Categorias
107ª Leva - 01/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

O ano de 2016 começa aqui na Diversos Afins com um repertório de possibilidades. A primeira delas é a de celebrar a continuidade dos caminhos, empreendendo esforços para que outros renovados encontros continuem a alimentar nosso trabalho. É também o ano em que completaremos dez anos de estrada. De fato, um marco temporal se assinala, mas o verdadeiro lado especial disso é constatar que alcançamos um patamar de trajetos através dos quais pudemos consolidar ainda mais o projeto. A revista tem servido como uma plataforma de potencialização de discursos, olhares e distintas formas de percepção da vida. E mesmo com as múltiplas individualidades mescladas num só caldeirão de expressões, o arranjo de textos e imagens consegue trilhar uma estrada harmônica e equilibrada. Somos um organismo vivo por natureza, tendo em vista as marcas humanas essenciais a tudo o que fazemos. Nesse início de ano, nada melhor do que elencarmos as vozes que agora chegam e que compõem uma nova investida editorial. Uma delas está diluída em toda a 107ª Leva. Trata-se de Deborah Dornellas, que com seus desenhos desperta por aqui reflexões em torno de sua valiosa capacidade de abstração. Em matéria de contos, há o atravessar de pungentes territórios por parte de autores do quilate de Kátia Borges, Claudio Parreira e Cristiano Silva Rato. Apresentando-nos uma recente experiência de leitura, Orlando Lopes compartilha suas sensações sobre o mais novo livro do poeta Jorge Elias Neto. Percorrendo um instigante caminho de indagações, Sérgio Tavares entrevista o escritor Julián Fuks. As vias da poesia são contempladas com versos de Alex Simões, Fernando Naporano, Ellen Maria Vasconcellos, Marcus Vinícius Rodrigues e Tanussi Cardoso. As linhas de Marcos Pasche estão voltadas para a obra poética de Alexei Bueno. No caderno de cinema, Guilherme Preger escreve sobre as sensíveis abordagens do filme brasileiro “Boi Neon”. Há também espaço para considerações acerca do disco de estreia do cantor e compositor Liniker. Tudo isso posto, caros leitores, sejam bem-vindos ao nosso novo painel de expressões!

Os Leveiros

Categorias
107ª Leva - 01/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Cinquenta anos em um

 Por Marcos Pasche

 Capa - Alexei Bueno

Por mais que se aponte a heterogeneidade para classificar a poesia contemporânea, é possível verificar que os mecanismos de legitimação social da literatura – as grandes editoras, as feiras do ramo, os prêmios mais badalados, os suplementos jornalísticos e as ementas universitárias – tendem a endossar como representantes do presente autores e obras explicitamente herdeiros do Modernismo (o mais festivo e iconoclasta). Por essa perspectiva, não há razão para ver como “de hoje” um poeta que em 1985 publica um volume intitulado Poemas gregos, que em tudo parece demonstrar uma opção pelo passadismo. Esse poeta é Alexei Bueno.

Mas se olhada de perto, e se o olhar despir-se de preconceitos, a obra de Alexei Bueno se revela densamente moderna, porosa e permeável tanto aos fluidos de cima quanto aos detritos do baixo. E é isso o que se verifica em Poesia Completa, lançada pela ocasião do cinquentenário do autor. A publicação reúne os doze livros de versos que Alexei Bueno publicou e manteve em sua bibliografia, aos quais se somam Cinco fugas cromáticas, volume inédito.

Uma quantidade considerável dos títulos poéticos de Alexei dá mostras do quanto sua arte evoca símbolos de requinte: As escadas da torre, Poemas gregos, A decomposição de Johann Sebastian Bach, Lucernário e A juventude dos deuses indicam o teor de solene ancestralidade que lhe perpassa a escrita. Passando ao interior dos livros, poemas como “Helena”, de Lucernário (1993), confirmam o que os nomes sinalizam:

No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levaram linho, unguento, âmbar e cera.

Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem externas.

Na boca sem um dente os lábios frouxos
Murchavam, ralo pelo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.

Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.

Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no Hades
As sombras dos heróis todas choraram (p. 279-80).

Entretanto, não deixa de haver na confirmação uma nota dissonante.  Num poeta supostamente passadista, orgulhoso da herança clássica, só é pensável encontrar devoção a essa herança, o que, nos textos, se ratificaria pela total evitação do que pudesse manchar estátuas e templos. Em “Helena”, o discurso é plataforma de uma protagonista mitológica (de uma mitologia protagonista na cultura ocidental), alicerçada em quadras decassilábicas e tomada por carga imagística de alta voltagem. Mas, como se constata em cada uma das suas cinco estrofes, o poema trata do monumento em estado de ruína. Helena, eternizada como a mais bela das mulheres, é apresentada nas duas pontas de seu declínio: uma é a decrepitude do corpo e o fim da vida; a outra, a vida em estado de fim mesmo após a morte, com o choro das sombras dos heróis. Em “Helena”, portanto, o discurso é plataforma de antagonismos: o precioso apuro formal relata o avesso do esplendor, e, por extensão, o poeta, ao revelar uma Helena com destino até então desconhecido, insere na tradição uma sombra corrosiva.

Se em Alexei Bueno há nítida assimilação de matrizes helênicas, há que se perceber em sua poética a forma como se manifesta o homem de uma era desprovida de deuses e amputada de helenismos. Nisso se inscrevem os Poemas gregos, livro em que mimesis e poiesis se dão em proporção equânime. Se nele tudo contribui para que seja percebida convictamente a escrita de um autêntico aedo do período clássico ou helenístico, em nada, porém, deixará de haver indícios de um poeta em particular:

Eu, contrário ao geral dos outros homens,
Muito pouco respeito por vós, deuses,
Tenho, e nem temo que em castigo um raio
………..Divida-me a cabeça (p.180).

 

Aí não reside um protesto unilateral ou mesmo a negação absoluta de concepções culturais consagradas pelos anos. A poesia de Alexei Bueno tem na coexistência de contrários sua carne e seu espírito, dando ao termo “atualidade” um sentido tão amplo quanto intrincado. Se é acertado constatar a inserção que o poeta faz da matéria clássica na poesia atual, não menos correto é apontar a maneira moderna como trabalha elementos ancestrais, inserindo na dicção clássica elementos próprios do homem contemporâneo, “Pois ser um é ser morto” (p. 175), como diz o primeiro dos Poemas gregos. Assim, se a estrutura padronizada foi suporte para a elegia de uma divindade, também o será para a ode “Silvia Saint”, consagrada à tcheca Silvie Tomčalová Stodowa (1976 – ), espécie de Helena pós-moderna, visto ser apresentada em seu site oficial como “the most beautiful pornstar”:

Teu santo nome veste
A quintessência bruta
Da arquetípica puta,
Vênus baixa e celeste.

Áurea cachorra, vaca,
Por que é que os lábios tremem
Vendo em teu rosto o sêmen
Como uma vítrea laca?
(…)

Cadela de ouro, glória
Pueril, sórdida e santa,
Asco que envulta e encanta
Deusa auto-entregue à escória.
(…)

Louro véu do universo,
Sacra estátua e cadela,
Pisa esta alma que vela
Teu sonho áureo e perverso (p. 589-90).

 

Ao se radiografar a poesia brasileira atual, é inevitável – e procedente – o diagnóstico de um quadro multifacetado. O receio da rotulação numa camisa-de-força estilística impulsiona os poetas a procurarem caminhos próprios, o que encontra largo respaldo numa época de apelo individualista, como é a presente. Ao lado dos poetas, tem recebido maior prestígio a crítica que, ao visitar o passado, identifica a idiossincrasia em meio à massa convencional. Por extensão, essa crítica age para demonstrar as estreitezas das tomadas de posição grupais, o que chega aos contemporâneos como alerta e impulso a um destino independente, isento de obrigações coletivas. Assim o coro cede vez ao canto solo, e de diversos cantos solos compõe-se o fragmentado repertório geral. Considerando isso, Alexei Bueno empreende um adventício modo de afirmação da contemporaneidade. Se o panorama se faz diversificado pela assembleia (laica) das individualidades, no autor de Os resistentes encontra-se a unidade constituída e potencializada por uma comunhão conflitante e pelo conflito comungante das partes que desejam ser na companhia de suas antíteses.

As sirenes da cartilha politicamente correta têm latejado incautas, e nesse sentido o poeta revela outro modo de pertencimento oponente ao seu tempo (o tempo do marketing ubíquo e das declarações em tudo calculadas). O pronunciamento aberto e ríspido na direção do que repreende não escolhe perfis, e admoesta o que vê como estúpido e espúrio: “Cansei-me dos pobres/ Como antes dos ricos” (p.551), diz o irônico “Humanitarismo”.

A confluência de itens irreconciliáveis também se processa na estruturação textual. Se Alexei Bueno é frequentemente rotulado como “neoconservador”, é porque nele praticamente só se nota a aparência tradicionalista. No entanto, há em sua escrita um sólido entrecruzamento de formas consagradas pela tradição e pela modernidade. Em sua bibliografia, por entre os livros em que a forma fixa é dominante – As escadas da torre (1984), Poemas gregos (1985), Livros dos haicais (1989), Lucernário (1993), Em sonho (1999), A árvore seca (2006) e As desaparições (2009) – apresentam-se outros integralmente compostos com versilibrismo e polirritmia hegemônicos, caso de A decomposição de Johann Sebastian Bach (1989), A via estreita (1995), A juventude dos deuses (1996), Entusiasmo (1997), Os resistentes (2001) e Cinco fugas cromáticas, trazido ao público com a edição desta Poesia Completa. Nesses volumes, de forte carga simbolista (a estabelecer entre eles evidente conexão), a voz lírica, “Como de uma criança que não se conforma de não ter os mundos” (p. 233), traduz a convulsão de um espírito que, aflito pelos limites da unidade, em tudo se vê e a tudo deseja tocar: “Roçam-se em mim, incontadas, as vidas todas – e as vidas de cada vida –/ Como um turbilhão de pássaros que o vento assopra ao mar queixoso” (p. 391).

A poética de Alexei Bueno opõe-se às diversas maneiras com que a cultura ocidental estabelece segregações acerca do pensar e do ser. Especificamente na era do apogeu tecnológico, a celeridade impõe-se como valor e modelo, e suas ramificações ideológicas alcançam os homens da arte. Potentado último e ubíquo, o mercado dissemina a mensagem da troca imediata e irrefreável, e mesmo na poesia, a barrada no baile das grandes vendas, o tácito decreto se instala e por vezes baralha-se ao lema da originalidade e da renovação. Nesse estado de coisas, não poderia ser outra a (repelente) recepção da poesia que se conecta a um pretérito tão morto quanto ainda enigmático e sabedor de novidades – algumas de caráter duvidoso, a ponto de não despertarem qualquer olhar de surpresa fora dos que as anunciam:

É no passado que caminhamos.
Somos história, somos histórias.
Já faz milênios que aqui passamos
Tais nossas roupas, tais nossas glórias.

Mais que os egípcios, mais que os sumérios,
Num lapso o tempo nos fez distantes.
São língua arcaica vossos ditérios,
Homens modernos. Todo hoje é antes (p. 555).

Mas a poesia é recusa e reação: recupera para a comunidade o que não pode se perder, e pelo já havido reinventa os modos de permanecer e de falar aos homens, convidando-os à evasão e convocando-os à presença. O dizer inaugural se reporta à interpenetração dos tempos, e dá a dimensão ativa do que se mostra estático, pois o isso guarda em si algo de aquilo:

 

Deito-me ao lado da estátua marmórea,
Alva, branca, lavada de alegria,
É a alba, a alvorada, a aurora, o dia,
Que se abre já, desnudo e sem história.

Ela é de hoje, saqueada de memória,
Esta deusa, ela nasce, limpa, fria,
Agora, e, ao lado meu, pura, inicia
O mundo neste alvor, o instante, a glória.

Beijo-a virgem na relva, aqui, a vida,
Só tem hojes, abraço-a, nova, clara,
Secularmente pétrea e ora nascida.

Sorrindo na manhã, gelada, ampara
Meu corpo extático, álgida, estendida
No sempre, no surgir que urge e não para (p. 446).

 

Marcos Pasche é professor adjunto de Literatura Brasileira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e crítico literário, autor de De pedra e de carne (Confraria do Vento, 2012).

 

 

Categorias
100ª Leva - 03/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

Uma centena é muito mais do que um mero marco numérico. Em se tratando de caminhos editoriais, significa um avançar teimoso ante as curvas do tempo. Há quem resuma esse conjunto de ações que agregam literatura e artes como sendo uma prova irrefutável de resistência. Tal atributo é positivo na medida em que a valorização do presente seja a tônica central das considerações. A revista Diversos Afins tem passado, tenciona um futuro, mas volta seus olhos especialmente para o agora, pois este representa a confirmação de apostas e expectativas múltiplas. É difícil mensurar com precisão como um projeto dessa monta pode vir a se consolidar. Quem vasculhar nossa história perceberá quão diferente estamos hoje para aquela primeira Leva de escritos e expressões. O ano era 2006 e tudo começava de modo bastante incipiente, quiçá até pueril.  Mas o fato de maior relevância é saber que não havia um produto fechado em nossas mãos. Quando se fala em desengavetar expressões, não se pretende apenas idealizar colaborações, mostrá-las ao mundo, mas, sobretudo, aprender com elas. O caminho de publicações até aqui trilhado mostra um permanente desejo de seguir adiante por meio do experimentar de novos saberes e sabores. Não há verdades hegemônicas, apenas um processo de intercâmbio de manifestações através das quais se constrói uma valiosa rede de encontros. Cada autor traz em si sua própria epifania, maneira particular de vislumbrar o mundo. Com isso, opera-se um vasto painel de sensações e leituras, todas elas estabelecendo sinais espontâneos de convergência. É quase impossível definir o quanto todo o numeroso contingente de colaboradores impactou o perfil da revista. Diga-se de passagem, entendemos que pomos em prática um projeto em permanente construção. Portanto, nada está esgotado em si, pois é sempre tempo de olhar ao redor. Ao longo de todas as edições, presenciamos também outras tantas investidas editoriais que nos auxiliaram no entendimento do nosso papel enquanto suporte cultural. A via digital rompeu barreiras e aproximou-nos de pessoas dos mais diferentes lugares do mundo, todas elas com sua importância peculiar. Para nós, está claro que avançar é preciso. O atual momento de celebração contempla a poética presente nas fotografias de Gabriel Rastelli Quintão. Deparamo-nos com os arremates narrativos de Marcus Vinícius Rodrigues, Natália Borges Polesso e Sérgio Tavares, especialmente selecionados para a ocasião. No território da poesia, emanam os fluxos líricos de gente como Wesley Peres, Demetrios Galvão, Adriano Scandolara, Francisco S. Hill e José Carlos Sant Anna. Com o olhar sensível sobre o mundo e a vida, a poeta Neuzamaria Kerner concede-nos uma entrevista, na qual aborda principalmente as energias emanadas do seu mais recente livro. São de Larissa Mendes as percepções a cerca de “1977”, novo disco do cantor e compositor Wado. O escritor Marcos Pasche chama-nos atenção para obras de quatro autores contemporâneos: Maíra Ferreira, Juliano Carrupt do Nascimento, Leandro Jardim e Anderson Fonseca. O novo filme dos irmãos Dardenne é tema das anotações de Guilherme Preger. Fabrício Brandão ousa penetrar nas veredas do mais recente livro de Dênisson Padilha Filho. É tempo de centésima jornada, caros leitores! Celebrem conosco!

Os Leveiros

Categorias
100ª Leva - 03/2015 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Breve notícia de literatura renovada

Por Marcos Pasche

gabriel R Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

Para a memória coletiva, 2014 ficará marcado como o ano da Copa do Mundo do Brasil, com seus orçamentos faraônicos, com o ignorar do exoesqueleto de Miguel Nicolelis e com a goleada sofrida pela Seleção Canarinho, em jogo contra a Alemanha. Por sua vez, é provável que os engajados no debate político destaquem no ano a prisão de manifestantes que se posicionaram contra o que a Copa custou financeira e socialmente, sublinhando também o início da Operação Lava-Jato (sic), da Polícia Federal, que prendeu muita gente do alto escalão.

Sem me abster da coletividade, a mim pareceu que 2014 é um ano literariamente promissor. Reconheço que, nesses termos, promissor qualquer ano é, como arruinador de esperanças todos os anos podem ser. Portanto, a minha impressão alvissareira não esconde a obviedade pessoal: chegaram até mim livros que chamam a atenção pelo misto de juventude e maturidade de seus autores. São eles: a primeira morte, de Maíra Ferreira; Peomas, de Leandro Jardim (ambos de poesia); O que eu disse ao General (contos), de Anderson Fonseca; e Fagundes Varela, Poeta (ensaio), de Juliano Carrupt do Nascimento.

Sublinho a obviedade e o acaso para ir do relato pessoal à crítica do tempo: os livros de que tratarei aqui não figuraram nem mesmo nas notinhas de lançamento de grandes suplementos e jornais de literatura do Brasil. Seria injusto não reconhecer a pletora de lançamentos em contraste com a exiguidade de periódicos, mas não se pode ignorar que estes têm as suas lentes de grande alcance, o que se verifica todas as vezes em que um autor de alguma invisível periferia é anunciado.

Volto ao pessoal, sem dissociá-lo da crítica: eu sugeri aos jornais e suplementos que leio e com os quais colaboro resenhas sobre os livros em questão, mas houve recusa direta ou eloquente silêncio, e eu suponho que pelo menos de alguns desses periódicos seria diferente a resposta caso os livros fossem de editoras ricas ou se os autores tivessem guiado sua escrita por aquilo que pede a pauta contemporânea: a voz de uma minoria, a escrita em novos suportes de tecnologia, o cruzamento dos gêneros. A pauta é inegavelmente importante, dado que ela reclama atenção para o que, de modos diferentes, destoa de alguma hegemonia. Só que ela – a pauta – inegavelmente é transformada em moda, e assim àqueles em que não se verifica um determinado tipo de diferença não se dá a chancela de autênticos contemporâneos, ainda que sejam autênticos escritores. Mas aqui estamos num veículo não tomado pela tendência mercadológica, o que também é promissor, sobretudo num momento em que a promessa se cumpre pela centésima vez. A abordagem em conjunto inevitavelmente reduzirá a análise específica, mas tentarei fugir da mera informação.

Comecemos pela poesia, e comecemos por um começo. a primeira morte marca a estreia de Maíra Ferreira, e caso se junte o debute à idade da autora no momento da publicação (24 anos), causará espanto o fato de em nada o livro parecer o de uma estreante, dada a coesão da linguagem que permeia os poemas. Coesa também é a ambientação dos textos, via de regra num universo doído, repleto de desencontros, ainda mais cortantes porque a voz que os anuncia nunca cede ao derramamento emotivo, como se verifica no extraordinário “pequena princesa”: “se você diz que vem às nove, por/ exemplo, desde as sete estarei/ enrolando os cachos que não/ nasceram para ser cachos e preparando/ a comida com receitas que nunca/ aprendi e retirando os pelos/ de todos os lugares onde não se/ pode ter pelos e deixando à mostra/ a pele que precisa ser/ pelada a pele impelida/ pelo relógio marcando nove horas/ e alguns minutos que é quando/ descubro que na verdade você/ não vem e meus pelos agora/ entopem o ralo do banheiro/ desejando não terem sido/ expulsos da vida por tão/ pouco”.

O poema propicia um desdobramento: em a primeira morte a dicção geral é feminina, sendo alguns textos dotados de fortíssima sensualidade. E se a dor é dita com absoluta isenção de sentimentalismo, a pele pulsa de um modo surpreendentemente erótico e sutil, matéria de “náufragos”: “estou bebendo toda a sua água/ como quem mastiga o seu corpo/ como quem engole o seu rosto/ ou chupa/ a sua voz/ sem remorso bebo/ toda a sua água/ e entrego a minha inteira e intacta/ pra você/ beber”.

Peomas é o terceiro livro de poemas de Leandro Jardim, que também publicou um volume de contos, Rubores, de 2012.  No presente trabalho, a escrita aparece mais encorpada, fundindo o que havia de melhor nos livros anteriores – especialmente o tom despojado e as tiradas criativas – a uma visão abrangente do tempo em que se encontra. Acerca disso, as investidas metapoéticas não tratam apenas da escrita e seus códigos, mas sim de uma forma de pertencimento e recusa aos dias que se colocam aos poetas, conforme se lê no emblemático “De época”: “Eu poderia tornar drama/ épico o meu passado,/ tão simples e prosaico,/ tão contemporâneo.// Eu poderia erguer pirâmides egípcias/ de complexos de Édipo, palavras/ à sombra do império paterno,/ dourar o meu caderno.// Mas meu cotidiano foi mais/ humano, e não menos/ poético por isso:/ ser mundano é mais propício”. Registre-se com maior ênfase o (antológico) poema que lembra as andanças reflexivas de Drummond e Gullar pela rua, na medida em que a expressão poética, a um só tempo, rumina sobre o fazer do poeta e sobre seu lugar no mundo. Confinado em seu carro, igualado aos que se atolam nos engarrafamentos ubíquos, o poeta, no exato momento em que revela o nascimento do poema, diagnostica seus limites na república pós-moderna – “Nada grave,/ só mais uma obra,/ só mais um veículo,/ só mais uma via.” –, sem, entretanto, deixar de flertar com a ambiguidade que instaura uma nova possibilidade, de sentido textual e de via existencial: “Não grave nada,/ só mais uma poema,/ só mais um poeta,/ só mais um dia”.

Como a poesia está em pauta, convém citar um de seus novos e vigorosos intérpretes brasileiros. Falo de Juliano Carrupt do Nascimento, erudito e engajado professor do Ensino Médio do Sul Fluminense, em Volta Redonda. Apesar do vínculo universitário como aluno de pós-graduação, Juliano é um estudioso autônomo, o que se verifica de modo cabal com este Fagundes Varela, Poeta, tanto pelo objeto de análise quanto pelo próprio fazer do livro, que não resulta de uma demanda acadêmica específica, como dissertação de Mestrado ou tese de Doutorado. Juliano Carrupt do Nascimento é antes de tudo um apaixonado leitor e militante do saber, e se isso já se verificava em sua publicação anterior – O negro e a mulher em Úrsula, de Maria Firmina dos Reis (2009) –, acerca da desconhecida romancista maranhense, agora se mostra de maneira mais pujante e abrangente, na medida em que o autor percorre com fôlego a bibliografia crítica dedicada a Varela, inserindo seu trabalho nesta como nova e admirável contribuição. Como Juliano também é um pensador do Ensino Médio, sua crítica literária não dissocia a sala de aula universitária da secundária, fato verificável em seus eloquentes questionamentos: “Qual a imagem da vida e da obra de Fagundes Varela que nos chegam via veículos institucionalizados de ensino e aprendizagem da poesia nacional, tais como livros didáticos, ensaios e pesquisas históricas de cunho teórico e crítico? Ou, qual a situação de seu público e local de fala, nos XIX?”.

Os meios oficiais de comunicação e as redes sociais diariamente nos trazem a notícia de um mundo obscuro, tão desenvolvido quanto apegado a todo tipo de barbárie. É desse mundo estranho, gerenciado por totalitaristas – sejam ditadores ou democratas –, que se abastece O que eu disse ao General, primoroso livro de narrativas curtas com as quais Anderson Fonseca evoca cenas e personagens da política internacional para escancarar a selva globalizada. A poderosa síntese entre construção literária e referência histórica confere à obra um singularíssimo lugar na literatura contemporânea, quer pela originalidade do argumento do livro, quer pelo teor crítico estampado pelas páginas. Como exemplo, cito o irônico “Santa Ceia”, dedicado ao ex-presidente do Paraguai, recentemente deposto do cargo. Trata-se de leitura para a cabeceira da presidenta do Brasil: “O presidente amava cães. Em sua casa ele criava dez. sempre passeava com os cães, à tarde, nos jardins da casa presidencial; e a cada um alimentava. Embora fossem de linhagens carnívoras, não representavam nenhuma ameaça. Houve um dia, entretanto, que (sic) o Presidente enraivecido não deu a eles comida. Os cães, em troca, o devoraram”.

Esses quatro livros dão boa mostra da qualidade do trabalho de jovens autores no País. Agora é torcer para que a outra parte se cumpra, e que eles encontrem os leitores que suas obras demonstram merecer. Esse gol é do Brasil.

 

Marcos Pasche é crítico literário e informa que a palavra “foco” tem sinônimos na Língua Portuguesa.

 

 

Categorias
93ª Leva - 07/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Neuza Ladeira
Pintura: Neuza Ladeira

Dizer que não nos banhamos mais de uma vez nas mesmas águas implica prontamente no reconhecimento da nossa necessidade de mudança. Se pudermos alterar o curso das coisas, ainda assim muito do que supomos reter ficará disperso nalgum ponto de nossa trajetória. O que então poderia representar a ideia de um legado de nossas ações? Em sua natural condição de imutabilidade, o passado poderia ser vislumbrado como um ponto de partida para a busca de algum norte. Quiçá a vontade de minimizar equívocos acostumados ao longo da jornada. No entanto, a acepção do que signifique um legado não está em simplesmente inventariar um aglomerado de feitos, mas sobretudo em imaginar como presente e futuro podem se abrir para vias também nunca dantes exploradas. Numa referência ao jogo de palavras de uma das composições de Gilberto Gil, a mudança seria algo semelhante a um perene deus que dança e celebra seus caprichos ante nossos narizes perplexos e contestadores. No vasto e complexo reino das palavras, testemunhamos a presença vigorosa da procura por novos lugares. Muitas vezes, sem negar os atributos da tradição, notamos a aparição de vozes que fazem ecoar entre nós um sentido muito próprio de expressão. Apresentam-se como formas transmutadas de se perceber o mundo a partir de uma ótica marcada pelo teor da individualidade. A partir daí, ganha força a noção da unicidade de cada criador, principalmente pela perspectiva de, ao final das contas, celebrarmos tudo na inquietante arena das diferenças. Certamente, são as peculiaridades de artistas e escritores que tornam a existência um lugar sempre passível de descoberta e reinvenção. É com esse gosto especial por algo até certo ponto imprevisível e inusitado que nos deparamos com os enlaces poéticos de autores como Marília Garcia, Gustavo Petter, Lucas Perito, Ehre e Juliana Amato. De maneira semelhante, apreendemos as densas incursões de vida proporcionadas pelas narrativas de Claudio Parreira, Marcelo Novaes e Sérgio Tavares. Quando o tema é cinema, Guilherme Preger revisita a intricada trama da produção turca “Era uma vez na Anatólia”. Larissa Mendes deixa seus ouvidos se guiarem pelas canções do mais novo álbum de Fernanda Takai. Numa entrevista especial, intermediada por Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos, a atriz Sandra Vargas fala sobre sua trajetória à frente do importante grupo paulistano de teatro Sobrevento. O escritor Marcos Pasche elabora uma breve, porém incisiva, reflexão sobre a obra do poeta capixaba Jorge Elias Neto. Promovendo um diálogo entre uma obra do dramaturgo Sêneca e outra do cineasta Peter Greenway, Rafael Peres faz sua estreia no caderno Jogo de Cena. Diante de todas as epifanias presentes na mais nova edição, as pinturas de Neuza Ladeira traduzem uma atmosfera marcada substancialmente pelo incansável potencial da imaginação. Assim sendo, ofertamos a você, caro leitor, as alamedas da 93ª Leva, todas elas cuidadosamente pensadas e sentidas!

Os Leveiros

 

 

Categorias
93ª Leva - 07/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Jorge Elias Neto: breve panorama

Por Marcos Pasche

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

Em A ideia de Brasil moderno (1992), o sociólogo Octavio Ianni (1926-2004) diagnosticou com rara acuidade um dilema central do País: o todo é desarticulado de suas partes. Passadas duas décadas, a observação do sociólogo paulista permanece atual, tornando-se até mais expressiva, pois há pouco o Brasil alcançou o patamar de sexta economia do mundo e agora assiste à pior seca das últimas seis décadas que mumifica a região Nordeste.

Diferentemente do que se possa imaginar a partir do exemplo, a desarticulação vai além das vetustas antíteses de riqueza e miséria, centro e periferia, sul e norte. Mesmo no Brasil metropolitano há distâncias simbólicas inimagináveis para a contiguidade geográfica. Essas considerações me ocorrem ao pensar no Espírito Santo, uma das quatro unidades da região mais rica do Brasil (a Sudeste), que parece pagar pelo pecado onomástico de integrar um Estado laico. Para se ter ideia de sua dissonância em meio à região, basta verificar que o Espírito Santo é desprovido de universidade estadual, e que foi o único dos “sudestinos” a não receber jogos da Copa do Mundo. Pelo vínculo com Minas, Rio e São Paulo, o Espírito Santo está no Centro, sem, com isso, possuir centralidade.

O efeito disso para a cena literária é bem conhecido: uma nuvem encobre escritores de real interesse, os quais precisam fazer malabarismos diários para ter vez mesmo em sua região, quase sempre condenados ao apressado carimbo de provincianos. Só que autores como o ficcionista Reinaldo dos Santos Neves, o poeta Waldo Motta e o ensaísta (também poeta) Wilberth Salgueiro (nascido no Rio e radicado em Vitória há mais de vinte anos), dentre outros, demonstram que a produção literária local em nada deve ao que de mais representativo se publica no País, e isso se aplica igualmente ao poeta Jorge Elias Neto.

Capixaba, médico cardiologista e membro da Academia Espírito-Santense de Letras, Jorge Elias é autor de três livros: Verdes versos (2007), Rascunhos do absurdo (2010) e Os ossos da baleia (2013). Conjuntando variação formal e temática, o poeta vem desenvolvendo um trabalho que requer atenção, seja por aquilo que o associa a significativas linhas de força da contemporaneidade, seja pelo que o coloca em certo afastamento, quando as linhas da mesma contemporaneidade revelam fraqueza e desinteresse.

Já em Verdes versos, o volume de estreia que agrupa quatro livros (Versos verdes, Viajante lunar, Vegetariano e Querença), esse movimento de pertença e refração se torna visível quando, por exemplo, alguns poemas fazem referência à verdade, essa palavra-conceito tornada tão espinhosa com a emergência do pensamento moderno. Tomado pelo caráter problematizador próprio do discurso poético, o poema “Desejo” não dá à ideia de verdade qualquer chancela de firmeza, o que corrobora um princípio intelectual contemporâneo: “Grito enlouquecido as minhas trôpegas verdades,/ para que se faça cruel o teu destino.// Imagino e sorrio como o falso profeta,/ para te ensandecer com verdades distorcidas”. Entretanto, noutros momentos não haverá titubeio para afirmações convictas, como se nota em “Pau a pique”: “Na alucinação de minhas necessidades,/ encontra-se a verdade”.

E qual será a verdade do poeta? Ele não o declara abertamente, o que induz à procura de pistas. Arrisco-me a dizer que a verdade de Jorge Elias Neto é a poesia, o que em tese é algo óbvio demais ao se falar de um poeta. Mas o que destaco na ideia da poesia como verdade é que, diferentemente do que se banalizou na pós-modernidade, a poesia de e para Jorge Elias Neto não se afigura um amontoado de palavras inócuas e inúteis, e por isso os poemas carregam o verdor consciente do que pode e deve significar o verbo para o mundo. Assim, o poeta aposta no sonho alvissareiro de estrato familiar e artístico em “Vó Bela” –

Usou o apoio imprevisto das estrelas e se fez poetisa.
Recitando os versos de seus heróis sertanejos,
embalaste o sono do pequeno ávido,
e plantaste o sonho que agora luto
para não se esvair.

 

–, e, mesmo que desapegado de ícones tradicionais, reitera sua crença no afeto: “Cérebro ateu,/ em minhas mãos já/ não cabe uma cruz./ Mas em meu coração/ insisto em manter uma rosa” (“Oração de um urbanoide”).

Um olhar unilateral e incauto poderia apontar nos destaques exemplos de pieguice, derivados “naturalmente” de um poeta provinciano. Mas os olhares unilaterais e incautos não enxergam nos outros senão aquilo que caracteriza sua estreiteza de visão. Dito isso, verifica-se em Rascunhos do absurdo a confirmação da tônica dual da obra em análise, obra essa construída pelo olhar crítico que não prescinde da candura, pelo tom fagueiro avizinhado à abordagem do que fere e destrói. Assim, se “Régua quebrada” traduz uma arte poética singela e crente – “Insisto na ingenuidade da metamorfose/ (só sei transformar sapato em borboleta)” –, “Céu de bombas” evoca a realidade terrivelmente atual da Faixa de Gaza: “Em cada criança morta, sacrificada,/ um objetivo insano.// Despeço-me do dia/ sob flashs e bombas”.

Em nenhum momento a escrita de Jorge Elias Neto privilegia o formalismo, mas em Os ossos da baleia é evidente a meditação constante acerca da estrutura dos poemas, pois todos, embora nem sempre concisos, são grafados em discurso enxuto (Cf. “Uma carteira e seus sentidos”). O objetivo é dizer apenas com “O liso da casca”, para “despertar do torpor…/ A linguagem” e, além, “Revolver o leitor/ no espaço-tempo” (“Poema justo”). Como estamos procurando destacar, em Jorge Elias a afirmação de algo não ocorre sem que também se afirme um “outro algo”, até mesmo contrário ao afirmado anteriormente. Assim, se a economia verbal é a intenção do discurso preciso, não deixa de ser também a constatação de um impasse aflitivo para os poetas, isto é, o referente aos limites da linguagem e à impossibilidade de dizer: “Trago interrompidas/ as melhores frases” (“XXIV”, 2ª parte).

Como estamos traçando um breve panorama da poesia de Jorge Elias Neto, percorrendo a bibliografia que, até o momento, simboliza começo, meio e fim, convém rematar com um dos mais interessantes textos do último livro, justamente aquele que o encerra: “Dispo-me dos pés./ A liberdade essencial/ se aproxima…/ Finalmente,/ me chamarei:/ ninguém” (“XIV”, 3ª parte). Só que, dessa forma unitária, poderíamos incorrer em inconveniência, obstruindo o diálogo de crítica e poesia. Portanto, o espaço do fim faz-se o do começo e o do recomeço, e é por essa razão que retorno a Verdes versos – livro primeiro – e ao início desta intervenção – com seus comentários sobre o Espírito Santo – para evocar o alto canto de comunhão entre o poeta e sua terra – canto que, menino, denuncia a dissonância no presente e, maduro, faz coro com a fé no futuro:

 

Ilha, tua essência é verde;
teu maciço é verde;
a maioria de teus séculos foram verdes.
Verde é a esperança de teu ressurgimento.

 

Marcos Pasche nasceu e vive no Rio de Janeiro. É professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e crítico literário, autor de “De pedra e de carne” (Confraria do Vento).       

 

 

Categorias
86ª Leva - 12/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Bruno Kepper

 

Na transição de um ano para outro, é inevitável a feitura de algumas reflexões. No caso da Diversos Afins, não poderia ser diferente, tendo em vista a grande quantidade de pessoas que caminham por aqui traçando as linhas de suas mais difusas expressões artísticas. De novos a experientes, não foram poucos os autores que compartilharam conosco suas visões de mundo. Seja na construção de palavras, seja na composição e concepção de imagens, vislumbrou-se muito além do que um mero exercício do ato de criar. O que cada um traz em si é a tal perspectiva de despertar em nós lugares adormecidos ou ofuscados pela névoa dos dias. E é tão significativo quando um criador nos surpreende com viagens a espaços inimagináveis e nunca dantes habitados. Por vezes, a racionalidade excessiva ofusca-nos a possibilidade de darmos força aos rumos mais promissores da subjetividade, afastando-nos do mergulho no lago íntimo das coisas que são deveras especiais. Nesse sentido, a arte e a literatura são capazes de nos resgatar do marasmo encerrado na rotina aborrecida do mundo, promovendo encontros e engendrando vias diferenciadas de percepção. Com o findar de 2013, um ciclo importante de publicações se completa e a busca por outros caminhos se torna verdadeiro desafio. A edição atual corrobora com tal sentimento ao procurar mesclar um conjunto de vozes expressivas da seara cultural. Em toda a sua extensão, a 86ª Leva aparece entrecortada pelas imagens do fotógrafo Bruno Kepper, jovem artista que nos apresenta seu traço de leveza ante os densos contornos propostos pela vida. Saberemos também um pouco sobre histórias que nos atravessam ao pisarmos o solo dos contos de Anderson Fonseca, Yara Camillo e Pedro Costa Reis. As paisagens poéticas de Leonardo Mathias, Lou Vilela, Inês Monguilhott, Nydia Bonetti e Marília Miranda Lopes evocam odisseias intimistas. O escritor Marcos Pasche traz à tona algumas observações sobre as Novas Cartas Chilenas de José Paulo Paes. Rogério Coutinho celebra escutas em torno do primeiro disco de , Rodrix e Guarabyra. O olhar inquietante do fotógrafo Silvio Crisóstomo é tema de uma virtuosa entrevista. Larissa Mendes aposta suas fichas em “A Grande Beleza”, novo filme do diretor Paolo Sorrentino. O poeta Jorge Elias Neto reflete sobre alguns lampejos da pós-modernidade. Tomados pelo sentimento de continuidade dos percursos, compartilhamos com você, querido leitor, essa celebração de vida. Que em 2014 outras tantas alamedas se configurem sólidas. Boas leituras!

 

Os Leveiros

Categorias
86ª Leva - 12/2013 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Novas cartas para uma nova história

Por Marcos Pasche

 

 

O século XX foi para a arte ocidental um tempo especialmente marcado pela busca sistematizada de novas formas de expressão, as quais intervieram diretamente nas maneiras de criar e de perceber as obras. A poesia brasileira do período, muito interessada em emancipar-se esteticamente da Europa, enveredou-se pelos caminhos da transgressão de normas e da ruptura com a tradição, tendo como primeiro grande expoente dessa diretriz revolucionária o Modernismo, aparecido com a Semana de Arte Moderna, em 1922, em São Paulo.

No início da segunda metade do século, surgiu, também em São Paulo, um movimento que se consagrou por elevar a patamares maiores a reinvenção do discurso poético: o Concretismo. Idealizada e protagonizada pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e por Décio Pignatari, a poesia concreta ganhou espaços dentro e fora das faculdades de letras, foi saudada por outras vertentes artísticas (como a pintura e a música popular) e ainda hoje se mantém, sobretudo em termos de ideologia literária, como grande força de orientação para muitos poetas. Dentre os feitos proclamados pelos próceres e epígonos do Concretismo, destaca-se a primazia no tocante à produção de um “ismo” verdadeiramente surgido no Brasil, sem tomar de empréstimo alguma forma estrangeira para aplicá-la às letras nacionais.

Mas as vanguardas também cometem seus enganos, e por isso chama muita atenção um livro de 1954, pouco comentado à época de sua publicação (ocorrida três anos depois), e ainda hoje, sessenta anos após sua concepção, permanece algo desconhecido: Novas cartas chilenas, de José Paulo Paes. Numa época em que poetas digladiavam-se por conta dos rumos que a arte do verso deveria tomar, polarizando suas ideias entre vanguarda e tradição, é interessante notar que o livro de Paes afasta-se desse maniqueísmo, dirigindo suas atenções à memória nacional e estabelecendo uma tensão entre história e historiografia digna das melhores páginas das teorias historicistas, como já se percebe em “Ode prévia”, poema de abertura:

 

História, pastora
Dos alfarrábios.
Meretriz do rei,
Matrona do sábio (…).

Histriã do rico,
Madrasta do pobre,
Copo de vinagre,
Moeda de cobre.

Estrela da manhã,
Mapa ainda obscuro.
História, mãe e esposa
De todo o futuro

 

As Novas cartas chilenas foram lançadas em 1957, no sétimo volume da Revista Brasiliense, célebre veículo da intelectualidade da esquerda brasileira (e, recentemente, foi reeditada na Poesia completa, de José Paulo Paes). Seu nome é derivado da filiação a uma importante obra da literatura nacional: Cartas chilenas, livro atribuído a Tomás Antônio Gonzaga, e que em meados de 1789 começou a circular de maneira clandestina em Minas Gerais, denunciando satiricamente os problemas da administração do governador Luís da Cunha Pacheco e Menezes, cognominado na obra como Fanfarrão Minésio. Apesar da íntima relação, os livros possuem peculiaridades marcantes, que na Brasiliense foram apontadas em prefácio de Sérgio Buarque de Holanda: “A diferença aparentemente mais importante à primeira vista é a falta de Fanfarrão ou de algum personagem concreto que faça as suas vezes. Mas não estava já ele morto quando circularam aquelas outras cartas chilenas? Não, o Fanfarrão continua a existir e está presente em todas as páginas deste poema (…), subdividido em mil fanfarrões, sempre cheios de audácia e pompa vã”.

E é a partir disso que o livro de José Paulo Paes alcança seu grande fator de distinção. Enquanto o Concretismo, a estética da moda, aprofundava seus exercícios metadiscursivos, e uma outra linhagem poética – enquadrada na vaga denominação Geração de 45 – abominava as inovações para reivindicar espaço para uma poesia de inspiração clássica, as Novas cartas chilenas fazem da reflexão crítica sobre a vida nacional a sua razão de ser: “Os bandeirantes heris, continuados/ Em capitães de indústria, preterindo/ O sertanismo pela mais-valia”, diz o poema “Por que me ufano”, ácida síntese dos momentos decisivos da história brasileira.

A singularidade do opúsculo de Paes não significa ausência de apuro formal. A leitura atenta do livro deixa perceber um poeta altamente familiarizado com as diversas técnicas da escrita em verso, além de revelar que a obra do autor atingia maturidade ainda não vista em seus dois primeiros livros, O aluno (1947) e Cúmplices (1951). Davi Arrigucci Jr., em “Agora é tudo história” (texto de apresentação aos Melhores poemas de Paes), diz que Novas cartas chilenas caracteriza “a fórmula pessoal que lhe permitia ao mesmo tempo reler a tradição, glosar lições do passado (como ao reassumir o tom satírico das Cartas chilenas para falar do presente), aceitar ou não procedimentos da vanguarda coetânea e inserir-se, com consciência irônica e carga crítica, munido de recusas necessárias e linguagem sob medida, na perspectiva do mundo contemporâneo”.

É o exercício de reler a maneira como fatos importantes da história do Brasil foram inseridos no imaginário nacional que dá ao livro suas páginas mais brilhantes. Seguindo a disposição cronológica convencional, as críticas do poeta recaem inicialmente sobre os fundadores do País, como se vê em “Os navegantes”: “Achar é nossa lida mais constante/ E lucro nosso empenho mais vezeiro:/ Hemos a gula vil do mercador/ Num coração febril de marinheiros”.

Avançando algumas páginas, outros atores do teatro brasileiro entram em cena para também serem desmascarados. Por conta disso, o poeta constrói um discurso com a dicção própria daquele que é desmerecido, criando o seguinte efeito: não há alguém falando sobre os personagens da história nacional, são eles que falam, inserindo em seu próprio discurso a confissão das atrocidades que efetuaram. É o que ocorre em “A mão-de-obra”, rasura da Carta do achamento, de Pero Vaz de Caminha: “São bons de porte e finos de feição/ E logo sabem o que se lhes ensina,/ Mas têm o grave defeito de ser livres”; e também em “Testamento”, este versando sobre a herança dos bandeirantes:

 

Alfim, sob o da morte agro comando,
Terminamos a dada, perdoando
A nossos netos o serem bacharéis
E ao bandeirismo mostrar revéis,
Pois que no latifúndio e na finança
Também se alcança, ao cabo, essa abastança
Que apaga o crime e propicia a glória
Do bronze, onde dormimos, pais da História.

 

Mais à frente, a fase colonial cede espaço ao tempo do Brasil já emancipado. Lúcido, José Paulo Paes percebe que apesar das mudanças políticas, a realidade nacional não se modificou estruturalmente. A exemplo das dicotomias com que a poesia do século XX foi segregada, as soluções para os entraves da política nacional entraram, no século XIX, num enganoso jogo de cara-ou-coroa. Por essa razão o livro contesta a monarquia, – “Sejamos, na cozinha, escravocratas,/ Mas abolicionistas de salão:/A dubiedade é-nos virtude grata” (“Cem anos depois”) –, bem como, no mesmo poema, desnuda hipocrisias republicanas: “Vamos fazer a República,/ Sem barulho, sem litígio,/ Sem nenhuma guilhotina, / Sem qualquer barrete frígio”.

Desviando-se do discurso oficial da história, o livro é solidário àqueles que pagaram um preço maior por se oporem, por razões diversas, ao poder instituído, “Muito antes que vingasse a recente proposta acadêmica de fazer História ‘pela ótica dos oprimidos’”, diz Alfredo Bosi no ensaio “O livro do alquimista”. No lance mais bem realizado do volume – o poema “Os inconfidentes” –, narra-se dramaticamente todo o movimento que levou Tiradentes à morte: “Um minuto de séculos e o corpo/ Tomba no vácuo, fruto decepado./ O calvário cumpriu-se. A luz se apaga/ Nas pupilas imensas do enforcado”. Mas aqui história e poesia unem-se para imprimir no tempo e na memória coletiva o contragolpe às verdades dos que prenderam, torturaram e assassinaram em nome da ordem e da justiça:

 

Mas reparai, cavalheiros
Da Igreja como do Estado,
Que um herói ficou de fora,
Embora fosse enterrado.

Tiradentes se recusa
Ao vosso fácil museu,
Panteon de compromissos,
Olimpo de camafeus.

Prefere a praça plebeia
Ao pó das bibliotecas
Onde, a soldo, vosso escriba
Faz da verdade peteca.

 

Em meio à acidez dos questionamentos, há espaço para uma nota de sóbrio (e irônico) otimismo, não por acaso ao fim do livro: trata-se de “Por que me ufano”: “O sol do grão, a esperança da raiz,/ Sob o signo do Cruzeiro insubornável,/ Tendo em conta passados e futuros,/ Sempre me ufano deste meu país”. As Novas cartas chilenas, que já haviam contrariado as tendências da poesia e da historiografia nacionais, contrariam agora a própria postura cortante do livro que passa em revista o passado da pátria, ao dar pistas de um sorriso à “mãe gentil”. Ao final da leitura, nada garante que outro Brasil será possível. Porém, após a mesma, talvez não seja mais possível vê-lo como antes.

 

Nota: O ensaio “O livro do alquimista”, de Alfredo Bosi, é o prefácio de Um por todos, poesia reunida de José Paulo Paes lançada em 1986. O ensaio foi reproduzido em Céu, Inferno, do referido crítico.

 

(Marcos Pasche nasceu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1981. Cursa doutorado e leciona Literatura Brasileira na UFRJ. É crítico literário, autor de “De pedra e de carne: artigos sobre autores vivos e outros nem tanto”. Neste momento, pede aos acidentais leitores que não deixem de assistir ao documentário “Garapa”, de José Padilha)

 

Categorias
80ª Leva - 06/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

Realizações e projeções fazem parte de qualquer trajetória. Não é diferente com o projeto levado a cabo pela Diversos Afins. Hoje, perfazer a marca de 80 Levas é uma conquista que se deve a inúmeros fatores. De todos eles, talvez a persistência, travestida em teimosia, seja um atributo mais adequado. São 7 anos de uma jornada trilhada especialmente pela reunião de desejos e expectativas harmonizadas em torno de um propósito: descobrir e propagar vozes. Durante esse tempo, chegamos à conclusão de que tudo aponta para um exercício de aprendizado constante. Certezas são questionadas e outras visões de mundo se apresentam. Atestar a qualidade desse ou daquele autor, tanto no terreno das palavras quanto no das imagens, não vem necessariamente de pontos de vista cristalizados. Sem deixar de lado os aspectos que robustecem, de fato, uma determinada obra, tentamos privilegiar o modo como ela pode ser interessante aos olhos dos leitores. É algo complexo de conduzir, mas a experiência tem demonstrado que temos conseguido aproximações importantes. Para quem edita, é recompensador, vez ou outra, ser surpreendido por alternativas diferenciadas de criação. O universo de colaboradores que estão dispersos por todas as edições da revista é nosso maior legado. Sem eles, não seria possível falar em continuidade. A Leva de agora é marcada pela reinvenção de territórios trazida pelos olhos do fotógrafo Peterson Azevedo. Em matéria de poesia, juntam-se a nós as expressões de Neuzamaria Kerner, Leonardo B., Ana Peluso, Edson Bueno de Camargo e Maria da Conceição Paranhos. Nossa sabatinada da vez, a poeta, atriz e professora Rita Santana, tem muito a dizer de suas andanças literárias e da sua lúcida condição de mulher. Os contos de Jorge Mendes, Márcia Denser e José Aloise Bahia chacoalham nossa zona de conforto. Em suas pesquisas musicais, Larissa Mendes descobre o disco do cantor e compositor Baia. O escritor Marcos Pasche nos convida a conhecer o novo livro do poeta cearense Assis Lima. Em meio ao panorama teatral de Brasília, Geraldo Lima destaca a trajetória do Grupo Cena. Noutro ponto, uma leitura para o aclamado “O Som ao redor”, filme de Kleber Mendonça Filho. Como todas as outras, essa edição comemorativa de aniversário celebra o desejo de se prolongar caminhos. É com muita alegria e disposição que agradecemos a todos, leitores e colaboradores, por nos ajudarem a construir essa história. Sejam sempre bem-vindos!

 

 

Os Leveiros

 

 

 

Categorias
80ª Leva - 06/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Assis Lima, de cântico e de corte

Por Marcos Pasche

 

 

Por vezes nos deparamos com uma assertiva a dizer que certos autores, ao desenvolverem sua bibliografia, estão escrevendo e reescrevendo sempre o mesmo livro. Alargando um pouco mais a ideia, muito me chama a atenção a hipótese de certos autores nordestinos formarem uma família antropoliterária, os quais traçam e trançam na mesma renda a inesgotável e árida epopeia da vida e da morte agrestes.

Vou omitir, por falta de lembrança ou de conhecimento, nomes importantes, mas penso que tal família tenha seu precursor em Augusto dos Anjos, sendo configurada por Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Ronaldo Correia de Brito e Daniel Mazza. Não se pode negligenciar as miríades de poetas cordelistas e cantadores espalhados pelas feiras e empalhados nas prateleiras do menoscabo da “alta cultura”.

Tais autores irmanam-se ao tomarem mutuamente os procedimentos formais e os temas constantes da obra de seus entes, sem que isso nos cause, admiravelmente, a sensação de previsibilidade ou mau epigonismo. Todos eles desautorizam a visão pitoresca do espaço sertanejo, encravam a caatinga em seus parágrafos e estrofes, tornando-a metáfora de espaços e tempos de todos os lugares e épocas, sejam as ágoras mitológicas da Grécia, sejam os bíblicos e empoeirados caminhos da Palestina. São eles xilos ou litogravadores da palavra, visto lançarem-se de encontro ao hiperbólico mosaico da linguagem para dele extrair ou nele imprimir, à mão de faca, a palavra certa e seca. Sublimadores da brutalidade, valem-se de mão de vaqueiro, que por um instante é capaz de domar a vida: domadores do discurso, penduram a encharcada escrita à cerca e ao sol para que se lhe retire toda a gordura, até que sobre apenas o substantivo couro. Alunos dos seixos, concebem a partir do vento quente e da areia seca, pois tanto o sopro como o barro têm uma saúde incoerente para esta gênese.

Assis Lima pertence à linhagem desses escritores, umbilicalmente ligados ao sertão e espiritualmente dados ao mundo. Nascido no Crato, interior do Ceará, Assis, médico de profissão, fixou residência na urbaníssima São Paulo. Nela desenvolveu o notável estudo Conto popular e comunidade narrativa, que a um só tempo registra e abraça a vocação do povo nordestino para a oralidade, a qual, de tão bem aprendida com os gregos, tornou-se invenção patrimonial sua. Como poeta, Assis presentificou os aspectos mais representativos de sua genealogia artística em Poemas arcanos, livro repleto de evocações locais e translocais, todas enoveladas em cantigas, “incelenças”, lendas e evangelhos.

E para perpetuar o movimento contínuo de ressurreição de sua família autoral e assinalar seu fio particular, Assis Lima dá ao primeiro texto do seu Marco misterioso o aqui infiltrado título de “Água”, com o qual diz não e sim à sua sina – “O deserto esteve fincado dentro de mim” (…) // “Que me cubra o nevoeiro!”. Essa peleja, típica do homem em apreço e repulsa pela matéria de que se constitui, tem presença cativa em diversas passagens do livro, e em textos como “Caleidoscópio” ganham a feição de arena onde duelam ser e transcender: “As pedras, uma extensão de mim. / E dentro das nuvens, a extensão de todas as pedras”.

Assis Lima / Foto: Divulgação

Assis Lima é a assinatura literária de Francisco Assis de Sousa Lima (com o nome civil ele registrou sua tese acadêmica). Há nessa heteronímia o amálgama de símbolos próprios da literatura que o autor desenvolve e da casta à qual pertence. Francisco (de) Assis é nome de um dos mais expressivos personagens bíblicos, ao passo que “sousa” – registram os dicionários portugueses – é um tipo de pombo aguerrido, não por acaso tomado como imagem de brasões familiares. No Brasil, Sousa é uma cidade do sertão paraibano. Já então se vê o anelo do local e do universal, ao qual se liga a fusão da figura do santo e do bicho guerreiro, ambos imagens diletas da cultura nordestina. “Lima” é uma fruta cítrica, ácida, cortante, e mais ainda o é a lâmina com que o autor decepou sua identidade em consonância com o corte literário: os Poemas arcanos, da primeira para a segunda edição, foram reduzidos a quase metade, e este Marco misterioso já vem ao mundo com uma seção amputada, visto ser e não ser pertencente ao conjunto do que agora se publica. E não nos esqueçamos: o Rio São Francisco encrava-se gigantesco no solo e na sola do Nordeste, cercado de seco por todos os lados, cortando-o de ponta a ponta.

Mas a coisa não se fia por aqui: dentro deste volume a escrita se mostra mais muscular quanto mais se depura da carne das palavras, como se fosse (e é) possível enrijecer-se de ossos. É o que se observa no finamente geométrico engenho de “Ângelo Monteiro”, ou no obsessivamente talhado “Sem título”, capado até no nome:

………………………………………………………..Pelo verso
………………………………………………………..e avesso
………………………………………………………..em teu colo
………………………………………………………..me teço.

………………………………………………………..Por teu vinho
………………………………………………………..e chama
………………………………………………………..minha sede
………………………………………………………..clama.

………………………………………………………..Em teu seio
………………………………………………………..redoma
………………………………………………………..me rendo
………………………………………………………..genoma.

 

Essa poética busca uma dicção quite em seus desacordos, e o poeta desgarra-se do parentesco a fim de tanger os próprios passos e o próprio canto. Por isso o leitor verá também um feito marcante do livro no caudaloso “Via Sacra pela morte do filho”. Trata-se de um poema de alta voltagem dramática, construído a partir do arranjo das vozes do pai consternado e do coro que se encarrega de verbalizar o roteiro fúnebre: “Prepara-te, corpo / que chegou teu dia, / recebe esta roupa, / vai em boa companhia”.

E dentro do rio turvado de lágrimas brotam as teimosas águas de “Vida de violeiro”, poema nordestiníssimo por suas cores e sons. O ritmo cantante da redondilha heptassilábica embola na malha do texto a evocação de cantadores lendários, como Cego Aderaldo e Zé Limeira, quando toda a embolada ganha o tom de uma ciranda, viva porque cantada: “‘Quem não canta neste mundo / no outro fica engasgado, / pois o nosso mundo é este, / que o outro, é do outro lado, / por isso cante com a alma / que a vida lhe deu de agrado / para alegrar quem não canta / e alegrar quem está calado!’”.

Foi o poeta-violeiro quem mandou. Que a sua leitura seja, portanto, a rima a unir poesia, alma, corpo e alegria.

 

 

(Marcos Pasche nasceu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1981. Cursa doutorado e leciona Literatura Brasileira na UFRJ. É crítico literário, autor de “De pedra e de carne: artigos sobre autores vivos e outros nem tanto”. Neste momento, pede aos acidentais leitores que não deixem de assistir ao documentário “Garapa”, de José Padilha)