei, mas concordei, a matéria era uma abstração e nunca foi sólida, era uma rachadura, uma trinca no tempo-espaço.
Sei que existe um animal rastejante que circula em sentido anti-horário pelo meu útero (sou um homem castigado com um útero) se espreguiça nas minhas trompas, se enrosca nas paredes do meu intestino, como um cão de rua que não morde, mas fareja, mas fede. Trêmulo começo a estripar aquele corpo-origem. Partenogênese. Ovo cósmico.
O ritual de sepultamento continua e eu sigo fazendo a trepanação. Lamento porque nunca me senti parte desse mundo, porque quando cheguei o mundo já estava instituído. É como se eu fosse uma orelha implantada no organismo de um sapo. É como se eu tivesse despencado em um país estrangeiro e por todos esses anos continuei um exilado no meu corpo-máquina. Preciso ser civilizado, sou homem e preciso entender o sorriso fingido dos hipócritas, a boca banguela, desnuda dos desalmados. A humanidade se alimenta parindo ovos chocos. Preciso ser homem, trabalhar, acasalar, conversar, entender de política, entender a rosa dos ventos, fingir felicidade, matar os porcos que aparecem nas noites sujas, quando tenho as vértebras trincadas e pinos na mandíbula.
Nasci no corpo-simulacro de um homem evoluído. No entanto, minha alma tem uma corcunda feia e incurável, minha alma é de um egiptopiteco, um primata franzino de seis quilos.
Então, diga, como não ser arrebatado se não tenho olhos nas costas? Ando atento pela casa e em todas as casas multiplicam ferrolhos enferrujados. Como posso sorrir se sou um amontoado de átomos, os quais poderiam tanto estar em mim como numa cadeira de vime. Ela me falou que eu era fraco e por isso estava em eterna diáspora. Eu catava piolhos de um macaco de pelúcia. Só não era mais ridículo porque eu nascera inteiro, sem amputações. Era nesse ponto que ela se enganava Eu era a própria amputação, a própria rachadura na coluna de Deus. O meu quarto-mundo era uma incubadora e eu estava fadado a viver cem anos e continuar prematuro.
Um enxu de moscas andam tontas e circunspectas em torno do meu mamilo. Não sinto cócegas, não as expulso, acompanho sua coreografia macabra nas redondezas do seu peito. A angústia não é muito diversa de um amontoado de larvas de inseto. Barroca.
Coagulo a noite. Navalho a face profícua de Deus. Continuo a trepanação. Depois de um tempo eu era só o exoesqueleto de uma cigarra, vazio, solitário, oco.
Não havia dúvida do que eu deveria fazer. Abri a vulva da minha mãe e voltei ao seu útero. Invaginação do fora. As esporas, os cascos, os trotes, a noite, o beco deixaram de me incomodar.
Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestranda em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno (independente), As mãos mirradas de Deus (Multifoco) e o romance Mosaico de rancores (no Brasil pela Terracota e na Alemanha pela Clandestino Publikationen). No final do ano, lançará A Puta.
O que dizer dos vestígios que deixamos em vida? Na profusão dos seres, cada acesso percorrido sugere um arremesso. A medida inexata das profundidades flerta constantemente com os mergulhos a que nos propomos. Assim, vamos tentando alguma pista sobre nós mesmos, quiçá um entendimento sobre o que reter da jornada errante. O expelir das palavras pode nos auxiliar nesse exercício de transitar pelos lugares todos. Talvez a capacidade de abstração seja a possível cura para alguns cruciais desfoques do olhar. Enquanto somos impelidos à busca, a leitura dos sinais aparece multifacetada em toda a sorte de trajetos. Ao mesmo tempo em que viver é se deparar com as manifestações ululantes daquilo que temos em conta como sendo o real, o emaranhado de nossa subjetividade enreda laços para o fugidio descompasso dos instantes. Então, nos é dado o abrigo do sonho, não como um refúgio premeditado, mas como vias de reinvenção da existência. Daí, encontrar artesãos da palavra que sabem o gosto que tal missão encerra. Na Leva que apresentamos agora, a entrevista com o escritor paraense Vicente Franz Cecim dá-nos um pouco da dimensão disso tudo. Tendo como cenário de sua obra a mítica Andara, Vicente descortina outras camadas dessa complexa e misteriosa experiência que é o estar-se vivo. Entre textos e seus múltiplos signos, somos levados pela exposição das fotografias de Silvio Crisóstomo, cujo trabalho confere um denso e especial olhar sobre a cidade de São Paulo. Os ventos poéticos de então sussurram marcantes sinais nas escrituras de Joelma Bittencourt, Heitor Brasileiro Filho, Eduardo Lacerda, Karinne Santiago, João Urubu e Sandrio Cândido. Enlaces do cotidiano, os quais nos marcam a ferro e fogo, estão presentes nos contos de Carla Diacov e Rodrigo Melo. Nesse terreno, ainda há espaço para a veia fabular do argentino Fernando Sorrentino. Num convite à leitura, a escritora Márcia Barbieri propõe um percurso pelo romance de estreia de Halley Margon. Larissa Mendes desfila impressões sobre o mais novo disco do cantor e compositor Otto. A produção americana Moonrise Kingdom é tema da resenha cinéfila de Bolívar Landi. A 76ª Leva prenuncia seus novos mergulhos. Sejam bem-vindos, caros leitores!