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141ª Leva - 01/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Marcus Groza

 

Desenho: Geometria da palavra

 

do rascunho pra trás

 

no princípio era traço era rascunho
desenhamos o homem à imagem
e semelhança dos bichos selvagens

caçamos com afinco o dia futuro
em que o rascunho ganharia lustro
e progredindo de forma gradativa

chegaria quem sabe enfim às franjas
da perfeição por ser ele mesmo
braço mão cinzel e obra-prima

porém o que críamos ser qual nenê
que inspira cuidados e pede teta
mas alegria e graça promete aos pais

logo se mostrou nada mais do que
uma tosca versão definitiva
do omi-nenê sub-espécie extinção

progresso nenhum não veio aliás
senão o temporal que se prenuncia
com gestos de velhice e finitude

e avanço só mesmo qual curupira
cujo rastro é tão enigmático
que sherlock nenhum elucida

se no caso retrocedemos pra frente
ou se a vida é do rascunho pra trás

 

 

 

 

***

 

 

 

 

vinho manga losna ou cacau

 

o apetite dos convidados de uma casa em festa
Luís da Câmara Cascudo

 

é amarga a vida diz um sincero
que nem tanat no primeiro gole

no início são fiapos de manga
aguerridos choupos ao vento

é o que respondo pois já nem
praguejo o visgo que se adere

e empedra no vão dos dentes
é uma manga a vida eu digo

é amarga repete o sincero
feito losna no dia seguinte

sinceridade é ateísmo açucarado
mesmo entre os mais crédulos

primeiro é tanino que amarra na boca
um gosto forte que água não leva

me lembra quando tudo salgado
da língua à garganta marrenta

como durante o sexo oral
não é sede na boca sedenta

a mim lembra bílis diz o sincero
que sobe em refluxo fermentado

e o palatante por fim experimenta
assombrações dos antigos manjares

entre arrotos azia e sabor azedo
é amarga a vida então eu penso

verdade é mancha no fundo da taça
o roxo que nos colore os lábios

amargor é vida eu digo
língua travosa cacau 100%

 

 

 

 

***

 

 

 

 

vinagre da insistência

 

…………em toda mesa de trabalho
não só o café esfria
…….como cedo ou tarde
……………a ossatura ideal se rompe
……………………emulsão e textura coalham
…………..então resta nas mãos
…………………o vinagre da insistência

…………………….verter ali nossas lágrimas
………..chorar a linfa empoçada
………………os pés inchados
…………..se inda resultasse num afeto-feitiço
…………………..mas sequer materializa a prata

………….desaprender ………única tarefa
………………………………começa vertendo o método
…………………………em leito sinuoso quando sabemos
……………………..que nos cabe esperar
………………..da seiva extraviada
…..apenas uma poeira nos olhos
………um silêncio condensado

 

 

 

 

***

 

 

 

 

osso

 

dentre tudo Q descarna
o amor é a mão suja
dum açougueiro indo pra casa
quando prende o punho
na engrenagem da porta basculante
e os dedos não se magoam
de tão acostumados ao sangue

 

 

 

 

***

 

 

 

 

para raquel gaio

 

dentre tudo Q oxida
embolora e resseca
faço um semicírculo
de flores e folhagens
rejeitos e pedregulhos
Q você coleta
quando andamos
pelos arrebaldes
escombros e estrelas
Q despencam
e você coleciona
cacos informes
materiais imperfeitos
irmãos nossos
servem de pretexto
pra esquecermos
a respiração curta
os invisíveis desabamentos
escombros e estrelas
Q despencam
e você coleciona

 

 

 

 

***

 

 

 

 

suor e oração

 

dentre todos cuja
pele não formiga
e imolam remorsos
com fósforos molhados
Quem me dera
ser todo estômago
movimento peristáltico
bile e refluxo
pra poder vomitar tudo

vomitar nossa servidão voluntária
aos gritos sem delinquência
ao valor moral do trabalho
aos traumas produzidos
em banho maria
no seio das famílias

quisera ser todo estômago
pra vomitar os ritos insossos
vomitar a obediência
vomitar a hierarquia
as ordens cantadas
os papeis de leis escritas
mastigar como uma cabra
a tábua dos mandamentos
e cagar uma merda ungida

 

Marcus Groza é escritor, dramaturgo, performer e pesquisador. Autor dos livros “Uma pedra em cima disso” (no prelo), “Milésima demão nas paredes de estar perdido” (Ed. Urutau – 2019) e dos textos dramatúrgicos “Não Urine no Chão”, “Tambor de Couro Vivo”, “Maré Morta”, entre outros. Participou com oralização de poemas no programa “Manos e Minas” da TV Cultura (São Paulo-SP), no “Eco Performances Poéticas” (Juiz de Fora-MG), no “Inverno Cultural” da UFSJ (São João del Rey-MG), no “Tercer Jueves” (Buenos Aires) etc. O seu ensaio “Para uma poética do esquecimento” foi traduzido para o espanhol e saiu no livro Olvidar – Brumaria Works #9 (Madrid, 2018).

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Jogo de Cena

Jogo de Cena

BEBERAGENS DE ESPECTADOR: Dançar para que o céu não caia

 Por Marcus Groza

 

Cena de Para que o céu não caia / Foto: Sammi Landweer

 

Antes de entrar para ver Para que o céu não caia, de Lia Rodrigues, abri o programa e li as palavras acima. O espetáculo é inspirado no livro A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa. De imediato, podemos dizer que no espetáculo nada indica uma relação figurativa com o universo ameríndio e, nesse caso, o interesse aqui não recai sobre o aspecto tradutivo que nele possa haver em relação ao livro ou em relação ao mundo ameríndio: gostaria de fazer aqui um exercício mais simples, trazendo o relato da minha experiência como expectador desse espetáculo, no MIT-SP, em março de 2017.

Ao entrar, recebemos uma pequena toalha: a sala de apresentação está vazia, um linóleo preto, limpo com esmero. Como não fui um dos primeiros a entrar, apenas aderi à enorme roda que se começou a formar, todos sentados no chão, em roda. Talvez tenha sido decisão dos espectadores se sentarem daquela maneira, não sei. O estranhamento começa quando, como espectador, não defino muito bem que lugar devo ocupar. Enquanto todos vão se sentando, dois performers/bailarinos começaram a lançar pó de café ao longo das beiras da sala: estranhamento e sinestesia. Ao começar o espetáculo – e digo assim apenas por força do mau hábito que temos de achar que a coisa começa quando entram os artistas e a luz entra em ação –, os outros bailarinos entram portando potes que colocam sobre duas extremidades da sala no chão onde há pó de café. A entrada e essa ação já me mostram que o círculo formado por nós, espectadores, não vai funcionar: muitos como eu estavam de costas para os bailarinos. Todos se voltam, alguns se levantam. Os bailarinos em silêncio, com muita tranquilidade, aproximam-se e bordejam o público: apenas depois de longo instante, alguns deles vêm até nós e fazem um pequeno gesto ou resmungam baixinho algo incompreensível. Depois de outro instante, o público se junta ao centro. “Parece que finalmente acertamos, ufa! Agora vai começar”, penso. Depois entendo que já tinha começado e uma troca não-verbal, da ordem do sutil, já tinha se estabelecido.

Como espectador, posso dividir o espetáculo em duas partes: a inicial, em que não sei onde devo me posicionar, e a segunda, na qual uma roda se (re)estabelece e os bailarinos dançam no centro. Gostaria de destacar a primeira parte e, mais especificamente, o estado de liminaridade que, nessa primeira parte do espetáculo, se fez emergir para mim.

Depois que finalmente nos postamos no centro, os bailarinos em uma das extremidades da sala, próximos às paredes, dirigem-se aos potes que tinham colocado ali. Tirando de dentro um composto negro – que pelo cheiro do início julgamos ainda ser pó de café – pintam o rosto e depois todo o corpo, sempre com gestos controlados, em uma atitude cerimonial. Depois dessa caracterização, o olho – sempre bem aberto – ganha uma expressividade incomum. Levantam-se muito lentamente e caminham na nossa direção. Estamos sentados no piso, vulneráveis. Mas somos maioria.

Num estado de desaceleração acentuado, eles começam a atravessar a pequena multidão que somos, abrem caminho. Param diante de alguns de nós e aproximam o rosto a poucos centímetros e ficam nos encarando por um longo tempo. Olhos arregalados. Atravessam com extrema calma e delicadeza, mas fica claro que, vindo em nossa direção, vêm como se pudessem trombar em um de nós ou nos derrubar. Por isso, talvez, abrimos espaço. Sentam-se diante dos que estão sentados para encará-los e, da mesma forma, encaram os que estão de pé. A dilatação temporal ganha relevo, junto com a meia-luz e o silêncio: abrem um estado de suspensão, o ar parece mais espesso. Não sei o que vai acontecer comigo; isso talvez caracterize bem a liminaridade. No caso em questão, os códigos reconhecíveis do que seja dança ou teatro estão em suspensão.

 

Foto : Sammi Landweer

 

Um estado de suspensão é aberto para mim como espectador naquele momento: a sensação de não saber o que ia acontecer comigo não era exatamente um medo. No início, tive receio de que algum deles viesse me encarar, prevendo que seria desconfortante, como no jogo infantil de ficar encarando o outro sem piscar. Depois desejei que viesse, sim, curioso sobre o que poderia experienciar a partir desse contato quase íntimo. Quando um bailarino vem encarar uma pessoa na minha frente, tento também encará-lo (Embora ele não tenha me olhado, parece que foi aí que entrei no jogo; fui capturado talvez). Em seguida, uma outra bailarina vem encarar uma mulher que estava ao meu lado, e eu, novamente, tentava atrair o olhar dela fixamente como se fosse comigo. Assim que a bailarina se levanta, essa mulher que está ao meu lado também se levanta e a persegue, ficando, como que seduzida, olhando pra bailarina, enquanto esta continua encarando outras pessoas. Ao acompanhar essa “cena” entre uma bailarina e essa espectadora, ainda sentado, virei a cabeça e fiquei absorto assistindo àquela  “perseguição” – coisa discreta que poucos devem ter notado. E foi, nesse momento, que tive medo, sim: num dado momento, tenho um susto com uma movimentação à minha frente: podia ser uma outra pessoa vindo me encarar e eu estava, desguarnecido, entregue, com a cabeça voltada para trás. Não era. Nisso levanto e de longe continuo observando a mulher do público que ainda persegue a bailarina; enquanto esta, impávida, segue encarando outras pessoas. Nisso me ocorreu que talvez aquele modo de encarar fosse uma tentativa de dar ignição numa espécie de telepatia, numa intercomunicação mágica, silenciosa, numa comunicação sutil e não-verbal. A liminaridade é um estado de suspensão radical, em que se instaura uma instabilidade e mesmo certa vulnerabilidade. O estado liminar dá margem a devaneios: para mim, naquele momento, com toda a realidade, a telepatia parecia integralmente realizável. Por definição, na liminaridade não se distingue bem o que pode ser do que não pode ser.

Depois de nos atravessarem uma vez, os bailarinos vão até o outro lado e pintam todo o corpo com uma farinha branca e novamente atravessam, encarando as pessoas, longamente, indo até o outro lado. Começa então uma terceira travessia, para a qual os bailarinos agora colocam um trapo sobre o rosto e vêm em nossa direção, agora rastejando e zurrando, rastejando e gemendo. Instauram um clima de alta histeria. Novamente, vêm em nossa direção como se fossem trombar conosco, se não desviarmos. Já não somos mais um bloco no centro. Lentamente vêm na minha direção. É quase uma ameaça. Parecem, nesse ato de atravessar o público, uma força da natureza. Nessa terceira travessia, o deslocamento no plano baixo traz uma presença animal.

A segunda parte do espetáculo – nessa divisão que visualizei como espectador – certamente reverbera sob o signo liminar também. Mas agora há distinção entre público em uma grande roda e os bailarinos no meio. Às vezes, a roda precisa abrir um pouco mais; outras, pelo movimento convulsivo da dança parece que um deles pode se chocar com alguém do público. Embora o espetáculo todo seja sem música, o barulho dos pés roçando no chão enquanto dançam e a respiração ofegante dos bailarinos formam uma sonoridade vitalista, que pude notar num campo de sensibilidade poroso a micropercepções que não seria o mesmo se não tivesse sido instaurado aquele estado de liminaridade da primeira metade do espetáculo. A meia luz que predomina no espetáculo colabora muito para a liminaridade que se instaura. O curry com que mancham todo palco na cena final parece um pó muito brilhante quando então a luz aumenta, e o seu cheiro ressoa por um bom tempo no nariz, depois que saímos da sala de apresentação.

 

Foto: Sammi Landweer

 

Marcus Groza é poeta, dramaturgo e encenador. Autor do livro “e a lua como órgão principal” (Ed. Primata – 2017), entre outros, é doutorando em Artes Cênicas (Unirio) e editor da Revista Abate e da Revista Saúva.

 

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119ª Leva - 04/2017 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marcus Groza

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Articulações Endurecidas

 

Jade lavava pedrinhas antigas que encontrou numa gaveta da avó. Não pareciam pedras preciosas. Mas Jade as afagava com cuidado, submergidas, como se fosse o próprio corpo da avó. Morrer é se converter em pedra. O corpo duro em cima da mesa do velório lhe deu essa impressão. As articulações da mão estavam endurecidas. Não sei por que Jade tentou dobrar o punho da vó, como fizesse um exercício de fisioterapia que ela mesma tinha feito quando quebrara o braço. Tentava talvez dar ânimo à vó. Mas logo tiraram a menina abobada de perto do corpo. Jade: que aliás fisicamente era muito parecida com a vó, ou com o que ela tinha sido na juventude.

_ A vó gostava muito de você! disse a mãe para Jade, enquanto a menina continuava a alisar as pedrinhas coloridas.

A vó Vera foi a única de toda a família a aceitar a gravidez da filha, mãe solteira, e até se separou do marido que queria botar a filha grávida no olho da rua. Cidade de interior, moralismo e preconceito é coisa farta. Quando Jade nasceu, o pai ainda zombou, dizendo que ela tinha parido uma retardada. Os fofoqueiros da família diziam que devia ser filha de algum primo. No ano seguinte, quando o pai se finou, a mãe de Jade não foi no enterro e ainda postou na Internet: “Não me venham com condolências. Faz muito tempo que não tenho pai.” A vó Vera desaconselhava esses rancores, até podia entender, mas rezava para que os nós do rancor desatassem do peito da filha.

A gaveta que Jade estava arrumando tinha também um cachimbo. Mas ela fingia estar atenta às outras coisas. Com uma bacia de água ao lado, lavava as coisas da vozinha. Só de vez em quando ela lançava um olhar de rabicho para o outro lado da gaveta onde estava o cachimbo da vó. Sabia que se pegasse o cachimbo, a mãe ralharia, pois esta vez ou outra também lançava um olhar pra ver o que Jade estava fazendo, enquanto desocupava o armário.

_ Uma vez quando você tomou acetona, foi vó que levou você pro hospital!

_ E eu fiquei bêbada, mãe?

_ Não, mas teve que fazer lavagem no estômago.

_ Mas se não tivesse feito lavagem, eu ficava bêbada?

_ Não, Jade! Isso foi quando você era criança…

Jade não é mais criança. Mas sabe que é “meio retardada”, como os meninos da rua tantas vezes repetiram. Por isso ela pode cobiçar o cachimbo; e planeja pegá-lo escondido. É só esperar: porque primeiro a mãe conta alguma história da vó, depois algumas lágrimas rolam. E vai ser no próximo rolar de lágrimas que vou apanhar o cachimbo e jogar pra debaixo da cama.

Jade não é mais criança, mas também não pode fumar. Fumar faz mal. Jade é meio retardada, mas não deixou de ver que, no velório da vó, a mãe saiu pra fumar e voltou cheirando a cigarro.

Entre um acontecido e outro desenterrado da memória, a mãe começou a chorar de novo e logo saiu pra se assoar no banheiro. Jade então teve tempo de pegar o cachimbo, botar na boca e dar uma tragada imaginária. Depois o jogou para debaixo da cama.

_ Jade, vamos parar um pouco. Pra almoçar?!

_ Pode ser mãe, tô com fome.

Na verdade, ela tinha na boca um gosto da poeira velha acumulada no fundo da gaveta. Pensou nos restos mortais da vó, que estavam dentro de uma pequena urna na sala. Estava sem fome. Mesmo assim ela e a mãe foram almoçar. Jade comeu com gulodice.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Hieróglifos

 

 

Mãe, deixa ser meu o quarto da bagunça? Era desejo antigo. Ter um quarto. Quase uma casa. Não era só veleidade de menino. Deixa ser meu o quarto da bagunça! O caçula já tá grande, pode bem dormir sozinho. Mas o quarto de vocês já é uma bagunça! Olha, Mãe! Sonâmbulo descabido. Olha que eu monto cabana de lençol na garagem. Convoco os amigos, chamo os vizinhos. Trincheira de brinquedos e livros. E, quando crescer, faço festa durante a quaresma. E ainda viro boêmio! Não acredita?

Ela deixou. Agarrei tarefa de ajeitar tudo: traz a cama, cola um pôster, muda o espelho. Mãe, vou fazer uma tabela de basquete na parede! Bem em frente à cama… Pode? Pintei de amarelo o quadrado, circulei com preto e, para fixar a cesta, furei os dois exigidos buracos. Mas durou pouco. O queixo duro respondeu de través. Pisou tenso em desalento de é meu, é meu, é meu… Então a Mãe desaprovou, emprestou da bruxa uma vassoura e foi redesenhar o trabalho: tirou a cor de dentro do quadrado, espalhou por toda a parede o novelo amarelo embaraçando. Restos de palha da vassoura grudados na tinta. Colagem rupestre. Parede ficou amarela e branca. Pintura abstrata. Parecia um ninho profanado, com a gema dos ovos escorrendo.

Zanga de leão ferido: fui lá e também registrei minha raiva. Bosta. Buceta. Porra. Um ou outro palavrão genuíno desses escrevi… e até uma suástica desenhei. Mas as asas da suástica pus voltadas ao contrário. Sabe que nem quatro unhas encravadas? Lascou. Prédio do amor e da caça. Eficácia do signo. Primeira e última dádiva. E assim a parede muitos anos se preservou: contornada com gemas da vassoura improvisada em pincel e as minhas palavras raivosas. A parede do quarto voltou a ser, mais do que nunca, a parede do quarto da bagunça.

Com o tempo passou também a painel de recadinhos. Rasuras. Quem vinha em casa se sentia no direito de um cantinho pra rabiscar. Primo pequeno chegava e queria provar a todos que já sabia escrever o nome. Depois a medição dos adolescentes crescendo também era anotada ali. Assim foi: borrão desencantado da vida. Teste do estêncil. Resto de massa corrida. Sujeira de pincel…

Quando, em certa ocasião, veio o padre dizer missa aqui em casa, o canto de ouvir a confissão ficou sendo justamente ao pé da nossa parede rasurada. No quarto da bagunça. Debaixo da suástica de asas invertidas. Antes, porém, em gesto de contrição antecipado, minha mãe foi lá e cobriu de branco os termos mais técnicos. Foi coisa pouca. Não chegou a mudar o sentido da obra.

Outra vez, a parede recebeu também inscrição do tato em vermelho durante o sexo. Dedos desenhando com sangue menstrual da primeira namorada. E a mancha de sangue lá ficou – o vermelho se tornando marrom, quase preto – nem sei até quando.

Hoje, manchas todas devem estar inda lá na parede, debaixo de alguma camada, das tantas que foi preciso dar, em vão, para cobrir a ira, o amor e os carinhos que sujam de vida todo o lugar.

 

Marcus Groza é poeta e ficcionista. Autor do livro “Sossego Abutre” (Ed. Patuá – 2015), é coeditor da Revista Abate e da Revista Saúva.

 

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74ª Leva - 12/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Catharina Suleiman

VI

Tudo vive em mim. Tudo se entranha
Na minha tumultuada vida. E porisso
Não te enganas, homem, meu irmão,
Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,
O olhar aguado, todos eles em mim,
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes
Descobre além da aparência, é antes de tudo
LIVRE, e porisso conhece. Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque,
Não está no comício, não deseja riqueza
Não barganha, sabe que o ouro é sangue
Tem os olhos no espírito do homem
No possível infinito. Sabe de cada um
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta
O homem está vivo.

(Hilda Hilst em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)

***

Mais um ano se prepara para desferir seus últimos golpes. Em seu derradeiro canto, quiçá traga até nós o gosto pelo saber e sabor das coisas fugidias. Não pelo curioso prazer de sermos tentados pelo efêmero que nos espreita permanentemente, mas sim pela ideia através da qual somos impelidos a acreditar que a única coisa que existe de fato é o presente. Já que nos são caros os efeitos da passagem do tempo, convém evitar desperdícios e marcar o solo do mundo com a marca indelével de nossas epifanias. Por isso, necessitamos enxergar além do óbvio. Por isso, urge seguir adiante mesmo com os equívocos que nos assolam os sentidos. Se ainda assim a devastação for sombra constante, é porque uma suposta normalidade nos conduz à margem de precipícios edificantes. Quem serão os arautos das novidades amanhecidas entre nós? Talvez todos aqueles que ousem perpetrar os caminhos pouco convencionais da existência. Qual um balançar de águas que nunca mais tornarão a ser as mesmas, viver pode representar a revelação de notícias pouco confortáveis e, por assim dizer, incompatíveis com nossas minicertezas. E como é bom não brigarmos pela patente da razão. Quem sabe os poetas, muitas vezes tidos como delirantes e loucos, possam nos servir de guia nessa delicada jornada rumo ao centro de nós mesmos. Onde a nostalgia do futuro a nos sorrir em toda sua tirania? A arte, então, vai prolongando nossa espécie, fazendo-nos tatear cada vez mais as paredes pelas quais imaginamos algum resquício de liberdade. Que sejamos, pois, perpetuados pelos ecos incontidos nos versos de gente como Nina Rizzi, Marcelo de Novaes, Helena Terra Camargo, Dheyne de Souza e Marcus Groza. Entre palavras e outros tantos destinos por aqui lançados, há espaço inconteste para os sensíveis registros fotográficos de Catharina Suleiman. Noutro ponto, interpelamos o escritor André de Leones numa conversa sobre suas travessias literárias. No Jogo de Cena, Geraldo Lima promove incursões no teatro de Arthur Miller. Outros enlaces de vida nos são contados por Mariza Lourenço, Rodrigo Novaes de Almeida e Nelson Alexandre. A escritora Adriana Zapparoli nos convida à leitura de Nagasakipanema, livro de poemas do uruguaio Victor Sosa. O olhar atento de Larissa Mendes atravessa a delicada temática de Amor, novo filme de Michael Haneke. Sob a agulha de nosso Gramofone, gira a sonoridade da banda mineira Transmissor. Fecha-se mais um ciclo na Diversos Afins e o gosto por novas descobertas se agiganta. Que 2013 revele-nos, como versificava Hilda Hilst, o escondido das gentes!

 

 

Os Leveiros

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Marcus Groza

 

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

aprendo
a tática
dos gravetos

me aninho
em labirintos
e territórios alheios

se perco
quebro me inflamo
ou falo sozinho

não é porque
a febre dos sinais
me galopem a esmo

cego
aceno o diálogo de poucos
porcos especialistas em pérolas

mudo
de discursos e sílabas
ora teimosia de um barco a velas

ora colossal
qual monstro ou surdo
ritmando mínimos tremores de terra

cajado inimigo
tacape em punho
invisíveis cirurgias nas vértebras

 

 

***

 

 

detrator azucrino
atravesso a paciência
com a pontinha dos dedos
calcifico as desvantagens
faço cafuné e coço
do cóccix ao meio do céu

pernas inquietas em síndrome
de reclamar mil calcanhares
bem antes do salto o chute
e infecção no canal da lágrima
só dando nó em agulhas
é que massageio os ossos da face

 

 

***

 

 

o duro nódulo
parto
no muque
ou com uma gafe

desdobro
os laços
canhestro
trombo
nas etiquetas

rasgo
com o sabre
devagarzinho
faço butim do sumo
arrebato só o recheio

escambo sem bodas
brindo a quem
só nos receita
ir ir e colisões

 

 

(Marcus Groza é poeta, dramaturgo, professor e devoto do céu violado. Autor do livro de poemas Do Buraco à Poça (no prelo – Editora Patuá), escreve regularmente no blog Pelas Ventas e Membranas. Além de literatura e teatro, interessa-se por música experimental e intervenção urbana. É Mestre em Artes pela Unesp e graduado em Filosofia pela USP)